Tópico: Sociedade

Circo sem pão

Editor — 15 Setembro 2022

Ainda nos falta suportar quase uma semana de reportagens até ao funeral de Isabel II. O ror de horas de transmissões televisivas, o batalhão de repórteres vestidos de luto especialmente enviados para debitarem todas as banalidades, as louvaminhas a uma aristocracia absolutamente corrompida, a convocação de testemunhos bacocos sobre as finuras do protocolo ou as virtudes da monarquia — tudo isso junto é revelador do estado de morte cerebral das classes dominantes do país. Mas é também o circo com que contam distrair a populaça (por quanto tempo?) da guerra, do abismo económico, da degradação da vida diária, da falta de futuro.


Justiça de classe

António Louçã — 15 Dezembro 2021

José Miguel Júdice foi nomeado por João Rendeiro representante legal de empresas suas em offshores (DN 19.4.2016, Panama Papers)

Num painel de comentário da CNN Portugal, a fascistóide Helena Matos e o socialistóide Sérgio Sousa Pinto pareciam duas almas gémeas a lamentar o “achincalhamento” de que são vítimas os criminosos de colarinho quando caem nas bocas do mundo e nas garras da Justiça. O pranto tinha um tom filosófico e universal, mas vinha sobretudo a propósito de João Rendeiro.

Com um ar grave e compungido, ambos manifestaram a convicção de que a qualidade de uma democracia se mede pela dignidade com que trata os seus presos. E, quase no mesmo fôlego, ambos se indignaram por a democracia portuguesa julgar réus de colarinho na praça pública, deixar a imprensa dizer sobre eles o que Maomé não disse do toucinho, e por a democracia sul-africana arrancar Rendeiro ao seu hotel de cinco estrelas para colocá-lo numa prisão sobrelotada, conhecida pela sua tradição de violência e agora notória pelas ameaças de morte que o banqueiro aí terá recebido.


O sabre e o aspersório

Manuel Raposo — 23 Novembro 2021

O presidente da República em Fátima com o bispo de Leiria e o comandante da Brigada de Reacção Rápida, à espera do Papa, 2017

Pode dizer-se que a mais velha aliança do mundo é a aliança entre a força militar e o poder religioso — concretamente, no Ocidente católico, a união entre as Forças Armadas e a Igreja. Georges Clemenceau, na sua campanha para separar o Estado da Igreja, em França, no começo do século XX, tê-la-á referido como a santa aliança do sabre e do aspersório. Portugal tem nesse campo uma experiência tão antiga quanto a da sua fundação como país: desde as conquistas territoriais contra o Islão durante quase dois séculos, passando pelas aventuras coloniais e a formação do império com o seu cortejo de barbaridades ao longo de mais de 500 anos, até às guerras coloniais do século XX. 


COP 26: travar a destruição do planeta sem acabar com o capitalismo?

António Louçã — 11 Novembro 2021

Mudar o sistema (capitalista) para mudar o clima

A 26ª conferência da ONU sobre as alterações climáticas foi a constatação de uma realidade e de uma impotência: já ninguém nega que o planeta esteja em vias de destruição acelerada, mas, naquele círculo de dirigentes políticos, ninguém apresenta solução alguma. Por isso tem razão Gretta Thunberg, ao sintetizar as políticas dos líderes mundiais: “Bla, bla, bla”.


Tempestade na Armada, agitação em terra

Urbano de Campos — 8 Outubro 2021

Fazendo voz grossa, Marcelo submeteu-se ao pronunciamento dos almirantes

A barafunda à volta da substituição do Chefe de Estado Maior da Armada teve a curiosidade de ter posto à vista de todos os bastidores do poder e os jogos de força que aí se travam, normalmente na sombra dos gabinetes. Como a polémica estalou (pela mão dos principais intervenientes, sublinhe-se) e não pôde ser escondida, pudemos assistir tanto ao incómodo como ao manobrismo das distintas forças políticas, e até aos mimos com que se tratam quando está em causa uma parcela, pequena que seja, do poder. O caso foi ainda pretexto para um ensaio de doutrina criadora sobre o respeito devido às Forças Armadas, como adiante se verá.


A omissão da direita na crise ambiental

Urbano de Campos — 22 Setembro 2021

Crise ambiental aponta para os limites do capitalismo como modo de produção e como sistema de organização social

A direita só por arrasto vem à discussão sobre as alterações climáticas e a destruição ambiental. Os mais fiéis representantes do capitalismo pressentem que o assunto toca fundo no mecanismo de produção da riqueza e, consequentemente, no domínio burguês sobre o mundo. Toca na própria economia capitalista — no primado da concorrência e da iniciativa individual sobre o planeamento social, no desperdício e na depredação de recursos que tal implica — e por isso aponta para os limites do capitalismo como modo de produção e como sistema de organização social.


Autárquicas. A utilidade de votar

António Louçã — 12 Setembro 2021

Caos. Política do país oscila entre o lobby do automóvel e o lobby do turismo – e a população que se dane.

Não há nestas eleições nenhum partido, coligação ou lista de cidadãos que, recebendo o voto dos e das cidadãs, possa garantir que os assuntos municipais ficam em boas mãos. As boas mãos são as nossas e só com elas poderemos impedir a corrupção do poder local e o pendor autocrático do poder central. Mas quem queira lutar não deve alhear-se das eleições, que são um momento entre outros dessa luta.


Tanta casa e tanta falta de casa

Urbano de Campos (com D.R.) — 7 Agosto 2021

Trabalhadores imigrantes: explorados da forma mais crua e tratados como indesejáveis

Estudo recente de uma seguradora britânica coloca Lisboa como a segunda mais barata cidade da Europa ocidental para comprar casa. Melhor que Lisboa só Bruxelas. Em termos médios, o custo de um apartamento em Lisboa fica por 227.750 euros, cerca de 4.500 euros por metro quadrado. Estes valores só por si dizem pouco, mas já dizem mais quando se entra em conta com dois outros factores: o custo médio de vida e o salário líquido por mês. O estudo permite ver que, entrando com estes dados, Lisboa se torna, para os portugueses, a mais cara do ranking das 15 cidades analisadas.


Homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho

Manuel Raposo — 28 Julho 2021

A burguesia portuguesa odeia o 25 de Abril operário e popular, e quem o simbolize.

A bitola para avaliar politicamente os militares do 25 de Abril (como qualquer outra pessoa) não é a posição que eles tomaram acerca do derrube da ditadura naquela madrugada de 1974. Sobre isso houve um largo “consenso nacional” que ainda hoje perdura no essencial: a ditadura estava podre e acabada e a guerra colonial perdida. A boa bitola é a posição perante o movimento popular que irrompeu logo a seguir ao golpe militar, que surpreendeu os próprios militares e subverteu o país de norte a sul. Foi esse o revelador que fez ver que nem todos os gatos eram pardos.


Incêndios e inundações: vamos ver mais disto

António Louçã — 18 Julho 2021

Os negacionistas das alterações climáticas continuarão a esconder a cabeça na areia

Nos Estados Unidos e no Canadá, temperaturas a rondar os 50 graus centígrados, causaram uma vaga sem precedentes de incêndios florestais e urbanos, tendo consumido até agora uma área equivalente a 350.000 campos de futebol.

O ano passado tinha registado os fogos florestais mais devastadores da história da Califórnia, mas este ano, em julho, já conseguiu ser pior. 


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