A deriva militar da Europa e o ataque ao Estado Social

Manuel Raposo — 16 Dezembro 2023

Açores, 2020, a pandemia trouxe mais pobreza (CGTP)

A avaliar pelos acontecimentos mais recentes, os EUA parecem estar a querer passar para os europeus o principal encargo do apoio militar e financeiro à Ucrânia. O incremento da indústria bélica que a UE tem vindo a assumir, juntamente com o propósito anunciado pela Alemanha de colocar-se à cabeça desse esforço, apontam em tal sentido – mesmo à custa de uma forte divisão entre os estados-membros, como se viu com a oposição manifestada pela Hungria. 

Este aparente recuo dos EUA da linha da frente no que respeita ao apoio a Zelensky só pode ser visto como temporário. Visa diminuir a penalização de Biden e dos democratas, embrulhados numa guerra perdida, nas eleições que se avizinham, e procura ganhar tempo para resolver as disputas internas que dividem o poder norte-americano. 

A par desta manobra, desenha-se uma espécie de divisão de tarefas quanto às duas guerras em curso, na Ucrânia e na Palestina, apostando os EUA o seu principal empenhamento no Próximo Oriente, onde não quer perder o pé – como mostra o apoio efectivo, de permeio com moralidades inócuas, que dá aos crimes de Israel.

O encargo suplementar com a guerra que os europeus agora se dispõem a assumir não terá volta atrás e acarretará consequências pesadas para as populações europeias. A primeira vítima será o chamado Estado Social.

As somas enormes que os estados europeus se propõem investir terão forçosamente de ser retiradas das verbas hoje destinadas aos apoios sociais. Sinal disso é que já se discute nos meios do poder “Que Estado queremos ter?”, fórmula adoptada pelos comentadores de serviço para avisar a opinião pública de que algo vai ter de mudar. A alternativa que é colocada é elucidativa: ou se aposta na “segurança” (isto é, na opção militar), ou se mantêm os benefícios sociais, as duas coisas é que não pode ser. 

Se juntarmos a isto o facto de a economia da UE, e da Europa em geral, apresentar um futuro sombrio – ao nível da recessão, sem perspectiva de melhoria no horizonte – mais se reforça a certeza de que os trabalhadores de todo o continente serão penalizados. 

Não bastará, portanto, num quadro como este, reclamar melhores salários como se o curso dos negócios capitalistas seguisse o seu rumo “normal”. Quando a realidade económica é marcada pela depressão contínua e pela incapacidade do poder para lhe pôr fim; quando a actualidade política é marcada pela guerra e por preparativos de mais guerras – isso é sinal de que grandes mudanças se estão a operar. Os poderes instalados já não conseguem governar como antes, e os povos já não querem viver como vivem.

A par de todas as reivindicações por melhorias de vida, a mobilização dos trabalhadores precisa de assentar na compreensão da realidade política que os rodeia e os penaliza. 

Não é só uma “má distribuição da riqueza” que está em causa. São vazios os apelos a “produzir mais” para poder “distribuir mais”. O declínio capitalista, visível na incapacidade do capital em gerar progresso, conduz as opções políticas das burguesias no sentido de uma super-exploração do trabalho. Emprego precário, baixos salários, salários abaixo do nível de sobrevivência, escravização de imigrantes, liquidação progressiva de benefícios sociais – são frutos dessa via política. Atacá-la é abrir caminho a um mundo novo de possibilidades de intervenção dos trabalhadores na vida colectiva e nos destinos sociais.


Comentários dos leitores

José Lopes 21/12/2023, 20:09

Colocar a questão Ucraniana, unicamente nos seus efeitos negativos na exploração do trabalho, é ver Braga por um canudo.
Enquanto não se afinar a alça contra o expansionismo germânico a Leste, conforme o idealizado por hitler no seu mein kanft, vociferar contra a canalha europeia é de nulo efeito.
O que está em curso é a prossecução do espaço vital alemão, se no passado foi com as divisões panzer, agora é com o euro, com a corja dos 27 na qualidade de colaboracionistas, tipo petain, com o orçamento que parece inesgotável dos 27, agora com menos da Hungria, e com os leoparde2.
Deixemo-nos de rodeios, os governos que apoiam o ataque a Leste, teriam apoiado hitler no seu tempo, devem por isso ser acusados de potenciais nazis, como é o caso do governo do costa, que só falta alterar a sigla de P"S", para N S, (nacional socialista)
O genocídio nos hospitais é só uma amostra.

Adilia Maia 15/1/2024, 9:40

"As somas enormes que os estados europeus se propõem investir terão forçosamente de ser retiradas das verbas hoje destinadas aos apoios sociais."

Junta-se, como se costuma dizer, o útil ao agradável, pois todos sabemos que sucatear os serviços sociais costuma ser a manobra para , de seguida, os privatizar a preços da uva mijona. Ora um dos guiões do roteiro neoliberal é precisamente a abertura de serviços públicos à iniciativa privados, "para os tornar mais eficientes" - dizem. Portanto as peças encaixam todas no puzzle e o show tem de continuar.


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