Tópico: Liberdades

“Dos nossos irmãos feridos”

Manuel Raposo — 22 Dezembro 2021

Fernad Iveton. Torturado com choques eléctricos e afogamento. Guilhotinado em Fevereiro de 1957 “para exemplo”

Em Novembro de 1956, Fernand Iveton, um operário torneiro argelino de origem francesa, é preso em Argel, acusado de ter colocado uma bomba no armazém da fábrica Gaz d’Algérie onde trabalhava, por denúncia de um contramestre. A bomba, que apenas se propunha causar estragos sem fazer vítimas, não chegou sequer a explodir. Mesmo assim, três meses depois de ser preso, Iveton é guilhotinado na sequência de um julgamento apressado cujo único propósito era dar uma lição exemplar aos independentistas argelinos, sobretudo àqueles de origem francesa que se juntaram à luta de libertação. A guerra de libertação da Argélia tinha começado em 1954 e levaria à independência do país em 1962.


O sequestro de Alex Saab pela justiça dos EUA

Urbano de Campos — 22 Outubro 2021

Caracas. Manifestação contra o bloqueio e pela libertação de Alex Saab

Alex Saab, representante diplomático do governo venezuelano, foi extraditado de Cabo Verde para os EUA depois de ter estado ilegalmente preso durante 491 dias a pedido do governo norte-americano. As disposições que regem o estatuto dos representantes diplomáticos foram ostensivamente violadas pelas autoridades cabo-verdianas que se submeteram às pressões norte-americanas e desprezaram resoluções tomadas quer pelas Nações Unidas, quer pela Justiça suíça, quer ainda pelo Tribunal de Justiça da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental no sentido da libertação de Saab. 


Tempestade na Armada, agitação em terra

Urbano de Campos — 8 Outubro 2021

Fazendo voz grossa, Marcelo submeteu-se ao pronunciamento dos almirantes

A barafunda à volta da substituição do Chefe de Estado Maior da Armada teve a curiosidade de ter posto à vista de todos os bastidores do poder e os jogos de força que aí se travam, normalmente na sombra dos gabinetes. Como a polémica estalou (pela mão dos principais intervenientes, sublinhe-se) e não pôde ser escondida, pudemos assistir tanto ao incómodo como ao manobrismo das distintas forças políticas, e até aos mimos com que se tratam quando está em causa uma parcela, pequena que seja, do poder. O caso foi ainda pretexto para um ensaio de doutrina criadora sobre o respeito devido às Forças Armadas, como adiante se verá.


Afeganistão. Duas ou três coisas sobre a hipocrisia humanitária

António Louçã — 5 Outubro 2021

Refugiados sírios na Turquia

Com a tomada do poder pelos talibans, milhares de pessoas fogem por bons motivos: mulheres que não querem submeter-se à lei da burka com tudo o que ela implica, jovens que não querem ser formatados com a instrução das madrassas, intelectuais que aspiram a dizer em público aquilo que pensam. Mas os governos ocidentais não têm a menor intenção de acolher essas multidões fugitivas e, quando pensam em ajudar alguém, é apenas a minoria que com eles colaborou durante a ocupação.


A crise no Magrebe. Mão estrangeira e males próprios

Manuel Raposo — 10 Setembro 2021

Manifestação em Argel. Fevereiro de 2011

O corte de relações diplomáticas, em final de agosto, entre a Argélia e Marrocos inquietou a Europa — particularmente, Espanha e Portugal — não tanto pelo conflito em si, mas por poder causar problemas ao fornecimento de gás natural vindo da Argélia, uma vez que um dos principais gasodutos atravessa território marroquino. Sossegados os espíritos com a garantia da Argélia de que o abastecimento não terá quebras, é natural que o assunto seja ignorado pelos meios de comunicação e as suas razões políticas reduzidas a mais uma briga entre árabes “que não se entendem”.


Para lá da cortina de fumo

Editor — 19 Agosto 2021

Uma barragem de propaganda, nos limites do ridículo, acompanha as notícias sobre o Afeganistão. Os motes são fáceis de identificar: a sorte das mulheres (“e raparigas”, como disse o cuidadoso Guterres), a violência sobre os colaboradores do regime deposto, o perigo de um novo santuário de terrorismo internacional, o risco de mais uma maré de refugiados sobre a Europa. Em vago, tudo é possível — mas, em concreto, nenhum sinal aponta nesse sentido. Pelo contrário, os testemunhos vindos de quem avalia a situação no próprio terreno, sem ter propósitos de servir a agenda ideológica do Ocidente, mostram mesmo surpresa por tamanha mudança se passar em tão boa ordem.


O irresistível avanço taliban, ou a intrigante popularidade do terror

António Louçã — 14 Agosto 2021

Após 20 anos de ocupação imperialista, a ditadura dos taliban faz figura de mal menor

Os taliban são uma corrente político-religiosa obscurantista, reaccionária e misógina. Após décadas a fio de guerras, ocupações e ditaduras, o povo afegão irá entrar agora em mais um capítulo sombrio da sua história. Com a experiência acumulada, a grande maioria sabe certamente o que a espera. Como podem então os taliban gozar de um apoio popular tão forte que lhes permitiu vencer as maiores potências do mundo?


Homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho

Manuel Raposo — 28 Julho 2021

A burguesia portuguesa odeia o 25 de Abril operário e popular, e quem o simbolize.

A bitola para avaliar politicamente os militares do 25 de Abril (como qualquer outra pessoa) não é a posição que eles tomaram acerca do derrube da ditadura naquela madrugada de 1974. Sobre isso houve um largo “consenso nacional” que ainda hoje perdura no essencial: a ditadura estava podre e acabada e a guerra colonial perdida. A boa bitola é a posição perante o movimento popular que irrompeu logo a seguir ao golpe militar, que surpreendeu os próprios militares e subverteu o país de norte a sul. Foi esse o revelador que fez ver que nem todos os gatos eram pardos.


A explosão social na América Latina

Manuel Raposo — 29 Junho 2021

A América Latina já não é propriamente o quintal dos EUA

A agitação social e política na América Latina nos anos 2019 e 2020, especialmente antes do desencadear da pandemia, trouxe para as ruas milhões de pessoas reclamando mudanças políticas e melhores condições de vida. No final de 2019, todo o Continente esteve em ebulição praticamente simultânea. Foi a maior turbulência das últimas décadas, marcada não só por manifestações pacíficas mas também por forte repressão militar e policial a que os manifestantes responderam com violentos confrontos com as forças do poder. Centenas de mortos e milhares de feridos não chegaram para calar os protestos.


Reflexos lusitanos da nova Guerra Fria

Manuel Raposo — 21 Junho 2021

Dezenas de iguais delações foram feitas pela CML sem que nenhum clamor se levantasse

A entrega, pela Câmara Municipal de Lisboa, de uma lista nomes de manifestantes oposicionistas à embaixada da Federação Russa gerou uma novela que vale a pena desdobrar em dois ou três capítulos.

O primeiro deles consiste no facto — agora óbvio, mas desconhecido da generalidade dos cidadãos — de que as Câmaras Municipais estão incumbidas  de proceder as estas denúncias por sistema. Tal prática, que estava cometida aos extintos Governos Civis (de má memória), terá passado de mansinho para as autarquias, sem que ninguém pusesse o procedimento em causa. Ou seja, este tipo de denúncia é um automatismo que o nosso democratíssimo regime acha normal.


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