Tópico: Liberdades

Tempestade na Armada, agitação em terra

Urbano de Campos — 8 Outubro 2021

Fazendo voz grossa, Marcelo submeteu-se ao pronunciamento dos almirantes

A barafunda à volta da substituição do Chefe de Estado Maior da Armada teve a curiosidade de ter posto à vista de todos os bastidores do poder e os jogos de força que aí se travam, normalmente na sombra dos gabinetes. Como a polémica estalou (pela mão dos principais intervenientes, sublinhe-se) e não pôde ser escondida, pudemos assistir tanto ao incómodo como ao manobrismo das distintas forças políticas, e até aos mimos com que se tratam quando está em causa uma parcela, pequena que seja, do poder. O caso foi ainda pretexto para um ensaio de doutrina criadora sobre o respeito devido às Forças Armadas, como adiante se verá.


Afeganistão. Duas ou três coisas sobre a hipocrisia humanitária

António Louçã — 5 Outubro 2021

Refugiados sírios na Turquia

Com a tomada do poder pelos talibans, milhares de pessoas fogem por bons motivos: mulheres que não querem submeter-se à lei da burka com tudo o que ela implica, jovens que não querem ser formatados com a instrução das madrassas, intelectuais que aspiram a dizer em público aquilo que pensam. Mas os governos ocidentais não têm a menor intenção de acolher essas multidões fugitivas e, quando pensam em ajudar alguém, é apenas a minoria que com eles colaborou durante a ocupação.


A crise no Magrebe. Mão estrangeira e males próprios

Manuel Raposo — 10 Setembro 2021

Manifestação em Argel. Fevereiro de 2011

O corte de relações diplomáticas, em final de agosto, entre a Argélia e Marrocos inquietou a Europa — particularmente, Espanha e Portugal — não tanto pelo conflito em si, mas por poder causar problemas ao fornecimento de gás natural vindo da Argélia, uma vez que um dos principais gasodutos atravessa território marroquino. Sossegados os espíritos com a garantia da Argélia de que o abastecimento não terá quebras, é natural que o assunto seja ignorado pelos meios de comunicação e as suas razões políticas reduzidas a mais uma briga entre árabes “que não se entendem”.


Para lá da cortina de fumo

Editor — 19 Agosto 2021

Uma barragem de propaganda, nos limites do ridículo, acompanha as notícias sobre o Afeganistão. Os motes são fáceis de identificar: a sorte das mulheres (“e raparigas”, como disse o cuidadoso Guterres), a violência sobre os colaboradores do regime deposto, o perigo de um novo santuário de terrorismo internacional, o risco de mais uma maré de refugiados sobre a Europa. Em vago, tudo é possível — mas, em concreto, nenhum sinal aponta nesse sentido. Pelo contrário, os testemunhos vindos de quem avalia a situação no próprio terreno, sem ter propósitos de servir a agenda ideológica do Ocidente, mostram mesmo surpresa por tamanha mudança se passar em tão boa ordem.


O irresistível avanço taliban, ou a intrigante popularidade do terror

António Louçã — 14 Agosto 2021

Após 20 anos de ocupação imperialista, a ditadura dos taliban faz figura de mal menor

Os taliban são uma corrente político-religiosa obscurantista, reaccionária e misógina. Após décadas a fio de guerras, ocupações e ditaduras, o povo afegão irá entrar agora em mais um capítulo sombrio da sua história. Com a experiência acumulada, a grande maioria sabe certamente o que a espera. Como podem então os taliban gozar de um apoio popular tão forte que lhes permitiu vencer as maiores potências do mundo?


Homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho

Manuel Raposo — 28 Julho 2021

A burguesia portuguesa odeia o 25 de Abril operário e popular, e quem o simbolize.

A bitola para avaliar politicamente os militares do 25 de Abril (como qualquer outra pessoa) não é a posição que eles tomaram acerca do derrube da ditadura naquela madrugada de 1974. Sobre isso houve um largo “consenso nacional” que ainda hoje perdura no essencial: a ditadura estava podre e acabada e a guerra colonial perdida. A boa bitola é a posição perante o movimento popular que irrompeu logo a seguir ao golpe militar, que surpreendeu os próprios militares e subverteu o país de norte a sul. Foi esse o revelador que fez ver que nem todos os gatos eram pardos.


A explosão social na América Latina

Manuel Raposo — 29 Junho 2021

A América Latina já não é propriamente o quintal dos EUA

A agitação social e política na América Latina nos anos 2019 e 2020, especialmente antes do desencadear da pandemia, trouxe para as ruas milhões de pessoas reclamando mudanças políticas e melhores condições de vida. No final de 2019, todo o Continente esteve em ebulição praticamente simultânea. Foi a maior turbulência das últimas décadas, marcada não só por manifestações pacíficas mas também por forte repressão militar e policial a que os manifestantes responderam com violentos confrontos com as forças do poder. Centenas de mortos e milhares de feridos não chegaram para calar os protestos.


Reflexos lusitanos da nova Guerra Fria

Manuel Raposo — 21 Junho 2021

Dezenas de iguais delações foram feitas pela CML sem que nenhum clamor se levantasse

A entrega, pela Câmara Municipal de Lisboa, de uma lista nomes de manifestantes oposicionistas à embaixada da Federação Russa gerou uma novela que vale a pena desdobrar em dois ou três capítulos.

O primeiro deles consiste no facto — agora óbvio, mas desconhecido da generalidade dos cidadãos — de que as Câmaras Municipais estão incumbidas  de proceder as estas denúncias por sistema. Tal prática, que estava cometida aos extintos Governos Civis (de má memória), terá passado de mansinho para as autarquias, sem que ninguém pusesse o procedimento em causa. Ou seja, este tipo de denúncia é um automatismo que o nosso democratíssimo regime acha normal.


Contra a corrente

Editor — 9 Junho 2021

A comunicação social nacional é hoje detida, como se sabe, por três ou quatro grandes grupos empresariais com raízes em várias áreas de negócios. A pressão exercida por tais monopólios sobre os conteúdos informativos é esmagadora — para os profissionais, mas sobretudo para o público.

Quem está do lado de cá dos jornais, das televisões ou das rádios não conhece os bastidores onde tudo se decide. Mas apercebe-se da parcialidade das notícias, da preferência dada a comentadores situacionistas, da colocação em lugares de destaque dos “colaboradores” mais fiéis, da omissão programada do que verdadeiramente diz respeito à vida colectiva, do país ou do mundo, e que poderia contribuir para mudar-lhe o rumo.


Os pioneiros da moderna pirataria aérea

Urbano de Campos — 30 Maio 2021

Edward Snowden: “Não posso permitir que o governo dos EUA destrua a privacidade e as liberdades básicas” (2013)

O desvio do avião da Ryanair pelas autoridades da Bielorrússia e a prisão de um opositor do regime que ia a bordo foi, acima de tudo, um gesto de estupidez política cujas consequências talvez não tenham sido inteiramente calculadas pelo regime de Lukashenko. Mas o alarido que os meios políticos e jornalísticos ocidentais têm feito sobre o assunto não passa a ser, lá por isso, uma defesa de regras e de direitos consagrados internacionalmente, como pretendem os governos dos EUA e da Europa. Pelo contrário, os seus protestos indignados têm todos os ingredientes da mais rotunda hipocrisia.


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