Tópico: País

O círculo de giz

Editor — 13 Abril 2021

O problema da Operação Marquês não está em ser o megaprocesso que tanto se critica. Está sim no facto de, no desenvolvimento da investigação, ter sido apanhado na rede quem não se pretendia que lá estivesse: o BES e Ricardo Salgado. Enquanto a investigação se limitou a encontrar os tentáculos de um esquema de corrupção, a coisa andou bem: seria mais um caso de abuso de poder e de luta partidária que se prefigurava. O pior foi quando, a partir dos tentáculos, se chegou à cabeça do polvo e se viu que era todo um modo de vida do sistema político-económico-partidário que poderia ficar a nu.


Caridade sim, justiça social é que não

Manuel Raposo — 31 Março 2021

Tudo menos tocar nas grandes fortunas, nos altos rendimentos, nos lucros do capital, na propriedade privada capitalista

Em final de fevereiro deste ano, os desempregados inscritos nos centros de emprego (IEFP) tinham subido acima de 430 mil, mais 37% do que no início do ano passado, o valor mais alto desde maio de 2017. Ao longo de 2020 o ritmo dos despedimentos colectivos tornou-se galopante. Como se nada disto contasse, as organizações patronais continuam a repetir o dogma de sempre: “são as empresas que criam emprego” — quando as evidências mostram que são as empresas, isto é, o capital, que destroem postos de trabalho e liquidam meios de produção. 


A igualdade não está a passar por aqui

Editor — 11 Março 2021

Não será seguramente por falta de declarações que as mulheres não alcançarão a igualdade. No passado 8 de Março choveram comoventes apoios à causa, do secretário-geral da ONU, António Guterres, da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, até inumeráveis reportagens e testemunhos na comunicação social. Não faltou mesmo a argúcia do grande comércio, amigo da mulher-consumidora, que lançou campanhas promocionais de electrodomésticos ou produtos de beleza.


Ainda a polémica sobre Marcelino da Mata

António Louçã — 22 Fevereiro 2021

A campanha contra Mamadou Ba é uma das marcas de racismo deste país “não racista”

Já quase tudo foi dito sobre a repugnante campanha pela deportação de Mamadou Ba. Mas há dois ou três aspectos da polémica em curso que não obtiveram tanta atenção como possivelmente mereciam. Para eles tentarei chamar a atenção nas linhas que se seguem.

1. “Portugal não é um país racista”. Mas há algum “país racista”? A frase, em si mesma, é de uma estupidez desconcertante. Em todos os países há racismo e há quem combata o racismo. Há momentos em que as tendências racistas estão na mó de cima, outros em que são remetidas à defensiva.


Um tributo pago ao passado colonial

Editor — 17 Fevereiro 2021

Se não fosse o grito de alma de Mamadou Ba, o funeral do tenente-coronel Marcelino da Mata, falecido há dias com 80 anos, seria mais uma cerimónia de homenagem a um “herói nacional”, apagando os crimes de guerra do personagem e da guerra colonial. A sonora denúncia de Mamadou Ba — “Marcelino da Mata é um criminoso de guerra que não merece respeito nem tributo nenhum” — teve o mérito de não deixar passar em claro as honras prestadas a um agente especialmente cruel do colonialismo, mostrando a face do regime político e da instituição militar, e obrigando as forças de direita a virem a terreiro revelar o que lhes vai na alma.


Onde já vimos isto?

António Louçã — 4 Fevereiro 2021

O Chega é o futuro do PSD. Os Açores foram o balão de ensaio

A campanha eleitoral e o acto eleitoral foram, desta vez, um recordatório de tudo o que se pode fazer para minar uma democracia burguesa e para abrir as portas, de par em par, a um regime autoritário ou fascista. À cabeça desse rol de infrações da lógica mais chã encontra-se, naturalmente, o dominó de capitulações de cada um ao vizinho da direita, e deste ao vizinho que está mais à direita.


O estado da nação

Editor — 29 Janeiro 2021

De acordo com um estudo da consultora Mercer divulgado pela imprensa, os directores executivos das empresas portuguesas ganham em média 10 vezes mais do que os respectivos trabalhadores, incluídos aqui todos os trabalhadores, sem diferenciação de escalões ou funções. Mas a coisa piora substancialmente quando se entra no detalhe.


Presidenciais. O regime ao espelho

Editor — 22 Janeiro 2021

Domingo que vem, a imagem do regime vai ficar marcada por dois traços principais: o nível da abstenção, que ameaça atingir valores recorde, e os votos que a extrema-direita conseguir alcançar.

Na abstenção podem incluir-se mil razões diferentes, desde o mero desinteresse “pela política” à convicção de que o voto nada vai mudar e não vale o esforço. Mas no conjunto, à parte razões particulares, o facto de 60 ou 70 por cento dos eleitores virarem costas às urnas significa, sem margem para dúvidas, que o regime sofre de doença grave, se não incurável. Significa que uma larga maioria de cidadãos não vê nas instituições, no poder, os instrumentos para modificar, conduzir, governar a sua vida.


Um auto-retrato da direita

Manuel Raposo — 20 Janeiro 2021

Portas tenta lavar a cara – a sua e a da direita

Quatro dias depois da invasão do parlamento norte-americano por uma multidão de desordeiros fascistas açulados pelo ainda presidente Trump, Paulo Portas, comentando na TVI os acontecimentos, comparou os manifestantes a “okupas” sem respeito pela “propriedade alheia”; e, esticando os paralelismos, exclamou: “Eu só pensei na Revolução Francesa, quando vi aquilo”.


Elogio do cerco à Constituinte

António Louçã — 7 Janeiro 2021

12 Novembro 1975, cerco à Constituinte pelos operários da construção civil: a sede de justiça do proletariado

Quarenta e cinco anos depois daquele memorável 12 de novembro de 1975, já correram rios de tinta para vilipendiar os operários da construção civil que, fartos de serem despachados com promessas vãs, cercaram a Assembleia Constituinte reivindicando um aumento de salários razoável.

Hoje, graças à invasão do Capitólio, podemos apreciar o contraste entre um proletariado consciente e a populaça desembestada das milícias fascistas.


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