Tópico: País

Presidenciais. O regime ao espelho

Editor — 22 Janeiro 2021

Domingo que vem, a imagem do regime vai ficar marcada por dois traços principais: o nível da abstenção, que ameaça atingir valores recorde, e os votos que a extrema-direita conseguir alcançar.

Na abstenção podem incluir-se mil razões diferentes, desde o mero desinteresse “pela política” à convicção de que o voto nada vai mudar e não vale o esforço. Mas no conjunto, à parte razões particulares, o facto de 60 ou 70 por cento dos eleitores virar costas às urnas significa, sem margem para dúvidas, que o regime sofre de doença grave, se não incurável. Significa que uma larga maioria de cidadãos não vê nas instituições, no poder, os instrumentos para modificar, conduzir, governar a sua vida.


Um auto-retrato da direita

Manuel Raposo — 20 Janeiro 2021

Portas tenta lavar a cara – a sua e a da direita

Quatro dias depois da invasão do parlamento norte-americano por uma multidão de desordeiros fascistas açulados pelo ainda presidente Trump, Paulo Portas, comentando na TVI os acontecimentos, comparou os manifestantes a “okupas” sem respeito pela “propriedade alheia”; e, esticando os paralelismos, exclamou: “Eu só pensei na Revolução Francesa, quando vi aquilo”.


Elogio do cerco à Constituinte

António Louçã — 7 Janeiro 2021

12 Novembro 1975, cerco à Constituinte pelos operários da construção civil: a sede de justiça do proletariado

Quarenta e cinco anos depois daquele memorável 12 de novembro de 1975, já correram rios de tinta para vilipendiar os operários da construção civil que, fartos de serem despachados com promessas vãs, cercaram a Assembleia Constituinte reivindicando um aumento de salários razoável.

Hoje, graças à invasão do Capitólio, podemos apreciar o contraste entre um proletariado consciente e a populaça desembestada das milícias fascistas.


O estado da nação

Editor — 26 Dezembro 2020

A Autoridade da Concorrência (AdC) aplicou uma coima de mais de 300 milhões de euros a seis hipermercados (Continente, Pingo Doce, Auchan, Lidl, Leclerc, Intermarché) e a duas distribuidoras de bebidas (Sociedade Central de Cervejas e Primedrinks) por combinarem preços de forma a fazê-los subir gradualmente no mercado. Esta prática estendeu-se por dez anos. As empresas multadas dominam o mercado retalhista do país, e pode dizer-se que, em conjunto, constituem um monopólio da venda ao público de praticamente todos os artigos de primeira necessidade. A coima aparenta mão pesada, mas deixa alguns mistérios por decifrar: o que andou a AdC a fazer durante dez anos? quantos milhões a mais lucraram os infractores nesses dez anos de rédea solta? quantos mais produtos, além das bebidas, terão preços combinados?


Os crimes do SEF. A excepção e a regra

Urbano de Campos — 21 Dezembro 2020

O assassinato de Igor Homeniuk foi um episódio isolado?

Todo o arco do poder e adjacências, do Chega ao PCP, adoptou o mesmo critério de julgamento a respeito do assassinato cometido no aeroporto de Lisboa por agentes do SEF: há que salvar a honra das instituições. O SEF é, assim, apresentado como um cabaz de excelente fruta, apenas manchado por umas quantas maçãs podres, de acordo com a imagem consagrada para estas ocasiões.


PSD: quando a ideologia não pesa muito

Manuel Raposo — 8 Dezembro 2020

Restos do Cessna caído em Camarate. Início do sebastianismo sá-carneirista

A evocação de Sá Carneiro, 40 anos após a sua morte em Camarate, é muito mais do que uma homenagem de calendário, ou do que uma tentativa de reanimar o PSD de hoje com o sopro do PPD de ontem. Também não se trata apenas de procurar efeitos imediatos, rebaixando Rui Rio diante do padroeiro. Será tudo isso, mas ainda mais: um esforço para congregar toda a direita, reabilitando, sob vestes democráticas, o que há de mais reaccionário tanto na génese do PPD como nos planos políticos alimentados por Sá Carneiro desde sempre.


O teletrabalho como panaceia

Editor — 25 Novembro 2020

O teletrabalho parece ter-se tornado uma panaceia. Patrões, Governo e meios de comunicação, não só o promovem invocando razões sanitárias, como se empenham em exaltar-lhe supostas virtudes inovadoras — como se estivéssemos diante de uma revolução no mundo do trabalho. Quase se agradece à pandemia por vir obrigar a tamanho “progresso”.


Moderadamente fascista?

António Louçã — 11 Novembro 2020

Presos políticos. Revolta da Marinha Grande, 18 Janeiro 1934

O acordo do PSD com o Chega nos Açores podia ter sido desautorizado pela direcção nacional do PSD, mas não foi. E podia ter sido logo aplaudido pelo chefe do Chega, mas também não foi. O PSD não via problemas nenhuns em ficar refém da extrema-direita, a extrema-direita é que punha condições para aceitar o PSD como refém. Quem se fez caro foi o Chega e quem se ofereceu pela primeira oferta foi o PSD. Logo aqui se entende quem está ao ataque e quem procura passar entre os pingos da chuva.


As eleições nos Açores como amostra

Editor — 6 Novembro 2020

As eleições regionais nos Açores mostraram, uma vez mais, a tendência para a diminuição do peso relativo das forças do chamado bloco central PS-PSD. Na verdade, a perda da maioria absoluta que mantivera o PS à frente do governo regional (menos 7 pontos) não foi compensada pelo fraco crescimento do PSD (mais 3 pontos). Neste caso, porém, a deslocação do eleitorado dirigiu-se, quase exclusivamente, para a direita. A quebra da CDU e a estagnação do BE, por um lado, e o crescimento do Chega, do PPM e da Iniciativa Liberal, por outro lado, assim o mostram.


Notas sobre a novela do Orçamento

Manuel Raposo — 24 Outubro 2020

Longe das necessidades dos trabalhadores e dos pobres

O que há de mais admirável na discussão sobre o Orçamento do Estado 2021 é o facto de toda a direita, do presidente da República ao Chega, fazer força para que o documento seja “aprovado à esquerda”.

Basta isto para duas coisas ficarem claras. Uma, é que a direita confia na capacidade do PS para travar os “excessos” do BE e do PCP, ou, como diz António Costa, impor “bom senso” aos aliados da legislatura passada. Outra, é que as exigências do BE e do PCP não irão ao ponto de provocar uma crise governativa e que, feitas as contas, serão encaixadas pelo patronato sem sobressaltos de maior.


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