Tópico: País

Homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho

Manuel Raposo — 28 Julho 2021

A burguesia portuguesa odeia o 25 de Abril operário e popular, e quem o simbolize.

A bitola para avaliar politicamente os militares do 25 de Abril (como qualquer outra pessoa) não é a posição que eles tomaram acerca do derrube da ditadura naquela madrugada de 1974. Sobre isso houve um largo “consenso nacional” que ainda hoje perdura no essencial: a ditadura estava podre e acabada e a guerra colonial perdida. A boa bitola é a posição perante o movimento popular que irrompeu logo a seguir ao golpe militar, que surpreendeu os próprios militares e subverteu o país de norte a sul. Foi esse o revelador que fez ver que nem todos os gatos eram pardos.


Falta de vocações

Editor — 11 Julho 2021

A igreja católica queixa-se desde há décadas de “falta de vocações”: os seminários estão vazios, não há padres para as paróquias, as igrejas ficam às moscas. Não é difícil ver nisto um sinal dos tempos: a crença religiosa, remetida para o domínio íntimo de cada pessoa, não é vista como tendo qualquer papel na gestão da vida colectiva — papel este que todos os cidadãos atribuem aos poderes públicos. Mas eis que são agora os partidos políticos que se queixam de “falta de vocações” para o exercício desses poderes públicos.


Reflexos lusitanos da nova Guerra Fria

Manuel Raposo — 21 Junho 2021

Dezenas de iguais delações foram feitas pela CML sem que nenhum clamor se levantasse

A entrega, pela Câmara Municipal de Lisboa, de uma lista nomes de manifestantes oposicionistas à embaixada da Federação Russa gerou uma novela que vale a pena desdobrar em dois ou três capítulos.

O primeiro deles consiste no facto — agora óbvio, mas desconhecido da generalidade dos cidadãos — de que as Câmaras Municipais estão incumbidas  de proceder as estas denúncias por sistema. Tal prática, que estava cometida aos extintos Governos Civis (de má memória), terá passado de mansinho para as autarquias, sem que ninguém pusesse o procedimento em causa. Ou seja, este tipo de denúncia é um automatismo que o nosso democratíssimo regime acha normal.


Contra a corrente

Editor — 9 Junho 2021

A comunicação social nacional é hoje detida, como se sabe, por três ou quatro grandes grupos empresariais com raízes em várias áreas de negócios. A pressão exercida por tais monopólios sobre os conteúdos informativos é esmagadora — para os profissionais, mas sobretudo para o público.

Quem está do lado de cá dos jornais, das televisões ou das rádios não conhece os bastidores onde tudo se decide. Mas apercebe-se da parcialidade das notícias, da preferência dada a comentadores situacionistas, da colocação em lugares de destaque dos “colaboradores” mais fiéis, da omissão programada do que verdadeiramente diz respeito à vida colectiva, do país ou do mundo, e que poderia contribuir para mudar-lhe o rumo.


Os criminosos e os cúmplices

Editor — 16 Maio 2021

Os crimes de Israel estão à vista e são conhecidos: ataques sem conta aos civis palestinos, assassinatos selectivos de dirigentes, roubo de território, redução da população da Palestina à fome, política de conflito permanente no Médio Oriente, acções militares contra povos vizinhos. Tudo isto somado às piores práticas aprendidas do colonialismo e do nazismo — de que a propaganda sionista tanto se faz vítima como cobertura para os seus actos.


Odemira, ou a modernidade da escravatura

António Louçã — 5 Maio 2021

Às primeiras palavras sobre uma requisição civil de alojamentos devolutos para instalar migrantes, houve alarme geral: aqui d’el rei que os comunistas comedores de criancinhas querem pôr-nos a dormir ao relento, aqui d’el rei que violam os direitos humanos dos proprietários. Afinal, a gritaria era uma folha de parra para encobrir as cumplicidades locais com o tráfico de pessoas e com a nova escravatura. E essas cumplicidades locais são alimentadas por conivências políticas, com sede no Governo.


25 de Abril, uma querela distorcida

Urbano de Campos — 27 Abril 2021

 

1974-75: o que ainda hoje dói à direita é o movimento popular que irrompeu para lá dos propósitos dos Capitães

A polémica em torno da manifestação do 25 de Abril em Lisboa tem o seu quê de instrutivo. Obviamente, a Iniciativa Liberal quis fazer escândalo e dar nas vistas ao reclamar o direito “democrático” de, oportunisticamente, se encastoar num desfile que sabia ser promovido por forças de cor política diversa da sua. O que a IL pretendia não era festejar o 25 de Abril. Era sim meter uma cunha do 25 de Novembro no desfile do 25 de Abril.


O sagrado direito de causar miséria

Manuel Raposo — 25 Abril 2021

Com a pandemia, a destruição de emprego foi feita à custa dos trabalhadores mais pobres

Nos últimos 20 anos, a taxa de pobreza em Portugal andou sempre acima dos 20% da população, com picos em 2004 (26%) e em 2013 (30%). Os números — do INE, da Pordata e de um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos —, mesmo se não coincidem em absoluto, não deixam margem para dúvidas acerca da dimensão da situação. Presentemente, são mais de dois milhões os portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza, o que significa ter um rendimento anual de 6 mil euros, ou 500 euros por mês. Mais significativo ainda, um terço destes pobres são trabalhadores empregados. Dito doutro modo, o trabalho não é remédio garantido contra a pobreza.


O círculo de giz

Editor — 13 Abril 2021

O problema da Operação Marquês não está em ser o megaprocesso que tanto se critica. Está sim no facto de, no desenvolvimento da investigação, ter sido apanhado na rede quem não se pretendia que lá estivesse: o BES e Ricardo Salgado. Enquanto a investigação se limitou a encontrar os tentáculos de um esquema de corrupção, a coisa andou bem: seria mais um caso de abuso de poder e de luta partidária que se prefigurava. O pior foi quando, a partir dos tentáculos, se chegou à cabeça do polvo e se viu que era todo um modo de vida do sistema político-económico-partidário que poderia ficar a nu.


Caridade sim, justiça social é que não

Manuel Raposo — 31 Março 2021

Tudo menos tocar nas grandes fortunas, nos altos rendimentos, nos lucros do capital, na propriedade privada capitalista

Em final de fevereiro deste ano, os desempregados inscritos nos centros de emprego (IEFP) tinham subido acima de 430 mil, mais 37% do que no início do ano passado, o valor mais alto desde maio de 2017. Ao longo de 2020 o ritmo dos despedimentos colectivos tornou-se galopante. Como se nada disto contasse, as organizações patronais continuam a repetir o dogma de sempre: “são as empresas que criam emprego” — quando as evidências mostram que são as empresas, isto é, o capital, que destroem postos de trabalho e liquidam meios de produção. 


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