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28 Setembro 2026
Tópico: Política
Não, o vírus não é democrático
Urbano de Campos — 30 Junho 2020

O aumento significativo de contaminações por covid-19, sobretudo na região de Lisboa, não parece ter muitos segredos: ele está a dar-se nas zonas de concentração de trabalhadores. Muitos deles nunca deixaram de trabalhar, nem mesmo durante o estado de emergência. Construção civil, áreas logísticas dos grandes abastecimentos, fábricas, transportes públicos são os focos e os veículos de transmissão. E as vítimas são, sublinhe-se, trabalhadores, muitos deles de sectores vitais, a quem o teletrabalho não contempla.
Nós, iconoclastas
António Louçã — 19 Junho 2020
Com uma pomposa indignação mais própria do conselheiro Acácio, clamaram vários políticos da nossa praça contra a vandalização de uma estátua do Padre António Vieira. O clamor pretendia desviar as atenções do racismo, o verdadeiro problema que mobiliza centenas de milhares de manifestantes em todo o mundo.
No coro acaciano fez-se ouvir o habitual argumento de Portugal não ser “um país racista”. Mas em que país não se ouve o mesmo argumento, aplicado ao caso respectivo? A burguesia portuguesa criou um império colonial e esse império combinou sempre instrumentos diversos de dominação: por um lado, as contrapartidas económicas e a corrupção de elites locais, por outro o proselitismo religioso e, enfim, o instrumento decisivo da coação militar.
EUA: tropas contra manifestantes?
John Catalinotto (*) — 8 Junho 2020
Há quatro dias, a Casa Branca chamou as Forças Armadas a intervirem nas cidades dos EUA para “dominar” as ruas. Nos três dias seguintes, dois ex-chefes do Estado-Maior Conjunto manifestaram-se contra esse destacamento. O mesmo aconteceu com o antigo e o actual secretários da Defesa de Trump, este último sabendo que arriscava a demissão. Reagindo à ameaça de Trump, pelo menos três organizações de veteranos antiguerra pediram aos militares das Forças Armadas e da Guarda Nacional que se recusem a intervir contra os manifestantes que se opõem ao racismo.
EUA: Não é motim, é rebelião!
Manuel Raposo — 5 Junho 2020
Este título é tirado de um artigo publicado pelo semanário comunista norte-americano Workers World que relata com detalhe os protestos desencadeados nos EUA, de costa a costa, em resposta ao assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis. Onze dias passados, as manifestações continuam por todo o país, apesar das ameaças brutais de Trump e da violência policial. Mais de dez mil pessoas foram detidas. Vários protestos de solidariedade ocorreram, entretanto, em diversas partes do mundo. Razões sérias levam tanta gente a vir para a rua, enfrentado polícia e pandemia.
Nova crise, nova troika
Manuel Raposo — 2 Junho 2020
Juntemos factos.
Perante as medidas de excepção tomadas em Março, Rui Rio declarou completa concordância com o Governo e anunciou a necessidade de um “governo de salvação nacional”. Foi moderado a ponto de negar a ambição do PSD de integrar um tal governo, mas suficientemente explícito para significar que as tarefas futuras da governação não prescindem do concurso do seu partido.
O banqueiro autocrata
António Louçã — 23 Maio 2020
Mesmo neste maio de 2020 a transbordar de fraseologia, se tivéssemos de escolher a frase do mês, sem dúvida ganharia a palma a de Mário Centeno sobre o Novo Banco: “Não permitirei que uma instituição bancária com as portas abertas possa ser prejudicada por um debate parlamentar”. Centeno tem bom remédio: acabe com o parlamento. Será nisso que está a pensar?
Chamem-lhe austeridade ou não
Manuel Raposo — 12 Maio 2020
Em duas entrevistas dadas à televisão e à rádio, o ministro da Finanças fez questão de vincar repetidamente que a crise económica em que o país e o mundo caíram é um produto da pandemia e não da própria lógica económica. Disse mesmo que, no seu entender, a curva da economia acompanhará a curva da pandemia, isto é, recuperará em paralelo com a retoma das condições de saúde.
Neste discurso, a crise actual passa por ser um mero hiato (“que ninguém previa” e para o qual “ninguém estava preparado”) no fluxo normal dos negócios — e que, mais logo, tudo retomará o andamento a partir do ponto em que se estava, mais coisa menos coisa.
Crónica da pandemia
Duas espinhas na garganta, ainda assim
Manuel Raposo — 2 Maio 2020
Com argumentos de defesa da saúde pública, a direita (mas não só a direita) atirou-se às comemorações do 25 de Abril e do Primeiro de Maio, classificando os promotores de irresponsáveis e de “darem um sinal errado” à população quando se pede a todos que fiquem em casa.
Pouco interessou aos críticos que as regras de afastamento físico fossem respeitadas em qualquer dos casos. Tal como não lhes interessa o facto de, todos os dias, milhares de trabalhadores que permanecem em actividade se acumulem em transportes públicos escassos e em locais de trabalho sem condições de segurança sanitária.
NATO em armas para ‘combater o coronavírus’
Manlio Dinucci (*) — 27 Abril 2020
Os 30 ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO [no caso de Portugal, Augusto Santos Silva], que se reuniram em 2 de abril por videoconferência, encarregaram o general norte-americano Tod Wolters, Comandante Supremo Aliado na Europa, de “coordenar o apoio militar necessário para combater a crise do coronavírus”. Trata-se do mesmo general que, no Senado dos Estados Unidos em 25 de fevereiro, declarou que “as forças nucleares apoiam todas as operações militares dos EUA na Europa”, o mesmo que se declara “um defensor de uma política flexível de primeiro uso” de armas nucleares, ou seja, ataque nuclear de surpresa (1).
Interesses imperialistas acima da pandemia
Manuel Raposo — 21 Abril 2020
As vozes que, acreditando nas ameaças de Trump, davam conta do fim próximo da NATO, revelam-se precipitadas. O mesmo para as que acreditaram na retirada do imperialismo norte-americano dos cenários de conflito militar. O mesmo ainda para quem pensou que a crise sanitária global traria alguma trégua ao mundo.
Pelo contrário, está a tornar-se claro que para os dirigentes norte-americanos a preocupação dos povos com a pandemia é a ocasião óptima para incrementarem as ameaças militares e quiçá tentarem “resolver” alguns dos impasses dos últimos anos.