Verbos-de-encher

Carlos Completo — 17 Dezembro 2017

FernandoRelvasHá indivíduos que passam pela política, nomeadamente ministros, que ficam embevecidos com os cargos, as honras e as benesses que lhes atribuem, mas não são capazes de assumir minimamente as responsabilidades que daí lhes advêm. Vem isto a propósito de um caso concreto passado com o actual Ministro da Cultura. Certamente que há muitos casos análogos, e não menos importantes, não apenas na Cultura, como noutros campos de actividade. Este será mais um caso exemplar do tipo de comportamento habitual de alguns dos nossos políticos burgueses.
Em Novembro último, faleceu em Lisboa, aos 63 anos, o conhecido autor de banda desenhada Fernando Relvas, considerado um dos criadores mais importantes e um dos inovadores da BD portuguesa contemporânea. Fernando Relvas, a quem fora diagnosticada há algum tempo a doença de Parkinson, tinha sofrido duas quedas, fora operado à coluna e estava internado no Hospital Amadora-Sintra, onde viria a falecer, numa situação de carência económica extrema e antes de chegar a receber o subsídio, que esperava há dois anos. Isto é, parafraseando Brecht, os decisores não compreendem estas coisas: eles já comeram.


No limiar de uma crise histórica

Fred Goldstein (*) — 12 Dezembro 2017

tatlinA discussão de Lenine sobre o efeito do imperialismo na classe operária dos países imperialistas deve ser vista hoje à luz das mudanças entretanto operadas.
O processo da super-exploração imperialista libertou-se de todos os limites geográficos pela revolução científica-tecnológica e pode agora ser praticada onde quer que haja mão de obra disponível. O efeito deste processo na consciência dos trabalhadores é profundo. A exportação de capital era antes usada para forjar um estrato superior na classe operária dos países imperialistas, para amaciar a luta de classes e promover estabilidade social. Com a nova divisão mundial do trabalho, a exportação de capital serve para rebaixar os níveis de vida da classe operária dos países imperialistas, dizimar as camadas superiores dos trabalhadores e de sectores das classes médias, e destruir a garantia de trabalho e os benefícios sociais.


A “cambalhota triste” do PS e a agonia da geringonça

António Louçã — 6 Dezembro 2017

BE_PSNo que aos factos se refere, a história está bem contada pelo BE. No que diz respeito às soluções, elas nunca poderiam ser encontradas no ambiente viciado e claustrofóbico das negociações parlamentares.
Os factos resumem-se em poucas palavras. Entre tantos cortes que a troika mandou fazer, contra salários e pensões, havia só dois que vinham refrear, timidamente, as negociatas dos “interesses instalados”. Um, era o que apontava aos contratos de associação com colégios privados, em nome de uma cruzada contra o “monopólio” estatal do ensino (assim se vilipendiava o serviço público de educação). Outro, era o que punha em causa as rendas da EDP Renováveis (ela sim, a abusar de uma posição monopolista ou quase).


Uma mudança de época

Tom Thomas (*) — 4 Dezembro 2017

RodchenkoO fracasso dos processos revolucionários na ex-URSS e na China, seguido de um rápido retorno ao capitalismo “clássico”, levou alguns ideólogos a proclamar que o capitalismo planetário era o fim da história. A análise da crise actual mostra que é antes a sua história que se aproxima do fim. O capitalismo só pode subsistir, degradando-se, por meios que são catastróficos para as condições de vida dos povos, sem sequer falar da destruição maciça de todas as espécies.
Ao mesmo tempo, as condições materiais para a abolição do capitalismo — portanto, da condição proletária — estão hoje infinitamente mais maduras do que estavam para essas revoluções, inclusive na componente internacional. Senilidade do capitalismo, necessidade vital e possibilidade do comunismo são as características gerais da época presente: uma nova época.


Derrubando mitos

29 Novembro 2017

O historiador Fernando Rosas apresenta na RTP2, aos domingos, um excelente programa sobre o colonialismo português em África. Desde as guerras ditas de “pacificação” do final do século XIX, até à criação do mito salazarista da pátria multicontinental e multi-racial, são escrutinados os processos de implantação do domínio colonial, através dos seus momentos mais significativos. A expropriação das populações rurais autóctones, o trabalho forçado, a criação dos empórios dos diamantes, do café, do cacau, as violências diárias, as prisões para os “recalcitrantes”, as execuções sumárias, mas também a resistência das populações africanas e o nascimento do nacionalismo independentista — são passados em revista, dando uma perspectiva que subverte a história dominante sobre a suposta brandura do império luso.


O anjo da guarda

27 Novembro 2017

Não há muito tempo, os meios da direita falavam com insistência de que “o país” precisava de um líder com carisma para “pôr ordem nisto”. E o facto é que a ideia toca muita gente do povo, farta de compadrio, de corrupção, de enriquecimentos desbragados, descrente de uma democracia que só serve ricos e poderosos. É uma ilusão que se paga cara, como se viu entre 1926 e 1974.

As cinzas de Pedrógão e de Oliveira do Hospital adubaram este terreno. Marcelo Rebelo de Sousa viu aí a sua oportunidade, apresentando-se como anjo da guarda do povo desvalido. Não só distribuiu abraços lacrimosos — fez-se porta-voz dos que “não têm voz”, numa versão adoçada dos apelos à “maioria silenciosa”.


No limite, não houve nada

Urbano de Campos — 23 Novembro 2017

Azeredo-Lopes_reduzRaúl Solnado teria uma boa ocasião de actualizar o seu tema A Guerra de 1908 com os episódios do roubo-não-roubo de Tancos.
Como foi noticiado, o material de guerra furtado apareceu há dias no mato, a 20 km da base, tal como tinha desaparecido: sem que ninguém desse por nada, apesar das buscas que a Polícia Judiciária disse andar a fazer nas redondezas de Tancos.
Visivelmente aliviado, o Chefe do Estado Maior do Exército deu conta do êxito numa alegre conferência de imprensa. Apesar do palavreado sobre “filosofia”, “racionalização”, “erros sistémicos”, etc. etc., não conseguiu elevar o nível da conversa. Com ar de riso, confirmou até que os ladrões terão devolvido a mais uma caixa de petardos! Pequena, disse ele.


A linguagem politicamente correcta e a Tese XI sobre Feuerbach

António Louçã — 21 Novembro 2017

politcorrecto_flipA mania obsessiva da linguagem politicamente correcta encobre geralmente uma negação da dialéctica e daquele preceito do “Manifesto” que recomendava assumir o interesse de conjunto da massa assalariada, e não apenas o interesse corporativo de uma das suas fracções.
Assim, os nacionalistas latino-americanos costumam enfurecer-se quando alguém fala de cidadãos dos Estados Unidos da América como “americanos”. Têm, claro, alguma razão, porque “americanos” são todos — também os sul- e os centro-americanos. Mas a alternativa que propõem (chamar aos cidadãos dos EUA “norte-americanos”) também tem inconvenientes: quando falamos de crimes de guerra norte-americanos, com razão podem sentir-se ofendidos os canadianos ou os mexicanos.


Uma imagem da Justiça

Pedro Goulart — 19 Novembro 2017

nao-se-cale1Sabemos que a justiça que se pratica num país capitalista é uma justiça de classe. Mas as decisões dos tribunais muitas vezes aparecem embrulhadas num discurso moralista, usando leis e termos de difícil compreensão. Contudo, no já célebre acórdão do desembargador Neto de Moura, também assinado pela desembargadora Maria Luísa Abrantes (Tribunal da Relação do Porto), chega-se ao ponto de fazer censura moral a uma mulher de Felgueiras, vítima de violência doméstica, minimizando este crime pelo facto de ela ter cometido adultério. Aqui as coisas ficam bem claras.


O sinal dado pelas autárquicas

Manuel Raposo — 16 Novembro 2017

CostaJeronimoO grande ganhador das autárquicas foi obviamente o PS, tanto face à direita, como face aos seus parceiros de coligação. A vitória sobre a direita não precisa de explicação: a massa popular reconhece a diferença entre ser violentamente espoliada e recuperar, mesmo a conta-gotas, algum do poder de compra e das condições de vida que PSD e CDS arrasaram em quatro anos. Já o ganho do PS sobre a sua esquerda requer mais atenção. Por isto: se se afirma que é a parte esquerda da coligação que força o PS a fazer o que faz, por que razão não é essa esquerda a beneficiar dos votos?
De facto, no panorama político geral do país, de pouco serve (a não ser como incentivo militante) a subida do BE; e de nada serve ao PCP vaticinar que os eleitores vão arrepender-se das 10 câmaras perdidas pela CDU. Falta perceber as razões políticas disto.


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