Arquivo de Abril 2011

O protesto de rua, a luta de massas

A única oposição eficaz

Luís Amado foi claro: as alianças do PS serão à direita

Manuel Raposo

manif12marco1.jpgO ministro Luís Amado, no lugar de Sócrates, disse tudo: para efeitos de futuro governo, as alianças do PS serão com a direita. Nada que não se previsse já, mas fica sublinhado para que não sobrem dúvidas. A afirmação, de resto, vem corresponder às pressões feitas pelos porta-vozes directos do capital desde que a crise dos negócios se agudizou e desde que o receio de convulsões sociais se começou a perfilar.
Começando por defender um acordo governativo, ou “de regime”, entre PS e PSD – o chamado bloco central – as forças do poder económico apostam agora abertamente num bloco de direita que não deixe de fora o PS. É a esta viragem que o PS, através de Luís Amado, vem dizer que sim. Ler o resto do artigo »



Patriotas interessados

Dois dos subscritores de um chamado compromisso nacional, preenchido essencialmente por destacados homens do capital, parecem já ter começado a pôr em prática este seu compromisso com a pátria. Belmiro de Azevedo e Alexandre Soares dos Santos, proprietários do Continente e do Pingo Doce estão a fazer chantagem sobre os trabalhadores destas empresas de distribuição, ameaçando-os com processos disciplinares, pretendendo obrigá-los a trabalhar no 1º de Maio. O Sindicato dos Trabalhadores do Comércio já apresentou um pré-aviso de greve para o dia 1 de Maio, de modo a permitir que os funcionários dos hipermercados possam gozar o feriado do Dia do Trabalhador.



Editorial

Legítima resposta

Numa manifestação de precários em Espanha, um cartaz da “geração sem futuro” dizia: “Sem casa, sem reforma, sem medo”. Também em Lisboa, na manifestação da “geração à rasca”, um dístico perguntava: “Quando não tiveres nada a perder, o que serás capaz de fazer?”.

Estes dizeres revelam uma disposição de luta que é preciso incentivar. Indicam uma viragem possível e desejável para a resistência de massas, de resposta ao terror social imposto pelo patronato. O mesmo exemplo de destemor se pode tirar das revoltas populares nos países árabes. Ler o resto do artigo »



Sem medos

manif12marco6.jpgDepois das grandes manifestações de 12 e 19 de Março, em que centenas de milhares de trabalhadores, desempregados e jovens exprimiram o seu descontentamento e apresentaram as suas reivindicações, a luta tem prosseguido nas ruas e nas empresas. Embora em menos locais e com menos força do que seria necessário para barrar a ofensiva do capital. Em Março e Abril, milhares de trabalhadores lutaram contra os cortes de salários, a supressão de direitos no trabalho, a intenção de alguma empresas avançarem com as privatizações, assim como a defesa das liberdades. E em 6 de Maio estarão em greve os trabalhadores da Função Pública. Ler o resto do artigo »



José da Conceição

Morreu em 16 de Abril, com 74 anos de idade, José da Conceição, natural de S. Francisco da Serra, Santiago do Cacém. Desde jovem, foi um empenhado activista político desenvolvendo inúmeras iniciativas culturais em associações populares, primeiro em Grândola, depois em Viana do Castelo e em Lisboa. Privou então com José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes, Fausto, José Saramago e outras figuras da oposição à ditadura. Nos anos 70, integrou como militante as organizações revolucionárias O Comunista, Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa e Partido Comunista Português (Reconstruído). A nossa homenagem ao antigo camarada e ao lutador que José da Conceição sempre foi. JCC, MR



Fukushima e a luta de classes

António Louçã

fukushima.jpgComeçou-se por dizer que a catástrofe de Fukushima não atingiria as proporções de Chernobil. Claro, ficaria mal a um dos países-modelo do capitalismo global ter construído centrais nucleares no enfiamento de terramotos e maremotos. A imprevidência, para encaixar nos padrões vigentes de correcção política, devia ser exclusiva da burocracia soviética. Agora, já se admite que Fukushima pode ter consequências tão graves ou mais que as de Chernobil. Ler o resto do artigo »



Teoria por medida

Reflectindo sobre os assassinatos em massa praticados pelos nazis e pelos “comunistas soviéticos” (Público, 4 Abril), JC Espada, figura destacada da Universidade Católica, conclui, na linha de um historiador liberal inglês, tratar-se do efeito “do apagamento da dimensão religiosa da civilização europeia”, da perda do “papel civilizador da religião cristã e da tradição judaico-cristã” e do “ateísmo militante de ambos os exterminadores”. Ficam por explicar as chacinas dos EUA protestantes (In god we trust) em todo o mundo; dos britânicos anglicanos na Índia, África ou Irlanda; dos fanáticos israelitas na Palestina. O fôlego teórico foi curto, mas percebe-se a utilidade política da conclusão.



Vítor Bento, o moralista

Carlos Completo

loureiro_costa_cavaco.jpgVítor Bento, presidente do Conselho de Administração da SIBS – Sociedade Interbancária de Serviços (empresa que gere a rede do Multibanco) – e há algum tempo nomeado por Cavaco Silva para membro do Conselho de Estado, em substituição de Dias Loureiro, apresentou recentemente o livro Economia, Moral e Política, em que acusa os políticos como os maiores culpados pela crise económica internacional. Aqui, o autor discorre sobre uma Moralidade exterior à Economia, pretendendo autonomizar aquela do contexto económico-social que a determina.
Lembramos que este é o mesmo Vítor Bento que foi promovido no Banco de Portugal, por Constâncio, quando já lá não estava há vários anos (que moralidade?). O mesmo Vítor Bento defensor da flexibilização da legislação laboral e do abaixamento do salário dos trabalhadores, para melhorar a “competitividade” da economia. Ler o resto do artigo »



Espírito caritativo

Numa visita à Associação para o Desenvolvimento de Rebordosa, Passos Coelho afirmou que “Se não for dada uma atenção especial aos grupos de maior risco não conseguimos a paz e a justiça social para podermos fazer a recuperação da nossa economia e a criação de emprego” e “se nada for feito rapidamente pode-se ter uma situação de ruptura social em Portugal”. Ora, esta gente do chamado arco governativo bastante tem feito, e pretende continuar a fazer, para que haja muitos “desprotegidos”. Há quem fabrique os pobres para depois poder praticar a caridade. Mas, actualmente, o que mais parece preocupar Coelho é uma justificável e previsível agitação social no País.



EUA: povo contra a guerra

Milhares de pessoas (10 mil segundo os organizadores) participaram em Nova Iorque, a 9 de Abril, numa das maiores manifestações contra a guerra dos últimos anos nos EUA. Em S. Francisco teve lugar manifestação idêntica no dia 10. Convocadas por mais de 500 organizações, no âmbito de um Comité Nacional de Unidade Contra a Guerra, exigiram o fim das guerras e a retirada das tropas dos EUA do Afeganistão, Iraque, Paquistão e Líbia. Reclamaram o corte nas despesas militares e o apoio ao emprego, educação, saúde, habitação e ambiente. Defenderam o fecho de centrais nucleares. Exigiram o fim do apoio dos EUA a Israel e da ocupação da Palestina e o fim do racismo contra os árabes e o islamismo.



Uma denúncia da conspiração francesa para derrubar Gaddafi

Cristina Paixão

sarkozykadafi.jpgDe mentira em mentira, de discurso em discurso, tecem as reais potências e prepotências deste mundo a fábula e a teia que nos apanhará a todos, insignificantes insectos, actores de um teatrinho cujo guião desconhecemos, um drama do qual não somos autores. Reservam-nos o direito, apenas, a acreditar cegamente no teleponto que, magicamente, repete a mesma ladainha, em todos os lugares possíveis. Confortavelmente instalados nos seus magníficos gabinetes, decidem quem vive e quem morre; quantos desempregados ou privatizações serão necessárias para saciar a gula dos financeiros; contra que dissidentes farão a guerra; quantas mães, pais, crianças, morrerão na sua luta privada pelo domínio do mundo. Uma conspiração de estúpidos, onde os superlativos néscios papagueiam e consentem. Ler o resto do artigo »



“Direitos humanos”

Um editorial do Público (4 Abril) condenava o “Ocidente” por não ter reagido à prisão recente de um opositor político chinês. Dizia tratar-se de “capitulação” ante o poder económico da China. Como de costume, o editorial tem fraca memória e olha só para um lado, omitindo as violações de direitos humanos no Iraque, no Afeganistão, na Palestina, etc. Mas sobretudo parece não entender que o argumento dos direitos humanos, lançado nos EUA por James Carter, nunca foi um princípio político do “Ocidente”, mas apenas uma arma de arremesso. Não são, pois, só os negócios que ditam o silêncio de agora – é a convergência das potências, no sentido em que se diz que os bons espíritos sempre se encontram.



Haja esperança!

Arrancou em Lisboa, Entroncamento e Feira um “projecto-piloto” de distribuição de refeições a pessoas com “dificuldades económicas”, isto é, fome. Promovida pela Associação da hotelaria e restauração, a iniciativa já garante 230 (!) refeições por dia, 5 (!) por cada restaurante aderente. Dos mais de 2 milhões de pobres do país, 230 já têm, pois, comidinha garantida – e de restaurante. A coisa tem o patrocínio do presidente da República e conta com uma comissão de honra que ambiciona levar o exemplo a outros países! É assim: primeiro, despedimentos e corte de apoios sociais; depois, entram as almas condoídas com a sua caridadezinha. Para ver se evitam o que mais temem: a revolta dos pobres.



FMI: os vampiros vêm em bandos

Vêm em bandos e avançam sem pés de veludo, vêm sugar o sangue fresco e o sangue velho dos trabalhadores. São os dirigentes do FMI, da OCDE, da UE, do BCE, dos partidos políticos do patronato (PSD, PS e CDS), são a generalidade dos analistas dos média… que todos os dias nos listam um conjunto de itens ditos necessários para sair da “crise”: flexibilização das leis laborais, redução de salários e pensões, embaratecimento dos despedimentos, diminuição dos subsídios de desemprego, crescente entrega da saúde e da educação aos privados, subida dos impostos, privatização dos transportes públicos… Não podemos franquear-lhes as portas. Com os meios necessários, há que correr com todos estes bandos!



Banqueiros ordenaram…

As classes dominantes, através dos banqueiros, deram a ordem à gente do chamado arco governativo para um pedido imediato de “ajuda” dirigido ao FEEF/FMI – e os executantes (PS/PSD/CDS e PR)… vão executar. Aqueles que têm sugado os trabalhadores e o País pretendem uma só coisa: aumentar o grau de exploração de quem trabalha. Durante os próximos meses e anos iremos sofrer medidas ainda mais gravosas impostas pelo FEEF/FMI, tornando a vida dos portugueses que vivem de salários num verdadeiro inferno. A resposta é só uma: mais força dos trabalhadores contra as decisões que os atingem. Só isso travará o bloco patronal PS/PSD/CDS. O poder e o patronato têm de temer a resposta dos assalariados.



Invasão a pedido

Tropas francesas invadiram a Costa do Marfim em apoio a Alassane Ouattara, declarado eleito presidente pela “comunidade internacional”, contra Laurent Gbagbo, que se diz vencedor. A invasão, a pedido do secretário-geral da ONU, invoca de novo “razões humanitárias”, mas visa de facto ajudar o “assalto final” das forças de Ouattara à capital na guerra civil que se desencadeou na ex-colónia francesa, primeiro produtor mundial de cacau. Entretanto, milícias de Ouattara massacraram 320 apoiantes de Gbagbo, diz a ONU (800, diz a Cruz Vermelha). O secretário-geral da ONU manifestou-se “alarmado” e recomendou a Ouattara que investigasse o caso quando fosse presidente. Chama-se a isto imparcialidade.



FMI ou FEEF

O economista e actual presidente da República, Cavaco Silva, quis corrigir os jornalistas, dizendo que a “ajuda” económica externa, que ele acha que se deve pedir, e que também o PSD e o CDS defendem abertamente, é proveniente do FEEF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) e não do FMI. Qualquer pessoa economicamente informada sabe que o FEEF e o FMI são sócios nestes negócios das ajudas e respectivas contrapartidas. Ora, Cavaco Silva sabe-o e o que pretende, mais uma vez, na sua habitual hipocrisia, é enganar os portugueses. Isto lembra aquela cena da ditadura fascista que, embora procurando manter o essencial, mudou o nome da PIDE para DGS.



Pobreza – um retrato

Há dois milhões de pobres em Portugal e, com as chamadas medidas de austeridade, a situação tem-se vindo a agravar. Segundo a Assistência Médica Internacional (AMI), 2010 foi o “pior ano em termos de pobreza em Portugal”, com os pedidos de apoio a aumentarem 24 por cento face a 2009. Apenas aos espaços da AMI, em 2010, recorreram mais de 12 300 pessoas, um “valor sem precedentes”. A maioria das pessoas (69 por cento) que recorreram aos centros sociais da AMI está em idade activa, enquanto 23 por cento tem menos de 16 anos e 18 por cento tem mais de 65 anos.