Há terror e terror

19 Novembro 2015

Em 2013, dez e doze anos depois das invasões do Iraque e do Afeganistão, calculava-se que os mortos iraquianos e afegãos eram 434 vezes mais que os mortos norte-americanos no 11 de Setembro de 2001, e 186 vezes mais que as vítimas de todos os ataques terroristas verificados no mundo entre 1993 e 2004 (dados do Tribunal-Iraque). Esta desproporção agravou-se enormemente se somarmos os mortos na Síria, na Líbia, na Palestina, no Líbano, no Iémen, no Egipto, na África Central e em todas as regiões do mundo em que os imperialismos norte-americano e europeu têm aberto teatros de guerra e promovido golpes de estado — dando curso às suas ambições económicas e políticas sob a capa do combate ao terrorismo.


A dúvida do filósofo

18 Novembro 2015

O filósofo José Gil, entrevistado pela TSF, mostrou-se indignado com a carnificina de Paris em que vê um ataque à democracia e às liberdades na Europa. Declarou por isso o seu apoio aos bombardeamentos que a França decidiu intensificar na Síria contra as forças do Estado Islâmico. Mas logo de seguida, cartesianamente, surgiu-lhe a dúvida: se a França sabia onde se situavam as bases e os campos de treino do EI porque não os atacou antes? Ora aí está um bom tema de reflexão para o ilustre filósofo. Se não leva a mal, talvez o presidente sírio, que não consta ter grande formação filosófica, lhe possa dar uma ajuda prática. Disse Bachar al-Assad depois do 13 de Novembro, lembrando o apoio da França aos grupos terroristas que actuam na Síria: Nós, sírios, sabemos o que é o terrorismo, sofremos os seus efeitos há mais de cinco anos; não é com mais bombardeamentos que a França resolve a questão, é com uma mudança da sua política.


Talvez perguntar “porquê?”

Manuel Raposo — 17 Novembro 2015

Mideast SyriaTal como os norte-americanos em 2001, os espanhóis em 2004 e os britânicos em 2005, os franceses pagaram amargamente, em 13 de Novembro passado, a política de terror militar praticada pelo seu próprio governo. É esta a realidade crua que ninguém parece querer reconhecer.
Afirmar, como fez o presidente francês, com ar compungido, que o alvo dos terroristas do Estado Islâmico são a Liberdade e a Democracia na Europa é uma mistificação destinada a manter a população francesa e europeia silenciosa e inoperante diante das agressões e do terror de estado levados a cabo pelas potências ocidentais contra o mundo árabe e muçulmano. A boa questão a colocar, neste caso, é justamente a inversa: saber se as intervenções militares francesas dos últimos anos contribuíram para levar a democracia e a liberdade à Síria, à Líbia, ao Mali e por aí fora.


4 de Outubro – algumas clarificações

Carlos Completo — 15 Novembro 2015

mascara-que-caiUm dos aspectos positivos decorrentes dos resultados eleitorais de 4 de Outubro último, para além da inexistência de maiorias absolutas e do há muito desejado derrube do governo PSD/CDS, foi a aliança efectuada pelo PS com os partidos à sua esquerda. E que, apesar de se tratar de uma aliança entre partidos do regime, deu origem a fortes ataques verbais e a sujas manobras da direita que muito contribuíram para a clarificação do posicionamento individual e de grupo na sociedade portuguesa, assim como para um melhor conhecimento do estádio actual da luta de classes.


O pânico

5 Novembro 2015

A direita portuguesa anda de cabeça perdida. Porquê? Habituou-se, em 40 anos e sobretudo nos últimos quatro, a fazer o que queria sem réplica à altura: distribuir lugares entre si, roubar à vontade, impor todos os sacrifícios à massa trabalhadora. Em 4 de outubro a autoridade formal para o fazer sofreu um abalo inesperado. Tanto bastou para que se seguisse o pânico.

O pânico da direita tem a ver com a fragilidade que, como toda a burguesia bem sabe, afecta o seu próprio poder, debilitado por uma crise interminável que lhe estreita a capacidade de comprar o sossego das classes assalariadas — e ao mesmo tempo a obriga a espoliá-las cada vez mais.


Derrotar na rua o governo da direita!

4 Novembro 2015

gatunogatuno_cropUm grupo de activistas da Margem Sul divulgou um comunicado, distribuido em várias empresas da zona, no qual toma posição sobre o momento político. Denunciando a tentativa de Cavaco Silva de calar a voz dos milhões de trabalhadores que votaram contra o governo da austeridade, o texto (assinado Por uma Plataforma Comunista – Núcleo da Margem Sul) afirma:
“Os trabalhadores não aceitam que o Presidente da República faça tábua rasa da sua existência e dos seus interesses de classe, e rejeitam ser meros espectadores de “tradições” pretensamente democráticas. Não aceitam que da própria Assembleia da República – maioritariamente contrária às políticas de austeridade pró-capitalistas – saia um governo de direita para impor aquilo que os trabalhadores rejeitaram inequivocamente ao longo de 4 anos de luta contra a troika e o governo PSD-CDS.”


Aumento da dívida pública

29 Outubro 2015

Portugal tem hoje a terceira maior dívida pública (em percentagem do PIB) da União Europeia, ultrapassado apenas pela Grécia e pela Itália — cerca de 130% do PIB de acordo com o cálculo do Eurostat.
Vejamos a evolução da dívida pública (líquida), com dados do Banco de Portugal e em milhões de euros, desde a chegada da troika, em 2011:
Dezembro de 2010 : 158.736
Dezembro de 2011 : 170.904
Dezembro de 2012 : 187.900
Dezembro de 2013 : 196.304
Dezembro de 2014 : 208.128
Agosto de 2015 : 212.684

Depois da criação de centenas de milhares de desempregados, da emigração forçada de mais de 350 mil portugueses, do agravamento da exploração dos trabalhadores e das condições económicas e sociais da maioria da população, é esta a dívida (para além da dívida privada), que nos deixa a troika e o governo PSD/CDS. E o mais que ainda não se sabe!


A ética alemã e o espírito do capitalismo

António Louçã — 28 Outubro 2015

VWNa melhor tradição weberiana, Merkel e Schäuble têm abundado desde há vários anos em exortações ao trabalho honrado, à frugalidade e à poupança. Essas exortações, dizem ela e ele, são especialmente relevantes para os povos meridionais, levianos e despesistas.
E, como a leviandade e o despesismo não criam riqueza nem enchem a barriga a ninguém, também deve parecer natural que os PIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Espanha) se tenham tornado um alfobre de vícios morais: corrupção, fraude fiscal, desvio de fundos e um largo etcoetera.
Bem prega Frei Tomás. Nas últimas semanas, assistimos a duas monumentais fraudes, muito alemãs e bem à escala do capitalismo alemão.


Portugal fora da Nato!

22 Outubro 2015

Entre final de Setembro e 6 de Novembro decorre um exercício da Nato (o maior desde o fim da Guerra Fria) que envolve Portugal, Espanha e Itália e 35 mil homens de 33 países (28 da Nato e cinco “aliados”). Sabe-se que a Nato é um instrumento de guerra imperialista responsável por numerosos actos de agressão, destruição de países, morte e deslocação forçada de milhões de pessoas, como é patente no Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria. Mas além disso, o exercício em curso é, pela sua magnitude e pelo momento em que decorre, uma demonstração de força conjunta da UE e dos EUA em face da evolução dos acontecimentos no Mediterrâneo — especialmente na Síria, em que a intervenção da Rússia travou as intenções de europeus e norte-americanos de derrubarem o regime sírio como fizeram na Líbia, com as consequências que se conhecem.


Situação e perspectivas

21 Outubro 2015

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Os resultados eleitorais de 4 de outubro e sobretudo a disputa pela formação do governo que lhe sucedeu dão sinal de uma alteração do quadro político dos últimos anos.

Os factos mostram o seguinte:

– a coligação de direita (ou seja, o governo PSD-CDS) perdeu a maioria que lhe permitira em 2011 governar quatro anos como quis;
– o PS não foi encarado como a alternativa à direita e à política de austeridade;
– as forças do poder (o conjunto PSD-PS-CDS, com 40 anos de provas dadas) tiveram em conjunto a mais baixa votação de sempre: menos de 71% (contra 78% em 2011), abaixo mesmo dos 72% de 1975, e longe dos picos de 87% de 1995 e 2002);
– o crescimento verificado no somatório do BE com a CDU, mais as pequenas formações à esquerda, revela uma (embora tímida) deslocação do eleitorado para a esquerda, isto é, contra a política de austeridade;
– a enorme abstenção, a maior de sempre nas legislativas, acentua o desprezo ou a desesperança de quase metade dos eleitores pelo resultado e pela eficácia do voto.


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