A falência do centro
Manuel Raposo — 28 Setembro 2026

As duas vitórias inequívocas da AfD nas recentes eleições regionais na Alemanha, dão sinal de uma mudança na paisagem partidária, não só na Alemanha, mas também na Europa. A possibilidade de Marine Le Pen ganhar as presidenciais em França no ano que vem e de Nigel Farrage suplantar os Trabalhistas e os Conservadores no Reino Unido reforçam esta tendência. Se assim for, a novidade estará apenas no facto de se tratar das três maiores potências europeias, uma vez que os sinais da ascensão da extrema-direita já ficaram patentes na Itália, na Áustria, na Holanda, na Suécia, ou na Finlândia – sem esquecer o nosso caso nacional.
As forças partidárias que durante décadas constituíram um centro hegemónico, tipicamente formado por dois partidos que alternavam no Governo com políticas gémeas, estão em risco de ser arredadas do poder, e não mostram capacidade de resistir à ofensiva ou de recuperar os apoios que antes as tornavam dominantes. O que sucede não é um mero acidente eleitoral; é o desmantelamento de uma ordem política – ainda que os acontecimentos não sigam uma linha recta ou não apresentem o mesmo exacto rumo em cada país.
A mudança está a quebrar a parelha CDU-SPD na Alemanha; ameaça a dupla Trabalhistas-Conservadores no Reino Unido; desfez a alternância Socialistas-Direita (gaulista ou outra) em França; entre nós, baralhou o jogo a dois entre PS e PSD. Nos EUA, só formalmente o tandem Republicanos-Democratas se mantém como era: o partido Republicano, tomado por dentro, é hoje o bastião da extrema-direita e faz de farol do novo fascismo internacional. Mesmo em países que não têm peso político determinante (Holanda, Áustria, Bélgica, por exemplo), a fragmentação partidária e a dificuldade em formar governos estáveis é nota dominante.
Pelo menos na Europa, o que explica a falência desses partidos centristas é o facto de a base “sociológica” em que assentaram as suas políticas – o bloco das classes médias – se estar a desfazer. Concretamente, parcelas consideráveis das camadas sociais médio e pequeno burguesas e das classes trabalhadoras já não se veem representadas por tais partidos e deixam-se cativar pelas propostas “de mudança” da extrema-direita. Por que razão isto acontece é questão chave para entender a actualidade política e o que reserva o futuro próximo.
As condições de existência do centro
A forma como se constituiu esse centro e em que condições se manteve por décadas dá-nos pistas para entender por que razão agora se desagrega.
O caso é característico dos países de capitalismo desenvolvido, imperialistas ou da órbita do imperialismo. Só nestes casos, com efeito, uma relativa, mas contínua, prosperidade económica conferia à vida daquelas camadas sociais um horizonte estável. E permitia aos partidos do centro, gestores incontestados dos negócios capitalistas, apresentarem-se como os garantes dessa estabilidade.
Desde o termo da segunda guerra mundial e até final dos anos 1960 foi possível ao capitalismo desses países manter um pacto social, formal ou tácito, que proporcionava melhorias salariais regulares, sistemas de apoio às populações, serviços públicos sem paralelo no resto do mundo dito “subdesenvolvido” – do qual aliás provinha o rendimento extra que permitia o grosso desses benefícios. O capitalismo desenvolvido comprou por estes meios o sossego e o apoio político das classes médias e de grande parte das classes trabalhadoras.
O declínio das economias do capitalismo imperialista, assinalável desde os anos 1970, foi o sinal de partida para uma reversão do dito pacto social. Tal declínio – marcado, na política e na política económica, pelo chamado neoliberalismo, que iniciou a sua experiência pioneira no Chile de Pinochet em 1973 e assentou arraiais no Reino Unido e nos EUA com Thatcher e Reagan – foi atenuado pela expansão capitalista dos anos 1980 e 1990, em resultado da abertura da China ao capital ocidental, e da queda da URSS e da Europa de Leste.
A novidade, contudo, teve vida curta: a crise económica-financeira de 2008-2009 foi o toque de finados da globalização do capital imperialista e da via neoliberal que a acompanhou.
O fim de uma época
“Não podemos viver acima das nossas posses” foi a afirmação que marcou a nova época e o que viria a seguir. O capitalismo triunfante confessava o fracasso de todo um sistema económico, social e institucional.
Vista nos seus aspectos de fundo, a crise desencadeada há quase vinte anos fornece-nos uma radiografia do estado terminal a que chegou a civilização burguesa. O mundo está a viver a falência do sistema produtivo capitalista, que entrou numa estagnação permanente sem perspectiva de recuperação. Com isso, está em causa todo o edifício que nele assenta.
A crescente dificuldade de reprodução do capital traduz-se, com efeito, numa igual dificuldade de reprodução das relações sociais. Daí a decomposição das instituições, o esvaziamento da democracia, o abandono do estandarte do progresso, o apagamento das grandes crenças burguesas (nação, pátria, família, a que a extrema-direita deita mão).
A ideologia do progresso contínuo, da prosperidade – que foi desde sempre a chancela do positivismo burguês, da afirmação da superioridade do capitalismo sobre as formações sociais atrasadas – transfigurou-se num discurso de justificação do retrocesso: não mais emprego garantido, não mais melhoria de vida de geração para geração, não mais consumo livre, não mais lazer, não mais saúde e instrução para todos, não mais protecção social.
Este novo discurso denuncia a incapacidade das classes dominantes para convencerem as classes dominadas da superioridade do seu sistema de organização social, denuncia a incapacidade de uma civilização para mobilizar o todo social em torno dos seus objectivos de classe. Uma sociedade que já só assegura (agora pela própria voz dos seus mentores) um amanhã pior que o dia de hoje, e que afirma só poder subsistir nessa condição, é uma sociedade que caminha para o fim.
A deserção
A queda contínua nas condições de vida e a crescente desorganização social vinda por arrasto atingem em primeiro lugar as classes trabalhadoras e depois as classes médias baixas, e vai gradualmente subindo pelas camadas médias. É neste caldo que prolifera a nova extrema-direita.
A massa populacional em que assentou a paz social do tempo das vacas gordas tem vindo a ser penalizada, há praticamente cinquenta anos, naquilo que mais lhe dói: o dia a dia e o futuro dos filhos. Por isso mesmo, essa massa pergunta que razões lhe restam para continuar a acreditar nos bons ofícios dos partidos do centro, quando eles se mostram incapazes de dar resposta à pobreza crescente, à queda geral das condições de vida e ao caos social decorrente.
À liquidação do pacto social, abertamente decretada pelas burguesias dominantes a partir de 2008, as classes médio e pequeno burguesas e os sectores superiores das classes trabalhadoras que sustentavam o centro responderam com a deserção: as deslocações eleitorais são a prova prática disso mesmo.
Uma mudança no pessoal dirigente
Cresce, assim, a probabilidade de se operar uma mudança de pessoal dirigente nos principais países europeus, como já se deu nos EUA.
A disputa é particularmente aguda na UE. A elite política instalada em Bruxelas, em Estrasburgo ou em Frankfurt, mais a teia militar da NATO, resistem por todos os meios às forças que lhes disputam os lugares ou que simplesmente lhes levantam obstáculos políticos.
Exemplos não faltam: A anulação em 2024 das eleições na Roménia ganhas por Calin Georegescu, que condenava o apoio europeu à Ucrânia. A campanha para derrotar Viktor Orbán, na Hungria, pelas mesmas razões. A tentativa de assassinato do primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, ainda pelos mesmos motivos. As acusações de financiamento e de apoio russo às forças de extrema-direita (quando o gangue fascista de Trump o faz às claras e impunemente). As ameaças recentes do poder alemão de declarar inconstitucional a AfD. A insinuação de “traição” a quem ouse opor-se à linha guerreira da UE e à sua política de corte com a Rússia, de efeitos económicos desastrosos.
Mas o grande capital, fundamentalmente o capital financeiro monopolista dominante, não enjeita a extrema-direita. Pelo contrário, acolhe a sua ascensão, na medida em que ela possa traduzir-se num reforço da mão-de-ferro sobre as diversas camadas sociais em desalinho. Apenas parece querer depurar a extrema-direita dos arrivistas instáveis (por isso, perigosos), e sobretudo testar a capacidade dos líderes recém-chegados para assumirem as rédeas da governação sem sobressaltos, sem rupturas que afectem a estabilidade do poder e a continuidade dos negócios.
Contra o que ela mesma apregoa, a extrema-direita vem em socorro dos regimes instalados, procurando agregar sob novas bandeiras as massas que fogem ao controlo dos esgotados partidos do centro. Não o poderia fazer senão apontando, de maneira calibrada e conveniente, os males palpáveis do regime. É essa a condição para atrair a atenção das massas descontentes. Mas a sua função última, como foi a do fascismo clássico, é reconduzir as camadas sociais tresmalhadas ao velho redil capitalista-burguês. A imagem de um “novo” pessoal dirigente e de “novos” partidos ilude a permanência do regime de base.
Êxito fácil, porque facilitado
As principais forças da extrema-direita chamam a si toda a escumalha fascista-nazi e as mais diversas camadas reaccionárias. Mas os seus êxitos eleitorais não podem ser atribuídos a estes sectores ou ao arsenal ideológico bafiento que carregam. Isso vale para a estreita faixa eleitoral que essas camadas formam, mas não para o facto evidente de tais organizações se terem tornado rapidamente partidos de massas.
A propaganda da extrema-direita atrai o apoio e o voto de camadas populares, nomeadamente trabalhadores e pobres – chamando mesmo à liça política camadas normalmente abstencionistas, como se viu entre nós e também agora na Alemanha. Consegue-o porque toca nas questões imediatamente sensíveis para a massa: condições de vida, futuro sombrio, compadrio e corrupção no sistema político, concorrência entre trabalhadores agravada pela imigração.
Mas as razões do fácil crescimento, até agora, da extrema-direita não se resumem à falência do centro burguês pelas causas acima apontadas. Uma outra razão, bem determinante aliás, está na ausência de uma esquerda radical, com peso crítico, que faça o papel que lhe cabe: abordar pela raiz os problemas imediatos das massas populares vinculando-os à decadência do regime económico-social-político. Em última análise, portanto, a extrema-direita tem crescido à vontade também por ter o terreno livre – porque a esquerda socialista-comunista ainda não veio a terreiro com uma voz abertamente anticapitalista.
O crescimento das forças fascistas não é imparável. Nos casos, ainda raros, em que se manifesta um chamamento à resistência de massas, a extrema-direita e a direita têm sido travadas ou sofrido reveses. Sucedeu recentemente com a vitória eleitoral do Die Linke em Berlim; acontece com a LFI em França na mobilização contra a direita fascista; deu-se na eleição para mayor de Nova Iorque de Zohran Mamdani, muçulmano e “socialista”, derrotando a velha nomenclatura republicana e democrata.
Mais significativo foi o facto de as duas greves gerais realizadas no nosso país, em dezembro e em junho, terem mostrado igualmente que podem ser obtidas vitórias, mesmo parciais, quando o sentido de classe marca o propósito da luta. A resposta dos trabalhadores, em que a rua teve o papel principal, foi determinante para que a direita, a extrema-direita, o Governo e o patronato – identificados por junto como o mesmo alvo – acabassem por não conseguir aprovar as alterações, de feição terrorista, à legislação laboral.
Uma via política por afirmar
As acusações de “populismo” com que as forças políticas dominantes tentam caracterizar a extrema-direita são uma diversão: por um lado, mascaram a natureza fascista destas correntes, deixando porta aberta para entendimentos com elas quando necessário (“somos todos democratas igualmente eleitos”); por outro lado, descartam como demagogia os reais problemas das massas que a extrema-direita aflora na procura de apoios.
A demagogia fascista está noutro lado. Está na sua pretensão de responder aos problemas críticos das sociedades actuais iludindo a sua origem: primeiro, a falência senil do capitalismo imperialista, a que a extrema-direita está umbilicalmente ligada, cuja crise tem uma natureza estrutural, permanente e universal, e não já cíclica ou regional; segundo, a decadência dos respectivos regimes sociais, dos quais a extrema-direita faz parte e dos quais é o sub-produto, o rebotalho extremo. Não serão, pois, os paliativos “nacionalistas”, nem a verborreia crítica, exibidos pela extrema-direita que poderão responder à catástrofe.
As soluções efectivas só poderão vir de fora: de uma oposição de massas anticapitalista, que a extrema-direita por natureza não pode fazer; e de uma via política socialista-comunista, que a direita e a extrema-direita evidentemente abominam. Só este contraste, demarcando campos com a extrema-direita e com a direita, poderá dar a ver às classes trabalhadoras a linha de separação entre um futuro determinado pela sua própria iniciativa e o lamaçal em que são mantidas.
Conhecendo-se a dificuldade da situação presente, será este o caminho para que os trabalhadores passem gradualmente da defensiva, em que têm esgotado forças aparando golpes atrás de golpes, para uma atitude ofensiva que lhes abra horizontes próprios, à altura das mudanças sociais e políticas que se estão a operar.