O “caso Luís Neves” tem pano de fundo

Manuel Raposo — 5 Setembro 2026

Uma disputa pela liderança política de toda a direita

Para se poder entender o sentido pleno da polémica travada em torno do ministro da Administração Interna, terá de se recuar à origem da disputa que o Chega e André Ventura encabeçaram, e avaliar, a jusante, a consequência possível da jogada política que envolve o caso. Com argumentos de “defesa da democracia” e de salvaguarda da “ética” no Governo e nas instituições, o Chega tem conseguido levar de arrasto, de uma maneira ou de outra, as forças partidárias, e monopolizar o debate na comunicação social a ponto de parecer que o destino do país depende do futuro de Luís Neves.

Prólogo. Não seremos nós, em algum momento, a defender um qualquer ministro, de um governo qualquer, ao serviço de um regime político e de um sistema social como o nosso que empurra um quinto da população para a pobreza e canta, mesmo assim, os “sucessos” da economia.

Mas também não aceitamos quaisquer argumentos de quaisquer campanhas políticas da extrema-direita que usem poeira para nos confundir os olhos, sobretudo quando o âmbito da campanha vai muito mais além dos fins imediatos que nos são postos à frente. Ver no assunto um simples desaguisado partidário é curto.

Recuemos então às origens.

Primeiro capítulo: Em defesa dos seus. Pouco tempo depois de ter sido investido como ministro (em fevereiro), com tutela sobre as forças de segurança, Luís Neves foi confrontado com o escândalo dos crimes cometidos por agentes da PSP de esquadras de Lisboa e outras. Prometeu então (em maio) castigos, nomeadamente expulsão, para os infractores que, na sua óptica, tinham manchado o “bom nome” da corporação. Data deste episódio a sanha do Chega e de Ventura contra o ministro, declarando-o inadequado para o cargo.

Percebe-se porquê. É sabido que as forças policiais estão infiltradas por uma escória de elementos racistas, xenófobos, homófobos e quejandos ligados à extrema-direita fascista e adeptos do Chega. Os crimes de que aqueles agentes são acusados são exactamente dessa ordem e abrangem dezenas de agentes e oficiais irmanados em redes de Whatsapp através das quais se vangloriavam das torturas e abusos cometidos contra gente indefesa. Não é de admirar que o Chega saísse em defesa dos seus, vendo nas afirmações do ministro uma “desautorização” das forças policiais – para as quais o Chega reclama a maior liberdade repressiva e plena protecção pelos actos que pratiquem, inclusive atirar a matar.

Por que razão nenhuma das forças políticas e nenhum dos órgãos informativos lembra estes factos? Certamente porque não querem enfrentar o facto de uma instituição encarregada da “ordem pública” ser coio de criminosos e torcionários, ligados em rede, que deviam estar atrás das grades.

Segundo capítulo: Mesmo a jeito. Em julho, um jornal da extrema-direita praticamente sem leitores, logo seguido de uma enxurrada de “jornalismo de investigação” patrocinado pelos grandes meios de comunicação, “descobre” uma série de irregularidades que teriam sido cometidas por Luís Neves, não como ministro, mas enquanto cidadão e anterior director da Polícia Judiciária.

É com esta catadupa de inculpações que o fulano e o ministro estão sob fogo cerrado. E como as suspeitas não tiveram até à data comprovação como crimes, todos os acusadores assumem o perfil de defensores da moral pública. Efeito prático: as motivações políticas do ódio de Ventura ao ministro – as únicas que dão sentido à ruidosa campanha entretanto desencadeada – foram apagadas, conferindo a Ventura o ar cândido de um justiceiro da democracia.

Do ministro, o assunto transbordou, como seria de esperar, para o Governo. A “falta de ética” do ministro passou a “falta de competência” do primeiro-ministro. Em consequência, o Chega avançou com uma moção de censura que, mesmo destinada a ser chumbada, tem o fito de marcar pontos. Ventura extrema a crítica ao Governo para ganhar capital político diante de uma opinião pública hipnotizada, sensível aos escândalos; e para disputar a liderança de toda a direita.

Terceiro capítulo: Na sombra. Pelo menos em termos práticos, é clara a convergência entre o empenho de Ventura em desgastar o Governo e os propósitos duma outra extrema-direita acantonada no próprio PSD. Esta ala não esconde a intenção de correr com Luís Montenegro. O seu estandarte é, consabidamente, Passos Coelho – que tem a vantagem de não ter ideias próprias e ser um solícito servidor (“o lacaio pressuroso”, diria o poeta) do grande capital, como o seu tirocínio de 2011-2015, a mando da troika, comprovou.

Uns e outros convergem ainda no propósito de eliminar os resquícios de moderação reformista que o PS possa, não já personificar, por tudo o que dele se vê, mas trazer à memória. A memória, em certas situações, é um obstáculo político.

O grande patronato não se cansa de clamar por “estabilidade”, e nesse sentido segura o pássaro que tem na mão, o governo de Montenegro. Mas não enjeita a possibilidade de uma coligação da direita com a extrema-direita que lhe dê, finalmente, poder discricionário com chancela de “legalidade democrática”. Não foram todos os deputados, afinal, democrática e legitimamente eleitos? A oportunidade é de ouro com a actual maioria parlamentar.

Epílogo possível. Esse patronato acolhe e agradece a Ventura o trabalho de arregimentar “o povo”, conseguido com a linguagem desbragada que a direita clássica não poderia usar sob pena de perder a compostura e apoio entre a elite “educada”. Mas, uma vez feita a tarefa “suja”, está na hora de juntar aquele com esta – mais claramente, a massa pequeno-burguesa e pobre (despolitizada, desesperada, sem horizonte para lá do dia-a-dia), com a fina-flor burguesa que vai do capitalista médio para cima. Uma espécie de União Nacional salazarista modernizada, sem partido único e sem Câmara Corporativa porque “democratizada”. O sonho é o mesmo: fim das contendas ideológicas e das lutas de classes.

Nesta confluência de bons espíritos, resta saber qual o lugar destinado a Ventura. Para o capital, o homem não é de confiança, como se viu pela traição de última hora ao Pacote Laboral, tão laboriosamente negociado. Subiu-lhe à cabeça liderar a direita, empalmar o patronato e governar o país a solo? Ou contentar-se-á com um lugar em Belém, daqui a cinco anos – jarrão ao serviço de uma direita unificada e hegemónica?

 


Comentários dos leitores

•leonel l. clérigo 11/9/2026, 14:06

MV: O “caso Luís Neves” tem pano de fundo

Este texto acima de MR dá oportunidade à reflexão sobre um tema pouco - ou nada…- debatido na nossa SOCIEDADE, tal como muitos outros o não são: o PATRIMONIALISMO, uma “invenção” curiosa dum bem conhecido SOCIÓLOGO ALEMÃO e que regularmente vemos “despontar” - na forma de “CASOS” concretos - na superfície da nossa Sociedade.

Estes CASOS revelam também muita “coisa” sobre o estado actual da nossa “INTELECTUALIDADE” sem “viço”, sobretudo na área da SOCIOLOGIA de hoje. Tanto mais que o TERMO PATRIMONIALISMO foi uma “invenção” dum bem conhecido SOCIÓLOGO ALEMÃO.

1 - O Termo PATRIMONIALISMO surge com MAX WEBER um dos “patronos intelectuais” dos nossos ISCTE-NOVA. E refere-se a uma forma de domínio que se “originou” na nossa IDADE MÉDIA (Pós-Descobertas) em que o governante-REI usava a “máquina pública” para beneficiar seus “amigos e conhecidos” de CLASSE, além de “aliados” do PODER mais ou menos poderosos assim como de familiares. Assim, as RIQUEZAS COLONIAIS “circulavam” em “CIRCUITO FECHADO” e dessa forma era assegurado o PODER em PORTUGAL. Como hoje…apesar da já gasta “capa democrática”: "modernamente" são os FUNDOS (da Europa connosco) que alimentam parte grande desse velho REGIME PATRIMONIALISTA.

2 - Não temos então de nos admirar ser no BRASIL que se vai CONSOLIDAR, em “grande escala”, o PATRIMONIALISMO: e como alguém já disse: “A HISTÓRIA É A TEU RESPEITO”.
Era no BRASIL - com seus “Ciclos Produtivos” do Pau-Brasil ao Café - que se PRODUZIA a RIQUEZA de que vivia a OCIOSIDADE do PODER em PORTUGAL, já que o Território Português - como hoje se pode apreciar - ficou reduzido a um conjunto de “populares mal vestidos” que “pastavam” - e ainda hoje muitos o fazem - pelas aldeias do interior com suas IGREJAS, CAPELAS e CONVENTOS alcandorados no alto nos montes a “impor-lhes” o “sossego” como modo de ganhar o "célebre" PARAÍSO que ninguém sabe onde fica lá no CÉU. Enfim: a paz do Senhor.
Por isso, é também no BRASIL que a “CONFUSÃO” entre PÚBLICO-PRIVADO se irá DESENVOLVER/EXPANDIR e que um RAYMUNDO FAORO, SÉRGIO BUARQUE de HOLANDA e, mais recentemente, CLOVIS MOURA irão abordar e “escalpelizar”.

3 - Este PATRIMONIALISMO vem há Séculos marcando uma forma de decrepitude da SOCIEDADE PORTUGUESA que tinha no IMPÉRIO sua Base de sustentação e que alguns por aqui abordam: AMHespanha, VMGodinho, e mais recentemente JCCaeiro/RRPinto. E as “governações” estão - no tempo…- cheias delas, sem ainda se vislumbrar seu fim.
Por isso, solucionar o CASO LUÍS NEVES é curto e as “tempestades no copo de água” que o caso despertou, só servem a quem está interessado em “passar pelo intervalo da chuva”: o apodrecimento da nossa SOCIEDADE e da sua CLASSE DOMINANTE, vai exigir e regularmente, muitos mais casos LUÍS NEVES que tendem a nascer como cogumelos. E a CRISE ECONÓMICA - com o colapso do IMPÉRIO USA - aí está para os amplificar.
Solucionar o caso de forma RADICAL é o que se impõe se de facto se quer aproximar Portugal da Modernidade que teima, seriamente, em cá chegar. Ou seja: IR À RAIZ DO PROBLEMA…que “é o que significa RADICAL”.

•leonel l. clérigo 16/9/2026, 11:19

CONTINUIDADES

Na sequência do comentário anterior sobre o PATRIMONIALISMO e já que o FLAGELO dos incêndios vêm monopolizando a nossa brilhante Comunicação SOCIAL DEMOCRÁTICA apostada nas "ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS", coloquei a seguinte questão à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA):"
Poderá haver alguma relação "interesseira" entre os INCÊNDIOS FLORESTAIS e o "desejo" de CONCENTRAÇÃO da PROPRIEDADE RURAL de MINIFÚNDIO do nosso interior?
E a IA respondeu-me:
Sim, existe uma relação indireta e estrutural entre os incêndios florestais e a concentração (ou fragmentação) da propriedade, embora raramente de forma intencional ou criminosa na ótica do grande proprietário.”

Olá!… coisa curiosa: a nossa Comunicação Social “DISTRAÍDA” - apesar de seu rótulo de "INVESTIGADORA" - parece desconhecer que a IA - uma senhora com “punhos de renda”... - nos assegura: “…embora aquela relação indireta e estrutural exista”, raramente parece ser “de forma intencional ou criminosa na ótica do grande proprietário.”

O debate foca-se então "no abandono da terra, no mercado da madeira e nas pressões de ordenamento do território”.
Continuando com a IA, diz-nos ela:
"Abaixo estruturam-se os três principais eixos económicos e territoriais que ligam estes dois fenómenos (Incêndios e Concentração da Propriedade):
1 - Desvalorização da terra e o ciclo do minifúndio vs. latifúndio
2 - A economia da celulose e as monoculturas de rápido crescimento
3. Alteração do uso do solo e especulação imobiliária

EDIFICANTE...
Um belo e interessante tema para os INTELECTUAIS do ISCTE-NOVA…

•leonel l. clérigo 17/9/2026, 11:20

UMA SUGESTÃO

O Autor Brasileiro FERNANDO de HOLANDA BARBOSA tem um livro - saído na FGV Editora - com um título bem curioso: "O FLAGELO da ECONOMIA de PRIVILÉGIOS" que "assenta como uma luva" cá no nosso "burgo".
Em minha fraca opinião, tal obra - e por várias razões temáticas - deveria, por exemplo, constar da BIBLIOTECA do ISCTE. Mas, pelos vistos, parece que ainda não...

•leonel l. clérigo 24/9/2026, 11:41

AS TRETAS MANHOSAS do "CONSENSO de WASHINGTON"

Não posso acreditar: não há por aí nenhum brilhante Economista deste nosso PAÍS que se digne a explicar ao PRIMEIRO MINISTRO Montenegro que os portugueses e para além de não COMEREM PIB (MCT) também não "COMEM EXCEDENTES".
Isto de ser-se eternamente SUBDESENVOLVIDO tem "muito que se lhe diga". Mas será afinal um "meio" para se ganhar o célebre CÉU dos católicos?...
O nosso PR devia esclarecer isso bem quando o PAPA cá vier. Até porque isso lhe dará mais "visibilidade" nas "sondagens".

•leonel l. clérigo 26/9/2026, 12:24

A Sra. Economista Nazaré Saldanha Póvoas da Costa Cabral - que é Presidente do Conselho Superior das Finanças Públicas - veio, finalmente, quebrar o silêncio e ajudar a demonstrar que, afinal, existem ECONOMISTAS bem atentos à Economia Subdesenvolvida deste nosso País.
E que julgo eu que veio dizer a Sra. Economista Nazaré Costa Cabral aos Portugueses?
Coisa simples: tenham "CAUTELA (ou seja: nada de "turbulências sociais") e sobretudo RESPONSABILIDADE (ou seja, um "furo no cinto" é "muito mais saudável" - à saúde e à carteira - do que andar a gastar dinheiro em "comprimidos para emagrecer").

No entanto, gostaria de sugerir à Sra, Economista Nazaré Saldanha Póvoas da Costa Cabral - dado a posição que detêm no acesso a INFORMAÇÃO PRIVILEGIADA e aos CONHECIMENTOS de ECONOMIA POLÍTICA que dispõe - com que rara e telegraficamente nos presenteia - que explicasse mais detalhadamente aos PORTUGUESES:

1 - Quais os obstáculos reais que existem HOJE ao DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO-SOCIAL deste nosso PAÍS?
2 - A assertiva do Economista VICTOR CONSTÂNCIO "Portugal não fez a sua Revolução Industrial e já perdeu a oportunidade de a fazer" que, de há já longa data, parece ter "calado fundo" no PAÍS, condenando este ao ETERNO SUBDESENVOLVIMENTO e ao "cinto apertado", tem de facto algum sentido?
3 - O "CONSENSO de WASHINGTON" - ainda em vigor mas já "com os pés para a cova" - que instituiu o Neoliberalismo nos anos da década de 1980 é, de facto, uma séria barreira ao DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL dos SUBDESENVOLVIDOS - como nós - coisa que os economistas da AMÉRICA LATINA vêm demonstrando desde os tempos da CEPAL de Raúl Prebisch?

•leonel l. clérigo 28/9/2026, 14:01

UM FUTURO PARA PORTUGAL... PRECISA-SE!

Julgo que o economista RICARDO PAES MAMEDE - coisa de louvar... - é dos poucos que se atrevem a expor publicamente os graves problemas com que há anos - para não dizer séculos... - o PAÍS se defronta sem encontrar solução.
E recentemente refere ele uma questão central do DESENVOLVIMENTO sem a qual este não tem possibilidades de existir: uma POLÍTICA INDUSTRIAL capaz.
Diz ele: "NÃO HÁ POLÍTICA INDUSTRIAL BEM-SUCEDIDA COM GOVERNOS COBARDES".

Tem plena razão. Mas esta é a manhosa BURGUESIA RENTISTA sem viço que sempre tivemos e por mais que a INICIATIVA LIBERAL nos conte "histórias da Carochinha" sobre as suas "enormes capacidades", já nada há a fazer. Para sairmos do "buraco" em que nos encontramos, só mandando-a para a REFORMA. Já não tem emenda: "quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita"...

Uma NOVA e CORAJOSA EQUIPA DESENVOLVIMENTISTA que faça o ESTADO AVANÇAR no RUMO CERTO...PRECISA-SE COM URGÊNCIA!


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