100 anos. Homenagem a Fidel Castro
Editor / Vijay Prashad — 21 Agosto 2026

Quando Cuba sofre um bloqueio reforçado da parte dos EUA, em cima de quase 70 anos de cerco, quando a América Latina no seu conjunto é alvo de uma ofensiva imperialista tão brutal quanto desesperada, é ocasião para lembrar Fidel Castro no que seria o seu centésimo aniversário. O testemunho pessoal de Vijay Prashad sobre a figura de Fidel é igualmente uma evocação dos revolucionários e do povo cubanos que, nas condições ingratas de um país atrasado, situado na boca do lobo, souberam não desistir de abrir caminho a um novo mundo e a uma nova humanidade.
O FIDEL CASTRO QUE CONHECI
Vijay Prashad, Consortium News
Tinha apenas 16 anos quando vi pela primeira vez Fidel Castro na cimeira do Movimento dos Não Alinhados (MNA) de 1983 na Índia.
Quando Castro, que faria 100 anos na semana passada [13 de agosto], se encontrou com a Primeira-Ministra indiana Indira Gandhi no local da conferência, quebrou o protocolo e deu-lhe um enorme abraço de urso.
Castro adorava a Índia, algo que aprenderia com ele 18 anos depois, em Durban, África do Sul. “Fui muitas vezes à Índia”, disse-me na altura, “mas nunca por muito tempo.”
Tive demasiado medo de lhe dizer que o tinha visto de longe na conferência do MNA e que, devido à sua personalidade gigantesca, imaginei que Cuba era um país enorme — e não uma nação insular de aproximadamente 110.000 quilómetros quadrados com uma população menor do que a da área metropolitana de Calcutá, onde nasci.
Ao vê-lo de longe, com aa sua farda militar verde, imaginei-o como um jovem Castro a marchar para Havana vindo da Sierra Maestra, enquanto perguntava se ele teria uma pistola debaixo da capa para se proteger dos assassinos que pareciam nunca o tocar.
Na Conferência Mundial Contra o Racismo de 2001, em Durban, Castro foi o único líder mundial a receber uma ovação de pé tanto em fóruns governamentais como não governamentais.
Falou com uma sinceridade que rompeu o alinhamento político. Esse foi o período dos “direitos humanos” e da “globalização”, termos que pouco significavam enquanto o motor da desigualdade avançava sem piedade.
Qual era o objetivo destes fóruns sobre racismo e destruição ambiental, sobre dívida e direitos das mulheres, quando tudo parecia ir de mal a pior?
À medida que a dívida das famílias atingia níveis catastróficos para as pessoas comuns no Sul Global, os líderes com os seus fatos à medida murmuravam clichés. Castro, vestido com o uniforme militar, era o oposto deles.
A sua franqueza e sorriso tornavam a verdade aceitável e inspiravam as pessoas a juntarem-se a ele na luta por um futuro digno. Levantámo-nos para aplaudir Castro não só pelo que disse, mas também porque falava a nossa língua.
Dois anos antes de Castro chegar à cimeira do MNA em 1983, discursou numa conferência dos Comités para a Defesa da Revolução (C.D.R.), grupos de bairro fundados em 1960 e que desempenharam um papel vital na salvaguarda das suas comunidades e da nação. Castro apontou para os êxitos da Revolução Cubana, mas também para as limitações impostas pelo severo bloqueio dos EUA.
No entanto, o bloqueio, disse Castro, “não nos impediu de alcançar feitos nunca antes conseguidos.” Entre eles, enumerou:
“A façanha de proporcionar emprego a praticamente toda a nossa população, pondo fim à ociosidade; pôr fim aos vícios, ao jogo, às drogas, à prostituição; acabar com o analfabetismo; garantir pelo menos um nível de ensino do sexto ano e aspirar ao nível do nono ano; e ter praticamente o melhor padrão de cuidados públicos de saúde de qualquer país subdesenvolvido do mundo.”
“As dificuldades não nos vão impedir de avançar”, disse Castro.
Essa é a lição fundamental para o Terceiro Mundo. Sim, o colonialismo devastou os nossos países. Sim, a estrutura neocolonial continua a sugar recursos e riqueza dos nossos países. Sim, a estrutura da guerra e da dívida impõe um imposto enorme a qualquer país que tente exercer a sua soberania. Sim, tudo isto é verdade, e estas são dificuldades.
Mas as dificuldades não nos vão impedir de avançar.
Castro não era um socialista utópico. Rejeitava aqueles que acreditavam que se podia saltar da pobreza directamente para a riqueza. Tinha lido Marx, em particular o amplamente divulgado e estudado panfleto Crítica do Programa de Gotha (1875), no qual Marx escreveu,
“O direito nunca poderá ser superior à estrutura económica da sociedade e ao seu desenvolvimento cultural condicionado por isso.”
Por outras palavras, uma sociedade cujas forças produtivas não conseguem gerar excedente suficiente, e, portanto, instituições de lazer e culturais suficientes, não pode, por si só, criar as condições para a emancipação humana.
Os direitos liberais de propriedade num sistema capitalista, por exemplo, garantem a cada pessoa a liberdade de possuir propriedade, que tinha sido restringida sob as formações sociais pré-capitalistas. Mas não garantem a liberdade da propriedade — ou seja, a libertação da tirania de não ter propriedade. Só “numa fase superior da sociedade comunista”, marcada pela abundância, pode ser estabelecida a base social para a liberdade.
Marx escreveu:
“Só então se pode cruzar o horizonte estreito do direito burguês na sua totalidade e a sociedade inscrever nas suas bandeiras: De cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades!”
Castro sabia que tal argumento diferenciava a sua tradição da do utopismo e do liberalismo. Mas ele também compreendia um axioma fundamental: o desenvolvimento desigual do capitalismo sob condições coloniais e neocoloniais não permitiria que as nações mais pobres desenvolvessem as suas forças produtivas, mas apenas lhes permitiria desenvolver o seu subdesenvolvimento.
Isto significava que as frentes de libertação nacional tinham de derrubar os governantes coloniais e depois realizar duas tarefas históricas simultaneamente e com grande competência: construir as forças produtivas (que deveria ser tarefa da burguesia) e socializar os meios de produção (que é a missão do projecto socialista).
Nas nações mais pobres, tanto a tarefa da burguesia como a do proletariado devem ser cumpridas pelas forças socialistas sob imensa pressão.
As dificuldades não nos vão impedir de avançar.
Em 2001, estava sentado numa sala de hotel em Durban com Castro e membros da sua delegação enquanto ele me fazia perguntas sobre a discriminação de casta na Índia. A curiosidade de Castro era contagiante.
Castro começou a contar-me sobre as dificuldades de construir o socialismo e como a Revolução Cubana não tinha feito o suficiente para derrubar as hierarquias de raça e género nas primeiras décadas. Sim, a Revolução Cubana tinha acabado com a segregação nos espaços públicos, mas não se fez o suficiente para combater a natureza enraizada do racismo.
Era importante enfrentar as realidades teimosas, começar pelos factos concretos e depois tentar encontrar o método para mudar a situação. A negação dos factos é um impedimento ao progresso. Isso ficou claro para Castro.
Ao discursar na conferência de Durban, Castro deu uma aula magistral sobre as realidades teimosas. Ele disse:
“O racismo, a discriminação racial e a xenofobia não são reacções naturalmente instintivas dos seres humanos — nascem directamente de guerras, conquistas militares, escravatura e da exploração individual ou colectiva dos mais fracos pelos mais poderosos ao longo da história das sociedades humanas.”
Se enfrentarmos esse facto, então não basta fazer seminários sobre melhor comportamento ou partilhar boas práticas para desfazer o racismo. Devemos mudar o sistema que confere tanto poder às hierarquias sociais. Devemos derrubar e transformar o próprio sistema do capitalismo.
Quando estava sentado com Castro, levantei a distinção de Marx entre o “reino da liberdade” e o “reino da necessidade”. A primeira referia-se àquelas partes do mundo que conseguiram – em parte através do colonialismo – dotar-se de forças produtivas avançadas e, assim, preparar o terreno para a transição para o socialismo.
Os outros – as vítimas do saque colonial – ainda não tinham ultrapassado as necessidades básicas do povo e, por isso, estavam longe do socialismo. E, no entanto, contra as expectativas do marxismo clássico, foi no reino da necessidade que ocorreram revoluções, onde o socialismo “é jovem e tem os seus erros”, como escreveu Che em 1965.
“Cometemos os nossos erros”, disse-me Castro, “mas temos de ser honestos sobre eles. Não podemos fingir que não cometemos erros. Mas também devemos lembrar-nos de que temos algumas certezas. Não podemos estar sempre a pedir desculpa pelos nossos esforços quando os nossos esforços são apenas para tornar o mundo um lugar mais humano.”
Um revolucionário como Castro não dá apenas esta ou aquela ideia. O que ele dá, especialmente nestes momentos íntimos, é o exemplo de um revolucionário – o que Ho Chi Minh chamou de necessidade de emulação.
Ver Castro explicar as suas ideias com paixão e certeza só me fez sentir mais apaixonado e seguro. Isso aprofundou o meu desejo de o imitar não como pessoa individual, mas na forma como participou na luta para salvar a humanidade da brutalidade e tentar honestamente construir um mundo socialista.
Se ouvirem os discursos mais importantes de Castro, verão que estão cheios de detalhes que podem parecer irrelevantes para a sua audiência. Ele lia, por exemplo, registos da produção agrícola em cada distrito de Cuba, informando o público reunido na Plaza de la Revolución sobre os pormenores minuciosos da administração burocrática.
Porque é que ele fez isto? Castro, enquanto professor revolucionário, dizia que o socialismo é sobre os detalhes: estar atento à ciência de construir as forças produtivas, ser claro e honesto quanto aos contratempos e abrir a porta à participação de massas para transformar fracassos em sucessos.
As dificuldades não nos vão impedir de avançar.
Vijay Prashad. Historiador, editor e jornalista indiano. Director da Tricontinental: Instituto de Investigação Social. Investigador no Instituto de Estudos Financeiros de Chongyang, Universidade Renmin da China. Escreve em Peoples Democracy, jornal do Partido Comunista da Índia (Marxista)
Tradução e edição MV