O estado do mundo

Editor / Comunicação social — 18 Agosto 2026

273 milhões de crianças e jovens fora da escola. Ajuda aos países pobres quebrou 30%

Numa breve revista pelos meios de comunicação, ficamos a saber que cada vez menos crianças e jovens frequentam a escola, e não é só, nem principalmente, nos países considerados pobres. Uma das armas do progresso, a educação universal, parece estar romba. Somos informados de que, para evitar que a moeda japonesa caísse no abismo, os EUA fizeram uma manobra financeira que prejudica o euro, de surpresa e sem avisar o BCE. E vemos que as tentativas de Trump para reerguer a economia norte-americana não podem contar com a ajuda dos adversários (óbvio), mas também não contam com muitos dos aliados.

Para quê gente inteligente?

Um relatório da UNESCO, publicado este ano, sobre o estado da educação a nível mundial constata uma diminuição global da escolaridade básica. Um número crescente de crianças e jovens não ingressam no ensino primário e secundário, com reflexo na quebra da formação superior. E mesmo quando não se verifica uma baixa na frequência escolar, inclusive em países de rendimento médio ou elevado, observa-se uma acentuada queda da qualidade da aprendizagem.

O fenómeno manifesta-se desde 2015, não podendo ser atribuído à pandemia de COVID19. Também não é um facto de natureza “terceiromundista”, uma vez que atinge igualmente os países mais desenvolvidos – como Singapura, EUA, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, Finlândia, Chéquia, Hungria ou Estónia. No caso da Europa, países como a Roménia e a Bulgária estão em níveis comparáveis aos da África Subsariana.

A taxa de escolaridade, que tem sido considerada como factor determinante de um desenvolvimento sustentado, mostra afinal um mundo em retrocesso.

Alguns dados gerais. Em todo o mundo há 273 milhões de crianças e jovens fora da escola, 1 em cada 6. O número tem vindo a aumentar consecutivamente. A ajuda dos países ricos à educação básica nos países pobres teve uma quebra de 30%. A meta de uma escolaridade universal prevista para 2030 está definitivamente comprometida. E, mesmo que a tendência se inverta, fica adiada (numa visão optimista do relatório) para o século XXII.

Críticos apressados julgam ver nestes dados uma prova de que a generalização dos telemóveis e da IA afastam a população jovem da escola. Mas não são as crianças e os jovens que decidem frequentar ou não a escola; o incremento da escolaridade é uma política de natureza obrigatória decidida pelos governos e impulsionada pelos planos de crescimento e desenvolvimento dos países – e o seu êxito depende das condições de acesso que são proporcionadas.

Uma prova disso está na diferença de desempenho da China e da Índia. Enquanto a China fez do ensino superior e da educação em profundidade, suportados pelo Estado, uma alavanca do seu crescimento (sistema que o relatório aponta como um exemplo marcante de expansão no sector pós-secundário), a Índia enfrenta uma crise de competências básicas, de literacia e de numeracia, agravada pelos elevados custos das escolas privadas.

Outra prova: nos países com propinas elevadas ou em que os estudantes têm de contrair empréstimos, existe estagnação e recuo no número dos que terminam a formação.

O relatório da UNESCO sugere, brandamente, umas pistas para entender a questão. Refere “uma mudança do ambiente geopolítico” mundial, forma delicada de falar da proliferação dos conflitos militares, dos fluxos migratórios e da crise geral que a economia capitalista mundial atravessa, com taxas de crescimento anémicas – mal compensadas pelo crescimento dos gigantes asiáticos. Refere também, de modo mais preciso, que os “governos redireccionam cada vez mais o investimento público para defesa, para pagamento de encargos da dívida dos estados, ou para suportar maiores custos com a energia. Este chapéu assenta bem na cabeça dos líderes norte-americanos e europeus.

Mas não se pode evitar de trazer à baila outras razões, quiçá mais fundas. O capitalismo em fim de vida com que nos defrontamos não precisa de grandes massas de gente com elevada formação, com aptidões diferenciadas, como as que foram necessárias para a sua expansão – designadamente no pós-Segunda Guerra e no último impulso de globalização que durou uns escassos vinte a vinte cinco anos. A “democratização” do ensino terminou. Não será simples coincidência que o decréscimo assinalado pela UNESCO comece justamente em 2015.

O capitalismo imperialista de hoje precisa de reduzidas elites hiper-especializadas, altamente bem pagas (investigação, especulação financeira, lideranças políticas e militares sem escrúpulos morais). E precisa de uma vasta massa de mão-de-obra indistinta com formação mínima, de consumidores crédulos e de cidadãos-eleitores obedientes. Os desvios do investimento público que o relatório da UNESCO menciona são uma escolha política, não um mero constrangimento de ordem financeira.

Num fórum económico promovido pela BlackRock (a maior gestora de activos do mundo) em Washington, em março deste ano, Sam Altman, director-executivo da OpenAI, revelou a visão de quem dirige um dos sectores empresariais de maior investimento: “Vemos um futuro em que a inteligência é um serviço público como a electricidade ou a água, e as pessoas compram-na através de um contador”. O tema do fórum foi “Construindo o futuro da América juntos”.

(Fonte: Global Education Monitoring Report 2026, UNESCO)

 

A amiga japonesa

Numa operação de surpresa no começo de agosto, o governo norte-americano procedeu à compra de moeda japonesa para evitar a sua desvalorização a valores históricos de 40 anos. Desde 2022 que o iene se desvaloriza a ritmo paulatino, o que tem exigido sucessivas intervenções para lhe amparar a queda. A emergência de há dias custou mais de 50 mil milhões de dólares. Do tesouro norte-americano? Não só. Pelo menos em parte, também dos bolsos dos europeus.

Expliquemos: sem dizer nada ao Banco Central Europeu, o ministro da Finanças dos EUA, Scott Bessent, vendeu uns quantos milhares de milhões de euros das suas reservas cambiais para poder financiar os amigos japoneses. A decisão de salvar o iene poderia ter sido a mesma que afundaria o euro. É como se Bessent transferisse os custos da ajuda dos cofres dos EUA para os cofres da UE.

Vítor Constâncio, que foi vice-presidente do BCE, fazendo-se porta-voz das angústias europeias, verberou a conduta dos norte-americanos e defendeu que o BCE deve opor-se a intervenções cambiais do género que possam enfraquecer o euro – tanto mais que os EUA deixaram em aberto a possibilidade de voltar a fazer o mesmo. Tem sido prática de Washington fazer intervenções semelhantes para ajudar aliados, países ou dirigentes, como no caso recente da Argentina e do descabelado Milei.

Porquê este gesto de “amizade” para com o Japão, como a ele se referiu Donald Trump? Porque, sem isso, a alternativa seria o Japão vender parte dos títulos do tesouro norte-americano que detém para se financiar, o que obrigaria a aumentar as taxas de juro desses mesmos títulos agravando os custos da dívida dos EUA. O Japão é o maior credor dos EUA, com uma carteira de 1,1 biliões (milhões de milhões) de dólares.

Há praticamente três décadas que a economia japonesa vegeta sem crescimento. Apesar das taxas de juro terem sido nulas ou mesmo negativas durante décadas, o arranque económico pretendido não se dá. A inflação elevada e os gastos suplementares com energia, graças às guerras do amigo Trump, agravaram a situação e pressionaram de novo o iene (uma semana depois da intervenção, a moeda voltou a cair). A dívida japonesa aproxima-se dos 240% do PIB. Este peso morto ata as mãos de qualquer governo, inclusive o da senhora Sanae Takaichi em socorro de quem Trump abriu os cordões à bolsa.

Mas a desgraça dos japoneses serve os interesses de muitos investidores internacionais. Contraindo empréstimos de baixo juro em ienes e investindo-os depois em dólares (a juros mais altos), ou em negócios de alto rendimento, tais investidores ganham a dois carrinhos: o correspondente à diferença das taxas de juro, e os lucros excepcionais das empresas de ponta. Isto convida a uma fuga contínua de capitais do Japão para outros países. Nomeadamente, tem sido este um dos principais mecanismos que alimenta os investimentos colossais feitos nas empresas de IA nos EUA.

Há nisto uma espécie de duplo dilema. Por um lado, um iene fraco facilita, como se viu, os investimentos de capitais nos EUA, mas torna os produtos japoneses mais competitivos no mercado norte-americano, aumentando o défice comercial dos EUA face ao Japão. Por outro lado, um iene mais forte tende a reduzir este défice dos EUA, mas leva a diminuir a aplicação de capitais do Japão nos EUA. Continua a ser difícil ter sol na eira e chuva no nabal.

(Fonte: Artigos diversos na imprensa nacional e internacional)

 

Trump, o tarifeiro

A produção de drones ucranianos (na verdade, montados na Ucrânia, mas em grande parte adquiridos em peças no mercado internacional) teve um impulso considerável nos últimos anos da guerra. Quando os EUA e Israel lançaram a agressão ao Irão, Zelensky desdobrou-se em contactos no Médio Oriente no propósito de vender os drones Made in Ukraïna, numa demonstração mais de que a guerra é a sua praia. Os resultados práticos não terão sido os esperados.

Talvez por isso, feitas as pazes com Donald Trump, Zelensky achou ser altura de fazer negócio com os EUA. Entre 10 e 30 mil milhões de dólares foi quanto pensou arrecadar com a entrada no mercado norte-americano, com drones para todos os gostos, desde os bélicos aos de diversão. Trump, porém – fiel à sua tão ambiciosa como ilusória re-industrialização da pátria – não perdeu tempo: com tarifas aduaneiras que vão desde os 100% aos 25% estragou os planos de Zelensky. Negócio sim, mas ao contrário: ucranianos e europeus (os povos, não as elites) pagam o esforço de guerra comprando armas e gás aos EUA a preços de monopólio.

(Fonte: “New Trump tariffs set to hit Ukraine drone export ambitions”, RT)

 

Trump, o mal-amado

Um relatório publicado há dias pela Casa Branca dá conta de que mais de 40 países, incluindo alguns dos mais próximos aliados, participam num esquema internacional para tornear as tarifas aplicadas pelos EUA sobre as exportações chinesas. Segundo o documento, produtos oriundos da China são transferidos para países terceiros onde sofrem pequenas modificações (às vezes simples embalagem e rotulagem) e são então encaminhados para o mercado norte-americano, escapando assim às tarifas.

Indignados, os EUA apontam o dedo a, entre outros, Singapura, Canadá, México, Japão, Coreia do Sul, Índia, Israel, Taiwan e União Europeia, referindo que a prática começou em 2018, depois de Trump ter aplicado a primeira dose de taxas aduaneiras aos produtos chineses.

O relatório tem a assinatura de Peter Navarro, conselheiro de Trump para a economia e um dos fiéis defensores da política tarifária e da linha “Compre Americano” e “Contrate Americano” com que Donald Trump sonha reverter o declínio económico dos EUA. O esquema, diz Navarro, origina perdas de receita federal da ordem das dezenas de milhões de dólares por ano (entre 19 e 28 mil milhões), além de ser responsável pela perda de 450 mil postos de trabalho nos EUA.

O plano de combate da Casa Branca assenta nas medidas do costume: maior policiamento das importações (criando um designado sistema “Detective de Fronteira” equipado com IA, pois claro) e castigos sobre os países desobedientes na forma de… mais tarifas.

Peritos de comércio internacional mostram um outro lado da questão. O relatório visa particularmente nove países membros da ASEAN (Associação da Nações do Sudeste da Ásia), região onde a expansão dos capitais chineses criou inúmeras empresas subsidiárias. As medidas cegas dos EUA confundem as fraudes com as cadeias de produção diversificadas, que podem envolver vários países no fabrico do mesmo produto. Esta confusão serve os propósitos de aumentar as tarifas sobre os países da ASEAN e esconde uma tentativa de os forçar a escolher entre a China e os EUA.

As medidas, advertem os entendidos, estão destinadas ao fracasso, uma vez que as vantagens competitivas da China são enormes; e também porque a reacção esperada dos países visados será uma resposta de conjunto às ameaças norte-americanas – assim reforçando a integração económica em curso na região.

A China respondeu prometendo medidas retaliatórias. Se tiverem a eficácia das que envolviam a limitação de exportação de terras raras da China para os EUA, bem pode Peter Navarro meter o relatório na gaveta.

(Fontes: Imprensa internacional; “The great transshipment scam”, White House report; “US transshipment ‘scam’ claims put Asean exporters in a bind”, South China Morning Post)

 

 


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