Guerra permanente, disse a cimeira da NATO

Manuel Raposo — 9 Agosto 2026

Fora a NATO, fora a CIA. Manifestação 7 fevereiro 1975, Lisboa. VER VÍDEO

A cimeira da NATO realizada no mês passado na Turquia provou que os receios sobre um próximo fim da Aliança, tomando à letra as bravatas de Donald Trump, eram francamente exagerados. Em vez disso, o que realmente se passou foi uma redistribuição dos encargos entre os parceiros, com maior ónus para os europeus; e a reafirmação de uma política de guerra permanente contra a Rússia, a pretexto da defesa da Ucrânia e duma suposta ameaça russa que só os líderes europeus veem. Mas nem por isso as divisões internas e os pontos fracos que a NATO evidenciou em quase cinco anos de guerra foram eliminados.

A mais marcante decisão tomada foi a de comprometer os estados-membros a providenciar 70 mil milhões de dólares (mais de 60.500 milhões de euros) anuais à Ucrânia para manter o esforço de guerra. Este montante soma-se aos 90 mil milhões de euros que a Europa aprovou recentemente enviar para Kiev só para manter operacional por dois anos o aparelho de estado ucraniano, à beira do colapso.

Orçamentos de guerra

Isto significa que os orçamentos dos estados europeus vão ter de inscrever de forma permanente o financiamento da guerra. A confrontação com a Rússia – que as principais potências europeias passaram a defender com unhas e dentes para contrariar a via negocial iniciada pela administração Trump em 2025 – passou deste modo a ser uma política de rotina, uma institucionalização da guerra por parte da Europa e da NATO no seu conjunto.

Não admira, a avaliar pelas últimas posições dos EUA, que Donald Trump aceite moderar os propósitos iniciais de pôr fim à guerra “em 24 horas” e de atribuir as culpas do conflito ao seu antecessor Biden – se considerarmos que a indústria bélica norte-americana ganha rios de dinheiro com o empenhamento europeu em defender Zelensky e em sacrificar as vidas ucranianas. Ainda para mais, sem que os EUA sofram qualquer desgaste directo.

O principal cimento da UE, com efeito, passou a ser a via militarista que adoptou a pretexto da guerra na Ucrânia e, em cima disso, da inventada “ameaça russa”. Lembremos o boicote aos acordos de Minsk – explicitamente confirmado por altos dirigentes alemães e franceses (Angela Merkel e François Hollande) – que teriam evitado o conflito militar. Lembremos ainda a posterior sabotagem – pela acção directa de Boris Johnson, então primeiro-ministro do Reino Unido, de concerto com a administração Biden – do acordo de paz que Ucrânia e Rússia estiveram à beira de assinar em Istambul em março-abril de 2022, tinha a guerra poucas semanas.

Desunião europeia

São patentes as divisões que dilaceram a UE e que fazem da Europa, por junto, uma não-entidade, incapaz de intervir nos acontecimentos internacionais – a não ser à trela dos EUA. Os 5% do PIB que os EUA obrigaram os membros da NATO a pagar para despesas militares são uma renda que os norte-americanos cobram pela sua asa protectora. As sanções contra a Rússia a que a Europa foi obrigada, mais a destruição do gasoduto Nordstream, submeteram todos os países do Continente aos ditames dos EUA, empurrando-os para a irrelevância económica.

Nestas condições (forjadas tanto por Biden como por Trump, destaque-se), o papel dos europeus na NATO encontra-se mais condicionado do que nunca – porque agora, para além de continuarem a não ter meios militares próprios de monta, nem capacidade industrial militar para prescindirem da produção norte-americana, não têm sequer a relativa autonomia económica de que gozavam há mera meia dúzia de anos. Os esforços anunciados de constituir um “pilar europeu” da NATO, neste quadro, não passam de uma redistribuição de tarefas entre europeus e norte-americanos dentro da mesma teia de dependência face ao imperialismo ianqui, mas agravada pelas circunstâncias.

“Ajuda” muito selectiva

Para se avaliar melhor o significado daquela “ajuda” suplementar à Ucrânia decidida em Ancara veja-se a comparação seguinte. Números publicados pela OCDE relativos a 2024 dizem que as verbas destinadas ao desenvolvimento económico em toda a África foram de 36 mil milhões de euros. As instituições da UE entraram, naquele ano, com 6,5 mil milhões para a África. Mas encaminharam mais de 18 mil milhões para a Ucrânia.

Ou seja, um só país recebeu quase o triplo de um continente com 1.550 milhões de habitantes – continente este, aliás, que fornece o grosso das migrações de mão-de-obra a preço de saldo de que o capital europeu beneficia, e de que os poderes instalados, ao mesmo tempo, se queixam. Por aqui se vê que as escolhas dos dirigentes europeus nada têm a ver com o “desenvolvimento”, mas apenas com o propósito de assegurar o seu lugar na teia de interesses do capital imperialista.

Uma grande dose de cinismo acompanha as ditas escolhas dos europeus. Na verdade, a corrupção endémica na Ucrânia, de que o poder em Kiev e o próprio Zelensky são gestores e beneficiários; e o domínio que as forças de extrema-direita exercem nas instituições do país mostram a falta de escrúpulos das elites dirigentes europeias. Com juras de respeito pela “democracia”, exibindo preocupações com a defesa da “civilização ocidental” (seja isso o que for), tratam, nos factos, de pagar uma vultuosa taxa aos mercenários de serviço para que siga a política; e protegem toda a escória nazi que impregna as forças armadas e os centros de recrutamento por a consideram a mais útil e apta para o tipo de guerra de desgaste que pretendem eternizar.

Uma coesão duvidosa

A aparente unidade da NATO exibida em Ancara está, na verdade, minada de contradições. Dos 30 membros europeus da NATO, 23 são também membros da UE. Esta sobreposição faz com que os desaguisados na UE, e não são poucos, se repercutam inevitavelmente na coesão da NATO.

A maquinação de França, Alemanha e Reino Unido para conduzirem a guerra na Ucrânia e moldarem a face europeia da NATO é prova de que esta Europa a três desvaloriza de modo evidente a UE para poder ter papel preponderante na NATO e na política europeia, sem ter de passar pelas regras de unanimidade da UE.

A recusa de vários países do Leste em cumprirem à risca as ordens de Bruxelas (Eslováquia, Chéquia, Bulgária, Roménia, e mesmo a Hungria e a Polónia) no apoio a Kiev e nas sanções à Rússia dá conta de que o chapéu UE-NATO não serve a todos os países do mesmo modo, tratando cada um de defender quanto possível os interesses próprios.

A resistência do governo espanhol em obedecer às imposições de Trump aquando da guerra contra o Irão abriu uma brecha na unanimidade habitual da Europa, lembrando a dissidência da França e da Alemanha a respeito da guerra de Bush contra o Iraque em 2003.

A miserável campanha orquestrada – pela fascista italiana Meloni e pela socialdemocrata dinamarquesa Frederiksen (!), acompanhadas por mais vinte estados – contra o governo espanhol a pretexto dos recentes acontecimentos em Ceuta (de que a Espanha foi vítima!) dá uma imagem da fraternidade de Caim-e-Abel que reina na UE.

A distância que a Turquia tem mantido, quer a respeito da guerra na Ucrânia (com canais abertos à Rússia), quer sobre a guerra no Médio Oriente (condenando duramente o regime israelita) mostra que a segunda força militar da NATO nem sempre alinha pela voz do dono.

Tudo isto se passa sobre um fundo de derrota. Os planos de desfeitear a Rússia na Ucrânia goraram-se. As tentativas de Trump para acabar o conflito são o reconhecimento dessa derrota (que as manobras dos europeus não anulam). Também os planos de fazer capitular o Irão falharam, a ponto de os EUA não saberem como sair airosamente do atoleiro.

Os arsenais da NATO e dos EUA – soube-se agora de fonte insuspeita, o próprio Pentágono – estão exauridos. As economias europeias e norte-americana sofrem o ricochete das sanções e da quebra dos fluxos do comércio mundial em resultado das guerras que desencadearam. As forças do capital imperialista mostram não serem capazes de controlar as consequências dos seus actos – o que em si é uma boa notícia para os povos do mundo.

A fonte dos milhões

De onde vêm os milhares de milhões que a NATO e a UE atiram continuamente para o sorvedouro ucraniano? O chanceler alemão Merz disse-o abertamente e sem pudor, com o desplante de um cappo de guerra: vêm das prestações sociais dos europeus, pois claro; vêm das pensões, dos serviços de saúde, e de todos esses “luxos” com que os europeus foram “mal-habituados”. Esta clareza do chanceler não se destina apenas à população alemã, é uma verdadeira directiva para todos os países da UE e da Europa.

Que a voz do cappo é para ser seguida, prova-o a reacção do governo português logo após a cimeira de Ancara. Candidamente, o primeiro-ministro e o ministro das Finanças vieram a púbico dizer o que todos antecipavam: para assegurar o pagamento das verbas exigidas pela NATO, será necessário subir impostos e rever a “gestão da despesa existente”, frase cabalística para “reduzir apoios sociais”. Foi um primeiro teste à reacção da opinião pública.

Os 3,1% do PIB que o Governo pretende afectar à Defesa no ano que vem corresponderão a cerca de 10 mil milhões de euros. Numa comparação simples, isso equivale a 117 hospitais como o de Sintra, inaugurado no verão passado. Será fácil ver o que acontecerá com a subida até aos 5%, ano após ano.

Nem mais um tostão!

Os efeitos desta política de guerra (é disso que se trata) sobre as populações europeias, particularmente os trabalhadores, é evidente: degradação das condições de vida, limitação de direitos sociais e políticos.

A ligação entre a escolha da guerra, o desvio do investimento para a produção militar, a submissão aos planos guerreiros dos EUA-UE-NATO – e o ataque às condições de vida e às liberdades civis é evidente e directa. A montagem de uma política militarista de rearmamento – como a que a UE pôs em campo – caminha a par do desmantelamento do Estado Social.

O papel dos sindicatos é crucial, como foi mostrado na greve dos estivadores do Mediterrâneo visando as entregas de armas a Israel (em fevereiro deste ano). E como foi evidenciado numa reunião de duas centenas de militantes sindicais alemães (em final de julho, em Würzburg) que denunciou a militarização do mundo do trabalho por parte do governo alemão, que seguramente se estenderá ao resto da Europa.

Está na hora de uma campanha popular contra a guerra e contra a NATO em que o mundo do trabalho tenha voz própria. É a sua vida, em todos os sentidos, que está em causa.

 


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