A ousadia de Cuba sob fogo dos EUA

Editor / Tarik Cyril Amar — 29 Julho 2026

Bloqueio dos EUA a Cuba dura desde 1960. O maior genocídio da história

O que explica as atrocidades dos EUA e de Israel na Palestina ou no Irão, bem como os crimes do bloqueio a Cuba é não apenas a violência comum inerente ao capitalismo imperialista. A isso temos de acrescentar, presentemente, o desnorte causado pelo declínio do poderio norte-americano de outrora nas cúpulas dirigentes de Washington.

O desespero pelo controlo das fontes de energia e das vias de comunicação vitais do comércio global conduziu os EUA ao atoleiro do Golfo Pérsico, ficando à mostra a incapacidade do imperialismo para dominar o curso dos acontecimentos que ele próprio desencadeia.

No caso de Cuba, não está em causa nenhum risco ou activo estratégico para os EUA – tirando o mau exemplo que uma Cuba revolucionária representou para a América Latina. Hoje, os crimes reforçados de Washington contra Cuba têm muito a ver com a imposição de um castigo a quem ousou libertar-se da tutela norte-americana e viver quase setenta anos superando todos os obstáculos.

Trump e o renegado Rubio querem uma desforra política que possa ser apresentada como uma prova de vida dos EUA. Mas querem também, de caminho, dar mais pasto aos especuladores imobiliários, aos operadores de turismo, à escória dos casinos e da prostituição empresarial. Foi essa a Cuba a que os revolucionários de 1959 puseram fim ao expulsarem Fulgêncio Baptista, o tiranete a soldo. É esse retorno que o capital norte-americano pretende.

Os cubanos, porém, fizeram a experiência de sessenta e sete anos de independência, de dignidade e do progresso social possível a curta distância do pior inimigo. E isso conta.

Como sublinha o artigo de Tarik Cyril Amar, a solidariedade com Cuba passa por uma união internacional capaz de combater a agressão global do imperialismo de que Cuba é um dos alvos.

 

DEVASTAR CUBA: O IMPÉRIO NORTE-AMERICANO ESTÁ EM DECLÍNIO E TENTA ARRASTAR TODOS CONSIGO

À medida que Washington enfraquece, aperta o cerco a Havana – usando bloqueio, apagões e sofrimento em massa para punir a ousadia.

Tarik Cyril Amar, RT (swentr.site), 8 julho 2026

sar das tentativas dos EUA de sabotar e manipular o evento, a Assembleia Geral da ONU acatou o pedido da delegação cubana para debater a “Necessidade de pôr fim ao embargo económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”.

Embora esse debate ocorra anualmente desde 1992, o contexto deste ano é particularmente sombrio, visto que Washington intensificou consideravelmente a sua longa campanha de guerra económica contra Havana. Ao mesmo tempo, os EUA também ameaçaram um ataque militar, que pode ou não ter sido adiado pela derrota americana na guerra contra o Irão.

Mas o debate sobre Cuba na ONU também precisa de ser colocado num contexto muito mais amplo: um quarto de milénio após a sua fundação e cerca de quatro décadas após o fim da Guerra Fria do século passado, no final da década de 1980, o império americano está em declínio.

Duas guerras fracassadas recentes dos EUA deixaram isso bem claro. Sob o governo do presidente Donald Trump, os EUA reduziram – embora não tenham abandonado completamente – o seu compromisso com a guerra por procuração ocidental contra a Rússia através da Ucrânia, deixando o caro e cruel triturador de carne para os europeus da NATO e da UE, que são míopes demais para saber quando parar e cínicos demais para se importarem com o que causam aos ucranianos comuns.

As razões para esse relativo, porém significativo, afastamento americano têm pouco a ver com a atitude pessoal – e volátil – de Trump em relação à Rússia, ou mesmo à Ucrânia. O establishment norte-americano simplesmente reconheceu que os objectivos iniciais da guerra por procuração ocidental não podem ser alcançados: Moscovo não foi derrotada nem enfraquecida geopoliticamente; não houve mudança de regime.

Na sua guerra fracassada contra o Irão e em defesa de Israel – mesmo se ela continua a arrastar-se e pode facilmente reacender-se num conflito generalizado – os EUA expuseram as suas próprias limitações de forma ainda mais reveladora.

O momento unipolar dos Estados Unidos, na medida em que tenha sido real, já passou há muito tempo, como John Mearsheimer – uma rara voz da razão nos EUA – explicou recentemente ao Parlamento Europeu. Entretanto, um mundo multipolar já emergiu, mesmo que continue a evoluir por muito tempo e seja muito improvável que algum dia corresponda à fantasia utópica de perfeita igualdade internacional com que alguns possam sonhar. A multipolaridade no mundo real é muito preferível à unipolaridade americana, mas será um equilíbrio global entre grandes potências ou, na melhor das hipóteses, um concerto entre elas.

No entanto, existe um paradoxo no declínio americano: embora a vasta maioria da humanidade, que compartilha o planeta com seu maior estado pária, precise urgentemente que os EUA percam o seu poder extraordinário e catastroficamente maligno, o processo não será nada agradável. Pelo contrário, os EUA em declínio são, e continuarão a ser por bom tempo, ainda mais agressivos, imprevisíveis e perigosos do que antes. Diferentemente da antiga União Soviética, que entrou em colapso com uma autocontenção historicamente incomum, o império norte-americano provavelmente causará ainda mais estragos no seu caminho para o caixote do lixo da história.

Depois de Gaza e da Venezuela, por exemplo, um lugar onde se pode observar essa escalada dos EUA em acção é Cuba. De facto, Cuba é um exemplo particularmente notório: sob um embargo americano implacável e criminoso por quase dois terços de século, a nação insular caribenha de cerca de 10 milhões de habitantes foi recentemente submetida a um regime ainda mais severo e em constante escalada de sanções e bloqueio, baseado numa ordem executiva absurda emitida por Trump no final de janeiro.

Ao cortar o fornecimento de petróleo, em particular – uma estratégia cruel e desumana facilitada pelo ataque dos EUA à Venezuela há seis meses – Washington deixou claro que o seu objectivo é a coerção brutal: ou Cuba se submete e se torna, na prática, um protectorado dos EUA, como a Venezuela pós-sequestro de Maduro, ou seu povo continuará a sofrer sob um bloqueio letal. Até ao momento, Cuba sofreu o terceiro apagão total em todo o país desde o início do ano, enquanto cortes severos de energia já são uma constante no cotidiano.

Os apagões e cortes de energia são apenas os efeitos mais óbvios daquilo que o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, denunciou correctamente como punição colectiva por meio de uma “guerra multidimensional não convencional que já dura quase sete décadas e se tornou ainda mais cruel e implacável nos últimos sete meses”.

Os cubanos também sofrem com o colapso dos seus sistemas de agricultura e distribuição de alimentos, ambos fortemente afectados pelo bloqueio energético: a falta de gasolina ou diesel impede o uso de máquinas agrícolas e o transporte; a falta de energia eléctrica, por exemplo, impede o funcionamento das cadeias de refrigeração. As colheitas apodrecem nos campos; os agricultores são forçados a abandonar as propriedades.

Enquanto isso, o sector de saúde está empobrecido e paralisado. Cerca de 100 mil cubanos não conseguem receber o tratamento necessário; 11 mil crianças não podem ter as cirurgias de que precisam.

Embora seja impossível obter números exactos, não há dúvida de que a implacável guerra económica de Washington contra Cuba está a causar um número enorme de vítimas. Afinal, é exactamente isso que as sanções e os bloqueios dos EUA sempre fizeram.

Um estudo recente publicado na revista The Lancet concluiu que essas medidas norte-americanas estão associadas a cerca de 564 mil mortes adicionais por ano [em todo o mundo]. Em média, isso é comparável ao número anual de mortes decorrentes de conflitos armados directos. Lembremos que o número apresentado pela Lancet é uma estimativa conservadora, já que o estudo inclui apenas os efeitos das sanções unilaterais dos EUA.

Em Cuba, já é evidente que a mortalidade infantil duplicou. As proporções ainda são diferentes, mas, assim como no genocídio em Gaza, que os EUA têm, na prática, perpetrado em conjunto com Israel, as crianças constituem uma categoria especial de vítimas.

E tudo isso quando Cuba nem sequer possui os recursos naturais que fizeram da Venezuela um alvo da ganância norte-americana. E apesar da corajosa solidariedade de Havana com a Palestina, Cuba não está, ao contrário do Irão, em posição de deter o aliado infernal dos Estados Unidos, Israel.

Como disse a jornalista dissidente americana Abby Martin, a razão mais profunda pela qual Washington está a devastar a vida de mais de 10 milhões de cubanos é uma forma de sadismo: um sadismo imperial que adora fazer das suas vítimas exemplos simplesmente porque pode, e puni-las publicamente pela sua desobediência. Como um chefe da máfia desequilibrado num dia mau, os EUA continuam a oprimir e a bater no povo cubano apenas para mostrar a ele e a todos os outros: é isso que acontece se vocês não obedecerem.

Como demonstrou a cimeira da NATO em Ancara, a Europa da NATO-UE está apenas a redobrar a submissão obsequiosa a Washington. Se a Europa poderia prestar um serviço inestimável ao mundo ajudando a deter os Estados Unidos – em declínio, porém hiperagressivos – é o oposto que está a acontecer: a Europa é também culpada pela crescente criminalidade dos Estados Unidos, já que o seu apoio incondicional – também conhecido como “transferência de encargos” – liberta recursos norte-americanos para que estes possam cometer os seus piores crimes.

Mas para o resto do mundo, Cuba – por menor que seja – é um alerta urgente: enquanto o império norte-americano declina e se desmorona, devemos aprender a unir-nos para conter e, se necessário, combater a sua agressão global. Estamos muito longe dessa estratégia. É uma pena, pois a sobrevivência da humanidade pode muito bem exigir isso.

 

Tarik Cyril Amar é um historiador alemão. Trabalha na Universidade de Koç, em Istambul.

Tradução MV


Envie-nos o seu comentário

O seu email não será divulgado. Todos os campos são necessários.

< Voltar