Movimento contra a guerra nos EUA

Editor / Workers World — 15 Julho 2026

Veteranos contra o fascismo. Não mais guerras dos ricos. Desobedecer a ordens ilegais. Filadélfia, 4 julho

Um nascente movimento de protesto contra o militarismo e a guerra ganha impulso nos EUA. “Fartos de tanta guerra” – queixam-se veteranos e militares no activo, incluindo mulheres que são hoje um quinto das fileiras. A evocação do dia da independência, a 4 de julho, viu desfilar centenas de manifestantes que contestaram as comemorações oficiais promovidas por Trump e por todo espectro do poder político.

A festa do poder exaltou as barbaridades do capital imperialista na forma de feitos “da nação” e da “civilização”. Os manifestantes denunciaram as guerras promovidas pelos ricos, o fascismo que se espalha como mancha de óleo, os assassinatos e as deportações de imigrantes. Activistas políticos, a exemplo das campanhas contra a guerra no Vietname, incentivaram os militares a desobedecer a ordens ilegais e imorais.

Quão vasto pode vir a ser este movimento embrionário, que papel pode ele desempenhar na missão de debilitar o imperialismo e desarmadilhar as suas guerras, é a questão que os militantes políticos mais empenhados colocam.

 

EUA: MILITARES NO ACTIVO E VETERANOS CONTESTAM AS MENTIRAS DO 4 DE JULHO

Joe Piette, Michael Kramer, John Catalinotto, Workers World

No fim de semana do 4 de Julho,  veteranos antiguerra das forças armadas dos EUA e militares no activo saíram à rua na sua mais ampla demonstração de resistência em décadas, como se tivessem sido provocados para a acção pela orgia de militarismo e supremacia branca da actual administração durante as celebrações dos 250 anos da independência dos EUA.

Antes mesmo do fim de semana, o major da USAF Jason Watson, militar no activo com mais de 20 anos de carreira, subiu os degraus do Capitólio, em Washington, em 1 de julho, erguendo uma placa com os dizeres: “Impeach Convict Remove” (Impedir, Condenar, Demitir), em referência ao actual presidente.

Em 4 de julho, em Filadélfia, a coligação Veterans Against Fascism organizou centenas de veteranos e militares no activo que desfilaram em parada sob o lema “Independence from Billionaires” (Independência dos bilionários). Os participantes afirmaram que foi o maior protesto especificamente de veteranos que presenciaram desde os tempos da guerra contra o Vietname. E um protesto no qual ouviram crescente insatisfação entre os militares no activo.

A terceira acção importante decorreu a 7 de julho, em Nova Iorque. Organizadores do Veterans For Peace, Fellowship of Reconciliation e Center on Conscience and War distribuiram panfletos aos milhares de marinheiros presentes na cidade durante a Fleet Week informando-os sobre como solicitar o estatuto de objector de consciência ou romper contratos de alistamento, e prestando-lhes  aconselhamento jurídico.

As perguntas levantadas por activistas veteranos de longa data nesses protestos são: Quão difundido está o descontentamento? A que conduzirá isso? Quando surgirá a resistência aberta? A participação em Filadélfia indica crescente agitação nas fileiras. O que podem os civis antiguerra fazer para apoiar os resistentes dentro das forças armadas?

Filadélfia contra a guerra

Opositores das deportações em massa, dos deslocamentos forçados, da crise climática e das guerras internacionais, em grupos locais e nacionais, organizaram o evento como contra-programa ao 250.º aniversário oficial da assinatura da Declaração de Independência.

Gritando “Chega de guerras dos ricos”, centenas de veteranos e militares no activo, vindos de vários pontos do país, marcharam com as famílias mais de quilómetro e meio em Filadélfia no 4 de julho sob uma onda de calor.

Dezenas de cartazes e faixas visavam as guerras eternas dos EUA, atacavam os sequestros do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega) e o fascismo. Militares que condenam o apoio dos EUA ao genocídio na Palestina marcharam lado a lado com veteranos das guerras dos EUA no Afeganistão, Iraque e Vietname.

Um breve comício ocorreu perto do Independence Hall, onde a Declaração de Independência foi assinada há 250 anos. Representantes das organizações levantaram a necessidade de o pessoal militar, activo ou não, se manifestar contra guerras injustas e ataques aos direitos democráticos. Os oradores enfatizaram o direito dos militares no activo a recusarem ordens ilegais ou imorais.

Dois testemunhos

Joe Piette, veterano da guerra do Vietname, e Michael Kramer, que serviu no exército israelita antes de se tornar activista em apoio à libertação da Palestina, estiveram no protesto de 4 de julho. Ambos actuaram em movimentos de veteranos antiguerra nos EUA.

Joe Piette. “Em primeiro lugar, o ambiente lembrou-me o protesto de uma semana dos veteranos no Mall em Washington em abril de 1971. Este protesto não foi tão massivo ou confrontacional, mas o simples facto de os participantes se verem juntos neste evento parecia dar a todos mais confiança – parecia que havia muito potencial para acções futuras.”

“Conversei com um membro da Guarda Nacional no activo. Estava com cerca de uma dúzia de outros militares entre as faixas. Afirmou que as pessoas não dizem nada quando estão fardadas, mas conversam fora do serviço. Destacou que o genocídio em Gaza o mudou. Não quer mais estar num exército que apoia o genocídio, e está a tomar medidas para se desligar.”

“Uma fuzileira naval que deixou o serviço após 13 anos usava um kefiyeh. Disse que voou da Califórnia de propósito para participar nesta marcha. Estava cansada de ser a inimiga onde quer que fosse enviada. Foi um processo de aprendizagem lenta. Finalmente, já não fazia sentido para ela permanecer no exército.”

“Um veterano disse que a população de qualquer país para o qual o Exército o enviou – Iraque e Afeganistão – o odiava. Sentia que estava do lado errado. Eu disse-lhe que, desde o Vietname, presumo que os EUA estão sempre do lado errado. Ele concordou.”

“E essa foi a resposta geral que obtive de outros veteranos. As guerras eternas cansaram-nos, e eles já não acreditam nas mentiras que lhes contaram para justificar porque foram enviados para esses lugares.”

Michael Kramer. “Duas ou três coisas impressionaram-me na marcha e no comício. Uma, foi que os participantes eram mais jovem do que na maioria das actividades de veteranos que frequentei ultimamente. Estas últimas tinham participação principalmente de veteranos do Vietname, menos de veteranos das guerras do Golfo ou do Afeganistão, que são de 25 a 35 anos mais novos.”

“Também, no tempo do Vietname, havia uma proporção maior de homens. Muitas das organizadoras da marcha em Filadélfia eram mulheres. As forças armadas dos EUA actuais são compostas por cerca de 20% de mulheres e têm mais de 15% desde 2010. Isso reflectiu-se na composição dos manifestantes.”

Os média locais ignoraram

Os meios de comunicação empresariais de Filadélfia não deram publicidade ao protesto. Talvez isso indique que há receio por parte do establishment de encorajar uma área tão essencial de resistência. Para as pessoas do movimento antiguerra, foi um impulso na direcção certa.

 

Tradução MV. Texto original resumido e editado

 


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