Povos árabes perante a mesma escolha: genocídio ou dignidade

Editor / Tlaxcala — 8 Julho 2026

“Apoiamos todas as formas de luta que se opõem à guerra imperialista”. Manifestação de mulheres palestinas

O manifesto de intelectuais árabes que divulgamos merece atenção e destaque em vários aspectos. Primeiro, pela denúncia do papel de Israel no Médio Oriente: os planos de um “Grande Israel” não são uma mera ambição de Netanyahu e da sua pandilha de torcionários; são um núcleo da estratégia do imperialismo norte-americano para assegurar o domínio na região. Não é sem razão que Trump afirma “Quem manda aqui sou eu”.

Segundo, pelo apoio incondicional a todas as formas de resistência que palestinos, libaneses e restantes árabes ponham em campo, estando em causa a legítima defesa contra uma ocupação colonial e uma guerra imperialista.

Terceiro, pela denúncia da frouxa solidariedade do Ocidente, sempre escudada numa linguagem de conveniência que não fira os interesses das potências norte-americana e europeias.

Quarto, pela acusação firme de traição dirigida contra as classes dirigentes de vários países árabes quando pretendem acertos de conciliação com Israel ou os EUA em prejuízo da liberdade e da soberania das próprias populações.

Finalmente, pelo destaque que dá à necessidade de conjugação de esforços, de um verdadeiro internacionalismo militante, entre os povos atingidos pelas agressões imperialistas.

 

MANIFESTO DE INTELECTUAIS ÁRABES CONTRA A NORMALIZAÇÃO COM “ISRAEL” E PELA AFIRMAÇÃO DO DIREITO DOS POVOS ÁRABES À AUTODETERMINAÇÃO

Quando o povo um dia desejar viver
O Destino terá de responder
As trevas terão de dissipar-se
As correntes terão de quebrar-se
Abu El Kacem Chebbi

Nós, intelectuais, académicos, artistas e activistas do mundo árabe e da diáspora, tomamos a palavra.

Fazemo-lo hoje, quando o sangue do nosso povo corre em torrente sob as bombas israelitas e ocidentais, porque uma outra guerra está a ser travada contra ele, uma guerra mais silenciosa, mas igualmente mortal: a guerra da normalização com “Israel”, que está a envenenar a nossa região, decretada por líderes corruptos contra a vontade dos seus povos, contra a sua memória, contra o seu sangue derramado.

Dos Acordos de Abraão ao acordo-quadro assinado entre o Líbano e “Israel” em Washington, em 26 de junho de 2026, a traição agora é um acto em série. Denunciamo-lo com a maior firmeza.

Devemos chamar as coisas pelos seus nomes: este acordo não é um tratado de paz entre iguais, é a formalização de uma relação de submissão, demonstrando total desprezo pelos sacrifícios feitos por grande parte do povo libanês na luta pela sua terra e pela sua dignidade. Enquanto as autoridades trocavam apertos de mão sob as objectivas das câmaras americanas, o exército israelita atacava uma vez mais o território libanês no próprio dia da assinatura. Esse desfasamento por si só diz muito sobre a verdadeira natureza do texto assinado: uma capitulação envolta na retórica da soberania.

Os dirigentes israelitas afirmam categoricamente: o seu projecto estende-se além do Hezbollah e da fronteira sul do Líbano. O que está em jogo é algo mais antigo. É um “Grande Israel”, que ultrapassa as fronteiras de 1948 e invade o Líbano, a Jordânia e a Síria. Um “Grande Israel” que revive o sonho de Jabotinsky de transformar o projecto sionista numa potência regional que intimida os vizinhos, se apropria dos seus recursos e redesenha fronteiras à vontade. E em cada etapa, a mesma palavra reaparece para encobrir essa expansão: autodefesa. Como se conquista pudesse ser sinónimo de autodefesa.

As sucessivas guerras que assolam a região – Palestina, Líbano, Iraque, Sudão, Líbia, Síria, etc. – não são uma série de crises isoladas. Fazem parte de uma longa história colonial: do Congresso de Berlim (1878) ao Acordo Sykes-Picot (1916) e à Declaração Balfour (1917), até o sequestro das revoluções da Primavera Árabe de 2011, a mesma lógica imperialista está em acção: entregar as nossas terras e os nossos direitos aos apetites vorazes das potências ocidentais.

Hoje, uma vez mais, o objectivo é fragmentar para dominar. Hoje, uma vez mais, a nossa aniquilação está em jogo. Normalizar não é paz, é decidir do nosso esmagamento.

Neste projecto de aniquilação, “Israel” desempenha um papel estratégico de primeiro plano. Está na articulação de um imperialismo que, forjado nesse longo século XIX, passa por uma mudança com a cumplicidade de alguns dos nossos Estados. Os Acordos de Abraão, que normalizaram as relações entre cinco países árabes e “Israel”, fazem parte deste novo momento imperial que, sob o disfarce da integração económica, busca, a todo custo, salvaguardar a vantagem hegemónica dos EUA na região.

Este é também o objectivo do projecto IMEC – Corredor Económico Índia-Oriente Médio-Europa – anunciado no G20 em Nova Delhi, em setembro de 2023: consolidar a normalização das relações entre “Israel” e os Estados do Golfo e oferecer uma alternativa à Rota da Seda chinesa. “Israel” é, portanto, o nó geográfico indispensável do corredor: a normalização não é um fim em si, mas a condição infraestrutural para a hegemonia dos EUA na região.

Genocídio ou normalização, dois caminhos para o mesmo objectivo: transformar a região árabe em um mercado livre de bens e de identidades.

Diante dessa realidade, só uma conclusão se impõe: os Estados-nação da região compartilham não apenas uma língua, uma cultura e uma história, mas, sobretudo, um destino comum estruturado pelos mesmos mecanismos de subjugação e pelas mesmas aspirações de libertação. O lema tunisino “Tunísia livre e Jerusalém livre” ou o dos manifestantes egípcios e marroquinos que brandiam o lema “Palestina é uma causa nacional”, deixam isso claro: a condição palestina é a condição de todos os povos da região, em diferentes graus.

Nós, signatários deste texto, conscientes da ameaça existencial que o projecto imperialista do “Grande Israel” representa para toda a região árabe, recusamos permitir que o esgotamento dos nossos povos, resultante de dois séculos de guerra perpétua, bloqueio e destruição, seja apresentado como uma escolha livre por regimes árabes traidores ao serviço dos seus mestres ocidentais. Recusamo-nos a permitir que uma dinâmica de poder baseada no genocídio e na repressão de toda a resistência seja celebrada como paz.

Nós, signatários deste texto, herdeiros de uma longa história de resistência dos povos árabes contra o colonialismo e o sionismo, afirmamos neste manifesto:

Primeiro: a recusa de uma paz sem reciprocidade e de qualquer forma de normalização com o Estado inimigo “Israel”.

Os Acordos de Oslo ensinaram-nos esta lição: uma paz negociada sob coacção militar e económica, em que uma das partes impõe à outra o cronograma, as condições e garantias de segurança, não é paz. É uma rendição disfarçada de linguagem diplomática, é a garantia, nos factos, de uma maior fragmentação e de uma colonização israelita consolidada.

Denunciamos a cumplicidade de uma parte das elites políticas, económicas e intelectuais árabes com o regime de subjugação imposto pelo imperialismo ocidental, com desprezo pelos sacrifícios dos povos da região.

Dirigimo-nos, em particular, aos líderes árabes que, sob a capa duma realpolitik, escolheram o caminho da subjugação em detrimento do da dignidade. Exigimos o fim de todos os acordos de normalização. Lembramos que a legitimidade popular de qualquer poder na nossa região também se mede pela sua capacidade de não trair, por meio de concessões diplomáticas, os princípios que proclama.

Das lutas anticoloniais às revoluções árabes, a mesma lição está inscrita no ADN da região: nenhum regime colaboracionista sobrevive ignorando as aspirações de emancipação do seu povo.

Segundo: a denúncia do projecto “Grande Israel”.

Tomamos nota das declarações oficiais israelitas que anunciam abertamente a ambição predatória e expansionista do projecto colonial israelita. Quando um ministro israelita declara que o Rio Litani deve tornar-se a nova fronteira com o Líbano, quando outro afirma ter planos de colonização para o sul do Líbano, não estamos perante meros lapsos de língua: é a admissão de uma doutrina.

Denunciamos com a maior firmeza essas ambições expansionistas e reiteramos que nenhum acordo será viável enquanto essa máquina de guerra genocida não for descartada de forma explícita e permanente. Nenhum acordo poderá ser alcançado sem a libertação de todo o território ocupado e sem a afirmação do direito de retorno de todos os refugiados palestinos de 1948 e 1967.

Terceiro: a afirmação do direito dos povos árabes à autodeterminação como um princípio inalienável.

Reiteramos aqui a importância de respeitar este direito, consagrado na Carta das Nações Unidas e no direito internacional, que reconhece a legitimidade da luta armada no contexto da dominação colonial e da ocupação estrangeira. Este direito está intrinsecamente ligado à dignidade dos povos colonizados que lutam pela sua sobrevivência. Nenhuma transação geopolítica pode miná-lo. Nenhum equilíbrio de poder, seja hoje ou ontem, que nos seja desfavorável, pode diminuí-lo.

Reafirmamos este direito para o povo palestino, para o povo libanês e para todos os povos árabes que enfrentam a mesma escolha entre o genocídio e a dignidade.

Saudamos a coragem daqueles que, honrosamente, escolheram resistir e confrontar directamente a máquina de destruição israelo-ocidental.

Quarto: a rejeição da solidariedade internacional puramente simbólica.

A solidariedade internacional contemporânea, sobretudo a nível governamental, refugiou-se em grande medida em fórmulas que não custam nada e não comprometem nada: condenações diplomáticas sem consequências, ajuda humanitária que alivia o sofrimento sem nunca abordar as suas causas estruturais, campanhas de sensibilização que informam sem transformar.

Estes gestos não são inúteis, mas permitem que os Estados e a opinião pública sosseguem as suas consciências sem nunca desafiar a ordem imperialista que produz a opressão.

Apoiar um povo ocupado apenas de modo a não incomodar ninguém é apoiar o seu sofrimento, não a sua libertação. É aceitar que os oprimidos esperem, pacientemente, e negoceiem interminavelmente com aqueles que os oprimem, enquanto o mundo observa com simpatia, sem nunca estar disposto a pagar o preço político do apoio genuíno à sua emancipação pelos meios que considera necessários.

Quinto: a responsabilidade do intelectual árabe

Apoiamos a reivindicação feita por Ghassan Kanafani e Bassel Al-Araj: os intelectuais de sociedades colonizadas ou dominadas não podem refugiar-se numa neutralidade de fachada que, na realidade, serve sempre os interesses da parte mais forte.

O nosso papel não é traduzir a revolta do nosso povo para uma linguagem aceitável aos opressores. Não é polir, suavizar ou tornar apresentável o que deve permanecer uma insurreição. O nosso papel é levá-la adiante, defendê-la, com todas as ferramentas à nossa disposição e, acima de tudo, rejeitando qualquer normalização, seja intelectual, cultural ou política.

Denunciamos a guerra imperialista permanente que assola esta região. Apoiamos integralmente todas as formas de resistência que se opõem a ela. O que queremos não é um armistício disfarçado de paz, uma pacificação que silenciosamente nos desapropria. O que queremos é a libertação total e a plena soberania: sobre as nossas terras, os nossos recursos, os nossos modos de produção. Nada menos que isso.

Nós, intelectuais e activistas árabes, assinamos este manifesto conscientes de que o silêncio, num momento em que o futuro de toda uma região está a ser reavaliado, é em si uma forma de abdicação. Escolhemos não permanecer em silêncio. Exigimos o fim, de uma vez por todas, das negociações indignas e dos compromissos vergonhosos que legitimam o inaceitável, e a identificação clara da principal ameaça: o projecto expansionista do “Grande Israel”, que constitui o núcleo estratégico do imperialismo ocidental.

Adoptamos a postura de recusa radical demonstrada pelas diversas formas de resistência no mundo árabe, a única capaz de garantir a dignidade individual e colectiva dos povos da região à “distância zero” da máquina de destruição, no ponto onde o apagamento é mais intenso.

A Argélia venceu, a Palestina vencerá.

Signatários iniciais

Héla Yousfi, académica, Tunísia
Layal Ftouni, académico, Líbano
Noureddine Amara, académico, Argélia
Omar Abdel Jawad, académico, Palestina
Mounira Khayat, académica, Líbano
Ghassen Bem Khalifa, jornalista, Tunísia
Hadeel Karkar, pesquisador, Palestina

 

Notas

Texto publicado por Fausto Giudice, Tlaxcala, 7 julho 2026

Zeev Jabotinsky (1880-1940), líder sionista. Teve papel importante na fundação do Estado de Israel e nos massacres da população palestina. Um dos pais ideológicos do actual regime israelita.

Ghassan Kanafani (1936–1972). Escritor, jornalista, romancista palestino. Porta-voz da Frente Popular para a Libertação da Palestina. Assassinado em Beirute pela Mossad.

Bassel Al-Araj (1984-2017). Pensador, escritor, farmacêutico palestino. Activista de campanhas pela mobilização popular contra a ocupação. Escreveu sobre a história da revolução palestina. Morto em confronto, sozinho, com tropas de ocupação israelitas num tiroteio em Al-Bireh.

Tradução e notas MV


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