O lado oculto do caso Epstein

Editor / Mustafa Fetouri — 18 Junho 2026

Líbia. Cidadae de Sirte bombardeada pela NATO, 2011

O caso Jeffrey Epstein tem sido exuberantemente tratado como um escândalo de costumes. A falta de escrúpulos, a perversão moral, o completo desprezo pelos direitos das pessoas comuns fica bem demonstrado pelo comportamento da elite podre-de-rica, dos políticos venais, da aristocracia caduca que se congregava em torno de Epstein. Mas qualquer coisa falta para que esta história tenha pleno sentido.

E se as ligações entre aquela gentalha, para lá das farras e do sexo predatório, envolvesse os grandes interesses da poderosa finança? E se isso exigisse os serviços dos meios da espionagem de Estado ou privada? E se o centro das atenções da camarilha não fosse propriamente a “Ilha do Pecado”, mas o esbulho em escala planetária à margem de qualquer controlo legal ou conhecimento público?

É este o tipo de elo que falta na cadeia para se perceber por que razão gente da mais poderosa de todo o mundo se deixou voluntariamente aprisionar numa teia de alta vulnerabilidade. O benefício tinha de valer o risco.

O académico e jornalista líbio Mustafa Fetouri denuncia uma face oculta do caso: o saque, orquestrado pela pandilha de Epstein, dos ativos de Estado da Líbia na sequência do assassinato de Muammar Gaddafi. As provas que apresenta não só respondem às interrogações acima feitas, como comprovam a estreita ligação e a coordenação perfeita entre a operação político-militar de 2011 e os abutres que tinham Epstein como testa de ferro. É um começo para uma outra história.

ESQUEÇAM A ILHA: A GUERRA SECRETA DE JEFFREY EPSTEIN PELOS MILHARES DE MILHÕES DA LÍBIA

Novos documentos do Departamento de Justiça dos EUA revelam um plano de 2011 de Epstein e de antigos agentes secretos para deitar a mão a 70 mil milhões de dólares em ativos líbios congelados

Mustafa Fetouri, RT, 12 março 2026

Enquanto as bombas da NATO ainda caíam sobre Trípoli no verão de 2011, um tipo diferente de predador pairava sobre a capital líbia a partir do sossego de uma moradia em Manhattan. Documentos do Departamento de Justiça dos EUA recentemente divulgados em 2026 revelam que Jeffrey Epstein, o financeiro desonrado e alegado agente dos serviços secretos israelitas, também era um abutre geopolítico à procura de se alimentar dos restos do Estado líbio.

A correspondência privada de Epstein revela um cálculo frio para contornar o direito internacional e aceder aos 32,4 mil milhões de dólares em ativos líbios congelados nos EUA. A tragédia do povo líbio apresentava-se como uma oportunidade comercial.

Rentabilizar o caos

A 18 de setembro de 2011, enquanto as ruas da Líbia ainda estavam mergulhadas no caos, um plano clandestino estava a ser elaborado em Nova Iorque para capturar a riqueza soberana do país. Num email intitulado “New York – Optics are important” (Nova Iorque – A imagem é importante), o associado de Jeffrey Epstein, Greg Brown, pressionou o financeiro a agendar com urgência uma reunião de alto nível com futuros líderes líbios durante a Assembleia Geral da ONU. Os alvos não eram jogadores secundários; entre eles estavam o Dr. Mohamed Magariaf, que em breve se tornaria chefe de Estado da Líbia, e os seus principais conselheiros, Dr. Noah e Fadel Hshad.

Brown identificou este trio como os homens que em breve deteriam o mandato para negociar com gigantes globais como a Goldman Sachs. O prémio era um impressionante valor de 40 mil milhões de dólares em ativos da Autoridade de Investimento da Líbia (LIA) investidos em toda a África Subsaariana, para além dos montantes congelados nos bancos dos EUA. Ao oferecer-se para “identificar, gerir e monetizar” esses fundos, o círculo de Epstein procurou posicionar-se como o guardião final da economia líbia do pós-guerra – uma jogada que Brown garantiu gerar centenas de milhões para os seus próprios bolsos.

A operação foi, na verdade, um esforço de inteligência [espionagem] privatizada destinado a explorar o vazio do Estado líbio. Outros emails do mesmo período revelam que a rede de Epstein não funcionava isoladamente, revelando que antigos operacionais do MI6 britânico e da Mossad israelita estavam “dispostos a ajudar” na caça aos milhares de milhões da Líbia. Esta aliança obscura via os 32,4 mil milhões de dólares em fundos congelados nos EUA – bem como o portefólio africano adicional de 40 mil milhões – não como riqueza soberana protegida, mas como uma “oportunidade significativa” de obtenção de ganhos na base de honorários de sucesso [contingency-fee, uma percentagem sobre os ganhos obtidos].

Ao aproveitar a reputação de “destemido” que Greg Brown atribuía a Epstein, o grupo pretendia convencer a nascente liderança líbia de que só a sua rede de espiões, convertidos em solucionadores de problemas, tinha o “poder” para navegar na teia das finanças globais e recuperar os ativos “roubados” do país.

Capturar os fundos estatais líbios

Para justificar esta intervenção financeira sem precedentes, a rede de Epstein baseou-se numa narrativa cuidadosamente construída que retratou toda a riqueza líbia no exterior como “roubada e apropriada” pela família Gaddafi – uma alegação que nunca foi provada, 15 anos depois. Isto foi uma deliberada caracterização distorcida; na realidade, estes ativos eram as participações legítimas dos fundos estatais líbios, investidos em ações de topo como a Pearson e gigantes bancários globais. Ao enquadrar um portfólio estatal diversificado como “produto de crime”, a gente de Epstein e os seus associados da inteligência procuraram uma brecha legal para contornar as sanções da ONU e extrair uma taxa, em honorários de sucesso, sobre a riqueza que pertencia ao povo líbio – e não a uma única família.

Esta estratégia de criminalizar os bens do Estado foi particularmente agressiva em todo o continente africano. Durante o caos de 2011, rumores persistentes (frequentemente alimentados pelos serviços de inteligência ocidentais) retratavam a Libya Africa Investment Portfolio como o fundo secreto pessoal de Gaddafi, em vez de um veículo legítimo de desenvolvimento.

Esta narrativa atingiu o seu auge com alegações envolvendo o antigo Presidente sul-africano Jacob Zuma. Surgiram alegações de que Zuma teria recebido 30 milhões de dólares em dinheiro (e até cofres de ouro e diamantes) do falecido líder líbio para “guarda segura”. Embora Zuma tenha negado repetidamente e sarcasticamente  estas alegações, salientando que dificilmente teria dificuldades com despesas legais se possuísse esta fortuna, a história fantasma dos “Triliões de Gaddafi” servia um propósito vital. Permitiu que intervenientes-sombra como Epstein tratassem os investimentos soberanos do continente como “tesouro desaparecido” disponível para ser resgatado, em vez de ativos estatais que deveriam ter permanecido sob a proteção do direito internacional.

Sob a capa da “transição democrática”

O verdadeiro perigo da peça “New York Optics” de Epstein foi a tentativa de formalizar uma tutela oculta sobre as instituições soberanas da Líbia antes mesmo de estas poderem ser reconstruídas. Ao visar os indivíduos encarregados de negociar o acordo da Goldman Sachs, Epstein procurava estabelecer um precedente em que facilitadores privados inimputáveis gerissem as disputas legais do país.

Isto foi um ataque direto à soberania financeira da Líbia, após o ataque à sua soberania política pela invasão militar da NATO. Enquanto a missão das Nações Unidas (UNSMIL) e a comunidade internacional falavam em “transição para a democracia”, os documentos de Epstein revelam uma realidade paralela: uma corrida para garantir que a LIA permanecesse uma caixa negra controlada por intermediários sediados em Manhattan.

Esta interferência contribuiu para anos de litígios e divisões internas que mantiveram milhares de milhões de dólares em riqueza estatal efetivamente paralisados – deixando o povo líbio a pagar o preço de um processo de “recuperação” desenhado por predadores para predadores.

O forjado “tesouro de Gaddafi”

Talvez a acusação mais contundente a esta intervenção seja que ela foi construída sobre um fantasma financeiro. Durante 15 anos, a comunidade internacional tem sido presenteada com histórias dos “biliões escondidos de Gaddafi” – uma narrativa que a rede de Epstein explorou avidamente para justificar os seus serviços de “recuperação”. No entanto, a realidade de 2026 mantém-se clara: nenhuma conta bancária pessoal ou reserva secreta pertencente ao falecido Muammar Gaddafi foi alguma vez encontrada. Os milhares de milhões congelados no Ocidente são, e sempre foram, os ativos institucionais documentados da LIA. A LIA foi criada em 2006 para, entre outras carteiras, investir dinheiro do petróleo em benefício de famílias pobres do país.

Ironicamente, enquanto o Ocidente retratava o falecido Gaddafi como um homem a apropriar-se da riqueza da nação, o registo histórico mostra uma intenção muito diferente. Já em fevereiro de 2009, Gaddafi defendeu publicamente um plano radical para desmantelar a corrupção administrativa do Estado, distribuindo diretamente a riqueza petrolífera ao povo líbio. Defendeu que a riqueza deveria ser colocada nas mãos dos cidadãos para gerir os seus próprios assuntos – uma proposta que enfrentou forte resistência da própria burocracia que mais tarde colapsou em 2011.

Ao apresentar este defensor da distribuição de riqueza como um ladrão comum, os associados de Epstein criaram a cobertura moral necessária para visar o capital soberano do Estado. Substituíram um plano de empoderamento nacional por um esquema de saque privado.

Pilhagem sistemática na Líbia “libertada”

O interesse predatório de figuras como Epstein era apenas a ponta de um icebergue muito maior numa paisagem pós-2011 marcada por pilhagens sistemáticas patrocinadas pelo Estado. Enquanto a comunidade internacional permanecia publicamente fixada em ativos estrangeiros “congelados”, a realidade interna era uma violenta hemorragia de riqueza nacional. Segundo relatórios do Gabinete de Auditoria da Líbia e de vários organismos de fiscalização da transparência, estima-se  que entre 100 mil milhões e 200 mil milhões de dólares tenham desaparecido num buraco negro de corrupção, desperdício institucional e roubo direto desde a queda do Estado em 2011.

Esta corrupção não é apenas um fracasso interno; é alimentada pela própria falta de supervisão que a “libertação” da Líbia pelo Ocidente permitiu – e que os esquemas de “recuperação privada” de Epstein procuraram explorar. Um dos principais motores deste roubo em grande escala é o Banco Central da Líbia e o seu conhecido sistema de Cartas de Crédito. Os especialistas argumentam que este mecanismo foi usado como arma para desviar milhares de milhões através de importações fraudulentas – em que se garante moeda forte a taxas oficiais para remessas de “mercadorias” que muitas vezes não existem. A escala desta drenagem é impressionante: num único período de 13 semanas em 2021, foram emitidos 2,5 mil milhões de dólares em cartas de crédito, com uma grande parte dessa riqueza simplesmente a desaparecer na economia paralela.

Como fabricar um “Estado falhado”

É um registo histórico que a Líbia, como muitos países em desenvolvimento, enfrentou desafios significativos de corrupção antes de 2011. No entanto, o subsequente vazio de poder e a fragmentação constitucional transformaram um problema numa catástrofe sistémica. Em fevereiro de 2026, o Índice de Perceção da Corrupção da Transparência Internacional classifica a Líbia em 177.º lugar entre 182 países. Com uma pontuação de apenas 13 em 100, a Líbia é agora oficialmente reconhecida entre as seis nações mais corruptas do mundo, atolada a par de estados devastados pela guerra como a Síria e o Iémen.

Esta transição de um estado funcional, ainda que imperfeito, para um caso atípico global em termos de corrupção é a prova definitiva do fracasso da intervenção de 2011. O “sumo” que o círculo de Epstein procurou extorquir deixou as instituições do país esvaziadas, colocando o povo líbio a habitar um dos ambientes financeiramente mais sem lei da história moderna.

Tradução e subtítulos MV


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