A esquerda e os desafios da situação política
Colectivo Mudar de Vida — 18 Junho 2026
Com o texto que a seguir se publica, “Por uma Plataforma Anticapitalista”, o Colectivo Mudar de Vida lança um convite ao debate sobre a realidade actual da esquerda e sobre as respostas a dar à situação nacional. Em que estado se encontram as lutas laborais e populares? Como reanimar o confronto social anticapitalista? O que está ao alcance da esquerda combativa? É possível conjugar esforços? Qual a base política para uma plataforma comum de intervenção?
POR UMA PLATAFORMA ANTICAPITALISTA
Expedições militares e sanções patrocinadas pelo imperialismo norte-americano semeiam morte, lançam sociedades estáveis no caos, ameaçam arrasar civilizações, desarticulam a economia global, abeiram o mundo de uma guerra planetária. A bestialidade manifesta-se sem véus. Nada de construtivo ou de progressista resulta da acção do capitalismo imperialista – apenas destruição e retrocesso. Só o sacrifício extremo dos povos agredidos lhe faz frente. Como reunir as forças que ponham termo à barbárie?
Os poderes dominantes na Europa acompanham esta via reaccionária, trituradora de recursos, degradando as condições de vida dos povos do continente. As massas trabalhadoras e pobres, desprovidas de rumo e de organização próprios, mostram-se incapazes de empreender uma resposta política independente. Muitas delas são vulneráveis à demagogia nacionalista, xenófoba e racista da direita fascista. Como libertar os povos das guerras da NATO, das ordens de Washington ou de Bruxelas? Como travar a decomposição social e o rebaixamento das condições de vida? Como enfrentar o novo fascismo?
Em Portugal, a esquerda que se move nas baias do regime esgotou as armas da luta parlamentar. Nenhuma alteração na política nacional favorável aos trabalhadores se mostra possível no quadro de forças existente. As empresas e a rua permanecem como o terreno historicamente mais favorável para a luta das classes trabalhadoras. Como reerguer o combate anticapitalista?
Estes são desafios a que a esquerda combativa tem de dar resposta.
- Quais os traços marcantes da situação política nacional?
A situação actual do país é fruto do declínio da luta das classes trabalhadoras. Na última década e meia, desde o pico das grandes acções contra o governo da troika até hoje, o movimento popular e laboral perdeu força e desarticulou-se.
A esquerda sofre os efeitos do abandono a que votou a luta de classes enquanto pedra de toque da intervenção política. Em nome de supostos interesses gerais (nacionais, democráticos ou outros), a esquerda desvalorizou o combate pelos interesses políticos próprios das classes trabalhadoras, demarcados dos das restantes classes. Instalou-se a ideia de que denunciar o capitalismo como sistema social e apostar na luta de classes contribuiria para estreitar o campo das acções populares, e, com isso, a base eleitoral da esquerda parlamentar. Os frutos estão à vista.
A direita cavalga o declínio e o abandono da luta de classes. Foi no espaço deixado vago pela quebra do movimento popular e laboral e da esquerda que cresceram a direita, a extrema-direita e a arrogância do patronato. É neste quadro que as alianças com a extrema- -direita, a tolerância com a propaganda fascista, a degradação do Estado Social, a revisão das leis laborais, a ameaça de alteração constitucional, devem ser entendidas.
Os resultados eleitorais recentes são espelho do balanço de forças entre o capital e o trabalho. Decorrentes de um confronto viciado e desigual, mostram que, com a presente relação de forças sociais, não é possível impor uma governação favorável aos trabalhadores pela simples via parlamentar.
- Que resposta tem de ser dada?
Responder à situação exige reanimar o combate social anticapitalista. Só o confronto classe-contra-classe pode conferir identidade às lutas das massas trabalhadoras e reunir à sua volta forças capazes de travar o crescimento da direita e vergar a ditadura patronal.
Reerguer a luta contra o capital não é uma utopia, nem reduz o campo da luta de massas. Pelo contrário, é a condição de fazer despertar o sentido de classe dos trabalhadores, de os colocar na dianteira da acção política e de alargar a outras camadas sociais o campo da resistência popular. Disso depende pôr em marcha uma política dos trabalhadores, para os trabalhadores, pelos trabalhadores.
- O que pode fazer a esquerda combativa?
Não existem, no estado atual da esquerda anticapitalista, dividida e minoritária, condições para definir um programa político unificador com o propósito de inverter o rumo seguido pelo país. Mas é possível estabelecer princípios pelos quais uma intervenção anticapitalista se deva guiar, a fim de ajudar a reerguer a luta dos trabalhadores na base dos seus interesses de classe – num movimento de acumulação de forças.
Neste sentido, estamos abertos a colaborar em iniciativas diversas (debates, sessões públicas, manifestações, protestos, divulgação de propaganda) com vista a incentivar nas classes trabalhadoras a criação de uma corrente de pensamento e de intervenção política anticapitalista.
Nesse mesmo sentido, convidamos movimentos de base popular, organizações, grupos, indivíduos, com linhas de pensamento ou de acção comuns ou convergentes, a cooperar no mesmo propósito.
E avançamos a nossa contribuição para uma plataforma de intervenção.
- Termos de uma plataforma anticapitalista
– O conflito entre as diferentes classes sociais na luta pela existência determina toda a vida da sociedade, no dia a dia, nos grandes como nos pequenos acontecimentos.
– Os interesses próprios das classes trabalhadoras têm de ser demarcados, a cada momento, dos interesses das restantes classes. Será dessa demarcação que resultará a afirmação de uma política própria dos trabalhadores.
– Os trabalhadores imigrados pertencem às classes trabalhadoras do país. São o seu sector mais explorado e discriminado. Integrá-los nas movimentações dos trabalhadores nacionais (desde a sindicalização à participação em lutas) não só é uma medida obrigatória de solidariedade de classe, como é condição para o êxito da luta contra a exploração.
– A actividade sindical deve ser incentivada como uma forma de democracia do trabalho visando unir a massa trabalhadora na defesa dos seus interesses próprios contra o patronato, mas também como um meio de levá-la a encarar o fim do salariato e da exploração.
– A defesa dos interesses dos trabalhadores (materiais, culturais, espirituais) tem de ser conduzida como um combate contra o capitalismo, o qual, pela sua própria natureza, nega por sistema esses mesmos interesses.
– Todas as lutas particulares nascidas das contradições sociais da nossa época (habitação, saúde, ambiente, igualdade de género, minorias…) devem ser encaradas e conduzidas como partes do combate geral ao capitalismo.
– O Estado e as suas instituições (governo, presidência da República, autarquias, parlamento, polícias, forças armadas, tribunais, eleições…) são órgãos de imposição do poder das classes dominantes sobre as classes trabalhadoras.
– O regime democrático realmente existente tem de ser considerado segundo a sua natureza de classe: burguesa e antipopular. A realidade mostra que a democracia, dita “representativa”, em nada representa os interesses populares, configurando de facto um monopólio das classes dominantes de que as classes trabalhadoras estão arredadas.
– A NATO e a UE têm de ser tratadas como organizações do capital imperialista, promotoras de guerras, consumidoras de recursos sociais gigantescos, contrárias em absoluto aos interesses dos povos e das classes trabalhadoras – e, por isso, insusceptíveis de qualquer reforma ou democratização.
– O bloco imperialista liderado pelos EUA – integrando a União Europeia, o Japão e demais associados – é o principal obstáculo à independência e à liberdade dos povos e à emancipação das classes trabalhadoras de todo o mundo, e como tal deve ser combatido.
– A tarefa actual que se coloca à esquerda é contribuir para abater este imperialismo realmente existente: o que, nos últimos 80 anos, ganhou corpo no capitalismo monopolista dos EUA e aliados. A guerra na Ucrânia, o genocídio na Palestina, a destruição da Síria, o ataque à Venezuela, as ameaças a Cuba, a agressão ao Irão e ao Líbano – acções todas elas preparadas, municiadas ou executadas pelos EUA, com a conivência dos aliados – são provas gritantes de que o banditismo imperialista não obedece a limites morais, legais ou humanitários. Apenas a força dos trabalhadores e dos povos o pode deter.
– O capitalismo só pode ser encarado como uma organização social retrógrada, senil, geradora de desigualdades, historicamente ultrapassada que tem de ser superada por uma organização social em que prevaleçam o governo próprio e os interesses dos trabalhadores – um regime de socialismo proletário.
Colectivo Mudar de Vida
fevereiro-junho 2026
Comentários dos leitores
•MANUEL BAPTISTA 18/6/2026, 19:50
São princípios, posições muito gerais, cuja formulação pode ser mais adequada, ou que eventualmente, possam necessitar de alguma discussão para melhorar a sua inteligibilidade.
No contexto que é o português, na correlação de forças existente no país, que estratégias adoptar? ...
Deve-se fazer a análise do que refiro acima: contexto português e correlação de forças.
A estratégia a decidir deve ser posterior ao alcançar dum consenso mínimo entre as forças presentes em tais debates. Mas, elas terão de se colocar - a si próprias - dentro do terreno da realidade. Não devem dar a entender, por exemplo, que possuem um vasto conjunto de aderentes, influentes em vários locais de trabalho e de habitação, quando só estejam limitadas a uma pequeno núcleo, na realidade.
A questão importante, é saber se e quando e com que meios as forças, com as quais estais em contacto, estarão capazes e dispostas a concretizar as medidas que elas apoiam, quais os meios que sejam capazes de fornecer.
Estou farto de ver pessoas a gritar grandes princípios e depois a trair a luta que elas próprias preconizavam!