Na raiz da guerra imperialista
Manuel Chico, Manuel Raposo — 11 Junho 2026

As guerras que se travam no Médio Oriente e na Ucrânia não são simplesmente guerras entre os EUA e o Irão ou os EUA e a Rússia. Não são sequer apenas guerras regionais. São guerras de natureza geopolítica com efeitos sobre a futura estrutura da ordem mundial. O que está a ser decidido é maior do que o destino dos governos, maior do que a questão das rotas marítimas e maior do que o equilíbrio de poder imediato no Oriente Médio e na Europa.
Está em jogo uma remodelação da distribuição do poder e das riquezas mundiais, uma reorganização do domínio mundial. O capitalismo imperialista procura destruir ou pelo menos condicionar a concorrência que lhe faz frente ou que procura escapar à sua esfera: China, Rússia, BRICS, Sul Global.
O que está a ser decidido é se o sistema internacional permanecerá refém da hegemonia violenta liderada pelos EUA ou caminhará em direção a uma ordem mais plural e multipolar em que várias potências de escala diversa repartem o poder à escala global.
Nesta perspetiva, o que está em causa é a própria ordem mundial consolidada nos últimos 80 anos pelo capital imperialista. Assim sendo, importa fazer uma pequena digressão pelo estado de saúde da economia capitalista mundial.
Uma lei assassina
O objetivo principal do modo de produção capitalista é a acumulação e concentração do capital. Este objetivo é perseguido pela obtenção de lucro em escala cada vez maior. O capitalismo depende da realização deste objetivo. Tal desiderato enfrenta, contudo, um obstáculo natural enorme, inscrito na própria mecânica da acumulação de capital, a saber: a tendência de queda da taxa de lucro.
A sobrevivência do capital obriga a um constante investimento em novas tecnologias (que representam trabalho morto), com prejuízo da mão de obra (o trabalho vivo, o único que produz valor acrescentado). Quanto maior for a proporção de capital morto no conjunto do capital total, maior a dificuldade em assegurar a produção de valor acrescentado e, consequentemente, manter a taxa de lucro e a acumulação de capital.
A lei da queda tendencial da taxa de lucro é um conceito central na teoria económica marxista. Como Marx a formulou, descreve isso mesmo: a tendência – em valores médios, e desde que não haja outras influências que atuem como contra-tendências, aliás sempre temporárias – para uma diminuição da percentagem de lucro do capital.
Efetivamente em queda
O gráfico seguinte é elucidativo sobre a evolução da taxa de lucro nas economias do G20 (Fonte: Michael Roberts, The next recession blog, 04.05.2026).

Os 70 anos decorridos desde 1950 mostram de modo inequívoco essa tendência de queda, a qual afeta, precisamente, as economias do conjunto dos 19 países mais desenvolvidos do mundo atual. Se descontarmos os altos e baixos verificados de ano para ano, ou de período para período, constata-se que a queda é, não apenas tendencial, mas efetiva. O que quer dizer que as contra-tendências postas em ação pelo capital (a primeira das quais é o aumento de exploração do trabalho) não conseguiram inverter a queda, historicamente considerada. De facto, desde os mais de 10% da época dourada do pós-guerra, até aos menos de 7% da atualidade, a quebra foi de 34%.
Se, em vez do G20, se considerar o G7 (os sete países imperialistas: EUA, Canadá, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Japão) a quebra é ainda mais acentuada.
Repare-se que o período das políticas neoliberais (desde os inícios dos anos 80 ao final do século) apenas conseguiu uma ligeira recuperação da taxa de lucro, apesar de toda a violência das medidas postas em prática contra os direitos do trabalho, entre as quais se conta o ataque às organizações sindicais e ao Estado Social. E apesar também, sublinhe-se, da ajuda decisiva que o crescimento da China e da Índia representou para o capital global.
Veja-se ainda que o colapso financeiro de 2007-2008 anulou os ganhos do período neoliberal. A pequena recuperação que se seguiu a partir de 2009 foi sobretudo conseguida à custa de um grande incremento da exploração do trabalho e não por uma revitalização da economia produtiva.
Inevitável, apesar dos esforços
As influências tendentes a contrariar a queda são várias, como a deslocalização das atividades produtivas para onde as condições de produção sejam mais baratas. Por exemplo, a exportação de capitais ocidentais para a China e outros países da periferia e semiperiferia da economia capitalista mundial .
Ou o aumento da exploração do trabalho nos próprios países desenvolvidos, de que a destruição das organizações sindicais é um instrumento. Ou a redução dos salários diretos e indiretos, por aumento da concorrência entre trabalhadores e da precarização do emprego, ou por redução dos apoios sociais. Ou a financeirização da economia, deslocando capitais para a especulação em busca de rentabilidade obtida fora da produção de valor.
Ou ainda o aumento dos gastos com armamento promovido pelo Estado, sem efeito multiplicador no conjunto da economia socialmente considerada. Ou, finalmente, como agora amplamente se vê, pela eliminação pura e simples de capital e de recursos por via de guerras destruidoras.
Constata-se, porém, que estas contra-tendências atuam durante um certo período de tempo, mas não constituem panaceia permanente para o declínio da taxa de lucro. É o que a evolução histórica atrás referida nos mostra.
Assistimos, portanto, a uma erosão da base material, económica, em que assenta o imperialismo de hoje – com consequências políticas de monta.
Voltando à guerra
É neste quadro que aparecem e se desenrolam as guerras a que assistimos. Guerras militares e não só: as sanções, os bloqueios, as tarifas, a especulação com a dívida de diversos países, etc., fazem parte do cortejo de violências que o imperialismo impõe ao mundo.
Um estudo publicado pela revista The Lancet mostra que as sanções unilaterais impostas pelos EUA e pela União Europeia – ao longo de cinquenta anos, a dezenas de países – causaram 38 milhões de mortos em todo o mundo, metade dos quais crianças e velhos. (1)
Este é o resultado do esforço das potências imperialistas para travarem o declínio do seu próprio capitalismo e a inerente quebra da hegemonia que têm exercido sobre o mundo. A manutenção e o aumento da taxa de lucro dos seus capitais estão no centro das tentativas para impedir a quebra do poder dos seus monopólios.
Destruir para lucrar
Além de objetivos políticos, a guerra cumpre a função de destruir capital e renovar, sobre escombros, as margens de lucro. Destrói preferencialmente o capital da concorrência. Força a baixa de valor das matérias-primas para o lado vencedor e condiciona os perdedores.
A reconstrução de cidades inteiras, de infraestruturas, etc. é oportunidade para aplicação de capital como investimento lucrativo – em regra com mão de obra submetida e barata – a exemplo do plano Marshal na Europa do pós-guerra, e como agora se vê pela gula que anima os grandes grupos financeiros, europeus e norte-americanos, em volta da Ucrânia ou Gaza.
A guerra ou a simples ameaça de guerra – como a Europa ensaia com os planos de militarização – são fonte garantida de despesa em armas, munições e meios cibernéticos (sem esquecer a IA), com permanente substituição assegurada pelas ações militares ou pela obsolescência do equipamento, gerando lucros colossais para os monopólios. (2)
A guerra é também cobertura para o aumento das fortunas pessoais dos dirigentes e dos meios do poder – por corrupção, compadrio, uso de informação privilegiada, etc. Exemplos não faltam: a gigantesca teia de corrupção dos círculos do poder na Ucrânia (centrada em Zelensky), os crimes comuns de que Netanyahu é acusado e a que tem escapado, as fortunas que familiares e próximos de Trump terão feito especulando com preços de matérias primas que oscilam com o andar da guerra e com o fornecimento de material militar. Mas mesmo este oportunismo rasteiro não se compara com os contratos leoninos que os grandes grupos financeiros estabelecem com países destroçados ou amordaçados como são os casos da Ucrânia e da Venezuela.
Duas guerras, a mesma guerra
Pelo ângulo de análise aqui seguido, a guerra na Ucrânia é da mesma natureza da guerra no Médio Oriente. Fazem ambas parte, apenas por caminhos diversos, da mesma tentativa de resposta à crise geral em que o imperialismo mergulhou.
As correntes políticas, nomeadamente na esquerda, que insistem em ver motivações e responsáveis diferentes para as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, passam ao lado do problema de fundo, agarrando-se a argumentos de circunstância. A barbaridade evidente que Israel e os EUA puseram na guerra contra a Palestina e contra o Irão determinaram rapidamente a posição da opinião pública mundial, não deixando dúvidas na identificação dos criminosos e dos seus propósitos.
Não assim no caso da Ucrânia. Esquecendo os antecedentes próximos da avançada da NATO e da UE sobre as fronteiras da Rússia e da instrumentalização da Ucrânia – e ignorando o fundo material do problema, acima esboçado –, uma parte da esquerda, abertamente europeísta, escolheu a posição cómoda e compensadora de alinhar com o seu próprio imperialismo (condenando Netanyahu por razões óbvias, mas apertando a mão a Zelensky).
Outra parte, mesmo entre a que se reclama revolucionária, abrigou-se na posição centrista que consiste em ver um confronto “inter-imperialista” naquilo que é uma pura guerra de agressão contra a Rússia, de feitura e condução imperialista. Este centrismo contribui, na parte que lhe cabe, para neutralizar uma resposta política da esquerda revolucionária, que devia assumir a condução de uma campanha unificada contra as agressões do imperialismo norte-americano-europeu.
Combate difícil, indispensável, urgente
Para além de tudo o mais, as guerras têm, em cada país, um efeito dissolvente sobre a própria luta de classes, na medida em que tendem a colocar nas mãos dos governos um poder resguardado de qualquer contestação, a pretexto da defesa de “interesses nacionais”.
As guerras facilitam a unidade das classes dominantes, provocam o desvio de atenções das crises internas e promovem a criação de uma espécie de estado de exceção em que os trabalhadores não podem ter voz própria – e são desse modo submetidos a desígnios que não são os seus. As duas guerras mundiais e a longa guerra colonial portuguesa são disso provas eloquentes.
O combate contra a guerra exige, portanto, uma ampla mobilização popular, desde logo em torno dos prejuízos imediatos causados sobretudo à massa trabalhadora, mas também necessariamente assente numa consciência clara sobre as origens e os mentores dos conflitos.
Por todas as razões invocadas, a luta contra a guerra – a guerra imposta às classes trabalhadoras e aos povos – só pode ser adequadamente conduzida como parte integrante do combate contra o sistema político, económico e social que se apoia em, e suporta, o modo de produção capitalista, particularmente e concretamente o capitalismo imperialista contemporâneo.
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(1) Nos 50 anos decorridos entre 1971 e 2021, houve 38 milhões de mortes causadas por sanções impostas pelos EUA e Europa, em todo o mundo. Em alguns anos da década de 1990 morreram mais de um milhão de pessoas. Em 2021, morreram 800 mil. As sanções contra a Venezuela, só no período 2017-18, causaram 40 mil mortes.
A fome e toda a espécie de privações são objectivos-chave das sanções, não meros efeitos laterais. Isso mesmo afirmava, em 1960, um relatório do Departamento de Estado dos EUA a respeito das sanções impostas a Cuba. Reconhecendo a popularidade do regime revolucionário, aí se dizia que “qualquer possível medida deve ser tomada prontamente para enfraquecer a economia de Cuba”, nomeadamente “negando dinheiro e abastecimentos a Cuba para depauperar rendimentos monetários e reais, para produzir fome, desespero e derrube do Governo”. Em 1970, após a eleição de Salvador Allende no Chile, o presidente dos EUA Richard Nixon explicou que as sanções então impostas visavam “fazer a economia [chilena] gritar”. (Ver referências aqui)
(2) Segundo o Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo, a indústria armamentista atingiu em 2024 receitas e níveis de lucros históricos. O volume de negócios conjunto dos 100 maiores fabricantes de armas atingiu 679 mil milhões de dólares (+5,9% face ao ano anterior) graças às guerras na Ucrânia e em Gaza, às crescentes tensões regionais e ao aumento dos orçamentos militares.
O grosso da despesa deu-se nos EUA e na Europa. Nos EUA, 39 empresas contabilizaram 334 mil milhões. Na Europa, excluindo a Rússia, 26 empresas faturaram 151 mil milhões (subida média de 13%) à conta da guerra na Ucrânia e da invocada “ameaça russa”.
As margens médias de lucro do setor subiram de um intervalo histórico de 7%-9% para patamares entre 11% e 13%.
Em Israel, as três maiores empresas de defesa atingiram o lucro recorde conjunto de 16,2 mil milhões de euros. A Israel Aerospace Industries registou uma subida de 45% no rendimento líquido anual em virtude das operações militares de alta intensidade em Gaza e no Líbano.
A despesa militar mundial em 2025 atingiu 2.887 biliões (milhões de milhões) de dólares, assim repartidos: EUA 42%, França 9,8%, Rússia 6,8%, Alemanha 5,7%, China 5,7%, resto do mundo 30%.
Estes dados reforçam a ideia de que, em face da estagnação da economia, o capital imperialista encontra no setor armamentista e na destruição de recursos o seu canal mais lucrativo e dinâmico.
(Consultar SIPRI e IA)
Comentários dos leitores
•leonel l. clérigo 16/6/2026, 9:53
IMPERIALISMO
Há por aí muita boa gente que ainda "torce o nariz" quando se fala de IMPERIALISMO: "...isso é tanga", dizem. Mas são os primeiros a "protestar" enquanto enchem o depósito do carro desconhecendo seriamente porque razão a gasolina sobe: "É o PETRÓLEO" dizem... E mais: quando se dá mais um passo e se refere os USA e a EUROPA como Imperialistas, então a coisa "esquenta" mesmo.
Contudo a História não nos deixa dúvidas, sobretudo se enumerarmos quem faz parte das reuniões do G7 - os mais DESENVOLVIDOS do Planeta - assim como as consequências das suas decisões para a grande maioria da população Mundial.
1 - A História dos USA - a grande Nação imperialista dos nossos dias - não deixa de ser curiosa.
A luta patriótica para se libertar do Imperialismo inglês, resultou na sua Independência e no Desenvolvimento espantoso da sua Economia - grande parte da população proletária europeia emigrou para os USA - o que não irá acontecer com os povos da América Latina que acabarão por se transformar no "QUINTAL" SUBDESENVOLVIDO dos USA.
2 - Mas na altura, existia um personagem inglês colonialista de nome Cecil RHODES, que deu ao nascente USA um "BOM CONSELHO" que acabou bem recebido:
"Vocês, pessoas dos Estados Unidos, não podem permanecer sempre dentro de vocês mesmos. Vocês não podem viver apenas ganhando dinheiro. Devem sair pelo mundo e assumir a vossa parte nos encargos mundiais."
E mais, dizia Rodhes no seu conselho: "Sustento que somos (a Inglaterra e os USA) a primeira raça do mundo, e quanto mais do mundo habitarmos, tanto melhor será para a raça humana."
3 - Rhodes acertou em cheio. A "raça humana" vive hoje no PARAÍSO...ou quase.
•Rui Rocha 9/7/2026, 9:36
IN GOD WE TRUST o motto político dos USA
Por Rui Rocha -28 Janeiro de 2022, jornal Ponto Final
Andrew Hurrell (2005), um conceituado professor de Relações Internacionais da Universidade de Oxford, aborda pertinentemente a seguinte questão num artigo com o mesmo título designado por “Pax Americana or the empire of insecurity?”
Ainda que as expressões “império” e “imperialismo” provoque algum desconforto quer à esquerda quer à direita americanas, como entender, então, o conjunto de afirmações inequívocas e respectivas justificações de responsáveis norte-americanos sobre a intervenção política e militar unilateral dos EUA em 55 países soberanos ao longo dos últimos 40 anos, com o silêncio cúmplice da Organização das Nações Unidas, bem como a agressividade política americana contra a emergência económica e empresarial de países que teme não poder aliciar para o seu grupo de aliados, como foi o caso do Japão nos anos 80 e agora, mais recentemente, a vaga de fundo anti-chinesa que parece ter atingido o seu ponto máximo de refinamento bélico unipolar com a criação da aliança AUKUS (EUA, Reino Unido e Austrália), uma aliança que, de resto, reaviva no espírito e na letra a ambição hegemónica do maior império de colonização europeia, o designado Reino Unido, do qual os EUA é o seu herdeiro e continuador natural?
Como sublinha Hurrell, os Estados Unidos têm de ser vistos como um produto da expansão colonial europeia e, sobretudo britânica, que envolveu assentamento de colónias, bem como a subjugação e o holocausto de povos indígenas e independentes. Há obviamente por detrás destes ímpetos imperiais uma estratégia unipolar ancorada no controlo dos recursos do planeta mas também uma economia da guerra ao serviço de empresas militares privadas – “o novo ramo de prestação de serviços” na expressão de Rolf Uesseler (2008), jornalista de investigação alemão das atividades ilegais na economia mundial, do crime organizado e da economia informal, bem como das privatizações e dos processos de “desdemocratização”.
A interrogação formulada por Andrew Hurrell (2005) coloca de imediato duas outras questões: uma, a questão da (i)legitimidade de interferência de um país na integridade territorial de outro país soberano, à luz do número 7 do artigo 2º da Carta das Nações Unidas e também do nº 2 da Declaração e Programa de Ação de Viena – 1993, ao abrigo da Declaração Relativa aos Princípios do Direito Internacional Regendo as Relações Amistosas e Cooperação entre os Estados Conforme a Carta da ONU, de 24 de outubro de 1970, que reafirmam inequivocamente o repúdio ao uso ou ameaça da força nas relações internacionais. No seio do Comité da Declaração de 1970 houve mesmo membros desse Comité que consideraram tal princípio (a não intervenção em assuntos internos dos Estados), juntamente com o da igualdade de direitos e a autodeterminação dos povos, como “os três princípios mais importantes para a manutenção da paz e segurança internacionais”.
A segunda questão prende-se sobre as razões ideológicas da interferência unilateral dos EUA noutros países, sustentada por um magistério moral, crístico e civilizador superior que remonta à ideologia da própria expansão territorial-colonial europeia no continente norte americano e com a consequente criação, no século XVIII, do país designado hoje por Estados Unidos da América. Como consta no Book of Old Tang (914) o imperador Taizong da dinastia Tang terá afirmado o seguinte, ao lamentar a morte do ser fiel conselheiro e historiador, Wei Zheng: “用歷史作為鏡子,可以知道歷史上的興盛衰亡 Yòng lìshǐ zuòwéi jìngzi, kěyǐ zhīdào lìshǐ shàng de xīngshèng shuāiwáng” cuja ideia é “a história do passado revê-se como um espelho na história do presente”. Em boa verdade, the foundations of our nation (USA) mereceriam ser mais bem conhecidas do grande público, a fim de se perceber o que o ex-presidente dos Estados Unidos da América, Jimmy Carter, quis dizer com a frase “The United States is the most warlike nation in the history of the world”.
Assim, valerá a pena começar pelo princípio, passe a redundância, identificando nomedamente os vectores alimentadores da ideologia expansionista americana (the foundations of our nation), a saber:
a doutrina do Manifest Destiny, que Conroy-Krutz (2015) designou por “imperialismo cristão”, segundo a qual estaria no destino do povo americano “conquistar o continente que a Providência lhe reservou” (Weinberg, 2020 ; Mountjoy, 2009 ; Carlisle and Golson eds, 2007 ), isto é, um modelo de teocracia cristã republicana providencialista em que os EUA são chamados por Deus, qual povo eleito, para um destino e uma missão especiais (Cherry, 1998). Mas curiosamente o Manifest Destiny, que foi essencialmente um justificação moral para o expansionismo colonial europeu em meados do século XIX, foi desenhado essencialmente por democratas cujo desejo era anexar o Texas, adquirir Oregan, comprar a Califórnia e derrotar o México, o que veio a acontecer a 2 de Fevereiro de 1848, tendo sido assinado o Treaty of Guadalupe Hidalgo. Este tratado acrescentou 1.359.743 Km2 ao território dos Estados Unidos, incluindo as terras que constituem a totalidade (ou parte), designadamente do atual Arizona, da Califórnia, do Colorado, do Nevada, do Novo México, do Utah e do Wyoming. O México desistiu também de todas as reivindicações relativamente ao Texas e reconheceu o Rio Grande como a fronteira sul da América. Em troca, os Estados Unidos pagaram ao México 15 milhões de US dólares. (Magoc and Bernstein, editors, 2016 );
a doutrina do Darwinismo Social (Hofstadter, 1992; Bannister, 1979 ) inspirada no filósofo britânico Herbert Spencer cuja utilização ideológica de teorias raciais europeias provenientes do século XIX, designadamente o evolucionismo social e o já mencionado darwinismo social, legitimariam o processo de domínio e exploração dos europeus civilizados e cristãos sobre os povos não cristãos americanos, asiáticos e africanos;
a doutrina do Liberalismo e seus promotores (Locke, Grotius, entre outros) com fortes ligações à escravatura racial e apoio indisfarçado ao comércio de escravos pois entendiam que “existiam homens e povos escravos por natureza” (Losurdo, 2005: 45 ), defendendo e justificando, por isso, o poder absoluto do homem branco sobre o escravo negro, chegando mesmo Locke a afirmar a irrelevância da eventual conversão ao cristianismo do escravo que nunca seria um cidadão de pleno direito. Locke é mais conhecido como o inspirador do liberalismo inglês e americano mas igualmente o doutrinário do expansionismo colonial no Mundo Novo e do “refluxo liberal do fundamentalismo cristão” na expressão de Losurdo (2005, 193). Como vários historiadores americanos afirmam, as raízes americanas do expansionismo colonial, do canibalismo social, da desumanização dos povos colonizados, da ideologia de guerra, da ditadura planetária, do racismo e da supremacia branca encontram-se no liberalismo, ou seja, na chamada democracia racial branca do individualismo proprietário de escravos, da supremacia ocidental dos homens bem nascidos e livres contra os povos indignos da liberdade, corrente liberal que, de resto, entra em colisão com correntes liberais abolicionistas (Bello, 2021 ; Morse , 2020; Brewer, 2017 ; Nyquist, 2013 ; Richardson, 2011 ).
Como refere o historiador americano Kozlowski (2010: 8): “The religious and cultural traditions of our nation have their roots in the colonial times”.
Como doutrinas subsidiárias, em convergência com as doutrinas anteriores, temos a doutrina colonial e imperal expansionista nos planos interno e externo, isto é, um continuum da tradição colonial europeia.
No plano interno, mediante compras, guerras, genocídios e anexações em que uma minoria caucasiana europeia ocupou e expandiu os seus territórios em terras estrangeiras, designadamente:
a) anexação de terras indígenas causando o holocausto e o genocído das nações índias norte americanas matando cerca de doze a treze milhões de índios nativos norte-americanos (Thornton, 2015; Smith, s.d.; Cameron; Phan, 2018);
b) compra de estabelecimentos coloniais europeus, iniciado com a compra da Luisiana francesa em 1803, depois com a compra pelo governo central de Gadsden ao México em 1854;
c) anexação de territórios mexicanos, com a distribuição de pequenos lotes de terra para colonos pioneiros europeus, provenientes das Ilhas Britânicas, da Escócia, da Irlanda, de França, da Alemanha, da Suécia, da Holanda, de Itália e de Espanha que se olhavam como “competitores – for land, settlers, and capital- and occasionally as enemies, as was the case during the English Civil War, or when Royalist Virginia stood against Puritan Massachusets, or when New Netherland and New France were invaded and occupied by English-speaking soldiers, statesmen, and merchantes” (Woodard, 2011: 13).
No plano externo, as políticas expansionistas são claramente marcadas pelo darwinismo social:
a) expansionismo em espaços descontínuos iniciado no ano de 1898 com uma guerra contra a Espanha pelo domínio das Filipinas, tendo sido tal guerra o arranque de uma verdadeira “cruzada” mundial para o domínio unipolar do planeta (Magoc and Bernstein, 2016; Kramer, 2006 ) levando os EUA (Exército e CIA), a partir da Segunda Guerra Mundial, a interferir política e/ou militarmente em 55 países;
b) o legado colonial racista (Horsman, 1981) e as suas correntes derivadas, como o nativismo ou nacionalismo demográfico, de resto uma das bandeiras ideológicas da extrema-direita (Mudde, 2019 ; 2018 ; 2000) e da supremacia branca americanas (Jones, 2020 ).
Esse processo expansionista dos Estados Unidos tanto no plano interno, como no plano externo foi ideologicamente justificado pela doutrina nacional do “Manifest Destiny” antes mencionada, actualizada com o International Manifest Destiny que começou em 1867 quando os USA compraram o Alaska à Rússia por 7.200.000 de US dólares, e muito recentement evocada por Donald Trump em fevereiro de 2020 diringindo-se ao Congresso americano a propósito da missão de exploração espacial americana: “In reaffirming our heritage as a free nation, we must remember that America has always been a frontier nation. Now we must embrace the next frontier: America’s manifest destiny in the stars”.
Perante tais concepções providencialistas do mundo e da acção humana destinadas por Deus a um povo eleito, o povo norte-americano, tem este povo como missão crística dilatar um império pela fé e pelas armas, julgando-se, assim, o governo norte-americano investido e legitimado por um mandato do céu e por um magistério político superior relativamente aos demais povos tendo em Deus o regulador e o legitimador da sua acção política que tal como Camões escreveu nos Lusíadas (10. 40): “Deus peleja por quem defende a fé da Madre Igreja”.
Na verdade, a construção dos Estados Unidos como país foi erigida por colonos ingleses, franceses, holandeses, italianos, suecos, etc., bem como por outros dois grupos de pessoas: um, o conjunto de pessoas que a metrópole britânica não desejava; o outro, os chamados “pais peregrinos” da nação. Ou seja, “a Inglaterra faria da colonização [da América] um meio de descarregar no Novo Mundo tudo o que não fosse mais desejável no Velho” (Karnal, 2007: 37). Tais indesejáveis eram órfãos, pobres, crianças raptadas, condenados, mulheres solteiras para serem leiloadas e vendidas como esposas, mão de obra desempregada sujeita a servidão temporária (indenturent servant) até pagar o valor da viagem investido pelo colono comprador. Por outro lado, vieram, também, para o Novo Mundo os chamados “pais peregrinos” da nação. Esses pais peregrinos, como foram chamados (pilgrim fathers), são considerados como os fundadores dos Estados Unidos, não os pais de toda a nação como refere Karnal (2007 op. cit.) mas os pais da wasp (white anglo-saxon protestants). As comunidades tradicionais norte-americanas são, assim, fundadas a partir de um alicerce tradicional do puritanismo fundamentalista anglo-saxónico dos sécs XVII, XVIII e XIX, cuja fé em Deus se apoiava nos textos bíblicos onde se encontrava sempre uma passagem que predizia que a nova nação era conduzida pela mão invisível desse Deus (Frazer, 2012; Oro, 1996). Eram estes protestantes que se auto-intitulavam “o novo povo de Israel”. Estes “pais peregrinos” tiveram, por isso, um papel fundamental na “cristianização” do sistema político americano, sendo de recordar que o motto político americano “IN GOD WE TRUST” apareceu pela primeira vez na moeda de dois centavos em 1864, mais tarde em 1954 nalguns selos e, a partir de Julho de 1955, o presidente americano Dwight Eisenhower determina que “In God We Trust” apareça em todas as moedas americanas. Mas os “pais peregrinos”tiveram um papel ideológico determinante também tanto no sistema educativo não superior como no ensino superior das treze colónias americanas designadamente a partir de meados do séc XVIII tomando a religião como a meta de toda a instrução. É neste período que são criadas as universidades de Yale, Princeton, Columbia, Pensilvânia, e outras. Espantosamente, o motto político do governo norte-amaericano é insconstitucional uma vez que a Establishment Clause of the First Amendment da Constituição dos EUA conjuntamente com a Amendment’s Free Exercise Clause formam o direito constitucional da liberdade de religião. O texto constitucional é relevante pois consigna que o “Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof…”. Esta cláusula é relevante poque atua como uma dupla segurança, pois o seu objetivo é também a prevenção do controle religioso sobre o governo como a prevenção do controle político sobre a religião. Neste sentido, quer o governo federal do Estados Unidos, como os governos de todos os Estados Unidos e os demais territórios dos USA. são proibidos de estabelecer ou de patrocinar a religião,ou seja, evitar, como aconteceu no império colonial português, a politização da religião ou a cristianização da política. Neste sentido, quer o governo federal do Estados Unidos, como os governos de todos os Estados Unidos e os demais territórios dos USA são proibidos de estabelecer ou de patrocinar a religião. Porém, em 30 de julho de 1956, o 84º Congresso norte americano aprovou uma resolução conjunta “declarando ‘IN GOD WE TRUST” o lema nacional dos Estados Unidos”. A resolução foi aprovada na Câmara e no Senado por unanimidade e sem debate. E o 112º da House of Representatives, 1st Session, em 31 de Março de 2011, vai mais longe ainda consignando o seguinte:
REAFFIRMING ‘‘IN GOD WE TRUST’’ AS THE OFFICIAL MOTTO OF THE UNITED STATES AND SUPPORTING AND ENCOURAGING THE PUBLIC DISPLAY OF THE NATIONAL MOTTO IN ALL PUBLIC BUILDINGS, PUBLIC SCHOOLS, AND OTHER GOVERNMENT INSTITUTIONS.
Razão pela qual muitos historiadores americanos se questionam se os Estados Unidos da América não serão efectivamente um Estado Teocrático (Walker and Greenlee editors, 2011; Phillips, 2006, Cherry 1998). Razão pela qual se torna necessário também enquadrar a política americana contemporânea para o mundo a partir das origens ideológicas fundacionais que formataram e formatam ainda a concepção da política americana e o papel dos EUA no mundo. Cada vez mais, em pleno séc. XXI, a história do passado se revê como um espelho na história do presente.