Na raiz da guerra imperialista
Manuel Chico, Manuel Raposo — 11 Junho 2026

As guerras que se travam no Médio Oriente e na Ucrânia não são simplesmente guerras entre os EUA e o Irão ou os EUA e a Rússia. Não são sequer apenas guerras regionais. São guerras de natureza geopolítica com efeitos sobre a futura estrutura da ordem mundial. O que está a ser decidido é maior do que o destino dos governos, maior do que a questão das rotas marítimas e maior do que o equilíbrio de poder imediato no Oriente Médio e na Europa.
Está em jogo uma remodelação da distribuição do poder e das riquezas mundiais, uma reorganização do domínio mundial. O capitalismo imperialista procura destruir ou pelo menos condicionar a concorrência que lhe faz frente ou que procura escapar à sua esfera: China, Rússia, BRICS, Sul Global.
O que está a ser decidido é se o sistema internacional permanecerá refém da hegemonia violenta liderada pelos EUA ou caminhará em direção a uma ordem mais plural e multipolar em que várias potências de escala diversa repartem o poder à escala global.
Nesta perspetiva, o que está em causa é a própria ordem mundial consolidada nos últimos 80 anos pelo capital imperialista. Assim sendo, importa fazer uma pequena digressão pelo estado de saúde da economia capitalista mundial.
Uma lei assassina
O objetivo principal do modo de produção capitalista é a acumulação e concentração do capital. Este objetivo é perseguido pela obtenção de lucro em escala cada vez maior. O capitalismo depende da realização deste objetivo. Tal desiderato enfrenta, contudo, um obstáculo natural enorme, inscrito na própria mecânica da acumulação de capital, a saber: a tendência de queda da taxa de lucro.
A sobrevivência do capital obriga a um constante investimento em novas tecnologias (que representam trabalho morto), com prejuízo da mão de obra (o trabalho vivo, o único que produz valor acrescentado). Quanto maior for a proporção de capital morto no conjunto do capital total, maior a dificuldade em assegurar a produção de valor acrescentado e, consequentemente, manter a taxa de lucro e a acumulação de capital.
A lei da queda tendencial da taxa de lucro é um conceito central na teoria económica marxista. Como Marx a formulou, descreve isso mesmo: a tendência – em valores médios, e desde que não haja outras influências que atuem como contra-tendências, aliás sempre temporárias – para uma diminuição da percentagem de lucro do capital.
Efetivamente em queda
O gráfico seguinte é elucidativo sobre a evolução da taxa de lucro nas economias do G20 (Fonte: Michael Roberts, The next recession blog, 04.05.2026).

Os 70 anos decorridos desde 1950 mostram de modo inequívoco essa tendência de queda, a qual afeta, precisamente, as economias do conjunto dos 19 países mais desenvolvidos do mundo atual. Se descontarmos os altos e baixos verificados de ano para ano, ou de período para período, constata-se que a queda é, não apenas tendencial, mas efetiva. O que quer dizer que as contra-tendências postas em ação pelo capital (a primeira das quais é o aumento de exploração do trabalho) não conseguiram inverter a queda, historicamente considerada. De facto, desde os mais de 10% da época dourada do pós-guerra, até aos menos de 7% da atualidade, a quebra foi de 34%.
Se, em vez do G20, se considerar o G7 (os sete países imperialistas: EUA, Canadá, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Japão) a quebra é ainda mais acentuada.
Repare-se que o período das políticas neoliberais (desde os inícios dos anos 80 ao final do século) apenas conseguiu uma ligeira recuperação da taxa de lucro, apesar de toda a violência das medidas postas em prática contra os direitos do trabalho, entre as quais se conta o ataque às organizações sindicais e ao Estado Social. E apesar também, sublinhe-se, da ajuda decisiva que o crescimento da China e da Índia representou para o capital global.
Veja-se ainda que o colapso financeiro de 2007-2008 anulou os ganhos do período neoliberal. A pequena recuperação que se seguiu a partir de 2009 foi sobretudo conseguida à custa de um grande incremento da exploração do trabalho e não por uma revitalização da economia produtiva.
Inevitável, apesar dos esforços
As influências tendentes a contrariar a queda são várias, como a deslocalização das atividades produtivas para onde as condições de produção sejam mais baratas. Por exemplo, a exportação de capitais ocidentais para a China e outros países da periferia e semiperiferia da economia capitalista mundial .
Ou o aumento da exploração do trabalho nos próprios países desenvolvidos, de que a destruição das organizações sindicais é um instrumento. Ou a redução dos salários diretos e indiretos, por aumento da concorrência entre trabalhadores e da precarização do emprego, ou por redução dos apoios sociais. Ou a financeirização da economia, deslocando capitais para a especulação em busca de rentabilidade obtida fora da produção de valor.
Ou ainda o aumento dos gastos com armamento promovido pelo Estado, sem efeito multiplicador no conjunto da economia socialmente considerada. Ou, finalmente, como agora amplamente se vê, pela eliminação pura e simples de capital e de recursos por via de guerras destruidoras.
Constata-se, porém, que estas contra-tendências atuam durante um certo período de tempo, mas não constituem panaceia permanente para o declínio da taxa de lucro. É o que a evolução histórica atrás referida nos mostra.
Assistimos, portanto, a uma erosão da base material, económica, em que assenta o imperialismo de hoje – com consequências políticas de monta.
Voltando à guerra
É neste quadro que aparecem e se desenrolam as guerras a que assistimos. Guerras militares e não só: as sanções, os bloqueios, as tarifas, a especulação com a dívida de diversos países, etc., fazem parte do cortejo de violências que o imperialismo impõe ao mundo.
Um estudo publicado pela revista The Lancet mostra que as sanções unilaterais impostas pelos EUA e pela União Europeia – ao longo de cinquenta anos, a dezenas de países – causaram 38 milhões de mortos em todo o mundo, metade dos quais crianças e velhos. (1)
Este é o resultado do esforço das potências imperialistas para travarem o declínio do seu próprio capitalismo e a inerente quebra da hegemonia que têm exercido sobre o mundo. A manutenção e o aumento da taxa de lucro dos seus capitais estão no centro das tentativas para impedir a quebra do poder dos seus monopólios.
Destruir para lucrar
Além de objetivos políticos, a guerra cumpre a função de destruir capital e renovar, sobre escombros, as margens de lucro. Destrói preferencialmente o capital da concorrência. Força a baixa de valor das matérias-primas para o lado vencedor e condiciona os perdedores.
A reconstrução de cidades inteiras, de infraestruturas, etc. é oportunidade para aplicação de capital como investimento lucrativo – em regra com mão de obra submetida e barata – a exemplo do plano Marshal na Europa do pós-guerra, e como agora se vê pela gula que anima os grandes grupos financeiros, europeus e norte-americanos, em volta da Ucrânia ou Gaza.
A guerra ou a simples ameaça de guerra – como a Europa ensaia com os planos de militarização – são fonte garantida de despesa em armas, munições e meios cibernéticos (sem esquecer a IA), com permanente substituição assegurada pelas ações militares ou pela obsolescência do equipamento, gerando lucros colossais para os monopólios. (2)
A guerra é também cobertura para o aumento das fortunas pessoais dos dirigentes e dos meios do poder – por corrupção, compadrio, uso de informação privilegiada, etc. Exemplos não faltam: a gigantesca teia de corrupção dos círculos do poder na Ucrânia (centrada em Zelensky), os crimes comuns de que Netanyahu é acusado e a que tem escapado, as fortunas que familiares e próximos de Trump terão feito especulando com preços de matérias primas que oscilam com o andar da guerra e com o fornecimento de material militar. Mas mesmo este oportunismo rasteiro não se compara com os contratos leoninos que os grandes grupos financeiros estabelecem com países destroçados ou amordaçados como são os casos da Ucrânia e da Venezuela.
Duas guerras, a mesma guerra
Pelo ângulo de análise aqui seguido, a guerra na Ucrânia é da mesma natureza da guerra no Médio Oriente. Fazem ambas parte, apenas por caminhos diversos, da mesma tentativa de resposta à crise geral em que o imperialismo mergulhou.
As correntes políticas, nomeadamente na esquerda, que insistem em ver motivações e responsáveis diferentes para as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, passam ao lado do problema de fundo, agarrando-se a argumentos de circunstância. A barbaridade evidente que Israel e os EUA puseram na guerra contra a Palestina e contra o Irão determinaram rapidamente a posição da opinião pública mundial, não deixando dúvidas na identificação dos criminosos e dos seus propósitos.
Não assim no caso da Ucrânia. Esquecendo os antecedentes próximos da avançada da NATO e da UE sobre as fronteiras da Rússia e da instrumentalização da Ucrânia – e ignorando o fundo material do problema, acima esboçado –, uma parte da esquerda, abertamente europeísta, escolheu a posição cómoda e compensadora de alinhar com o seu próprio imperialismo (condenando Netanyahu por razões óbvias, mas apertando a mão a Zelensky).
Outra parte, mesmo entre a que se reclama revolucionária, abrigou-se na posição centrista que consiste em ver um confronto “inter-imperialista” naquilo que é uma pura guerra de agressão contra a Rússia, de feitura e condução imperialista. Este centrismo contribui, na parte que lhe cabe, para neutralizar uma resposta política da esquerda revolucionária, que devia assumir a condução de uma campanha unificada contra as agressões do imperialismo norte-americano-europeu.
Combate difícil, indispensável, urgente
Para além de tudo o mais, as guerras têm, em cada país, um efeito dissolvente sobre a própria luta de classes, na medida em que tendem a colocar nas mãos dos governos um poder resguardado de qualquer contestação, a pretexto da defesa de “interesses nacionais”.
As guerras facilitam a unidade das classes dominantes, provocam o desvio de atenções das crises internas e promovem a criação de uma espécie de estado de exceção em que os trabalhadores não podem ter voz própria – e são desse modo submetidos a desígnios que não são os seus. As duas guerras mundiais e a longa guerra colonial portuguesa são disso provas eloquentes.
O combate contra a guerra exige, portanto, uma ampla mobilização popular, desde logo em torno dos prejuízos imediatos causados sobretudo à massa trabalhadora, mas também necessariamente assente numa consciência clara sobre as origens e os mentores dos conflitos.
Por todas as razões invocadas, a luta contra a guerra – a guerra imposta às classes trabalhadoras e aos povos – só pode ser adequadamente conduzida como parte integrante do combate contra o sistema político, económico e social que se apoia em, e suporta, o modo de produção capitalista, particularmente e concretamente o capitalismo imperialista contemporâneo.
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(1) Nos 50 anos decorridos entre 1971 e 2021, houve 38 milhões de mortes causadas por sanções impostas pelos EUA e Europa, em todo o mundo. Em alguns anos da década de 1990 morreram mais de um milhão de pessoas. Em 2021, morreram 800 mil. As sanções contra a Venezuela, só no período 2017-18, causaram 40 mil mortes.
A fome e toda a espécie de privações são objectivos-chave das sanções, não meros efeitos laterais. Isso mesmo afirmava, em 1960, um relatório do Departamento de Estado dos EUA a respeito das sanções impostas a Cuba. Reconhecendo a popularidade do regime revolucionário, aí se dizia que “qualquer possível medida deve ser tomada prontamente para enfraquecer a economia de Cuba”, nomeadamente “negando dinheiro e abastecimentos a Cuba para depauperar rendimentos monetários e reais, para produzir fome, desespero e derrube do Governo”. Em 1970, após a eleição de Salvador Allende no Chile, o presidente dos EUA Richard Nixon explicou que as sanções então impostas visavam “fazer a economia [chilena] gritar”. (Ver referências aqui)
(2) Segundo o Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo, a indústria armamentista atingiu em 2024 receitas e níveis de lucros históricos. O volume de negócios conjunto dos 100 maiores fabricantes de armas atingiu 679 mil milhões de dólares (+5,9% face ao ano anterior) graças às guerras na Ucrânia e em Gaza, às crescentes tensões regionais e ao aumento dos orçamentos militares.
O grosso da despesa deu-se nos EUA e na Europa. Nos EUA, 39 empresas contabilizaram 334 mil milhões. Na Europa, excluindo a Rússia, 26 empresas faturaram 151 mil milhões (subida média de 13%) à conta da guerra na Ucrânia e da invocada “ameaça russa”.
As margens médias de lucro do setor subiram de um intervalo histórico de 7%-9% para patamares entre 11% e 13%.
Em Israel, as três maiores empresas de defesa atingiram o lucro recorde conjunto de 16,2 mil milhões de euros. A Israel Aerospace Industries registou uma subida de 45% no rendimento líquido anual em virtude das operações militares de alta intensidade em Gaza e no Líbano.
A despesa militar mundial em 2025 atingiu 2.887 biliões (milhões de milhões) de dólares, assim repartidos: EUA 42%, França 9,8%, Rússia 6,8%, Alemanha 5,7%, China 5,7%, resto do mundo 30%.
Estes dados reforçam a ideia de que, em face da estagnação da economia, o capital imperialista encontra no setor armamentista e na destruição de recursos o seu canal mais lucrativo e dinâmico.
(Consultar SIPRI e IA)