IA: o problema não é a tecnologia
Editor / Bappa Sinha — 5 Junho 2026

Voltamos ao tema da inteligência artificial, de novo pela pena de um autor indiano, agora focando atenção no modo como a alta finança, os grandes laboratórios e o poder político dos EUA (mas também da Europa) se combinam para fazer de um conhecimento que aponta para o progresso humano um instrumento de retrocesso social em nome da acumulação cega de capital.
O colossal volume de investimento na pesquisa, o empenhamento do Ocidente em varrer barreiras legais que limitem o uso das aplicações práticas, e o prioritário direcionamento das descobertas para potenciar as máquinas de guerra, particularmente nos EUA, são dados reveladores de como uma tecnologia inovadora se pode transformar num pesadelo social quando monopolizada e posta ao serviço do capital imperialista.
PROGRESSO PARA QUEM? INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NAS GARRAS DO CAPITAL MONOPOLISTA
Bappa Sinha, Peoples Democracy, 31 maio 2026
Em 1 de maio de 2026, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos finalizou contratos confidenciais de inteligência artificial com oito empresas: OpenAI, Google, Microsoft, Amazon, Nvidia, Oracle, SpaceX e a startup Reflection AI. Esses acordos implantarão grandes modelos de linguagem em redes militares confidenciais.
O funcionamento do sistema
O único grande laboratório de IA excluído, a Anthropic, foi descartado porque o governo Trump o incluiu numa lista negra pelo facto de o laboratório insistir em medidas de segurança rigorosas.
A mensagem foi inequívoca: a tecnologia servirá a máquina de guerra, e aqueles que exigirem até mesmo salvaguardas mínimas serão eliminados. Este simples episódio evidencia a lógica da IA generativa sob o capitalismo imperial com mais precisão do que qualquer debate técnico sobre alucinações ou confiabilidade jamais poderia conseguir.
A crescente reação negativa contra a IA generativa, agora visível em salas de aula, movimentos laborais, coletivos de artistas e comunidades que lutam contra a construção de centros de dados, é frequentemente enquadrada como uma resposta a uma tecnologia que foi mal administrada. Essa abordagem é inadequada. A IA generativa não foi mal administrada. Ela foi administrada com uma consistência implacável em prol dos interesses dos monopólios tecnológicos que a detêm, a implementam e lucram com ela. Os danos não são aberrações. São o sistema a funcionar exatamente como as relações de produção exigem.
Alta concentração de capital
A concentração de capital revela a história de forma mais contundente. Em 2026, quatro corporações apenas planeiam investir mais de 700 mil milhões de dólares em despesas de capital, a maior parte delas impulsionadas por IA: Amazon, aproximadamente 200 mil milhões; Alphabet, 190 mil milhões; Microsoft, 190 mil milhões; e Meta, entre 125 e 145 mil milhões. O investimento global em IA atingirá 1,3 biliões de dólares até 2030, segundo o UBS.
Um estudo do MIT Media Lab constatou que 95% dos projetos-piloto de IA generativa empresarial não geram nenhum retorno mensurável. O caráter especulativo desse investimento não é uma falha num processo racional. Trata-se de acumulação pela acumulação, a clássica compulsão capitalista de se expandir independentemente do uso produtivo, na esperança de garantir uma posição de monopólio, transferindo a inevitável crise para os trabalhadores e o público.
Ataque ao trabalho
O ataque ao mercado de trabalho é igualmente sistemático. Nos primeiros seis meses de 2025, 77.999 empregos no setor de tecnologia foram eliminados, por razões atribuídas diretamente à IA. Bancos de Wall Street anunciaram planos para cortar 200.000 postos de trabalho nos próximos três a cinco anos. O Fórum Económico Mundial projeta 92 milhões de empregos perdidos globalmente até 2030 como resultado da IA, da automação e de mudanças relacionadas no mercado de trabalho.
Na Índia, a devastação está concentrada justamente onde menos pode ser absorvida. A Tata Consultancy Services cortou 12.200 trabalhadores em julho de 2025. No ciclo de contratação de 2024-2025, as principais exportadoras de software da Índia recrutaram apenas de 70.000 a 80.000 engenheiros recém-formados, o menor número em duas décadas, de um total de 1,5 milhões de graduados formados anualmente. A proporção conta a história: vinte candidatos para cada vaga, num setor que deveria ser o motor do emprego da classe média na Índia.
Em prol da máquina de guerra
O mais assustador é que a IA generativa foi integrada diretamente nas cadeias militares de destruição (*). Em Gaza, o exército israelita implantou dois sistemas de IA, Lavender e Gospel, para automatizar a identificação e o alvejamento de palestinos. O Gospel gerava 100 alvos de bombardeio por dia; analistas humanos, usando métodos tradicionais, poderiam gerar 50 num ano inteiro. O Lavender compilou um banco de dados com dezenas de milhares de homens palestinos marcados como alvos, com uma taxa de erro reconhecida de aproximadamente 10%. Fontes militares revelaram que, para cada alvo [combatente] subalterno marcado pelo Lavender, o exército autorizava o assassinato de 15 a 20 civis. A revisão humana de cada alvo resumia-se, nas palavras de um oficial de inteligência, a 20 segundos de aprovação, um mero carimbo.
Gaza não é exceção
A Operação Epic Fury [contra o Irão] demonstrou que Gaza não era uma aberração. Cadeias de destruição automatizadas por IA agora fazem parte da doutrina militar imperial.
Quando os Estados Unidos e Israel lançaram o ataque ao Irão em fevereiro de 2026, o Maven Smart System da Palantir, a principal plataforma de IA para direcionamento de alvos do Pentágono, permitiu o ataque a mais de 1.000 alvos nas primeiras 24 horas. Em meados de março, esse número já havia ultrapassado 6.000. O sistema reduziu a cadeia de destruição de horas para minutos, gerando listas de alvos priorizados mais rapidamente do que operadores humanos conseguiam analisá-las.
Entre as consequências, está a destruição da escola primária Shajareh Tayyebeh em Minab, logo no primeiro dia da guerra. Um míssil de cruzeiro Tomahawk americano atingiu a escola, matando pelo menos 170 meninas.
Em fevereiro de 2025, a Google removeu discretamente do seu site público a promessa explícita de não desenvolver IA para armas ou vigilância. A transição das salas de reuniões de Silicon Valley para listas de eliminação automatizadas não é uma perversão da tecnologia. É a tecnologia cumprindo a sua função sob o imperialismo.
Custos ambientais
Os custos ambientais são impressionantes. Prevê-se que o consumo global de eletricidade dos centros de dados atinja 1.050 terawatts-hora até 2026, mais do dobro dos 460 TWh consumidos em 2022. A pegada hídrica dos sistemas de IA, por si só, poderá chegar a 765 mil milhões de litros em 2025. A pegada de carbono é estimada entre 32 e 80 milhões de toneladas de CO2 em 2025. Esses custos são socializados entre as comunidades, a infraestrutura de rede e o clima global. Os lucros fluem para o mesmo pequeno grupo de corporações.
Somente no segundo trimestre de 2025, ativistas nos Estados Unidos paralisaram projetos de centros de dados no valor de 98 mil milhões de dólares, da Virgínia a Indiana e Arizona, à medida que os moradores se deparavam com a realidade do que a “infraestrutura de IA” significa para a sua água, as suas contas de luz e as suas terras.
Sem salvaguardas
Entretanto, a tecnologia está a ser usada como arma contra os mais vulneráveis. Os conteúdos falsos manipulados por IA [deepfake] explodiram, passando de 500 mil ficheiros em 2023 para uma projeção de 8 milhões em 2025. Entre 96% e 98% de todos os vídeos deepfake são imagens íntimas não consensuais; de 99% a 100% das vítimas são mulheres.
No meio académico, a má conduta relacionada com a IA representa agora de 60% a 64% de todos os casos de fraude no ensino superior em todo o mundo. As fraudes facilitadas por deepfakes ultrapassaram 200 milhões de dólares em perdas num único trimestre.
Estas não são consequências não intencionais. São os produtos inevitáveis de uma tecnologia lançada sem salvaguardas, porque as salvaguardas reduzem a taxa de acumulação de capital.
Aparato regulatório capturado
Nada disso está a acontecer por a regulamentação ter falhado. Está a acontecer porque o aparato regulatório foi capturado. Mais de 450 organizações fazem lóbi sobre IA nos Estados Unidos, um aumento significativo em relação às 6 existentes em 2016. A Meta lançou um Super PAC em 2025 com dezenas de milhões de dólares para se opor à regulamentação da IA em nível estadual. Os EUA não possuem uma lei federal sobre IA.
Na Europa, as propostas do “Digital Omnibus” da Comissão Europeia ameaçam esvaziar a Lei de IA e o GDPR [Regulamentação Geral de Proteção de Dados] antes da sua implementação completa; 69% das reuniões da Comissão em 2025 foram com grupos empresariais e apenas 16% com grupos da sociedade civil e ONGs.
O aparato regulatório foi capturado antes mesmo de qualquer regulamentação significativa ser promulgada. Sob o capitalismo neoliberal, o Estado não se coloca acima do mercado para regulá-lo. O Estado serve o capital.
Resistência instintiva
A reação negativa, no entanto, já não se limita a comentários. Em fevereiro de 2026, centenas de pessoas marcharam em frente às sedes da OpenAI, Google DeepMind e Meta, em Londres, num dos maiores protestos contra a IA já vistos. Nos Estados Unidos, uma improvável coligação de ativistas trabalhistas, socialistas democráticos, líderes religiosos e até mesmo setores da direita política assinou uma Declaração Pró-IA Humana.
Uma pesquisa do Pew Research Center de 2025 revelou que o número de americanos preocupados era cinco vezes maior do que o de pessoas entusiasmadas com o aumento do uso da IA no dia a dia.
Estudantes universitários das classes de 2026 citaram como principal motivo para rejeitar ferramentas de IA: “Acho importante que seja eu mesmo a fazer”. Isso não é tecnofobia. É a resistência instintiva de trabalhadores, estudantes e comunidades a uma tecnologia que está a ser usada contra os seus interesses por uma classe que não tem intenção de compartilhar os benefícios.
A bolha vai rebentar
O paralelo com a bolha das empresas dot-com é instrutivo. Quando essa bolha estoirou, destruiu o capital especulativo, mas deixou para trás a infraestrutura da internet sobre a qual os atuais monopólios tecnológicos e a vigilância generalizada foram construídos.
A bolha da IA, quando quer que rebente, deixará para trás uma infraestrutura permanente: centros de dados consumindo água e energia, um mercado de trabalho desprovido de empregos de nível básico, um aparato militar com cadeias de morte automatizadas, uma arquitetura de vigilância que não será desmantelada só porque os preços das ações caíram. Sob o capitalismo, os destroços de cada ciclo especulativo tornam-se a base para a próxima rodada de extração.
A tecnologia não é o problema
Nada disso constitui um veredito sobre a inteligência artificial em si. A IA tem um enorme potencial para o progresso humano: em diagnósticos na área da saúde, em modelagem climática, na descoberta de novos materiais, no planeamento para atender às necessidades humanas em vez de maximizar o lucro privado.
A tecnologia não é o problema. O problema é o que acontece quando uma tecnologia com esse poder é colocada nas mãos de uma oligarquia monopolista com fortes laços com a máquina de guerra imperial, sem prestação de contas democrática e com todos os incentivos para socializar os custos enquanto privatiza os ganhos.
A resistência que agora se forma, desde as fábricas até aos campus universitários e às comunidades ao redor dos centros de dados, só se tornará efetiva quando reconhecer isso: a luta não é contra a máquina. É contra a classe que a detém.
(*) “Kill chain”, cadeia de destruição. Termo originado na ação militar que descreve os passos de um ataque, desde a fase inicial de planeamento até à conclusão, morte incluída.
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