Inteligência artificial e revolução social
Editor / Sanjay Roy — 2 Junho 2026

Os debates sobre o desenvolvimento e a aplicação prática da inteligência artificial vagueiam entre a desconfiança perante uma tecnologia que as pessoas comuns não dominam, as ameaças de desemprego que pairam no ar com selo de “progresso económico”, e o receio de ver tal arma nas mãos de uma elite todo-poderosa e sem escrúpulos.
O risco não está em dar demasiado poder “às máquinas”, como se tem ouvido. Todo o progresso é libertador e bem-vindo enquanto património coletivo. O risco está no facto de a nova tecnologia (como aliás todas as outras) ser detida, desde a investigação à utilização, por uma estreita camada capitalista poderosíssima, movida por interesses privados anti-sociais, capaz de a usar sem restrições no propósito de dispor da vida e da morte da humanidade.
A questão, portanto, não está em “desarmar a IA”, como sonoramente pretende o Papa, mas em desarmar os monopólios do poder que, com e sem IA, fazem da vida de milhões de pessoas um inferno quotidiano.
O indiano Sanjay Roy aborda a questão justamente pelo lado da contradição marcante das sociedades contemporâneas: a premência de transformação social que as novas condições materiais apontam, contra o colete-de-forças que o capitalismo imperialista impõe ao mundo.
MARX, NOVA TECNOLOGIA E NOVA SOCIEDADE
Sanjay Roy, Peoples Democracy, 10 maio 2026
O desenvolvimento tecnológico e a inovação têm sido a força motriz da civilização humana. Com as mudanças nas tecnologias, o processo de produção, o processo de trabalho e a mensuração da contribuição humana para o produto social também se transformam. A atual fase da tecnologia digital, com a IA como tecnologia de uso geral emergente, também irá alterar radicalmente o processo de produção.
As inovações tecnológicas reduzem o custo de produção de bens e serviços existentes, criam novos produtos ou novos valores de uso que não existiam anteriormente, podendo ainda reduzir o tempo de circulação de bens e serviços ao diminuir os custos de transação ou transporte. Todas essas inovações, de uma forma ou de outra, reduzem o esforço humano direto ou o trabalho no mundo da produção e distribuição.
Na fase recente do desenvolvimento tecnológico, vivenciamos uma mudança na tecnologia que Marx vislumbrou como uma progressão lógica desse desenvolvimento. No contexto das grandes indústrias, em Grundrisse [Manuscritos de 1857-58], Marx discutiu a possibilidade de um declínio drástico do trabalho humano direto no processo produtivo, quando os seres humanos atuam como observadores e supervisores de um processo mecanizado e o trabalho humano direto deixa de ser a medida da contribuição humana para o produto social. Em vez de aptidões específicas e aprendizagem pela produção, é a ciência e o conhecimento em geral, ou o “intelecto geral”, que assumem o papel de principal força produtiva no capitalismo.
Marx argumenta em Grundrisse : “A verdadeira riqueza manifesta-se, antes – e a grande indústria revela isso – na monstruosa desproporção entre o tempo de trabalho aplicado e o seu produto, bem como no desequilíbrio qualitativo entre o trabalho, reduzido a uma pura abstração, e o poder do processo produtivo que ele supervisiona […]. Nessa transformação, não é o trabalho humano direto que ele [o trabalhador] realiza, nem o tempo durante o qual trabalha, mas sim a apropriação da sua própria força produtiva geral […] que se apresenta como a grande pedra fundamental da produção e da riqueza. O roubo do tempo de trabalho alheio, sobre o qual se baseia a riqueza atual, revela-se um fundamento miserável diante desse novo fundamento, criado pela própria indústria em larga escala”. (*)
Economia do conhecimento
A atual onda de novas tecnologias, com a IA emergindo como tecnologia de uso geral, é baseada no conhecimento. Isso não implica que as tecnologias anteriores não exigissem conhecimento para serem produzidas. A questão reside na mudança da contribuição do conhecimento no processo produtivo.
Tecnologias anteriores substituíram o trabalho físico por máquinas. Novas máquinas inteligentes não apenas substituem o trabalho físico, mas também interiorizam parte do trabalho mental. Mais importante ainda, a transformação dos valores de uso envolve um processo muito menos relacionado com a fisicalidade do produto, ou seja, com a mudança de materiais e componentes, e mais com a incorporação de características adicionais que envolvem processos mentais.
Marx, ainda em Grundrisse, argumentou que, com o tempo, produtos do conhecimento como ferramentas, produtos químicos ou máquinas tornam-se menos importantes; é a ciência e o intelecto geral que se tornam o poder produtivo mais importante. Nesse processo, o capital não apenas controla máquinas e recursos, mas subordina a ciência e o conhecimento ao controlar o seu principal recurso: os dados.
Na era da tecnologia digital, os dados emergem como o novo petróleo da civilização humana. O fluxo de dados é amplamente produzido por interações humanas, incluindo as interações em plataformas digitais. As pessoas interagem nas redes sociais e criam grandes quantidades de dados gratuitamente, que são apropriados como matéria-prima para identificar padrões de escolhas dos consumidores. O controlo sobre os grandes dados (big data), portanto, resume-se a estabelecer controlo sobre as escolhas humanas, tanto presentes quanto futuras. Assim, colonizar a mente humana para servir os interesses do capital é o propósito final das novas tecnologias sob o capitalismo.
O trabalho cognitivo envolvido na produção de bens de conhecimento é, por vezes, considerado diferente do trabalho tradicional, uma vez que produz bens de conhecimento que são bens “imateriais”. Contudo, esse trabalho não é imaterial, pois também envolve o dispêndio de músculos, nervos e cérebro. O conhecimento não surge do nada.
A característica distintiva do trabalho cognitivo reside no facto de a sua contribuição não poder ser compreendida por meio de medidas simplistas de tempo de trabalho empregado. À medida que os processos mentais se tornam relativamente mais importantes na produção de novos valores de uso, a distinção entre tempo de trabalho e tempo livre torna-se cada vez mais ténue. Um designer, um programador de software ou um especialista em IA não podem parar de pensar depois do horário de trabalho. De facto, a aptidão relacionada com esse trabalho é cultivada no tempo livre por meio de um processo separado de pensamento e aprendizagem.
Mais importante ainda, à medida que a intensidade do conhecimento no processo de produção aumenta, cresce a dependência da produção em relação ao “intelecto geral”. O conhecimento torna-se cada vez mais social. Utilizando a internet, é possível aceder a um fluxo infinito de dados e ideias produzidos em todo o mundo. A produção torna-se cada vez mais socializada. As plataformas digitais mediatizam um espaço infinito de interações humanas, que é utilizado na produção de bens de conhecimento.
Contudo, os lucros e rendimentos gerados pela produção de conhecimento são apropriados por uns quantos gigantes da tecnologia que detêm o controlo do enorme fluxo de dados. Recursos como carvão, petróleo, minério de ferro ou outros minerais estão localizados em regiões geográficas específicas, e o controlo sobre esse espaço ou região era suficiente para garantir o monopólio desses recursos. Mas o fluxo de dados é global, o que exige controlo em escala planetária. Consequentemente, a concentração e a centralização de capital atingem níveis sem precedentes na atual fase de desenvolvimento tecnológico.
Rumo a uma nova sociedade
O conhecimento é, por natureza, não rival. Diferencia-se de todos os outros recursos por não se degradar com o uso. O conteúdo de um livro não diminui com a sua leitura. Pelo contrário, o leitor pode acrescentar novas dimensões ao texto existente e interpretá-lo de uma forma que não havia sido considerada inicialmente. Assim, o conhecimento prospera através da partilha e da interação.
As novas tecnologias também dependem de um mecanismo de feedback que incorpora no processo a contribuição dos utilizadores com novos dados. Isto implica uma maior socialização da produção, que transcende as divisões convencionais entre tempo de trabalho e tempo livre. A produção torna-se cada vez mais colaboracional e, em vez de depender de competências individuais, passa a depender mais da apropriação do poder produtivo geral e do conhecimento coletivo.
Além disso, espera-se que a utilização da tecnologia reduza drasticamente a necessidade de mão de obra humana direta. Este é o propósito da tecnologia. Mas reduzir o esforço humano não significa necessariamente reduzir o emprego; apenas garante que a mesma produção possa ser obtida com menos esforço humano direto. Tal mudança deverá, na realidade, reduzir o tempo de trabalho necessário e aumentar o “tempo livre”. O desenvolvimento de uma nova tecnologia mais rápida permite reduzir a jornada de trabalho diária ou o número de dias de trabalho por semana.
Mas isso dificilmente acontece com o uso de novas tecnologias sob o capitalismo. As relações capitalistas geram um resultado completamente diferente: um número menor de trabalhadores trabalharia a mesma quantidade de horas ou até mais, enquanto muitos perderiam os seus empregos.
Isto ocorre porque o capitalista que detém a tecnologia está na corrida para realizar o valor do investimento o mais rápido possível, com o receio de que uma nova geração de tecnologia surja e supere as existentes. Portanto, para extrair o excedente o mais rápido possível, as horas de trabalho dificilmente diminuem, podendo até mesmo aumentar com a introdução de novas tecnologias.
Pelo contrário, se a tecnologia e os recursos forem de propriedade social, o uso do intelecto coletivo não seria subordinado aos interesses restritos do lucro. As horas de trabalho necessárias diminuiriam e o tempo livre dos seres humanos aumentaria. Libertar as tecnologias baseadas no conhecimento da busca pelo lucro privado garantirá um progresso mais rápido dessas tecnologias.
Além disso, a redução do esforço humano direto no processo de produção sob propriedade social não levaria ao desemprego e à miséria da maioria, mas sim a um aumento do tempo livre, o que facilita o poder criativo.
A produção baseada no conhecimento, portanto, é consistente com uma relação de produção que se apoia mais na colaboração e na partilha. Tal sociedade deve preservar a autonomia dos produtores diretos para que decidam democraticamente o que será produzido e o que não será, organizando a distribuição dos ganhos segundo os princípios da solidariedade.
As tecnologias, contudo, não transformam as sociedades. Elas apenas criam a necessidade dessa transformação. A mudança social só pode ser alcançada por meio da alteração radical da relação capitalista baseada na propriedade privada, substituindo-a pela produção e distribuição socializadas, que gradualmente dão origem a uma comunidade de produtores associados que determinam seu próprio futuro.
(*) Manuscrits de 1857-1858 («Grundrisse»), tome II, p. 192-193, Éditions Sociales