Duas semanas na China. Impressões de viagem
Manuel Raposo — 7 Maio 2026

Para os europeus comuns do século XVI, a China – “o soberbo império que se afama” (Camões) – pouco mais podia ser do que um mundo estranho e inacessível. Conheciam-na os navegadores-comerciantes que faziam a viagem de ida e volta em 2-3 anos, sob incontáveis tormentos, fatais para boa parte das equipagens, na maioria arregimentadas ou levadas pela miragem da aventura e da fortuna. Apenas as elites podiam gozar da porcelana fina (o “ouro branco”) e da requintada seda que enchiam os porões das naus. Para lá disso, o país dos Chins era um território de fábula.
A China contemporânea é conhecida de perto em todo o mundo e por toda a gente comum. Com o restaurante chinês que leva vantagem sobre qualquer fast-food, a loja “do chinês” que vende tudo a todos, o vestuário Made in China omnipresente, os telemóveis e computadores mais baratos, os automóveis eléctricos que arrasam os construtores europeus, os painéis solares de última geração, os silenciosos capitais chineses que desafiam os monopólios instalados, com mais ou menos visibilidade, a China permeou o nosso mundo ocidental. E abala o domínio, que parecia inexpugnável, de europeus e norte-americanos em todas as ramificações da vida do globo, do económico ao cultural.
Qual o motor que operou tamanha transformação no lapso de duas escassas gerações, a ponto de a China longínqua e legendária se ter tornado nossa companhia diária? A ponto de os destinos, nosso e dela, se terem tornado indissociáveis?
Quinze dias não dão para conhecer um país, menos ainda a China na sua dimensão e diversidade. Mas dão, mesmo assim, para ver de perto o que é esse “soberbo império” edificado agora por 1.400 milhões de almas, e medir o que uma revolução social, assente na vontade e nos sacrifícios dos mais pobres, pôde transformar em setenta anos. Dão para tentar desfazer mitos, e reflectir sobre o futuro comum que, inevitavelmente, todos nós temos com a China.
Tudo organizado
Muita, muita gente por todo o lado, mas não há atropelos (apesar de não respeitarem filas). No grande Oriente – Índia, Vietname – não é possível ver dezenas de pessoas na rua, são sempre centenas ou milhares. Mas, ao contrário da Índia, na China tudo parece marchar em boa ordem.
As cidades são colossais em extensão e em população. Pequim ocupa uma área de 16 mil km2 (mais de três Algarves) e tem 22 milhões de residentes. Muitos milhões mais afluem e refluem pendularmente durante o dia.
Cidades pequenas como Guilin têm 5 milhões de habitantes. Xian conta 9 milhões. Cantão, com 18 milhões, é a quinta maior cidade da China. A conurbação Cantão-Shenzhen, uma das principais zonas industriais do país, tem 36 milhões.
A população urbana aproxima-se dos 70%, mais de 950 milhões de pessoas. As condições do caos estariam reunidas se não fossem: um planeamento urbano rigoroso em todas as suas valências (habitação, transportes, infraestruturas, equipamentos, comércio, serviços sociais, ambiente) e uma disciplina auto-assumida pela população.
Comparação
Do que conheci na China e no Vietname (também no Irão), o comportamento social de cada um contribui para uma ordem colectiva que, de outro modo, não seria possível assegurar. A necessidade de ordem ditada pelo grande número, como numa família numerosa, deve contribuir para esse comportamento gregário – que, em todo o caso, nada tem de militar ou de rebanho. Na Índia, porém, com uma população igual à da China, o caos é a norma; cada um tem de safar-se por si porque não há nada que vele por todos.
Longe de serem arrogantes, os chineses não são subservientes. No entanto, os relatos dos colonialistas dos séculos XIX e XX davam por igual os trabalhadores braçais indianos ou chineses (os coolies) como gente sem orgulho. Na Índia, as pessoas mais pobres que vagueiam pelas ruas atrás dos estrangeiros vergam-se na expectativa de uma moeda ou de um serviço qualquer, parecendo dar razão ao preconceito dos colonizadores.
Nada disso se vê na China ou no Vietname. Em que medida a revolução, na China e no Vietname, mobilizando a massa da população pobre, além de tirar milhões da miséria, contribuiu também para criar o sentido de colectividade e o orgulho individual que não se vê na Índia? Em que medida Mao e Ho Chi Min superaram Ghandi? Em que medida a guerra de libertação, não o pacifismo, deu têmpera aos espíritos?
Emprego extensivo
Muita gente jovem a trabalhar, em qualquer tipo de emprego, público ou privado. Os menos jovens (alguns deles talvez reformados) trabalham também em diversos serviços de utilidade pública: varrendo passeios e praças, cuidando de jardins, auxiliando idosos e deficientes em espaços públicos, apoiando visitantes de museus.
As mulheres reformam-se aos 50 ou 55 anos (conforme a função) e os homens aos 60. De onde se deduz uma renovação da mão de obra – não apenas no que respeita à idade, mas também quanto às qualificações. Os mais jovens são mais instruídos em geral e sobretudo em aptidões relativas às novas tecnologias, o que exponencia o desenvolvimento. Parece evidente o propósito de pôr toda a gente a trabalhar: todos contribuem, todos têm o seu salário, ninguém mendiga, ninguém parasita.
Contrapartida: a reforma precoce implica mais encargos sociais para o Estado. O envelhecimento da população levou a alterar, a partir de 2025, as idades de reforma, em vigor desde 1978. Até 2040, a idade de reforma passará progressivamente para os 63 anos (homens) e 55 ou 58 anos (mulheres.)
Bom proveito
Toda a gente bem alimentada, aparentemente. Arroz e massas, verduras, carne e peixe, nas proporções em que os orientais as comem, e numa grande variedade, não parecem faltar.
As gerações mais novas, jovens adultos de 18 a 25 anos, são de estatura mais alta que os pais ou avós, sinal de melhor alimentação e cuidados médicos.
Vestir e calçar o mundo
Toda agente bem calçada e bem vestida, fosse no frio de Pequim ou Xian, fosse nas temperaturas amenas do Sul. A indumentária assemelha-se à que se vê entre nós, ou não fossem os chineses quem nos fornece o grosso do vestuário e do calçado. A China produz 2 em cada 3 pares de sapatos (13 mil milhões por ano) e mais de 40% do vestuário de todo o mundo. O foco actual da investigação está nos tecidos inteligentes, recicláveis e sustentáveis. A China quer deixar de ser a simples fábrica-do-mundo para ser a fábrica-de-vanguarda-do-mundo pela capacidade de inovação. Já agora, a Ásia, em grande medida sob impulso da China, chama a si 90% destas produções.
Sem trocos
O dinheiro físico praticamente não circula. Todos os pagamentos são feitos por via digital, telemóvel em punho. Qualquer comércio, restaurante ou simples banca de rua exibe um código QR através do qual tudo se paga. Três quartos de todas as transacções são feitas por estes meios, sobretudo nas zonas urbanas, por mais de 950 milhões de pessoas.
O salário mínimo é decidido regionalmente, de acordo com o grau de desenvolvimento. Varia entre 3.000 e 2.000 yuans, em números redondos. As necessidades de mão de obra têm impulsionado estes valores para cima. Em 2024, o salário médio mensal nas zonas urbanas estava entre os 10.000 e os 13.000 yuans. O custo de vida mensal em Xangai era de 5.000 yuans. O sector público paga em média bem acima do sector privado.
Em Pequim, uma refeição completa (arroz, vegetais, carne ou peixe) num restaurante pode custar entre 15 e 30 yuans. Uma grande tijela de sopa com massa, vegetais e carne ou peixe (noodles, usados há 4 mil anos), ou a comida de rua, muito comum, custam ainda menos. Presume-se que as refeições preparadas em casa saiam ainda mais baratas. Um bilhete de metro em Pequim custa entre 3 e 6 yuans, no máximo 10 yuans nas longas distâncias.
Os preços baixam nas cidades mais pequenas e nas regiões rurais.
7 x 1.400 milhões
Notícia recente (fevereiro de 2026): na ocasião do novo ano lunar, os chineses realizaram 9,4 mil milhões viagens domésticas, média de 7 por pessoa. Só um sistema impecável de transportes colectivos pode assegurar tamanha mobilidade, não apenas nas cidades e suas periferias, mas também entre cidades.
A China tem a maior e mais rápida rede ferroviária de alta velocidade do mundo: 50 mil km, 70% de toda a rede mundial. Viaja-se a 350km/h sem balanços nem ruído a preços módicos. Mesmo nas redes urbanas de metropolitano, a velocidade atinge facilmente os 150km/h sem prejuízo da comodidade. Tudo – estações, comboios, sinaléctica – é novo, amplo, limpo e eficaz. Esta alta mobilidade permite que a circulação de mão de obra e de bens não tenha obstáculos. É um aspecto chave da extensão e eficácia do mercado interno chinês.
Toda a rede ferroviária é construída sobre viadutos. Poupa-se solo (nomeadamente, solo arável, que é escasso na China), salvaguardam-se as ligações viárias existentes. A investigação trabalha para aumentar a velocidade para 450km/h (já existe em Xangai). Em perspectiva, velocidade de 1000km/h para competir com o avião, com evidentes poupanças de energia e ambientais.
Reflexão: O comboio é socialista. O automóvel privado (aos milhares) é capitalista. E as bicicletas e motorizadas, também aos milhares? – ficam por ora num limbo, talvez numa zona de fronteira entre o colectivismo socialista e o individualismo, que também poder ser socialista. O Manifesto do Partido Comunista diz que o livre desenvolvimento de cada um é condição para o desenvolvimento do todo. O futuro dirá.
Hukou
As migrações internas tendem a ser caudalosas. Especialmente das zonas rurais para os grandes centros industriais. Existe um sistema de registo oficial de residência (hukou) que determina o acesso dos cidadãos aos serviços sociais na sua região de origem. Qualquer um pode deslocar-se para onde quiser, mas fica sujeito a restrições no que respeita ao pleno uso dos serviços sociais.
O sistema ajuda a controlar a deslocação de mão de obra e os desequilíbrios demográficos. Evita a pressão sobre o parque habitacional (que tende, como bem sabemos, a criar bairros degradados e sobrelotação) e previne a sobrecarga dos serviços públicos (saúde, educação, por exemplo) nas zonas de atracção populacional, como sãos os grandes centros.
O sistema evita também o despovoamento do interior rural. Mas neste caso o que vale não é apenas a medida administrativa em si: a política do Governo de fomentar a melhoria das condições de vida nas regiões rurais e periféricas é a principal ferramenta para fixação das populações.
Chão comum
Faltou-nos conhecer as zonas rurais, onde as condições de vida são diferentes das dos grandes aglomerados. Vimo-las de raspão nas viagens de comboio mais longas. Uma coisa salta à vista: a mesma preocupação em poupar o solo agrícola. A China tem quase 20% da população mundial e menos de 10% da terra arável do planeta. A preservação da produção agrícola – incluindo a recuperação de solos menos ricos e a aplicação de processos científicos e tecnológicos de ponta – é crucial.
Ao lado de aglomerados de casas tradicionais, de aldeia, é comum ver edifícios habitacionais de 10-15 andares, ou mais, implantados em reduzidos espaços. Mais adiante, numa área igualmente confinada, instalações fabris. Em redor, campos cultivados, normalmente extensos, o que denota trabalho colectivo e mecanização. Muito provavelmente, uma maior concentração de trabalhadores resultante da criação de uma indústria local ou de uma zona agro-industrial, obriga a construir alojamentos em altura salvaguardando os melhores solos.
Não há propriedade privada da terra. A tradição, que se mantém, é de propriedade pública do solo urbano e rural, agora gerido pelo Estado, pelos governos locais e pelas comunidades de aldeias, as comunas. Os direitos de uso – para habitação, comércio ou indústria – são cedidos por períodos determinados, renováveis. Os estrangeiros podem comprar casa desde que estudem ou trabalhem na China, mas não para alugar ou especular (não há cá vistos gold).
800 milhões a menos
Não se vê pobreza como a do Ocidente. As diferenças sociais não são notórias. Nada têm de comparável com os contrastes chocantes da Índia ou com os bairros de barracas das metrópoles europeias, sul-americanas, africanas ou norte-americanas. Não há bairros do Talude, nem Covas da Moura, nem favelas, nem tendas debaixo das pontes.
Não se vêem sem-abrigo. Uma das medidas de combate à pobreza foi a construção de milhões de casas sociais para famílias de baixos rendimentos. A par disso, a gestão urbana é rigorosa. O sistema hukou ajuda a equilibrar os balanços rural-urbano. 90% das famílias chinesas têm casa própria. A China cumpriu a proeza, única na história da humanidade, de tirar da pobreza 800 a 850 milhões de pessoas em 40 anos. Erradicou a pobreza absoluta cumprindo, dez anos antes do prazo, as metas da ONU.
Mas há regiões mais pobres que outras, como a diferença dos salários mínimos assinala. Mesmo em meio urbano, como numa zona antiga de Cantão, há casas envelhecidas, algumas degradadas, mas são um resíduo do passado, uma ilha hoje visitada como curiosidade turística, onde se vendem, em jeito de Feira da Ladra, relíquias também do passado, como retratos de Mao. Em volta, cresceram novas edificações de muitos andares. Numa ruela, uma faixa de pano vermelho com um aviso da “junta de freguesia” sobre cuidados a ter com os lixos e a prevenção de incêndio. Os serviços públicos funcionam. A sensação de segurança, de dia ou de noite, é absoluta.
Quem causa mau ambiente?
Numa conversa com A.C., que viveu muitos anos na China, falou-se da poluição atmosférica de Pequim, nomeadamente. Anos atrás, dizia ele, havia dias em que não se podia abrir a janela de casa e mal se via o outro lado da rua. A situação de hoje é completamente diferente, a avaliar pelas cidades que visitámos. As políticas de controlo da poluição urbana e industrial (a “batalha pelo céu azul”) mostraram eficácia: redução drástica do carvão, incremento de transportes eléctricos, produção e uso de energia limpa, sistemas de purificação do ar nas cidades, encerramento de indústrias em zonas urbanas.
Mas há um lado da questão que os críticos ocidentais tratam de omitir. O facto de a China se ter tornado a fábrica do mundo implicou o aumento exponencial da sua crise ambiental. Grande parte das unidades de produção poluentes que existiram durante séculos no Ocidente foram transferidas para a China pelos capitais europeus e norte-americanos a partir dos anos 1980. O Ocidente viu-se livre de boa parte dos seus problemas ambientais porque os transferiu para o terceiro mundo, continuando a beneficiar dos bens produzidos algures – ainda por cima, muito mais baratos. É, portanto, perfeitamente legítimo imputar à Europa e aos EUA a parte correspondente da poluição ambiental de que os chineses padeceram durante décadas para aliviar a bolsa e os pulmões dos ocidentais.
(Um dos maiores poluidores mundiais são as forças armadas dos EUA, que se recusam a fornecer dados sobre o assunto invocando “razões de segurança”. Trump reduziu ainda mais os processos do controlo, eliminando os limites das emissões poluentes e incentivando o uso de combustíveis fósseis.)
Em grande
Tudo tem proporções fora do comum. Não apenas a população, não apenas os muitos séculos de civilização praticamente contínua. Não apenas pelo tamanho ou grandiosidade das obras, mas sobretudo pela persistência no tempo e por aquilo que parece ser uma capacidade de previsão extraordinária que consiste em levar a cabo, até ao fim, empresas que duram milénios, atravessando gerações e gerações – sem que as gerações pioneiras tivessem certeza da continuidade da obra. Ou teriam?
A Grande Muralha, a norte de Pequim, é um exemplo clássico e óbvio. Mais de 21 mil quilómetros de muralhas, com envergadura colossal, construídas por sucessivas dinastias desde o século VII a.C. até ao século XVII, com vista a travar os nómadas da Sibéria e da Mongólia. Quantos milhares de braços, quantas chicotadas, quantos milhões de blocos de pedra talhados e assentes a preceito, quantos milhões de metros cúbicos de terra?
Outro caso – em certo sentido mais impressionante pelo propósito que teve de unificar a China – é o Grande Canal que, rasgado de sul para norte, vai de Hangzhou até às imediações de Pequim, ao longo de quase 1.800 km. Construído durante mil anos, foi iniciado no século V a.C., há mais de 2.500 anos (ainda os romanos não tinham chegado à Lusitânia) e terminado no século XIV.
As obras públicas, é disso que se trata, têm na China uma história inigualável – ontem e hoje. Só um poder centralizado, com posse plena da terra (e força para cobrar impostos), as podia levar a cabo; e só isso podia garantir a sobrevivência de tantos milhões de pessoas. A história continua, noutras condições.
Fora do mundo dos vivos
Mas há um outro caso, de conhecimento recente, que atormenta o espírito: o Exército de Terracota de Xian. Não se trata de uma obra pública. O primeiro imperador da China, Qin Shi Huang (século III a. C.), fez-se enterrar rodeado de 8 mil guerreiros de terracota, generais e soldados, 130 carruagens, 500 cavalos, sem faltarem funcionários do Estado, acrobatas e músicos e até animais raros – tudo em tamanho natural – para ficar bem defendido e servido no outro mundo.
Durante quase 40 anos, 700 mil trabalhadores e artistas executaram a obra, que no final seria totalmente soterrada. O ritual lembra o das mastabas e das pirâmides egípcias, ou o dos túmulos dos imperadores persas em Pars (cidade cerimonial que os gregos chamaram Persépolis e destruíram, despeitados) escavados em rocha dura. Mas enquanto estes eternizavam aos olhos dos vivos, na perenidade da pedra, a presença do poder imperial para lá da morte, o imperador Qin remeteu-se, estranhamente, a uma eternidade subterrânea ignorada dos vivos. Só em 1974, humildes agricultores chineses, ao escavarem um poço, resgataram Qin e o seu mundo acabado, dois mil anos depois.
A talhe de foice
Milhares de chineses acorrem ritualmente ao mausoléu de Mao Tsetung, suportando horas de espera em filas compactas, ao sol ou à chuva, para ver, por escassos segundos, um corpo embalsamado guardado por soldados vivos em rigorosa postura de sentido. (O mesmo em Moscovo no mausoléu de Lenine.) É um culto indigno da nossa época de racionalismo, de laicismo, de ciência e de progresso, uma época que criou as condições materiais para deitar do altar abaixo todos os ídolos.
Só por nostalgia ou por ilusão podem os chineses de hoje (ou os russos) ver no corpo de Mao (ou de Lenine) a perenidade do poder revolucionário de 1949 (ou de 1917). Graças à revolução, a China (como a Rússia) não vai voltar à servidão de onde saiu ao preço de milhões de mortos e de rios de suor. É essa a perenidade de Mao (e de Lenine). Mas a realidade de hoje é outra; preservam-se corpos mortos e promove-se o seu culto para iludir as diferenças. Há alguma presciência no recato subterrâneo de Qin.
Mao no museu do PCC
No museu do Partido Comunista da China, em Pequim, Mao é figura central. Não podia deixar de ser. As etapas heroicas ou dramáticas da acção do PCC estão todas presentes na cronologia da exposição, profusamente documentada, ilustrada e encenada. Mas um olhar atento consegue perceber o sentido político que a China de hoje dá ao percurso do partido, da origem à actualidade, e o lugar que reserva ao seu maior símbolo. Dois momentos a registar:
Xangai, 1927. O Kuomintang é tratado brandamente. A traição de Xangai (o massacre dos comunistas às mãos dos nacionalistas de Chiang Kai-shek) é posta em termos de “alguns elementos” do KMT que desrespeitaram a aliança com o PCC, e de “desvios” de elementos do PCC iludidos com o KMT. Trata-se apenas de diplomacia a respeito de Taiwan, onde o KMT tem presença política importante, ou será algo mais fundo?
A viragem, 1976-78. Há um momento crucial na história da China revolucionária: o do período de 1976-1978, subsequente à morte de Mao. O Mao patrono da nova China, liberta dos cem anos de humilhação, cede o passo a um Deng Xiaoping “realista”, o homem que encarou a mudança “necessária”, o criador da China moderna. Como se se tivesse tratado de uma transição óbvia e sem sobressaltos. Não foi assim.
Os dirigentes da Revolução Cultural (depreciados como O Bando dos Quatro) são tratados como criminosos. Na verdade, representavam uma ala esquerda do partido e tinham a protecção de Mao. A sua eliminação sumária (presos logo após a morte de Mao e condenados em 1980) abre caminho à hegemonia de Deng e ao seu programa de “Reforma e Abertura”, de 1978. Data daí a entrada em força do capital estrangeiro na China. Durante os anos da Revolução Cultural, Deng foi afastado por duas vezes de cargos de responsabilidade por proposta de Mao.
Os inegáveis sucessos da China desde então permitem ao actual poder apagar a questão política da transição operada em 76-78. Mao tornou-se uma referência ritual, um santo no altar. Deng é o obreiro. Isso mesmo é expresso, sem peias, numa exposição evocativa dos 40 anos (1978-2018) da “Reforma e Abertura” presente em Shenzhen.
Deng desbanca Mao
Foi por Shenzhen, antes uma pequena aldeia de pescadores, que a China de hoje arrancou. A história, vertiginosa, da transformação de Shenzhen num dos principais polos industriais do mundo é o exemplo de como a China faz em 10 anos o que o Ocidente faz em 100.
A exposição é impressionante, pelo didatismo, pelo percurso. Desde a China essencialmente rural e pobre até à China desenvolvida de hoje, a maior potência económica do mundo quando considerada em termos de paridade de poder de compra. Desde as primitivas máquinas agrícolas ou teares mecânicos ou utensílios de plástico do arranque da industrialização, passando pelos primeiros computadores e aparelhos de rádio, para finalizar nas estações orbitais e no desenvolvimento urbano.
Planear, executar
Em paralelo, no mesmo centro de exposições, uma mostra exaustiva do planeamento urbano que acompanhou o crescimento de Shenzhen. Como se passa, em 40 anos, de uma pequena aldeia de pescadores para uma metrópole industrial de 18 milhões assegurando condições de vida em todas as suas valências?
A explicação é dada tanto em planos territoriais de larga extensão como em planos de pormenor, ilustrados com cartografia e maquetes. Impressão geral: o planeamento parece andar à frente do crescimento físico; os planos correspondem ao que se pode ver no terreno (vias, transportes, áreas habitacionais ou industriais, zonas verdes, recreio, cultura, desporto, infraestruturas, serviços públicos…). Não são mero desenho de intenções, são bases de acção.
Andar à frente, neste caso, quer dizer planear escrupulosamente, pôr em prática a tempo, assegurar equipas multidisciplinares em permanência, acompanhar pari passu o crescimento físico ao longo de anos, ouvir as comunidades, corrigir erros e desvios, adaptar os planos às realidades novas, não ceder a pressões e facilidades, estimular, mas manter sob rédea curta, os impulsos do capital privado.
Jin fala com orgulho dos hospitais construídos de emergência no pico da pandemia de Covid. Hospitais de campanha com centenas de camas e equipamento erguidos em dez dias. “Quando é preciso fazer, fazemos mesmo!”.
C.W., arquitecto alemão que trabalhou na China por diversas vezes, confirma: Organização, disciplina, competência, alta qualificação, empenhamento de todos. Nas equipas de trabalho, trabalhadores e chefias não se distinguem. “Na Alemanha, nem em meses conseguiríamos pôr um hospital desses em funcionamento”.
15 PQ
Um novo rumo para a economia e para o desenvolvimento social da China? O plenário do Comité Central do PCC, em meados de outubro, teve grande destaque nas televisões. A coisa tem foros de movimentação estratégica. Trata-se do próximo plano quinquenal 2026-2030, o décimo quinto. A tónica, em termos informativos e públicos, é posta em três tópicos: 1) desenvolvimento económico com base num incremento da qualidade, e não apenas na quantidade; 2) aumento do consumo interno; 3) promoção da “Bela China”.
É uma resposta à situação mundial. A China procura passar da condição de grande produtor mundial de tudo, em grandes quantidades, largamente dependente da exportação destinada aos grandes mercados ocidentais, para a condição de grande fornecedor mundial de produtos e serviços de qualidade, de tudo o que é mais avançado tecnologicamente, acrescentando valor ao seu comércio interno e externo.
O estímulo do consumo interno (1,4 mil milhões de almas são o maior mercado potencial do mundo) é necessário para dar saída a uma produção colossal, ainda mais quando a decadência do Ocidente ameaça reduzir os mercados europeu e norte-americano. A aposta obriga a aumentar a capacidade de compra e, portanto, o nível de vida dos chineses.
Pela mesma altura, 26 de outubro, a cimeira da ASEAN na Malásia (onze países com um mercado de 700 milhões de pessoas a somar aos 1.400 milhões de chineses) celebrou um acordo de livre comércio com a China. Foi uma primeira resposta às tarifas de Trump, deixando os EUA nas covas.
O primeiro trimestre de 2026 parece confirmar o propósito do plano. O PIB chinês cresceu 5%, (destaque para o sector industrial, 6,1%), com uma previsão anual de 4,4% a 5%. Para trás ficam os EUA (2,3% a 2,4%), a UE (0,9%) e a média do mundo (3,1% a 3,3%).
A China continua a ser a locomotiva da economia mundial. Mas a projecção para as próximas décadas coloca interrogações. Decréscimo populacional, abrandamento da taxa de produtividade, queda da taxa de lucro – males de que o Ocidente padece de forma crónica – afectarão também a economia chinesa até meados do século. A prazo, nenhum capitalismo, público ou privado, escapa ao declínio. Daí os seus limites históricos.
Interrogações
Harmonia ou contraponto? A “harmonia” entre capital privado e capital público (estatal), como o PCC e o Governo procuram apresentar a coexistência dos dois sistemas, será antes, na realidade, uma contradição entre o sector público-social e o sector privado. Qual o motor principal nesta dualidade: o capital privado ou o sector estatal-social? Do jogo desta contradição dependerá a feição futura da China.
Yin Yang (a harmonia dos opostos, segundo o taoismo) é conceito aliciante, mas não funciona com o capitalismo… Não há equilíbrios eternos. Talvez falte ao taoismo um pouco de dialéctica. A argúcia de Mao, mestre na identificação da contradição principal que se impunha resolver em cada momento da história da revolução, foi preterida pela tradicional e pacificadora “harmonia de contrários”.
O sector privado contribui para 60% PIB, para 80% emprego urbano e para 50% do comércio externo. Mas empresas estatais detêm os sectores estratégicos: energia, infraestruturas e transportes, telecomunicações e infraestrutura digital, defesa e tecnologia de ponta, banca e finança, recursos naturais, matérias primas e agricultura.
Enquanto o Estado dominar o planeamento económico, as relações externas, a propriedade do solo, a finança e os sectores estratégicos, será difícil ao capital privado conduzir o desenvolvimento do país à sua maneira (caótica, individualista, com prejuízo do colectivo). Mas a tensão entre estes dois polos não pode manter-se eternamente no equilíbrio que parece existir agora: a contradição terá de ser resolvida pela superação de um dos lados pelo outro.
Que destino para tantos proletários? A sociedade chinesa é proletarizada em alto grau. Numa população activa, dos 15 aos 59 anos, de cerca de 730 milhões (2025), a grande maioria, 560 milhões, mais de três quartos, é assalariada, no sector privado ou em empresas estatais. A federação dos sindicatos da China tem 300 milhões de membros.
Como pode a sociedade chinesa actual, agora plenamente proletária, resolver aquela contradição em favor da massa trabalhadora? Que papel terá o campesinato neste processo? (Será melhor dizer a população rural, uma vez que a terra é propriedade comum das comunas rurais e dos governos locais, e não de camponeses individuais.)
Uma reforma agrária clássica, democrática, com distribuição da terra pelos camponeses individuais, é coisa ultrapassada. O grau já atingido de socialização e de industrialização da produção camponesa aponta para um ainda maior grau de socialização, não para um retrocesso no sentido da produção individual. A população rural, menos de 35% da população total, está essencialmente proletarizada.
É possível que a população afecta à produção agrícola propriamente dita seja bastante menor, uma vez que muitos dos migrantes que afluem às zonas urbanas e industrializadas se mantêm oficialmente registados como rurais, por via do sistema hukou. Além disso, muita da actividade económica nas zonas rurais é de tipo industrial ou agro-industrial.
E que papel terá a classe de trabalhadores dos serviços, cujo número cresce? De que lado se colocará? Dados de 2024 dizem que a agricultura comporta 22% da população activa (contra quase 37% em 2010), a indústria 29% e o sector terciário 49%.
Até agora, é evidente que os planos quinquenais serviram eficazmente o desenvolvimento material da China, tanto capitalista privado, como social-estatal. Os salários têm subido de forma consistente e o custo de vida mantém-se estável ou baixa. Em 2025, o índice de preços no consumidor não variou, o custo da alimentação baixou 1,5%, a habitação baixou 5,7%. A inflação subjacente (sem alimentação e energia) subiu 0,7%.
A melhoria constante de condições de vida da população em todos os estratos (apesar das desigualdades crescentes) reforça a confiança popular no Estado e no PCC. Mas o alargamento do fosso social que se tem verificado mostra que uma camada superior (burguesa, pois claro) beneficia mais do crescimento impetuoso da China do que os estratos populares que criam a riqueza. Marca indelével da dinâmica capitalista. Até quando, este esticar de corda?
Socialismo ou o “velho lamaçal”? A aposta do PCC, com o recente 15.º plano quinquenal, no “desenvolvimento com qualidade” pretende projectar aquelas melhorias para um patamar mais elevado: saúde, ambiente, escolas, transportes, comunicações, automação, habitação, tempos livres, turismo, etc. O esforço de nivelamento das regiões rurais com as regiões urbanas e industriais procura contrariar a tendência orgânica do capitalismo para o desenvolvimento desigual. O combate à corrupção e a estrita regulamentação estatal moderam os ímpetos do grande capital privado, autóctone e estrangeiro.
Questão crucial, porém, será ver se isso se traduz (a) na inversão da tendência para o aumento das desigualdades, (b) na redução do tempo de trabalho obrigatório, (c) na criação paralela de tempo de trabalho livre e de nível superior, não apenas de ócio, para a generalidade da população liberta do trabalho obrigatório.
Trabalho livre e de nível superior significará: investigação, ciência, tecnologia, arte, cultura, e tudo o que os antolhos da sociedade capitalista em que estamos mergulhados não nos permitem antecipar. Trabalho como realização humana.
Será este um dos sinais inequívocos de progressão no sentido do socialismo ou, inversamente, da permanência – mesmo que seja num patamar de riqueza mais elevado – do “velho lamaçal” capitalista de que falava Karl Marx. Esse lamaçal, que Marx temia ver reproduzido mesmo numa sociedade revolucionária por força da penúria material, pode reproduzir-se também, como nós hoje bem podemos ver, nas sociedades de abundância material quando as condições de igualdade social não se verificam.
A insistência dos planos chineses no incremento do turismo interno, por exemplo, leva a perguntar se a redução do tempo de trabalho irá apenas alimentar mais uma indústria – a do turismo e afins, a do espectáculo, a da “distracção” – em moldes semelhantes ao que sucede no Ocidente capitalista.
A produção em massa de automóveis eléctricos, levanta interrogações semelhantes. Por isto: a questão ambiental que primeiro se coloca neste caso está no carro privado e não no motor de explosão. Substituir o gasóleo ou a gasolina ou o bio-fuel pela electricidade passa ao lado da questão de fundo (evitada pela maioria dos ambientalistas), que é a “poluição” da vida urbana resultante da proliferação do carro privado (estacionamento, engarrafamentos, prejuízo inevitável dos transportes colectivos, desperdício de energia eléctrica, necessidade de vias e infraestruturas mais exigentes, etc.). A felicidade individual de ter um carro “meu”, traduz-se na infelicidade de todos por junto, incluindo “eu”. É esta a lógica cega que guia o capitalismo.
Uma segunda revolução? Essa transformação das relações sociais será possível antes de o mundo imperialista ser desarticulado? Será possível sem uma segunda revolução? Que forma assumirá?
A tentativa recente de Jack Ma (o barão da Alibaba e seus tentáculos, o Ant Group) de forçar a abertura da China à especulação financeira foi frustrada pela intervenção dura do PCC e do Estado. Mas o caso mostrou três coisas: 1) o poder considerável do capitalismo privado chinês, que reclama liberdade plena para a actividade financeira-especulativa (seguramente pelo volume enorme de capital fictício que criou); 2) a acumulação de capital pode em certos sectores económicos estar a atingir os limites do desenvolvimento permitido pela actividade produtiva em função da disponibilidade do mercado (o excesso de capital acumulado fica sem aplicação produtiva e tende para a especulação); 3) o PCC e o Estado mostraram, no caso, decisão, capacidade e força para travar a pressão no sentido da financeirização do capital privado chinês.
(Ma cultivou relações de negócios com os norte-americanos da Golden Sachs e os japoneses do SoftBank em 1999 e 2000, que o ajudaram a criar o império Alibaba-Ant Group. Donald Trump em 2017, no seu primeiro mandato, recebeu-o na Trump Tower para acertar negócios ou manobras políticas. Em 2020, a Ant Group, que se especializou numa economia de dívida especulativa, tentou uma gigantesca operação financeira em Hong Kong e Xangai, uma oferta pública inicial, OPI, no valor de 37 mil milhões de dólares em acções. Tinha por trás grandes empresas financeiras chinesas e internacionais – do Médio Oriente, dos EUA, da Europa. O negócio, de sentido monopolista, foi travado por intervenção das autoridades bancárias chinesas. A Alibaba foi fortemente multada por abuso de posição dominante de mercado, as empresas subsidiárias foram separadas e em 2023 Ma perdeu o controlo do Ant Group.)
No entanto, para que essa travagem seja eficaz não bastará colocar uma tampa sobre a panela do capital privado, cuja tendência expansionista e especulativa é, por si mesma, irreprimível. Será necessária uma transformação do sistema produtivo que tenda a eliminar o papel do capital privado e a sua pulsão para o lucro.
A substituição de capital velho por capital novo (tecnologias de vanguarda, inovações científicas, etc.) será uma via para dar destino produtivo aos excedentes de capital, mas será uma via temporária e sempre em atraso face à reprodução alargada de capital, ao ritmo a que esta se está a dar na China. A mudança de qualidade terá de decorrer de uma alteração das relações de trabalho, das relações sociais, e da eliminação (certamente progressiva) da relação salarial capital-trabalho, fundamento do capitalismo, que inevitavelmente molda as relações sociais na China.
Conseguirão o PCC e o Estado levar a cabo esse processo? Tudo dependerá de que forças sociais tiverem preponderância no futuro próximo da China. Lingyi Wei e Minqi Li, dois economistas marxistas da Nova Esquerda chinesa, dizem que a perspectiva de declínio histórico do capitalismo (por redução a zero da taxa de lucro) oferece à China a possibilidade de eliminar o capitalismo privado, cabendo à sociedade a missão de gerir uma economia com lucro zero. Só o socialismo o pode fazer. Numa economia socialmente detida, afirmam, todo o excedente económico seria apropriado pela sociedade como um todo e usado para fins determinados por decisões democráticas.
Leituras
A condição humana, romance de André Malraux, 1933. A revolta de Xangai de 1927, vivida pelo autor, a traição do Kuomintang e o massacre dos comunistas; e tudo o que um romance magistral pode transmitir. Editor Livros do Brasil.
O erguer da China e a morte da economia capitalista mundial (The rise of China and the demise of the capitalist world economy), autor Minqi Li, 2008. Tese aliciante muito bem argumentada: o crescimento económico da China não é comportável pelo sistema mundial capitalista que colapsará sob a pressão dessa nova potência. Pluto Press, www.plutobooks.com, disponível em digamo.free.fr
China: imperialismo ou semi-periferia? (China: imperialism or semi-periphery?), autor Minqi Li, 2021. Com base na concepção leninista de imperialismo, rebate as ideias que consideram a China um país imperialista e demonstra a impossibilidade prática – tanto do ponto de vista económico, como ambiental – de isso vir a acontecer considerando a própria noção leninista de imperialismo: uma minoria que explora uma vasta maioria. Disponível em monthlyreview.org
O fazer de uma superpotência económica. Desvendando o segredo da rápida industrialização da China (The making of an economic superpower. Unlocking China’s secret of rapid industrialization), autor Yi Wen, 2016. Descrição e avaliação crítica do processo de industrialização da China até se ter tornado a potência económica de hoje, com destaque para o crescimento contínuo do mercado. Comparação com o percurso feito pelas demais potências industriais do ocidente capitalista. Disponível na internet.
Legados da des-financeirização e defesa da economia real na China (Legacies of definancialization and defending real economy in China), autores He Zhixiong, Sit Tsui e Yan Xiaohui, 2021. Como a China combateu, desde 1949, a especulação financeira – por meios políticos, disciplinares e até militares – colocando os interesses do povo em primeiro lugar. O caso Jack Ma é explicado em detalhe. Disponível em monthlyreview.org
Absorção do excedente, estagnação secular e a transição para o socialismo: contradições das economias dos EUA e da China desde 2000 (Surplus absorption, secular stagnation, and the transition to socialism: contradictions of the U.S. and the Chinese economies since 2000), autores Lingyi Wei e Minqi Li, 2024. EUA e China, dois exemplos que ilustram as contradições económicas nas condições de uma estagnação secular, e as possibilidades de transição para o socialismo. Disponível em monthlyreview.org
Pequim, Xian, Guilin, Cantão, Shenzhen. Outubro 2025
Os dados numéricos e outros apresentados encontram-se na internet, em fontes abertas.