Lições de uma guerra que o Irão não perdeu

Editor / Dmitry Trenin, RT — 16 Abril 2026

Manifestantes exigem resposta “esmagadora” aos ataques dos EUA e Israel. Março 2026

Tirando os comentadores que afinam pelas ordens-de-serviço das embaixadas dos EUA ou de Israel, é opinião comum que o Irão está a conseguir sair por cima na guerra que lhe foi imposta, e que, por isso mesmo, os agressores a estão a perder. As consequências deste facto para os equilíbrios mundiais, para a resistência do Sul Global ao imperialismo e para a própria reconfiguração do poder no Irão, são destacadas por Dmitry Trenin, numa análise sumária, mas directa – em que o prisma russo e chinês não deixa de estar presente.

 

O IRÃO SAIU POR CIMA E O MÉDIO ORIENTE MUDOU. QUATRO LIÇÔES DE UMA GUERRA QUE TEERÃO NÃO PERDEU

Dmitry Trenin

O presidente dos EUA, Donald Trump, acabou por encontrar uma saída para a situação que ele mesmo criou ao embarcar numa guerra imprudente contra o Irão. A ameaça de destruir toda uma civilização forneceu-lhe o pretexto para recuar.

As negociações indirectas entre Teerão e Washington, conduzidas por meio de intermediários, principalmente o Paquistão e, por trás dele, a China, produziram um cessar-fogo. Trump pode alegar que o Irão se intimidou com as suas ameaças, mas a realidade é outra.

Um cessar-fogo sob condições em que o Estreito de Ormuz permanece debaixo de controlo iraniano sugere que Teerão não recuou. Washington, na verdade, recuou.

É muito cedo para falar numa “era de ouro” que possa surgir destas negociações. Mas os contornos do desfecho do conflito já são visíveis.

  1. O Irão manteve-se firme

Durante décadas, o Irão enfrentou a ameaça de uma agressão conjunta dos Estados Unidos e de Israel. Essa ameaça foi agora testada e não conseguiu quebrar Teerão. Nem Washington nem Telaviv se mostraram capazes de impor a sua vontade pela força.

O resultado é claro: o Irão consolidou o seu status como uma grande potência regional, figurando ao lado de Israel como um dos actores decisivos no Oriente Médio.

  1. Os estados do Golfo foram expostos

As monarquias árabes do Golfo Pérsico descobriram tanto a sua vulnerabilidade quanto a sua dependência. Num conflito entre os EUA/Israel e o Irão, mostraram-se incapazes de defender os seus próprios interesses. Enquanto isso, as bases americanas no seu território, longe de garantirem segurança, tornaram-se alvos de retaliação iraniana.

Conclusão: As garantias de segurança dos EUA demonstraram ser pouco confiáveis. Essa lição não passará despercebida aos aliados de Washington.

  1. O poder militar reafirmou a sua primazia

O conflito evidenciou uma verdade mais ampla sobre a ordem internacional emergente: a força militar supera a influência económica e financeira.

Como escreveu Pushkin:

Tudo é meu na Terra, disse o ouro.
Tudo é meu, disse o ferro frio.
Eu comprarei tudo, disse o ouro.
Eu conquistarei, disse o ferro frio.

O Irão, sob sanções e assolado por dificuldades económicas, resistiu com eficácia e, em termos estratégicos, derrotou uma superpotência global. Enquanto isso, os seus vizinhos do sul, muito mais ricos, foram reduzidos a pouco mais que espectadores ou, pior, alvos.

Conclusão: No mundo actual, a força bruta determina os resultados.

  1. O Irão mudou internamente

O Irão emergiu do conflito intacto, mas transformado. Durante a guerra, uma mudança há muito prevista pelos analistas parece ter ocorrido. O poder real deslocou-se do clero para o aparato de segurança.

O país já não é definido principalmente pela sua liderança formal, mas sim pelos altos escalões da Guarda Revolucionária Islâmica.

Conclusão: O Irão continuará a ser uma república islâmica, mas na qual o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) desempenhará o papel decisivo. A sua política provavelmente será firme, disciplinada e pragmática.

A posição da Rússia

Moscovo conduziu o conflito com um certo grau de disciplina estratégica. Manteve os seus princípios, denunciando a agressão pelo seu nome, expressando solidariedade ao Irão e vetando o que considerou uma resolução desequilibrada do Conselho de Segurança da ONU sobre o Estreito de Ormuz.

Ao mesmo tempo, preservou relações de trabalho com actores-chave: explicando a sua posição aos parceiros do Golfo, evitando confrontos directos com Trump e abstendo-se de prejudicar os laços com Israel.

As consequências mais amplas do conflito — um aumento temporário nos preços do petróleo, tensões nas relações transatlânticas e um maior desvio da atenção dos EUA da Ucrânia – desenrolaram-se em grande parte independentemente do envolvimento directo da Rússia.

Olhando para o futuro

A guerra abriu novas oportunidades para Moscovo. O Irão, tendo passado por um teste severo, fortaleceu a sua posição regional e internacional. Isso cria condições para uma cooperação mais estreita entre a Rússia e Teerão.

Em termos mais amplos, os contornos de uma nova arquitectura de segurança eurasiática estão a tornar-se visíveis. Rússia, China, Irão – juntamente com estados como a Bielorrússia e a Coreia do Norte – formam o núcleo desse sistema emergente.

No Sul, o Irão efectivamente interrompeu o avanço geopolítico americano. No Oeste, a Rússia procura fazer o mesmo na Ucrânia. No Leste, a China continua a expandir as suas capacidades militares enquanto avança na sua agenda diplomática.

É por meio de tais desenvolvimentos, não de declarações, mas de mudanças de poder e alinhamento, que um mundo multipolar está a tomar forma.

Dmitry Trenin é professor investigador da Escola Superior de Economia e investigador sénior do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Rússia. É membro do Conselho Russo de Assuntos Internacionais.

 

Nota do editor

A revista Foreign Policy, dedicada à política externa norte-americana, mostra-se amplamente crítica da guerra conduzida contra o Irão. Mesmo considerando o pendor Democrata da publicação, e daí algum tom de desforra para com a administração republicana de Trump, não deixa de ser sintomático que a derrota dos EUA na aventura iraniana seja posta em termos tão cortantes e mesmo definitivos por um porta-voz do capital imperialista.

Numa das suas últimas edições, apresentava títulos como este, dando conta da derrota dos aliados dos EUA na região: “Para onde vão os Estados do Golfo a partir de agora? A guerra dos EUA com o Irão destruiu o seu modelo económico”.

Ou este, sugerindo um ajuste de contas com os promotores da guerra: “As elites pró-guerra dos EUA devem ser responsabilizadas. Os defensores da desastrosa aventura no Irão não devem escapar da responsabilidade”.

Ou ainda esta previsão que resume o fracasso dos EUA: “A guerra terminará com uma portagem em Ormuz. O Irão provavelmente controlará a hidrovia”.

Por fim, este, evidenciando o ponto fraco de toda a manobra imperialista: “A única coisa que aterroriza Donald Trump: o Irão descobriu o seu calcanhar de Aquiles – uma recessão no mercado”.


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