A última esperança da humanidade

Editor / O Comuneiro — 10 Abril 2026

Revoluções sob ameaça. Hasta la victoria, siempre!

Temos o privilégio de viver numa época de profunda mudança histórica a partir da qual nada será como dantes, assinalam os editores de O Comuneiro na introdução ao número de março da revista. A humanidade está perante a ameaça da extinção da espécie se prevalecer o rumo imposto pelos poderes do sacro império ocidental. Para o travar e abrir futuro à humanidade, é preciso enfrentar e desarticular esses poderes, que são o produto da degenerescência da sociedade capitalista ocidental, alheia a tudo o que esteja para lá de um cálculo de custo-benefício.

Numa dezena de artigos, são tratados temas como o da troca desigual entre os países do centro e da periferia capitalista, que Arghiri Emmanuel trouxe para a ribalta nos meados do século passado, ou como o da contemporânea concepção de civilização ecológica tal como é entendida pela República Popular da China.

Pelo meio, a efectiva descolonização do terceiro mundo, tratada, entre outros, por autores africanos; o socialismo e o papel das classes trabalhadoras como coveiras do capitalismo; três ameaças que impendem sobre a humanidade (armas nucleares, alterações climáticas e inteligência artificial), abordadas por autores iranianos; o capitalismo monopolista financeirizado, com recurso à abordagem de Marx, tema tratado por autoras chinesa e indiana.

 

CADA VEZ MAIS EVIDENTE QUE O COMUNISMO É O ÚNICO FUTURO VIÁVEL PARA A HUMANIDADE

Ângelo Novo, Ronaldo Fonseca

Quem está vivo nestes dias tem o privilégio raro de assistir a uma época de bifurcação histórica, a partir da qual nada mais será como dantes. A violência é de novo a parteira. Uma das alternativas em disputa – precisamente aquela que nos é imposta como indiscutível e a única civilizada, por todos os grandes meios de comunicação social – conduz-nos para um declive sociopatológico, numa contínua escalada de horror e grotesca misantropia, que terminará, inevitavelmente, com a extinção em massa da humanidade. Não é, pois, despiciendo o que está em jogo. Para que a aventura humana possa ter alguma esperança de prosseguir, é indispensável enfrentar e desarticular todos os poderes fáticos que têm regido o mundo desde há tempos imemoriais. Donald J. Trump e o seu circo neofascista global são apenas o sintoma de uma degenerescência muito mais profunda, bem incrustada na própria tessitura de todo o sacro império ocidental. De geração em geração, a iniquidade e a anomia foram sendo sempre acrescidas e empurradas para a frente, como sendo um trilho natural expansionista e libertário, até que, finalmente, tomaram o freio nos dentes para atingir todo o paroxismo destruidor a que assistimos. É a dissociedade espetacular em ação. Podemos vê-la assomar, com a sua caraterística fúria acrata, parricida e niilista, em todas as tentativas de revolução colorida.

There is no such thing as a society, dizia Margaret Thatcher, com toda a sua autossuficiência ignorante. Há apenas indivíduos, com o seu interesse próprio bem compreendido e dispostos a bater-se por ele. É o bellum omnium contra omnes. A China, a Rússia, o Irão e uma grande maioria de outras formações sociais, no Sul global, porventura menos poderosas e desafiantes que estas, pretendem desmentir esta asserção, impermeáveis à estupidez suicidária dos ocidentais. É aqui que reside a última esperança da humanidade. Naquilo a que, no Ocidente, se chama de autocracias totalitárias. Ou seja, nas sociedades que ainda mantêm alguma coesão, solidariedade, capacidade de sacrifício, sentido de cuidado e de entreajuda; nas sociedades em que o poder político tem um rosto e não reside efetivamente em forças económicas difusas e espontâneas que se mantêm na sombra, dotadas de poderes sociais despóticos sem qualquer controlo; nas sociedades patrióticas, independentes e cultoras da autossuficiência produtiva; nas sociedades em que o povo ainda existe e tem uma palavra a dizer sobre o seu destino, não estando ainda transformado numa multidão inorgânica de consumidores, embrutecida pelas luzes do espetáculo, induzida a desprezar o próximo e, consequentemente, a votar contra si própria.

A luta contra o império ocidental é muito dura e sem quartel. O inimigo está debilitado, é certo, mas não pode nunca ser subestimado. Quando era forte, permitia-se alguma magnanimidade, que é uma forma um pouco mais distendida de desprezo. Isso acabou. Julgando-se ainda omnipotente, está em estado de perpétuo azedume, dissimulação e reserva mental. É pérfido e sem palavra, como sempre foi, mas agora com uma nota de destrambelho. Enquanto negoceia, tenta assassinar a contraparte, usando os contatos que esta lhe forneceu. De regresso a mais uma ronda negocial, dá instruções para bombardear e iniciar uma guerra total de extermínio. Mata crianças, sobretudo onde as conseguir encontrar reunidas em grande número, mulheres trabalhadoras, sobretudo em idade fértil, jornalistas, académicos, intelectuais públicos, agentes de segurança e profissionais de saúde. Destrói prioritariamente hospitais, clínicas, centros de assistência alimentar e médico-sanitária, ambulâncias, carros e quartéis de bombeiros, esquadras de polícia, edifícios administrativos, órgãos de comunicação social, escolas, universidades, salas de espetáculos, mesquitas, mercados, sem menosprezar mesmo singelas padarias de bairro. A lógica, assistida por inteligência artificial, é destruir todas as juntas da tessitura social e os esteios da reprodução vital. É uma dissociedade catastrófica, reservada aos outros. Para sua “segurança”, à sua volta só é possível haver ruínas, cadáveres, fome, guerra civil e desolação a perder de vista. Não estamos a falar apenas, nem sobretudo, de Israel, mas sim do conjunto do mundo ocidental.

Estamos em estado de grande inquietação e ansiedade com a situação política da América Latina, em particular com o muito difícil estado das revoluções cubana e venezuelana. A retração da besta imperialista sobre o seu próprio hemisfério e o estado já muito avançado da guerra mundial larvar em curso, com descarte de todos os pruridos remanescentes com a legalidade internacional e a liberdade de curso marítimo (o que nada tem a ver, em particular, com a personalidade atrabiliária de Trump) ditaram uma situação de grande alarme, seriedade e exigência. Estamos solidários com os nossos companheiros venezuelanos e cubanos, com quem partilhamos tantos momentos inesquecíveis de esperança e camaradagem. Devemos-lhes uma parte muito importante da nossa própria formação, que nunca renegaremos. Vamos ao combate em seu apoio, no que for preciso, sem ter nunca a pretensão de exigir deles sacrifícios impossíveis para os seus povos. Eles mesmos serão os únicos juízes sobre isso. A luta continua. Hasta la victoria, siempre! Em longitudes mais distantes, as dificuldades são muito maiores para os imperialistas, cegados pela própria soberba, iludidos pela própria propaganda. O sorriso da vitória está neste momento já a desenhar-se com nitidez, na sorte de armas da brava nação iraniana. A besta pode entrar em colapso financeiro em resultado disso, mas não é seguro que isso aconteça de imediato. (…)

Não bastará, contudo, extirpar do mundo o monstruoso abscesso ocidental. É agora cada vez mais evidente que o comunismo é o único futuro viável para a humanidade. Em última instância, só o comunismo garantirá uma sustentável harmonia entre o metabolismo do mundo natural e o do trabalho humano a ele sobreposto, que dele é parte integrante. É uma aspiração muito antiga. Teve inúmeros defensores, de grande valor e exemplo. Não queremos parecer escolásticos, mas o que Marx pensou sobre o comunismo, quando, porquê e com que bases, continua a interessar-nos sobremaneira. John Bellamy Foster é um guia seguro, sempre interessante e judicioso, nessa história intelectual. A mais valiosa e generosa parte da humanidade continuou sempre a manter uma ligação ao comunismo, ao longo de toda a história multimilenar das sociedades de classes. É uma linha de vida preciosa, que foi passando testemunho reforçado, de geração a geração, e que pode ainda vir a fazer a diferença entre ser e não ser para a espécie humana. Para quem isso possa interessar.

Destruída a humanidade, a vida no planeta (e, quem sabe, para lá dele) prosseguirá, sem dúvida. Do ideal ponto de vista do bioma terrestre no seu todo (que não seria obrigado a destrinçar entre humanidade boa e má), a eliminação desta espécie animal atrevida e dominadora, que se deixou dominar pelo génio satânico do modo de produção capitalista, será até um acontecimento auspicioso, proporcionador de um indispensável reequilíbrio homeostático. Para uma espécie futura capaz de vir a fazer esses julgamentos, tratar-se-á, sem dúvida, retrospetivamente, de um evento histórico marcado por uma certa justiça termodinâmica. Para os humanos contemporâneos que, bem prevenidos, por um alargado consenso científico, promoveram e conduziram, ainda assim, conscientemente, a destruição das condições de reprodução da vida humana, notoriamente, isso tanto se lhes faz. É que, entretanto, já tiraram da vida tudo o que dela queriam (em riqueza e outras glórias), para si próprios, naturalmente, antes de recolherem à terra saciados. Para os ocidentais, é isto tudo o que importa. Não querem saber, sequer, dos juízos da posteridade, assumindo, consciente ou inconscientemente, que já muito pouco haverá disso para os seus contemporâneos. Nenhuma história os julgará. Nisso podem bem estar enganados, como em tantas outras coisas.

 

 


Envie-nos o seu comentário

O seu email não será divulgado. Todos os campos são necessários.

< Voltar