Nova Iorque, terreno para uma luta séria

Editor / John Catalinotto — 11 Novembro 2025

CONGELA AS RENDAS, exige um apoiante de Zohran Mamdani

A ascensão de Zohran Mamdani a presidente da câmara de Nova Iorque abalou não apenas o meio partidário norte-americano, mas também muitas das convicções que parecem dominar (e na verdade dominam grandemente) a realidade política dos EUA. Por exemplo, o racismo, o peso das oligarquias, o colete de forças que prende o eleitorado no bipartidarismo Republicanos/Democratas, aparentemente sem alternativa. A questão agora é esta: O que vai ser o mandato de Mamdani? Como vai ele cumprir promessas como casas baratas, transportes gratuitos, saúde para os trabalhadores, proteção dos imigrantes?

Tudo depende da luta que for empreendida pela massa popular que agora o apoiou acreditando numa viragem de rumo. É o que sublinha John Catalinotto, editor do jornal comunista Workers World na sua análise do acontecimento, ciente de que os poderes instalados não desapareceram – e que a força política dos de baixo depende da sua capacidade de mobilização.

 

MAMDANI VENCE: UM PASSO RUMO À LUTA

John Catalinotto / Workers World

O facto de Zohran Kwame Mamdani ter vencido as eleições em Nova Iorque com mais de 50% dos votos foi um golpe na campanha perversa de islamofobia, ódio aos migrantes e difamação anticomunista que infestou a publicidade contra Mamdani, como a que foi mostrada sem parar durante a World Series [campeonato de basebol]. Que uma camarilha de bilionários, sionistas e magnatas do setor imobiliário tenha desperdiçado 50 milhões de dólares dos seus lucros ilícitos nessa publicidade foi mais do que encorajador.

A eleição para presidente de Nova Iorque tinha-se tornado um referendo sobre aquelas questões.

Trump acusou Mamdani de ser comunista e depois apoiou Cuomo. Cuomo tentou comprometer Mamdani com os atentados de 11 de setembro de 2001 e veiculou anúncios antimuçulmanos gerados por IA demasiado repugnantes para serem descritos.

O facto de os eleitores de Nova Iorque terem mostrado o dedo aos ataques vis desferidos contra os muçulmanos e ao vil anticomunismo [dos apoiantes de Cuomo] é um passo em frente para a classe trabalhadora.

Após a vitória eleitoral, o New York Post publicou uma caricatura de Mamdani segurando uma bandeira com foice e martelo e titulando Nova Iorque como a Maçã Vermelha.

Mamdani não é comunista, nem pretende ser revolucionário. Declara-se socialista democrático, ou seja, apoia reformas. A sua estratégia geral é conduzir o Partido Democrático, que é um partido pró-imperialista, numa direção mais progressista para chamar mais trabalhadores e gente pobre e oprimida para um apoio ativo ao partido.

A campanha eleitoral de Mamdani para presidente fez algumas exigências muito atraentes, mas limitadas. Autocarros rápidos e gratuitos. Habitação a preços acessíveis. Cuidados infantis universais. Por mais limitadas que sejam essas exigências, os bilionários de Wall Street e do setor imobiliário, que detêm a cidade de Nova Iorque, consideram-nas uma ameaça existencial.

Não há possibilidade de tais exigências serem conseguidas apenas com manobras legislativas ou com as palavras de um indivíduo, por mais eloquente ou carismático que seja. É sempre preciso luta. E quer se intitulem reformistas ou revolucionários, ninguém lhes conhece a aptidão para a luta até que a luta se desencadeie.

Mas a luta de classes é possível, e a vitória eleitoral pode criar um impulso que a torna mais viável. Mamdani disse que a sua campanha atraiu 100.000 voluntários ativos, a maioria jovens. A sua atividade e o seu entusiasmo conseguiram ganhar a disputa eleitoral.

No seu discurso de vitória, Mamdani, falando sobre os imigrantes, também disse o seguinte: “Ouça, presidente Trump, quando eu digo isto: para chegar a qualquer um de nós, você terá que passar por todos nós”.

Este comentário prepara o terreno para uma luta séria. Há poucas dúvidas de que Trump planeia enviar os seus capangas do Serviço de Imigração e Fronteiras (Immigration and Customs Enforcement, ICE) para perseguir imigrantes em Nova Iorque, como foi feito em Los Angeles, Washington, Chicago e outros lugares. Um teste inicial do novo governo de Nova Iorque pode ser o de saber como é que ele vai ajudar a mobilizar a população para impedir que Trump “chegue a qualquer um de nós”.

A única maneira de defender os trabalhadores imigrantes será mantendo os voluntários eleitorais mobilizados e recrutando outros para se juntarem à resistência contra os ataques do ICE aos imigrantes, como já começou a acontecer com forças menores. Se isso for feito, os que têm uma visão mais revolucionária e anti-imperialista devem juntar-se à luta de resistência e, à medida que a oportunidade surgir, demonstrar como uma abordagem revolucionária torna a vitória possível.

Não é com decepção ou desilusão face ao reformismo que as pessoas se voltam para a solução revolucionária necessária. É mostrando, da parte dos revolucionários, como se pode vencer.

——

Nota do editor

Jovem com 34 anos, muçulmano, imigrante, não branco, dito socialista, apoiante da causa palestina, denunciante da barbárie sionista em Gaza, acusador das grandes famílias dinásticas que têm governado Nova Iorque, rejeitado pelos grandes patrocinadores de campanhas eleitorais milionárias, apoiado por uma rede popular de ativistas, defensor de políticas sociais para os mais pobres… Mamdani venceu todos os obstáculos que lhe puseram pela frente.

O primeiro foi Andrew Cuomo, cuja família (no sentido de “família” como a que é retratada na saga de O Padrinho) governou Nova Iorque por mais de vinte anos. Teria sido ele o candidato do partido Democrata se não tivesse sido derrotado por Mamdani em eleições primárias. Apoiado, mesmo assim, pelos milionários do poder instalado, teve de concorrer como “independente”, na tentativa de perpetuar a dinastia e garantir os benefícios dos patrocinadores.

Outro obstáculo foi Trump que acusou Mamdani de todos os males do mundo – o que, na mente elementar do presidente dos EUA (não só deste), corresponde ao comunismo.

Mandani venceu Cuomo, mas também Trump, que, num gesto de solidariedade de classe, apoiou o “independente” de última hora – mostrando que Republicanos e Democratas estão bem unidos em torno do que é essencial ao “sistema”: a manutenção no poder da casta capitalista que domina os negócios.

Não é uma viragem, mas o sinal de que uma viragem é possível. Há sintomas de que os de cima já não conseguem governar como dantes. Trump e Mamdani são exemplos disso mesmo, cada um por seu lado. Será preciso agora que os de baixo não aceitem ser governados como dantes. O quadro de decadência em que os EUA de hoje se movem pode abrir caminho a novas surpresas.


Comentários dos leitores

Carmen 18/11/2025, 14:06

Obrigada. Nada a acrescentar.


Envie-nos o seu comentário

O seu email não será divulgado. Todos os campos são necessários.

< Voltar