Cruzada moralizadora

Editor — 21 Janeiro 2023

Como o PS faz a política de que o patronato precisa de momento, a direita não tem política que se veja. A política do Governo é esta: calar a boca aos pobres e assalariados com umas migalhas, enquanto o Estado paga a colossal dívida dos privados com dinheiro público, ao mesmo tempo que os abastece de capital fresco, gratuitamente e a rodos, com as verbas do PRR. 

Sem política própria, resta à direita a intriga e o trabalho de sapa. O surto de denúncias de corrupção, de incompatibilidades, de “falta de ética”, etc. — de parte a parte, entre as forças do poder e adjacências — apenas revela de forma concentrada e em catadupa a corrupção e o compadrio de que se alimentam as classes dominantes. 

A vidinha de sempre é posta a nu, está nisso a novidade. A fúria justiceira é ditada, não pelo sentido de justiça, mas pelas circunstâncias do momento: o monopólio que a maioria absoluta confere ao PS por quatro anos. O confronto, muitas vezes de bastidores, entre as classes dominantes é agora prosseguido por outros meios. Vantagens para quem está de fora: ver, não apenas o lodaçal em que o poder patinha, mas os fundamentos em que assenta o sistema social.

A esquerda parlamentar embarcou na cruzada moralizadora. Move-se no círculo estreito segundo o qual é preciso expurgar a governação das “maçãs podres” e colocar no poder “os homens certos”. Dá a entender que, se fossem outros os protagonistas, “gente séria”, tudo caminharia pelo melhor. Absolve o sistema de poder em que tudo isto se desenrola desde há décadas. 

Esta esquerda — por ser a esquerda que se movimenta dentro das baias do regime — escolhe não dizer verdades mais fundas, metidas na gaveta por estarem fora de moda. Por exemplo: a) que “o moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócio comuns de toda a classe burguesa”, b) que a corrupção e o compadrio (a história o prova) fazem parte do modo de vida capitalista, c) que a burguesia só se insurge contra os abusos quando estes prejudicam o bom andamento geral dos negócios, d) que os poderes públicos só arvoram “princípios democráticos” quando se torna imperioso arbitrar as disputas entre facções burguesas, e) que a mãe de toda a corrupção (legal) é o contínuo roubo do trabalho pelo capital, e que é daí que provêm as “indemnizações” e os vencimentos milionários, f) que a moral dominante assenta nesta base podre, universalmente consentida, e por isso não pode dar frutos sãos.

Num momento em que o dedo dos factos aponta a Lua (a degradação senil do sistema político, social, económico) a esquerda parlamentar olha para o dedo (os casos e os protagonistas que dão corpo à podridão). Deixa assim à demagogia da extrema-direita o papel de actor “crítico” do “sistema”.

Dos escândalos da TAP, por exemplo, vai por acaso sair alguma medida que proíba “indemnizar” os dirigentes e gestores quando eles saltam de um cargo para outro? Vai por acaso impor-se limites aos montantes dos vencimentos desses dirigentes e gestores? Vai por acaso impedir-se que os demais gestores, públicos ou privados, ganhem à razão de dez ou vinte vezes os salários médios das respectivas empresas? Vai por acaso reconhecer-se que, sejam as empresas públicas ou privadas, os ganhos de patrões, dirigentes ou gestores vêm todos da mesma fonte: a penúria de quem trabalha a troco de um salário? Vai pôr-se cobro a tudo isto?

O assunto da TAP, e outros que têm surgido, estão a funcionar como abcesso de fixação. No caso da TAP, à conta de se tratar de uma empresa nacionalizada, centra-se a atenção na moralização dos “gastos públicos”, mas deixa-se na sombra o rosário de escândalos, iguais ou piores, do BPN, do BPP, do Banif, do BES-Novo Banco, da CGD, do BIC-Luanda Leaks, da EDP, da PT, dos Panamá Papers, e ainda do ministério da Defesa, de Tancos, das messes da Força Aérea ou das polícias — que, considerados por junto, dão um quadro dos padrões de conduta de quem detém poder.

Neste carrossel de “revelações”, também não cabem outros temas que hoje estão no centro da acção governativa e do Estado. É o caso da ruinosa e criminosa política de submissão à Nato na guerra da Ucrânia, sistematicamente passada em silêncio como se de coisa normal se tratasse. E, no entanto, esse será outro dos motivos pelos quais a Europa e o país se encaminham para uma recessão desastrosa e uma verdadeira devastação social, de que as principais vítimas, como já se vê, serão os assalariados e o magro Estado Social.


Comentários dos leitores

MANUEL BAPTISTA 21/1/2023, 21:51

Gostei da ironia do título!

chico 22/1/2023, 9:17

o poder, burguês neste caso, permite e origina necessariamente, não como um apendice mal cheiroso mas sim como uma obrigatoriedade, todo este chorrilho de "crimes". A esquerda não faz luz sobre o assunto e alinha na "condenação" moral geral sem retirar nenhuma orientação para a luta


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