Mais uma guerra?

Editor / Sara Flounders — 6 Agosto 2022

Pelosi em Taiwan: acrescentar uma dimensão militar à guerra económica iniciada pelos EUA contra a China

O artigo que divulgamos, centrado na visita de Pelosi a Taiwan, põe o foco no facto de o poder norte-americano estar a criar condições para um confronto militar com a China na região do Pacífico. Ao mesmo tempo, mostra as razões de competição económica que levam os EUA a provocar a China e a colocar o mundo um passo mais à frente no caminho da guerra. Não se pode desligar estes acontecimentos nem do conflito na Ucrânia, em que o Ocidente empenha esforços para debilitar a Rússia, nem das decisões tomadas na recente cimeira da Nato, em Madrid, na qual os EUA manifestaram abertamente o propósito de estender o seu braço armado até ao Extremo-Oriente.

 

MAIS UMA GUERRA? EUA USAM TAIWAN PARA PROVOCAR A CHINA

Sara Flounders, Workers World, 2 agosto 2022

As provocações dos EUA contra a China estão em aceleração. Enquanto a guerra na Ucrânia, instigada por Washington, se desenrola com consequências desastrosas para as economias europeias e se repercute na economia mundial, um confronto mais sinistro está a ser planeado.

O porta-aviões USS Ronald Reagan, acompanhado do seu grupo de ataque, um cruzador de mísseis guiados, destróieres e submarinos nucleares, encaminhou-se para a costa da China, perto do Estreito de Taiwan. Essa agressiva demonstração de força pretende ser uma ameaça para apoiar o plano da congressista Nancy Pelosi de visitar Taiwan.

A China declarou forte objecção a essa escalada militar aberta como uma violação flagrante da posição acordada pelos EUA de que a China é um só país e incorpora Taiwan como uma província sua.

O presidente Xi Jinping alertou o presidente dos EUA, Joe Biden, numa teleconferência em 28 de julho dizendo que “quem brinca com o fogo morre queimado”. Xi pediu aos EUA que honrem o princípio de Uma Só China com o qual concordaram. (tinyurl.com/35wpmymu)

“Não digam que não avisámos” foi uma manchete do Global Times de 29 de julho. É o nível mais alto de alerta usado no passado pela China antes de encarar a acção militar.

“As respostas da China serão sistemáticas e não limitadas a uma pequena escala, dada a gravidade das acções de Pelosi e os danos à confiança política nas relações sino-americanas”, disse Yang Mingjie, chefe do Instituto de Estudos de Taiwan da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Acrescentando que a resposta da China pode incluir “opções militares e contramedidas abrangentes desde a economia à diplomacia”.

O objectivo da viagem [que inclui Singapura, Malásia, Coreia do Sul e Japão] é reafirmar uma intervenção agressiva na Ásia e desafiar abertamente o acordo sobre Uma Só China.

Pelosi, que ocupa o terceiro lugar na linha de sucessão à presidência, é a mais alta autoridade dos EUA a visitar a ilha em 25 anos, pelo que dificilmente esta seria uma viagem pessoal. A visita é um desafio arrogante à unidade da China, apoiada por um grupo de combate de porta-aviões dos EUA e jactos militares.

A posição consistente da China

A China tem mantido uma posição consistente e bem compreendida sobre a sua soberania e integridade territorial. Washington está a violar abertamente um acordo internacional assinado há 50 anos, em 28 de fevereiro de 1972, entre o primeiro-ministro Zhou Enlai e o presidente dos EUA, Richard Nixon, chamado Comunicado Conjunto de Xangai. O Secretário de Estado dos EUA William P. Rogers e o Conselheiro Especial Henry Kissinger participaram da elaboração deste documento.

Naquela época, os EUA estavam isolados na Ásia e quase derrotados no Vietname. Essa foi a motivação para normalizar as relações – após duas décadas de esforços fracassados para derrubar a Revolução Chinesa por meio de duras sanções e interferências militares. 

Agora, 50 anos depois, o poder imperialista dos EUA está em declínio. China, Rússia, Irão e outros países da região estão cada vez mais unidos e capazes de se ajudar uns aos outros diante das ameaças militares do imperialismo norte-americano e dos novos níveis de sanções económicas.

O ponto de partida da República Popular da China em 1972 para normalizar as relações com os EUA foi uma garantia assinada de não interferência nos seus assuntos internos e respeito pela sua soberania e integridade territorial.

É claro que, como em todos os seus acordos e tratados, os EUA violaram essa garantia várias vezes por meio da sua interferência em Hong Kong, Tibete, Xinjiang e Taiwan e o seu financiamento a movimentos hostis à China a coberto de programas de ajuda dos EUA.

Da maior importância foi a inclusão de Taiwan no Comunicado Conjunto de Xangai de 1972, que permanece válido até hoje. Os Estados Unidos reconheceram que “todos os chineses de ambos os lados do Estreito de Taiwan afirmam que existe apenas uma China, e que Taiwan é parte da China. O governo dos Estados Unidos não contesta essa posição. Reafirma o seu interesse numa solução pacífica da questão de Taiwan pelos próprios chineses”.

O que Wall Street quer subverter

Hoje, a economia planeada da China supera a economia capitalista dos EUA. Para a classe dominante dos EUA, os esforços para subverter a China tornaram-se uma prioridade.

Com uma população de apenas 23 milhões, Taiwan tornou-se um peão na luta para desestabilizar a China. Várias cidades no continente chinês têm populações maiores do que a província insular de Taiwan. Por que razão Taiwan é tão importante para a estratégia de Washington?

A China é o maior parceiro comercial de Taiwan. É um importante centro de fabricação de chips semicondutores para computador e outros produtos de alta tecnologia que são críticos nas cadeias de abastecimento globais. A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) domina actualmente o mercado, produzindo 92% dos semicondutores mais avançados do mundo.

Actualmente, nenhum desses chips mais avançados é fabricado nos EUA. Enquanto isso, a China está a investir enormes recursos no desenvolvimento rápido dos seus próprios chips para computador. Quebrar esta cadeia de abastecimento essencial entre Taiwan e a China visa interromper a produção global chinesa. É claro que o efeito será ainda mais perturbador para os EUA e a União Europeia. Com ameaças de sanções, os EUA já forçaram empresas de semicondutores de Taiwan a parar de fazer negócios com grandes clientes chineses como a Huawei.

A política de Uma Só China

A ilha de Taiwan permaneceu oficialmente uma província da China desde 1683 durante a Dinastia Qing.

Após a Guerra Civil Chinesa em 1949, as corruptas forças nacionalistas do Kuomintang, apoiadas pelos EUA, retiraram-se para a província insular chinesa de Taiwan com apoio naval dos EUA. A vitória do Partido Comunista Chinês fundou então a República Popular da China.

Em Taiwan, as forças do Kuomintang estabeleceram a chamada República da China, reclamando ser o governo de toda a China, e continuam a fazê-lo hoje. Mas mesmo a constituição de Taiwan afirma que Taiwan é uma província de toda a China. A esmagadora maioria do mundo, tal como as Nações Unidas, reconhecem oficialmente que Taiwan faz parte da China Popular.

O imperialismo dos EUA, no entanto, inverteu o curso e busca, por meio de medidas políticas e militares, usar Taiwan para desestabilizar a China e provocar um confronto militar.

A ‘Viragem para a Ásia’

Em 2011, o presidente Barack Obama anunciou uma ‘Viragem para a Ásia’ (‘Pivot to Asia’), destinada a cercar e conter a China. Sob Donald Trump, a posição oficial era de que os militares devem dar prioridade ao planeamento de grandes conflitos de poder com a República Popular da China. Trump elevou essa hostilidade militar a um nível superior através da guerra comercial.

O presidente Joe Biden foi ainda mais longe, com mais vendas de armas e acções agressivas. Democratas e republicanos no Congresso competem uns com os outros propondo medidas anti-China.

A presença militar dos EUA em Taiwan redobrou em dezembro passado. Embora não incluídos nas contagens, os Boinas Verdes dos EUA [forças especiais do exército] treinam soldados taiwaneses; outros consultores e contratantes dos EUA estão envolvidos na instalação de armas, assistência técnica e treino; e existe uma escalada constante das vendas de armas dos EUA para Taiwan.

São os militares e os negociantes de armas dos EUA que dizem o que Taiwan deve pedir.

O Pentágono forneceu armas semelhantes à Ucrânia.

Uma venda de armas a Taiwan de 108 milhões de dólares em 25 de maio foi a quinta sob o governo Biden e a quarta aprovada este ano. Isto depois de um sistema de defesa aérea de 95 milhões em abril e uma actualização de 100 milhões para mísseis Patriot em fevereiro. Um montante de 14,2 mil milhões em equipamentos militares encomendados desde 2019 está para ser entregue.

O objectivo é fazer de Taiwan um “porco-espinho” eriçado de armas. A ilha está a ser transformada numa plataforma ofensiva para a guerra, enquanto os estrategas dos EUA procuram provocar a China para uma acção militar.

Washington durante anos empregou uma estratégia semelhante para constituir forças militares e fascistas na Ucrânia como uma plataforma contra a Rússia, com o objectivo de provocar a actual guerra.

Estas vendas contínuas de armas, juntamente com a visita de Pelosi, visam minar ainda mais a política de Uma Só China.

O jornal japonês Nikkei Asia relata que os EUA estão em discussões para construir uma rede de mísseis ofensivos que violaria o tratado sobre mísseis nucleares acerca de Taiwan. Em 5 de maio, o Departamento de Estado removeu do seu site oficial o texto que dizia “os Estados Unidos não apoiam a independência de Taiwan” e que reconhecia “a posição chinesa de que existe apenas uma China e Taiwan faz parte da China”.

Este ano, pela primeira vez, Austrália, Japão, Nova Zelândia e República da Coreia foram convidados a participar numa cimeira da Nato como “Parceiros Indo-Pacíficos”. Este convite está alinhado com o novo “Conceito Estratégico da Nato” – um plano estratégico de 10 anos que declara abertamente a China uma ameaça: “A estreita aliança entre a China e a Rússia ameaça os valores ocidentais”.

Guerra sem fim, a solução expedita

As guerras dos EUA na Ásia custaram milhões de vidas, envenenaram gerações de crianças e deixaram uma destruição ambiental que ainda não foi reparada. Quem pode esquecer a devastação causada pelas guerras dos EUA na Coreia, Vietname, Afeganistão, Iraque e Síria? Milhões de pessoas foram deslocadas. Embora cada um destes conflitos terminasse em fracasso para o imperialismo dos EUA, eles renderam biliões de dólares em lucros para as indústrias militares e a classe capitalista.

O perigo real de uma nova guerra está a aumentar. À medida que a crise capitalista se aprofunda, o imperialismo dos EUA voltará a escolher a guerra. Não porque ele vença as guerras, mas porque a classe capitalista parasita precisa desesperadamente de uma enorme injecção de gastos militares. Como uma injecção de drogas, é uma solução rápida mas temporária.

A guerra instigada pelos EUA na Ucrânia não levou ao colapso previsto da economia russa, mas interrompeu as cadeias de fornecimento de energia e alimentos em todo o mundo. É uma das principais causas da recessão actual.

Um confronto militar com a China seria muito mais perturbador. E é ainda menos provável que tenha sucesso.


Comentários dos leitores

José Mário Costa 7/8/2022, 6:37

Dispates, só disaparates que nem o maisacerbado antiamericanismo legitima o branqueamente de uma das mais ferozes ditaduras do mundo atual.

leonel lopes clérigo 7/8/2022, 18:26

Pelos vistos , o nosso companheiro José Mário Costa adora HISTÓRIAS da CAROCHINHA.
E se a DEMOCRACIA ocupar o lugar do JOÃO RATÃO, é de encher as medidas.


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