Um olhar sobre o próximo pós-guerra

Manuel Raposo — 20 Junho 2022

Que caminhos se abrem aos países dependentes a partir do grau de dependência em que se encontram?

Ao mesmo tempo que anunciam repetidamente supostos fracassos militares da Rússia, e até a possibilidade de uma vitória da Ucrânia, os porta-vozes da propaganda Ocidental proclamam aquilo que consideram ser um ganho “estratégico” decisivo e de carácter permanente: a unidade do bloco de forças constituído em torno dos EUA. E exemplificam com o alargamento da Nato aos escandinavos, a (quase) unanimidade das sanções contra a Rússia e a (quase) consonância de esforços no apoio militar aos ucranianos. Olhada mais de perto, contudo, esta unidade não é exactamente como a mostram.

Guerra local, disputa global

A guerra, apesar de limitada até agora ao solo ucraniano, é na verdade um conflito dos EUA com a Rússia. Através da Nato, os EUA mobilizaram as principais potências europeias e arrastaram atrás de si a maioria dos restantes países do continente desde, pelo menos, 2008, quando em Bucareste “convidaram” a Ucrânia a integrar a Nato. 

O propósito de “enfraquecer” a Rússia expresso pelos dirigentes norte-americanos é uma chave para entender a razão pela qual os EUA — com a colaboração servil e interessada dos europeus — empurraram a Ucrânia para a guerra e fazem tudo para manter e prolongar o conflito.

Para além da Rússia, o conflito trava-se também com a China, tanto pelo desafio económico que esta coloca aos EUA, como pelo facto de Rússia e China terem firmado uma aliança explicitamente “sem limites” que as encaminha para formarem um bloco (económico, político, militar) que desafia o domínio mundial do imperialismo norte-americano. 

A questão de saber quem sairá por cima neste confronto só terá resposta se considerarmos o balanço geral de forças no quadro da disputa global que está em curso. A sorte da guerra na Ucrânia, por isso mesmo, ditará muito do que será o mundo daqui para diante. Ela marca um ponto de viragem na história decorrida desde a segunda grande guerra que irá contribuir para sapar a base do poder imperialista actual.

Quais os ganhos dos EUA e do Ocidente?

Os ganhos norte-americanos nesta disputa medem-se pela maior submissão que impuseram à Europa e pelas amarras mais apertadas que estabeleceram com os seus parceiros de sempre da Ásia (Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia). 

Mas pode dizer-se que estes são ganhos aparentes, uma vez que são conseguidos num terreno que já era o seu. E pode mesmo lançar-se forte dúvida sobre se perdurarão no tempo e até quando. Veja-se:

O fim da neutralidade da Suíça — que resolveu alinhar nas sanções à Rússia e foi dada como exemplo simbólico do reforço da unidade ocidental — não significa mais do que a oficialização de um estatuto conhecido: o de cofre-forte da grande finança do mundo capitalista e dos seus valetes. A Suíça, que é uma das grandes “lavandarias” de capitais obscuros e subornos de todo o mundo, limitou-se a pôr a máscara de lado. Preferiu colaborar no roubo descarado, que os EUA lhe propuseram, dos activos de Estado da Rússia e na confiscação das fortunas privadas dos capitalistas russos (que, ironicamente, seriam os melhores amigos do Ocidente…) — percebendo os banqueiros suíços que, no desenlace da guerra, não poderiam contar nem com uns nem com outros.

A integração da Suécia e da Finlândia na Nato tem valor idêntico: formalizar a inscrição numa organização a que na prática ambos os países já pertenciam por inúmeros laços (entendimento político, armamento, exercícios militares), como mostra a designação que lhes é dada pela Nato de “parceiros privilegiados” (enhanced opportunity partners). Mesmo assim, as condições postas pela Turquia — embora de natureza puramente oportunista, ao querer que os novos parceiros extraditem os militantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão — dão conta dos jogos de interesses por que passa a “unidade” da Aliança. E a cedência que os nórdicos estão dispostos a fazer à Turquia é, por sua vez, reveladora do sentido de “democracia” e de “liberdade” que anima a Nato.

O próprio alargamento da UE à Ucrânia está debaixo de nuvens negras: por um lado, as potências europeias querem absorver na sua esfera política a (ou o que restará da) Ucrânia; por outro lado, temem as consequências práticas de integrar um estado arruinado de todos os pontos de vista. A solução, tirada da cartola há dias pelo trio Alemanha-França-Itália, de aceitar a candidatura da Ucrânia — contra as reservas da maioria dos países membros — é uma fuga para a frente: todos sabem que a integração não se dará nos muitos anos que estão para vir.

As sanções aplicadas à Rússia são apresentadas como sinal de um espírito de corpo renovado por parte do Ocidente. Na verdade, são causa de efeitos perversos devastadores. Um, impossível de esconder, é o ricochete que está a originar nas economias norte-americana e europeia (e mundial!), com reforço das tendências inflacionárias, escassez de produtos de consumo imediato e de matérias primas, quebra nas cadeias de abastecimento. Outro, mais disfarçado, é a divisão política que se cavou, nomeadamente na UE, em face dos prejuízos catastróficos que, por exemplo, representaria um corte absoluto das importações vindas da Rússia, especialmente energia, fertilizantes e cereais. 

O apoio militar ao exército ucraniano aparentemente não é negado por nenhum dos membros da Nato. Mas uma série de esquivas sobre que apoio dar, quando e como o fazer, denunciam fricções que dificilmente se coadunam com a ideia de uma cooperação plena. Por exemplo: só recentemente, e sob grande pressão, a Alemanha se decidiu a enviar material de guerra; em vários casos, os envios fizeram-se por troca com material de países terceiros (como a Polónia e a Roménia) para que não se pudesse dizer que tal ou tal país tinha colocado equipamento seu no teatro de operações… 

Por detrás de frases de aparente consenso, as manobras diplomáticas das principais potências da UE (França, Alemanha e Itália) denotam a tentativa de acabar com a guerra o mais depressa possível — contra os propósitos de norte-americanos e britânicos — por saberem que o arrastamento do conflito arruinará a Europa.

Para aumentar confusão, o sinal mais recente da estranha unidade do Ocidente está na ideia avançada por Boris Johnson, apoiada por Washington, de criar uma “comunidade” (Commonwealth) alternativa à UE agrupando o Reino Unido, a Polónia, a Ucrânia e os três estados bálticos. É por de mais evidente que uma tal manobra visa dinamitar a própria UE, reduzindo-a a uma associação de terceira linha sem capacidade de acção própria. Os alvos principais, como é bom de ver, são a França e a Alemanha, países a que a parceria anglo-americana quer cortar as asas políticas, depois de lhes ter cortado as asas económicas com o fecho da torneira da energia russa. 

Digno de nota é também o facto de aliados de longa data dos EUA — como Israel, a Arábia Saudita ou a Turquia, que sempre desempenharam um papel crucial para manter o ascendente norte-americano no Médio Oriente — se terem demarcado da campanha de sanções à Rússia. A ponto de, no caso dos sauditas, alinharem na venda de petróleo fora da tutela do dólar, e, no caso dos turcos, promoverem campanha activa para abreviar a guerra.

Mais sanções, menos Dólar

A política de sanções económicas praticada pelos EUA, que atinge dezenas países, foi aplicada contra a Rússia desde 2014 e multiplicada desde fevereiro deste ano. Às sanções soma-se uma verdadeira pirataria financeira que consiste em roubar os bens dos adversários denominados em dólares ou que dependem de instituições financeiras que os EUA (ou o Reino Unido) dominam. Foi o que aconteceu com os bens, não só privados, mas também estatais, do Irão, da Venezuela e agora da Rússia, como antes os do Iraque, da Líbia ou do Afeganistão. 

Esta rapina tem reflexos inevitáveis: a noção crescente, pelo mundo fora, de que não se pode confiar nos EUA; a fuga a usar o dólar como moeda das transacções internacionais; e o abandono progressivo das instituições financeiras tuteladas pelos EUA. 

O próprio comportamento dos EUA, portanto, empurra um número crescente de países para a procura de alternativas de pagamento — nomeadamente em moedas nacionais, sempre que os parceiros comerciais assim o entendam — e a encarar seriamente a criação de instituições alternativas. A desdolarização das trocas mundiais está assim em curso e tende a acelerar — e esse é outro dos factores, dos mais importantes, para a perda da influência norte-americana no mundo e, em limite, para a quebra da sua hegemonia.

Retrocesso económico, divisão política, fuga de aliados, redução do papel do dólar não se podem contar seguramente entre os “ganhos” do Ocidente.

E o resto do mundo?

Se os ganhos entre a família mais chegada são controversos, que ganhos tiveram os EUA e os seus aliados no resto do mundo? Nenhuns, se olharmos ao facto de a maioria esmagadora da população mundial estar nos países que não alinharam nas sanções impostas à Rússia. Poucos por convicção, muitos por cautela, dir-se-á — mas o certo é que não alinharam.

A grande questão é saber se esta maioria objectiva — mas em certo sentido também social, uma vez que abarca os mais pobres e explorados do mundo — se torna uma maioria política activa, com vontade própria e capacidade para inverter o rumo a que esteve sujeita nos últimos 80 anos e sobretudo nos últimos 30 anos, desde que se consumou a hegemonia global do imperialismo, na forma que tem hoje de uma tríade liderada pelos EUA. Só o futuro próximo o dirá, mas os dados para que isso possa acontecer estão colocados.

Que caminhos para os países dependentes?

Existem óbvias diferenças nacionais, sociais, de desenvolvimento económico, de postura política que originam uma enorme heterogeneidade entre tais países. É evidente o predomínio das classes burguesas nacionais, mesmo nos casos raros em que aqui ou ali são avançados propósitos de progresso social. Inúmeros protestos populares, nomeadamente até final de 2019, deram sinal de um vigor combativo enraizado num descontentamento profundo, mas, de uma forma geral, as massas trabalhadoras encontram-se num estado de fraca ou nenhuma organização política, ou mesmo sindical, numa atitude defensiva e desligadas uma das outras.

Para o que agora nos interessa, porém, importa considerar a possível reacção dos poderes instalados perante a nova situação internacional. Que caminhos se abrem aos países dependentes a partir do grau de dependência em que se encontram?

Procurando alternativas

Aquele bloco maioritário não é uma simples massa inorgânica de países e de povos. Entre eles contam-se organizações poderosas, sistemas de alianças, laços económicos e políticos que tendem a consolidar posições convergentes. Um traço comum identificável está na vontade de rejeitar, ou pelo menos aliviar, a dominação a que têm sido submetidos pelo imperialismo. Alguns exemplos:

BRICS. Lançado entre 2006 e 2009 por quatro países (Brasil, Rússia, Índia, China) e reforçado em 2010 com a África do Sul, dá sinais de querer renascer e alargar-se a outros países depois das turbulências causadas pela crise financeira de 2008 e pela pandemia. Da sua arquitectura financeira fazem parte um Banco de Desenvolvimento (especialmente dedicado a projectos de infraestruturas) e um fundo de reserva destinado a corrigir desequilíbrios das balanças de pagamentos. Estes instrumentos visam uma cooperação com os países pobres e emergentes, chamada Sul-Sul, constituindo alternativa aos famigerados Banco Mundial e FMI.

Organização para a Cooperação de Xangai. Formada em 2001, estabelece laços económicos, culturais, militares e de ajuda mútua entre os seus nove membros (Cazaquistão, China, Índia, Irão, Paquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão, Uzbequistão) e mais 16 parceiros da Ásia, do Médio Oriente e da Europa (Bielorrússia).

União Económica Euro-Asiática. Iniciada em 1994 com diversos tratados de cooperação bilaterais firmados depois da dissolução da URSS, acabou por ser formalmente fundada em 2014 pela Rússia, Cazaquistão e Bielorrússia, e alargou-se em 2015 à Arménia e ao Quirguistão. Constitui um mercado comum com 184 milhões de pessoas.

Parceria Económica Regional. Vinda de 2011, foi formalizada em Novembro de 2020. Integra quinze países da Ásia-Pacífico: Austrália, Brunei, Camboja, China, Indonésia, Japão, Coreia do Sul, Laos, Malásia, Myanmar, Nova Zelândia, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietname. É a maior organização económica de sempre, com 30% da população global (2.200 milhões de pessoas) e 30% do produto bruto mundial. Dado o peso da China — bem como do Japão, da Coreia do Sul e da Indonésia — é vista como decisiva para deslocar o centro da economia mundial para a Ásia, deixando os EUA para trás, tanto económica como politicamente. 

Nova Rota da Seda. Lançada pela China em 2013, é um plano para desenvolvimento de infraestruturas por todo o mundo. Em março deste ano, 146 países de todos os continentes tinham assinado acordos no âmbito do plano. Visa obviamente dar à China um papel central no desenvolvimento global, à medida do seu potencial económico.

Aliados naturais

Este conjunto de países e estas organizações encontram no resto do mundo menos desenvolvido os seus aliados naturais. 

O poderio económico da China, por um lado, oferece aos países periféricos uma alternativa à histórica dependência em que têm vivido face ao imperialismo dos EUA e aos sub-imperialismos europeu e japonês. Por outro lado, o poderio militar da Rússia e da China em conjunto mostra-lhes que não é fatal, como tem sido, estarem sujeitos ao policiamento e às agressões imperialistas. A Síria é exemplo disso: ameaçada pelos EUA e aliados europeus a ter a mesma sorte do Iraque ou da Líbia, conseguiu derrotar esses intentos com a ajuda militar da Rússia. 

Abre-se assim a imensos povos uma via de possível independência e de soberania. Mesmo que isto decorra, como é facto, num quadro de desenvolvimento capitalista, uma tal mudança não deixa de ter uma importância histórica de primeiro plano, levando em conta que esse mesmo desenvolvimento tem sido negado até agora aos países dependentes pela acção controladora da tríade EUA-UE-Japão.

Pela primeira vez, surgem condições para romper a teia imperialista em que o mundo esteve aprisionado nas últimas três gerações.

Novas coordenadas para a lutas de classes

Esta possibilidade, a concretizar-se, não se limitará a reproduzir um novo xadrez de dominantes e dominados à semelhança do que hoje ainda existe, apenas com troca pacífica de protagonistas. Criará, pela própria profundidade da mudança, um novo quadro de relações internacionais marcado pelo seguro enfraquecimento e pela tendencial desarticulação da actual tríade imperialista. 

Antes que outro sistema de poder possa eventualmente formar-se, mediará um tempo de desarranjo das instituições e de convulsão social que porá em causa a capacidade, quer do imperialismo, quer das burguesias de cada país, de exercerem plenamente o seu mando. Abrir-se-á campo, como até recentemente não existiu, para a acção dos agentes capazes de levar a cabo uma mudança radical de poder: as massas trabalhadoras.

Esse facto, só por si, constituirá uma vantagem para as forças que apostam numa transformação revolucionária, socialista, do mundo. Não apenas porque muitos milhões de pessoas poderão ser resgatadas da pobreza e da miséria extrema, mas também porque essas massas poderão engrossar as lutas sociais com outra consciência e outros propósitos, livrando-se da ignorância, tornando-se mais solidárias e internacionalistas, encarando a possibilidade prática de ditarem o seu próprio futuro.

O Ocidente recusa-se a ver (mais ainda a aceitar) a transformação em curso, por razões que são óbvias: ela é o toque de trombetas prenunciando a queda do mundo que o capitalismo imperialista do século XX moldou a seu jeito. A forma que o novo mundo terá depende inteiramente da capacidade que os povos e sobretudo as massas trabalhadoras demonstrarem para tirar partido das novas circunstâncias que se lhes apresentam.

Os EUA e os seus parceiros da Europa e da Ásia, os mesmos de sempre, estão condenados a isolarem-se a si próprios quando julgam isolar o resto do mundo.


Comentários dos leitores

leonel clerigo 24/6/2022, 9:06

DÚVIDAS

Ao ler o texto acima tornaram-se-me mais claras duas dúvidas que, ultimamente, me vêm apoquentando o adormecer.

1 - Que está acontecendo a esta Europa - de largas tradições revolucionárias "futuristas" - para permitir passivamente ser governada por um conjunto de MERCEEIROS de cabeça ÔCA e CABELEIREIRAS tipo "BATANETES"?...
2 - Será que a "participação" nas migalhas do BOLO IMPERIAL BURGUÊS dito "OCIDENTAL" vem forçando o afastando dos Europeus das "luzes de futuro"?...

Seja como fôr, "deixar correr" a DECADÊNCIA é coisa perigosa...


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