Autárquicas. A utilidade de votar

António Louçã — 12 Setembro 2021

Caos. Política do país oscila entre o lobby do automóvel e o lobby do turismo – e a população que se dane.

Não há nestas eleições nenhum partido, coligação ou lista de cidadãos que, recebendo o voto dos e das cidadãs, possa garantir que os assuntos municipais ficam em boas mãos. As boas mãos são as nossas e só com elas poderemos impedir a corrupção do poder local e o pendor autocrático do poder central. Mas quem queira lutar não deve alhear-se das eleições, que são um momento entre outros dessa luta.

As questões da habitação e dos transportes têm estado no centro dos debates da campanha eleitoral. Acontece que, para enfrentar realmente essas questões, ter-se-á de mexer também nas opções de fundo de alguma legislação aprovada centralmente nos últimos anos. Sem isso, haverá sempre menos habitação disponível para quem tenha de pagar alugueres inflacionados, e tenha de pagá-los com salários, pensões de reforma ou subsídios estagnados. Tudo será comprado por capitalistas internacionais que tenham dinheiro sujo para lavar ou será alugado por veraneantes que possam pagar durante uma semana de férias algo que nenhum assalariado pode pagar durante as 52 semanas do ano.

O problema da habitação não é um problema estritamente municipal e não terá solução sem uma viragem drástica na política nacional: a malfadada legislação sobre os vistos gold devia ser completamente revogada pela Assembleia da República, como deveriam sê-lo também todas as facilidades concedidas à proliferação do alojamento local.

Do mesmo modo, a questão dos transportes não pode ser resolvida com uma engenharia social despótica, de poderes que durante décadas, dando satisfação ao lobby da indústria e comércio automóvel, empurraram a população para esse meio de transporte como único possível e agora subitamente pretendem obrigá-la a uma “revolução cultural” sem criarem quaisquer alternativas razoáveis. Em cidades onde escasseia o emprego, escasseiam os fogos de habitação e escasseiam os lugares em escolas e creches, é muito elevada a probabilidade de que toda a gente aceite o primeiro emprego que apareça, a primeira casa que apareça, a primeira creche para as crianças – e tudo ficará muito longe de tudo, num espaço desenhado para que a vida só seja possível com transporte automóvel.

Quando agora nos vêm impingir a ideia de que uma família pode deslocar-se todos os dias, chova ou faça sol, de casa para a creche e daí para o trabalho, montada numa bicicleta, essa ideia só pode ser denunciada como cínica. Numa cidade como Lisboa multiplicam-se ciclovias, para encher o olho aos pacóvios e imitar servilmente o estilo de vida de cidades europeias planas, como Berlim e Amsterdão. Todos os dias são também eliminados lugares de estacionamento, para criar parques de motas, trotinetes e bicicletas de aluguer, que agravam ainda mais o já dramático problema do estacionamento e se tornam uma fonte adicional de satisfação para a ganância da EMEL. As ciclovias fazem, certamente, o turista alemão ou holandês sentir-se em casa, mas infernizam a vida da população lisboeta: basta ver as ciclovias desertas que comeram uma faixa de rodagem e deixaram ao lado uma outra, cada vez mais engarrafada.

Claro que será sempre possível encontrar algum caso de uma ou outra pessoa que poderia deslocar-se de bicicleta e, por força do hábito, prefere fazê-lo de carro. Mas esses casos não permitem a generalização de que há um “problema cultural” ou de que basta apregoar uma cultura ciclista para resolver esse problema, porque ele tem profundas raízes materiais. Na política do país, oscila-se entre a capitulação ao lobby da indústria e comércio automóvel e a capitulação ao lobby da indústria turística – e a população que se dane.

O problema dos transportes só tem solução a montante: mais e melhor emprego, melhores salários, mais oferta de habitação e mais lugares em creches e escolas. E depois, ao nível da política de transportes, deve ser enfrentado com mais e melhores transportes públicos – tudo o contrário do que temos visto, em tempos de pandemia, com o intervalo entre autocarros, metros e comboios a ser cada vez mais espaçado, por haver menos público, considerando que cada viagem só é rentabilizada se esse público se transportar como sardinha em lata. De uma política de investimento no transporte público não fazem parte as ciclovias – essas devem, aliás, ser retiradas em todo o lado onde dificultam a circulação dos meios de transporte usados pela maioria da população.

É verdade que frequentemente as listas de partidos ou coligações de esquerda concorrem às autarquias com programas influenciados pelo senso comum modernaço e europeísta que um Fernando Medina tem sintetizado da forma mais espectacular na gestão municipal de Lisboa. Deverão esses aspectos de seguidismo da esquerda aos poderes locais justificar uma atitude abstencionista nestas eleições autárquicas? Seria um erro próprio de quem espera demasiado das eleições e, notando subitamente que elas não resolvem tudo, lhes volta as costas decepcionado. O cretinismo anti-eleitoral é o negativo fotográfico do cretinismo eleitoral.

Responder às eleições autárquicas com os olhos postos numa luta política nacional e internacional implica procurar em cada caso o voto de esquerda que melhor possa complementar a luta de todos os dias por mais emprego estável, mais salário, melhores serviços públicos e melhores condições políticas para a classe trabalhadora. O voto, em si mesmo, nada resolve, mas é um complemento da luta. Não há nenhuma receita milagrosa de voto útil, mas votar tem utilidade para quem esteja na luta.


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