O irresistível avanço taliban, ou a intrigante popularidade do terror

António Louçã — 14 Agosto 2021

Após 20 anos de ocupação imperialista, a ditadura dos taliban faz figura de mal menor

Os taliban são uma corrente político-religiosa obscurantista, reaccionária e misógina. Após décadas a fio de guerras, ocupações e ditaduras, o povo afegão irá entrar agora em mais um capítulo sombrio da sua história. Com a experiência acumulada, a grande maioria sabe certamente o que a espera. Como podem então os taliban gozar de um apoio popular tão forte que lhes permitiu vencer as maiores potências do mundo?

Há quem compare o pânico dos colaboracionistas afegãos, e não só, nestes últimos dias de presença da NATO, com as imagens do descalabro da ditadura de Van Thieu, em vésperas da entrada das forças vietnamitas em Saigão. E, com efeito, as imagens de 1975, com helicópteros norte-americanos a despenharem-se por excesso de peso, podem muito bem repetir-se agora. Mas o desenlace desta fase da guerra do Afeganistão será sob vários aspectos muito diferente do que foi o da guerra do Vietname. Desde logo, os taliban não têm a fornecer-lhes apoio material nenhuma grande potência, como a URSS (e, numa fase anterior, também a China) o fornecia às forças de libertação do Vietname.

À primeira vista, deveria supor-se que a solidão política dos taliban na arena internacional se traduzisse num avanço mais lento das suas forças sobre Cabul. Mas é o contrário que acontece. Entre a saída das últimas tropas de combate norte-americanas, em Janeiro de 1973, e a libertação de Saigão, em abril de 1975, decorreram mais de dois anos. No Afeganistão, ainda as últimas tropas de combate da NATO não acabaram de sair e já a segunda e terceira cidades do país caíram em mãos dos taliban, já o prognóstico de sobrevivência de Cabul se mede em escassas semanas.

Algo semelhante resultará de uma comparação com a retirada soviética do próprio Afeganistão. Há que recordar que a URSS invadiu o país em dezembro de 1979 e concluiu a retirada das suas forças em fevereiro de 1989. Permaneceu ao todo um pouco mais de nove anos no Afeganistão, em contraste com os vinte anos da NATO. Ao retirar-se, o Exército Vermelho deixou o governo entregue à camarilha de Najibullah, a quem continuava a fornecer armamento.

Os fundamentalistas islâmicos apoiados pelos EUA eram nesse tempo os mudjahedin, que — é bom lembrar — depois viriam a estar na origem da corrente taliban e donde também sairiam os quadros da Al Qaeda. Assim que a retirada soviética se concluiu, os mudjahedin lançaram uma ofensiva de grande envergadura para tomar o poder. Mas a ofensiva falhou em toda a linha e, apesar do enorme apoio financeiro e logístico dos EUA, os mudjahedin não conseguiram tomar nenhuma das grandes cidades afegãs e ainda menos aproximar-se de Cabul. Só dois anos depois, quando Ieltsin cortou a ajuda russa, o governo de Najibullah acabou por ser derrubado.

Hoje, o exército afegão pago e treinado pelos EUA continua a ter um poder de fogo e uma quantidade de efectivos muito superior às forças taliban. Mas a história de cada batalha — Ghazni, Herat, Kandahar, várias outras de cidades menos conhecidas — só por ironia se pode designar como “batalha” e consiste em quase todos os casos num processo semelhante: grande parte do exército deserta antes do combate e foge; outra parte passa-se com armas e bagagens para o lado dos taliban; e os que ficam negoceiam com os taliban para obterem um salvo-conduto se não opuserem resistência.

É o retrato de um aparelho militar desmoralizado, por se saber odiado pelo povo. Durante os vinte anos de ocupação, viveu sob uma chuva de dólares e, como é dos livros, tornou-se um paradigma de corrupção. Agora, que era suposto combater ao serviço dos patrões imperialistas, entrega-se.

Como pode tanta gente acolher com benevolência os taliban, que punem com a morte qualquer suspeita de heresia, que impõem às mulheres a ditadura da burka, que destroem tesouros de arte budista por mero sectarismo? A pergunta devia ser outra: o que fizeram os aliados ocidentais durante vinte anos de ocupação para que até a ditadura dos taliban possa fazer figura de mal menor?


Comentários dos leitores

José Afonso Lourdes 24/8/2021, 15:38

Bom texto! Um abraço.

antonio alvao 31/8/2021, 14:30

Texto bastante pedagógico, de A. L.

"O animal nasce perfeito pela natureza, e o homem faz-se perfeito pela educação" (Albino Gresi);

"Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor" (Paulo Freire). Nesta linha de pensamento, tem cabimento, na minha opinião, uma expressão do pediatra Mário Cordeiro: "As crianças estão a ser habituadas a não pensar, é estratégia caciqueira à imbecilidade adulta".


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