Nacionalização da dívida dos EUA — o caminho para a guerra mundial?

António Louçã — 7 Junho 2021

O programa que Trump anunciou é o de uma guerra mundial.

Donald Trump perdeu as eleições e falhou o golpe de Estado de 6 de janeiro, mas ainda anda por aí. Em discurso numa convenção do Partido Republicano, prometeu exigir à China 10 biliões de dólares de indemnização por alegadas responsabilidades na origem da pandemia de covid-19. Não se ria, leitor ou leitora, que o caso é sério. Com a ajuda de Biden, Trump tem muito do que precisa para ganhar as eleições em 2024. O programa que anunciou é o de uma guerra mundial.

A primeira reacção de qualquer pessoa sensata é encolher os ombros: como é que os EUA cobrariam à China dez biliões (ou seja: milhões de milhões) de dólares? Mas, parando um pouco para reflectir, isso significa que os EUA iriam começar por reter o bilião de dólares que devem à China, resultantes do crónico défice comercial que têm com o gigante asiático. Anulariam portanto essa parte essencial da sua dívida externa. Além disso, ficaria decretada pelos EUA uma dívida dez vezes maior em sentido contrário: a China, de credora bilionária, tornar-se-ia, com um golpe de pluma, devedora decabilionária.

O efeito imediato deste novo golpe de teatro seria paralisar as exportações chinesas para os EUA. Nenhuma grande potência aceita produzir e exportar para outra durante anos e anos, para pagar-lhe uma dívida que esta fabricou de forma fraudulenta e unilateral.

A Alemanha derrotada em 1918 foi condenada na sequência do Tratado de Versalhes a pagar reparações aos vencedores durante 240 anos. O resultado foi o que se viu: ao fim de 15 anos, o nazismo instalou-se no poder, com apoio de massas para começar uma guerra mundial. E, ao contrário da Alemanha de 1918, a China não foi derrotada e não teria de sujeitar-se a 15 anos de humilhações e confiscos.

Paralisado o comércio entre as duas maiores potências do século XXI, suceder-se-iam em cascata as retaliações e contra-retaliações: bloqueio de contas bancárias, confisco de capitais chineses no ocidente com pretextos securitários (lá se vai a EDP) e até das frutarias ou das lojas do chinês numa esquina perto de si.

Mesmo que, numa teoria muito abstracta, o colapso da economia mundial globalizada e a nova idade do gelo do comércio internacional não tivessem de implicar a passagem a vias de facto, a nacionalização dos créditos chineses pelos EUA iria acarretar um imediato embargo chinês em mares regionais definidos com um critério muito amplo.

Se a autocracia chinesa não teve quaisquer escrúpulos em esmagar as reivindicações democráticas em Hong Kong, troçando da indignação balofa do imperialismo britânico, é verdade que até agora tem observado maior contenção relativamente ao regime fantoche de Taiwan, que não é protegido pelo tigre de papel britânico, e sim pelos EUA. Mas a provocação de nacionalizar os créditos chineses a pretexto da pandemia era a gota de água que faltava para fazer colocar o pigmeu insular na lista de inimigos a abater pelo gigante continental.

A Coreia do Norte, até aqui refreada pela China, iria endurecer a sua posição face à Coreia do Sul. Mesmo o imperialismo japonês teria de inquietar-se com o seu futuro e sofrer em silêncio qualquer provocação norte-coreana. Com cenoura e chicote, o fascistóide filipino Rodrigo Duterte seria submetido a uma implacável pressão chinesa para pôr termo aos seus zigue-zagues e assumir o papel de guarda-avançada da China face a uma Austrália inevitavelmente aliada aos EUA.

Será tudo isto um cenário fantasioso e paranóico? Oxalá e talvez. É verdade que a grande vaga de Black Lives Matter, que foi decisiva para vedar o caminho a um segundo mandato trumpiano, continua a fazer-se sentir nos EUA, agora pela condenação de polícias homicidas e pela luta contra o racismo estrutural da polícia.

Mas Trump tem a seu favor um poderoso factor de popularidade: a presidência de Joe Biden. A cegueira do establishment norte-americano está em voltar sempre às fórmulas que lhe permitiram os negócios do passado, insistindo em fazer mais do mesmo. Nesse caldo de cultura se gerou a peste trumpiana, nesse caldo de cultura ela poderá renascer com redobrado vigor.

E, onde o supremo sacerdote dos lobbies negocistas se afasta um milímetro dos rituais do passado, é apenas para aderir às inovações populistas: ao mandar abrir uma investigação sobre as alegadas responsabilidades da China na irrupção da pandemia, Joe Biden piscava o olho aos rancores chauvinistas do eleitorado trumpiano, sem notar que estava a preparar o terreno para a bombástica reivindicação de dez biliões, logo a seguir lançada pelo mesmo Trump.

Onde Biden ordena “investigue-se”, Trump vocifera “aja-se”. A acção levará a melhor sobre a farsa investigativa, galvanizará novamente a escória chauvinista e dará a Trump uma segunda oportunidade: a de desencadear a guerra mundial.


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