EUA e NATO reacendem guerra na Ucrânia

Editor / Manlio Dinucci, il manifesto — 17 Abril 2021

Mais de 20 mil equipamentos militares deslocados dos EUA para a Europa ao abrigo dos exercícios Defender Europe 21

A recente tensão militar e política em redor da Ucrânia tem sido apresentada como resultado de uma “injustificável” concentração de tropas russas perto da fronteira ucraniana, só explicável por propósitos expansionistas atribuídos a Moscovo. A realidade é outra. A movimentação da Rússia é uma reacção a ameaças bastante claras, mas cuidadosamente escondidas do público, por parte das autoridades ucranianas, dos EUA e da NATO.

Tudo leva a crer que a Ucrânia, sob impulso dos EUA e da NATO (envolvendo portanto os europeus), esteja a preparar uma ofensiva sobre as duas repúblicas do extremo leste do país, Lugansk e Donetsk. Estas repúblicas, na fronteira com a Rússia, formaram-se e adquiriram alguma autonomia política em setembro de 2014 por se recusarem a aceitar a mudança do regime de Kiev operada pelo golpe de estado que culminou em fevereiro de 2014.

Ao mesmo tempo, os EUA promovem, neste momento, grandes manobras militares no Mar Egeu — não longe do Mar Negro, da Crimeia e da Ucrânia — envolvendo não só os membros da NATO mas também forças militares, imagine-se, de Israel e dos Emirados Árabes Unidos.

O governo de Biden, como explica o artigo de Manlio Dinucci que publicamos, está empenhado no confronto com a Rússia, tendo nomeado para os principais cargos da sua política externa justamente os maestros do golpe de estado de 2014 que depôs o presidente eleito da Ucrânia e massacrou centenas de civis, usando para o efeito a escória do nazismo ucraniano e internacional.

UCRÂNIA, UMA BOMBA NO CORAÇÃO DA EUROPA

Manlio Dinucci, il manifesto

Caças F-16 dos EUA estão envolvidos em “operações aéreas complexas” na Grécia, onde o exercício Iniochos 21 começou ontem [12 de abril]. Pertencem ao Esquadrão de Caças estacionado em Aviano [Itália], cujo papel é indicado pelo emblema: o símbolo do átomo, com três relâmpagos a atingir a Terra, ladeado pela águia imperial.

São, portanto, aeronaves de ataque nuclear as que a Força Aérea dos EUA emprega na Grécia, país que concedeu aos Estados Unidos o uso de todas as suas bases militares em 2020.

Caças-bombardeiros F-16 e F-15 de Israel e dos Emirados Árabes Unidos também participam no Iniochos 21. O exercício decorre no Mar Egeu, perto da região que inclui o Mar Negro e a Ucrânia, onde se concentra o maxi-exercício Defender-Europe 21 do exército dos EUA. (1)

Essas e outras manobras militares, que fazem da Europa uma grande praça de armas, criam uma tensão crescente com a Rússia, com foco na Ucrânia. A NATO, depois de ter desagregado a Federação Jugoslava ao inserir a cunha da guerra nas suas fracturas internas, agora quer destacar-se como campeã da integridade territorial da Ucrânia.

O presidente do Comité Militar da NATO, o britânico Stuart Perch, chefe da Real Força Aérea, reunido em Kiev com o presidente Zelensky e o chefe do Estado-Maior Khomchak, declarou que “os aliados da NATO estão unidos em condenar a anexação ilegal da Crimeia por parte da Rússia e as suas acções agressivas no leste da Ucrânia ”.

Repetiu assim a versão segundo a qual a Rússia teria anexado à força a Crimeia, ignorando que foram os russos da Crimeia que decidiram, em referendo, romper com a Ucrânia e reingressar na Rússia para evitar serem atacados, como os russos do Donbass, pelos batalhões neonazis de Kiev. (2)

Os mesmo batalhões que foram usados​em 2014 como força de assalto no putsch na Praça Maidan, desencadeado por atiradores georgianos que dispararam contra manifestantes e polícias, e em acções subsequentes: aldeias postas a ferro e fogo, activistas queimados vivos na Câmara do Trabalho de Odessa, civis desarmados massacrados em Mariupol, bombardeamentos com fósforo branco em Donetsk e Lugansk.

Um sangrento golpe de estado, sob a direcção EUA-NATO, com o objectivo estratégico de provocar uma nova guerra fria na Europa para isolar a Rússia e ao mesmo tempo fortalecer a influência e a presença militar dos Estados Unidos na Europa.

O conflito em Donbass, cujas populações se organizaram nas repúblicas de Donetsk e Lugansk com milícia popular própria, passou por um período de relativa trégua com a abertura das negociações de Minsk para uma solução pacífica. (3)

Mas, agora, o governo ucraniano retirou-se das negociações, recusando-se a ir a Minsk sob o pretexto de a Bielorrússia não ser um país democrático. Ao mesmo tempo, as forças de Kiev retomaram os ataques armados no Donbass.

O chefe do Estado-Maior Khomchak, a quem Stuart Perch elogiou em nome da NATO pelo seu “empenho em encontrar uma solução pacífica para o conflito”, declarou que o exército de Kiev “está a preparar-se para a ofensiva na Ucrânia Oriental” e que nesta operação “está prevista a participação de aliados NATO”.

Não é por acaso que o conflito no Donbass se reacendeu quando, com o governo Biden, Antony Blinken assumiu o cargo de Secretário de Estado. De origem ucraniana, ele foi o principal maestro do golpe de estado da Praça Maidan, como vice-conselheiro de segurança nacional no governo Obama-Biden.

Para o lugar de vice-secretária de Estado, Biden nomeou Victoria Nuland, maestro-assistente da mesma operação dos EUA em 2014, a qual custou mais de 5 mil milhões de dólares para instalar “um bom governo” na Ucrânia, como ela mesma declarou.

Não é de excluir que, neste momento, exista um plano para promover uma ofensiva das forças de Kiev no Donbass, apoiada de facto pela NATO. Isto colocaria Moscovo perante um dilema de que Washington procuraria tirar partido em qualquer caso: ou permitir que as populações russas do Donbass sejam massacradas, ou intervir militarmente em seu apoio.

Os EUA e a NATO estão a jogar com o fogo. Não em sentido figurado, mas acendendo de facto o rastilho de uma bomba no coração da Europa.

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(1) Um dos maiores exercícios militares liderados pelo exército dos EUA em décadas. Começou em março e decorre até junho, envolvendo 28.000 soldados de 27 países. Inclui operações quase simultâneas em mais de 30 áreas de treino numa dúzia de países. Estende-se pelos Balcãs e região do Mar Negro e usa as principais rotas terrestres e marítimas que ligam a Europa, a Ásia e a África. (Nota MV)

(2) A Crimeia faz parte Rússia desde 1783. Após a revolução de 1917, constituiu-se como república autónoma, dentro da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, parte da União Soviética. Em 1954, sob Nikita Kruschov, foi integrada na República Socialista Soviética da Ucrânia. A maioria da população é russa (65%), ucraniana (15%) e tártara (12%). No referendo realizado em março de 2014, votaram 83% dos cerca de 1.800.000 eleitores. 97% optaram pela integração na Rússia. (Nota MV)

(3) O Protocolo de Minsk foi promovido pela Rússia, a Ucrânia e a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa). Assinado em setembro de 2014 pela Rússia, a Ucrânia, a OSCE e as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, estabeleceu o cessar-fogo e definiu regras para a resolução pacífica do conflito. Foi formada uma missão da OSCE para supervisionar a aplicação do Protocolo. (Nota MV)


Comentários dos leitores

afonsomanuelgoncalves 18/4/2021, 14:57

A saga dos incendiários da guerra dirigida pelos generais do Pentágano e secundada pelos responsáveis do governo dos EUA torna-se cada vez mais ameaçadora e implacável. A Rússia resiste por enquanto numa defensiva morna e precavida. Náo tem alternativa e, julgo eu, espera por melhores dias. Penso que, mais uma vez, os dados estão lançados, faltando pouco tempo para a sua derrota. Depois ficará nas mãos do povo a decisão de criar um novo destino para se livrar dos algozes que o oprimem.

M. Teresa Alves da Silva 18/4/2021, 23:55

De grande oportunidade e clareza este artigo, divulgando o texto do" Il manifesto".
A informação jornalística que é veiculada pelos canais de televisão e jornais induz os cidadãos a uma potencial agressão russa à Ucrânia, a propósito do território da Crimeia.
Todos os "contornos políticos" envolvendo EUA e NATO, são omissos.
Mas, de acordo com a importante informação que o artigo veicula, pode-se estar a gerar o inicio de um grande conflito de guerra no seio da Europa.


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