A falhada destituição de Trump

Editor / Workers World — 20 Fevereiro 2021

Manifestação em Nova Iorque. Trump/Pence Rua já! Temos de ser impiedosos.

A análise, que publicamos, feita pelo semanário Workers World ao processo de destituição de Trump, na sequência do assalto ao Capitólio, denuncia o sentido oportunista da manobra do Partido Democrata. Ao centrarem as atenções no ataque dos arruaceiros aos deputados, aos senadores e à polícia, os Democratas deixaram de fora as grandes vítimas da movimentação fascista que ganha raízes nos EUA — e que persistirá, com Trump ou sem Trump. Essas vítimas são a população de cor, os imigrantes, as mulheres. E isso aponta a necessidade de uma resistência popular a partir da base, livre da tutela e da agenda do Partido Democrata.

Sabia-se que o processo de destituição estava condenado ao fracasso para efeitos práticos em face da oposição dos senadores Republicanos. Mesmo assim, encheu páginas da imprensa e horas de noticiários, dando a crer que se tratava de um “sobressalto democrático” contra as arbitrariedades de Trump e de uma “demonstração de vitalidade” das instituições norte-americanas. Na verdade, tudo leva a crer que foi apenas um primeiro episódio da luta da nova presidência para alargar a sua margem de manobra política no quadro, difícil, que resultou das eleições.

De facto, a extrema divisão do eleitorado, quase meio por meio, e a agressividade e a fidelidade da base de apoio de Trump criam sérios problemas aos Democratas — para mais numa situação em que a crise sanitária e económica degrada as condições de vida da população e em que o poder norte-americano no mundo se vê profundamente abalado.

O fracasso prático do impeachement, não anula os efeitos políticos imediatos aparentemente pretendidos pelos Democratas: tentar queimar Trump aos olhos do cidadão comum e, não menos importante, tentar queimar os deputados e senadores Republicanos que não se demarcassem dele — olhando, em ambos os casos, para futuras eleições.

A acreditar, porém, em inquéritos de opinião realizados depois do julgamento (Politico/Morning Consult, 16 Fevereiro) a popularidade de Trump entre os eleitores Republicanos, em vez de descer, subiu: 54% querem que ele se candidate de novo em 2024 e 59% defendem que ele deveria ter um papel importante no partido. Em sondagem idêntica anterior ao julgamento (7 Janeiro, imediatamente depois do ataque ao Capitólio) este apoio era de 41%. Em termos gerais, Trump teve no mesmo inquérito de Fevereiro uma taxa de aprovação de 34%; mas entre os Republicanos essa taxa sobe para 81% (em Janeiro era de 77%).

Se isto for verdade, mais razão tem a análise do WW ao sublinhar a necessidade de uma frente unida das classes trabalhadoras e das forças anti-racistas que não só combata as hordas fascistas, mas também confronte o novo governo com as exigências imediatas que se colocam nos planos sanitário, económico e de política externa.

 

LIÇÕES DO PROCESSO DE DESTITUIÇÃO

Workers World

Toda a gente esperava que a votação do Senado absolvesse o ex-presidente Trump, uma vez que eram precisos os votos de 17 republicanos para o condenar juntamente com 50 votos democratas. Só sete republicanos o fizeram. O julgamento apenas abriu uma janela sobre o conflito interno entre o establishment capitalista anti-Trump e a ala pró-fascista da classe dominante.

A destituição de Trump poderia denunciar, mas nunca esmagar, esse autocrata desprezível, que viu na escória fascista e racista dos EUA o apoio para se manter no cargo depois de perder a eleição.

O julgamento de destituição expôs crimes que violam a legalidade capitalista normal dos EUA. Expôs a cumplicidade criminosa do Partido Republicano e o oportunismo individual de cada senador Republicano — todos, excepto aqueles sete, se recusaram a romper completamente com Trump, incluindo alguns que reconheceram publicamente os seus crimes.

Mas, acima de tudo, o julgamento pôs a nu as limitações do Partido Democrata no combate à ameaça real de elementos racistas e fascistas. E por isso, mais uma vez, evidenciou a necessidade de uma mobilização antifascista da classe trabalhadora, independente desse partido.

A principal ferramenta dos membros do Partido Democrata que geriram a tentativa de destituição foi um vídeo de 13 minutos, visto por dezenas de milhões de pessoas, que intercalou os discursos de Trump, agitando milhares de seus apoiantes para atacarem o Capitólio, com um vídeo de segurança mostrando a violência da multidão fascista.

O vídeo evidenciava ameaças contra o vice-presidente Mike Pence — os fascistas chamaram-no “traidor” enquanto arrastavam uma forca — contra o senador republicano Mitt Romney [opositor de Trump] e contra a presidente democrata da Câmara, Nancy Pelosi.

Usando imagens de câmaras do corpo da polícia, o vídeo também destacou o uso de tacos, sprays, paus e escudos policiais capturados pelos gangues fascistas contra os membros da polícia que estavam entre eles e o Capitólio. (Faltou esclarecer por que razão os reforços habituais desta polícia não entraram em acção.)

Ao apontar como principais vítimas — ou vítimas potenciais — os republicanos de direita, os democratas e a polícia, a liderança democrata estava a tentar cativar a direita. Esta foi uma escolha consciente. A história das turbas racistas dos EUA mostra que os seus alvos principais são, de longe, qualquer pessoa de cor ao alcance da mão — incluindo políticos de cor como as mulheres membros do “The Squad” [“Esquadrão”, grupo de seis deputados, cinco deles mulheres, todos de cor, considerados a ala esquerda do Partido Democrata].

Importa deixar claro que Trump está longe de ser o único presidente dos EUA a incitar a violência ilegal, mesmo que o seu alvo seja inédito. De entre os seus predecessores mais recentes, George W. Bush desencadeou uma guerra ilegal de agressão ao Iraque que foi mil vezes mais violenta do que o ataque ao Capitólio. A administração de Barack Obama criou o caos na Síria, Líbia, Iémen e Ucrânia.

A originalidade de Trump foi trazer o método para dentro de casa ao atiçar gangues fascistas de todo o país contra outros membros eleitos do governo capitalista.

O ataque ao Capitólio não foi o seu primeiro crime, nem mesmo o mais grave. Trump lançou insultos contra os imigrantes latinos enquanto prendia e dividia milhares de famílias, incluindo crianças, e levava centenas à morte no deserto. A sua calúnia contra a China originou ataques xenófobos contra americanos de origem asiática. Nomeou juízes reaccionários que degradaram o direito das mulheres ao aborto.

Toda a administração de Trump reforçou os aspectos mais reaccionários do imperialismo dos EUA do século XXI: terror policial racista contra todas as pessoas de cor; ódio às mulheres, especialmente mulheres com poder; discriminação contra pessoas LGBT; intimidação de pessoas com deficiência; insultos a todos os imigrantes e protecção dos que agitam a bandeira da Confederação e usam tatuagens com a suástica sob o guarda-chuva político dos seus chapéus MAGA [Make America Great Again].

Em vez de mobilizar as forças da sociedade que desejam enfrentar o fanatismo — como o movimento Black Lives Matter, os trabalhadores da Amazon e de outras indústrias de alta tecnologia que se organizam, e todos aqueles que precisam de protecção contra a pandemia e seus efeitos económicos — o establishment democrata manobrou com os republicanos, muitos dos quais ainda estavam ao lado dos trumpistas.

Cabe à classe trabalhadora e às forças anti-racistas encontrar um caminho em direcção a uma frente unida que combata o movimento fascista — o qual existirá independentemente de Trump continuar a ser a sua peça central ou não. Essa frente unida também deve estar pronta para confrontar o governo democrata para exigir medidas de alívio da pandemia e do desemprego e para travar qualquer movimento de agressão no estrangeiro.


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