Como Macron abre o caminho a Le Pen

António Louçã — 5 Dezembro 2020

Encobrimento e impunidade para as violências policiais

A lei concebida pelos apaniguados do presidente francês, para garantir a impunidade dos polícias mais enraivecidos, não vai arrancar uma bandeira das mãos da extrema-direita, como é suposto fazer. Vai, pelo contrário, colocar Marine Le Pen na posição de dirigente que tem ideias boas e originais, e Macron na posição do imitador que vem depois pôr em prática essas ideias.

Proibir qualquer pessoa de filmar um polícia que tomou o freio nos dentes é uma ideia peregrina. Mas é, sem dúvida, uma ideia que toca no nervo de várias crises dos últimos anos. Se ela estivesse em vigor, vários governos em várias partes do mundo teriam sido poupados aos dissabores de violentas explosões de indignação popular.

Desde logo em França: se a lei estivesse em vigor em 2018, talvez ninguém se tivesse atrevido a filmar Alexandre Benalla, o guarda-costas de Macron, que teve vontade de “molhar a sopa” no 1º de Maio e se disfarçou de polícia para ir espancar manifestantes pacíficos.

E, embora fosse preciso mais audácia para fazer essas filmagens, elas continuariam a ser legais, porque Benalla era um falso polícia e portanto, segundo a nova lei, a proibição de filmá-lo não iria valer para ele. Mas quem podia adivinhar que era falso esse “polícia” que só foi identificado a posteriori, com uma atenta análise das imagens?

Depois, vieram várias manifestações de “coletes amarelos”, que foram reprimidas com balas de borracha, em momentos em que decorriam pacificamente. Os inquéritos que foi preciso abrir por causa das filmagens feitas nesses momentos tornar-se-iam agora dispensáveis.

Mais recentemente, enquanto se votava a lei proibindo as filmagens, como se fosse uma provocação, vários polícias foram filmados a espancarem brutalmente em Paris o músico Michel Zecler. Dois deles tiveram de ser presos e há vários a serem investigados — mais um dissabor que se teria evitado se a filmagem já fosse ilegal.

Com a proposta de proibir a filmagem deste tipo de crimes, Macron pode inspirar dirigentes reaccionários de todo o mundo. Se Trump se tivesse lembrado disto, talvez o assassínio de George Floyd não tivesse sido filmado, ou talvez a filmagem não fosse aceite como prova. E tantos outros casos, nos EUA, cada vez mais numerosos, porque as brutalidades policiais com uma história de séculos estão a sofrer os efeitos da recente proliferação dos smartphones.

Claro que há casos em que os próprios polícias que planeiam um crime têm o cuidado de desligar as câmaras de videovigilância, como foi o dos assassinos do SEF que torturaram até à morte um imigrante ucraniano no aeroporto de Lisboa. Mas os smartphones são uma arma temível dos cidadãos contra a bandidagem fardada e contribuem poderosamente para que os próprios crimes cometidos fora do alcance das câmaras sejam agora olhados com mais atenção.

O europeu moderno e civilizado que é Macron pôde portanto ser mais engenhoso do que um Bolsonaro para inventar mecanismos de encobrimento e impunidade para as violências policiais. Mas engana-se redondamente se pensa que, com isso, vai demonstrar a inutilidade da extrema-direita. Marine Le Pen esfrega as mãos de contente, sempre que o Governo da direita conservadora copia algum parágrafo do seu programa. Com isso, não está a provar que a extrema-direita é supérflua e sim que a velha direita já só vai sobrevivendo à custa de ideias emprestadas pelo fascismo.

A História está cheia de exemplos de conservadores que julgaram possível controlar a maré castanha e negra sendo mais papistas do que ela. E está cheia de rotundos fracassos de quem fez essa aposta.


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