A pressão dos negócios

Manuel Raposo — 16 Julho 2020

Retomar os negócios a todo o custo

O modo como o chamado “desconfinamento” tem dado origem a um crescimento significativo da pandemia, primeiro na região de Lisboa, mas agora também no resto do país, mostra bem como os poderes públicos cederam à pressão dos negócios. O relativo êxito no controlo do surto em Março e Abril deveu-se, quase em exclusivo, a uma medida: isolar as pessoas, parando tudo o que era possível parar. O regresso à actividade, mesmo gradual e condicionado, é um regresso às condições de trabalho de sempre, agora acrescentadas com o perigo de contaminação, quando não de morte. É esta a realidade que atinge hoje o mundo do trabalho.

O desconfinamento iniciado em Maio deu-se, obviamente, sem que alterações substanciais no modo de vida das populações tivessem sido postas em prática: transportes escassos e apinhados, concentrações de trabalhadores em áreas fundamentais sem medidas cautelares, falta de meios de protecção individual ou de grupo, ausência de fiscalização do funcionamento das empresas. Como nos idos do império: navegar é preciso, viver não é preciso.

Na prática, prevaleceu a máxima de “salvar a economia” à custa de mais gente contaminada e mais mortos se necessário. Foi o que se expressou na frase, repetida por patrões e comentadores de serviço, “não podemos morrer da cura”. Alguém teria portanto, nessa óptica, de morrer da doença para dar lugar à retoma dos negócios, sabendo-se de antemão que os destinados a morrer não seriam os que ganhariam com os negócios.

A pressão do mundo empresarial começou cedo. Em 13 de Abril centena e meia de “personalidades” apelou, por carta aberta, ao presidente da República, ao primeiro-ministro e ao presidente da Assembleia da República para que iniciassem o desconfinamento. Empresários diversos, mais uns quantos médicos para darem crédito científico ao propósito (a que se juntou, pois claro, o inevitável líder da UGT, Carlos Silva), diziam em resumo: basta de restrições, agradecemos muito ao governo as medidas que tomou, mas agora queremos “libertar a economia”. Dizendo-se preocupados “com a sobrevivência de um modelo de sociedade que tanto nos custou a conquistar”, iniciaram na realidade uma pressão, que não mais parou, sobre o poder político e sobre as autoridades sanitárias para que aceitassem correr os riscos que fossem necessários.

Foi a pressão dos negócios que manteve em funcionamento, sem medidas de protecção,  grande parte da construção civil. Foi o interesse dos negócios que levou empresas de transporte a manterem autocarros parados e a lucrarem com trabalhadores em layoff, enquanto outros trabalhadores na condição de passageiros foram sendo contaminados. Foi o poder enorme das companhias de aviação e agentes de viagens que conseguiu lotações a cem por cento nos aviões. Foi o negócio do turismo que pôs o Governo a mendigar ao Reino Unido corredores sem quarentena, não se importando com a contaminação que possa vir de lá para cá.

Ao mesmo tempo, cresceu uma insistente campanha de desacreditação das autoridades sanitárias, com o propósito evidente de lhes retirar das mãos a última palavra sobre as medidas de confinamento, e desse modo remover um obstáculo à retoma dos negócios. Este processo culminou com o fim das reuniões no Infarmed, esse “mistério” que ninguém parece querer compreender. (*)

A manobra não é exclusivamente portuguesa, claro. Por todo o mundo se assiste ao mesmo tipo de pressão, mais brutal e descarada nuns casos (Trump, Bolsonaro), mais subtil noutros. O resultado, porém, corre o risco de apontar todo ele na mesma direcção: secundarizar critérios de saúde pública em favor dos negócios.

Naturalmente — porque, claro está, não conseguem viver sem trabalhar — os assalariados encontram-se prisioneiros da lógica imposta pelo patronato e pelo poder: “abrir” a economia, retomar os negócios, repor lucros, correr riscos de saúde e de vida. Só assim poderá sobreviver quem vive de um salário. Nada de novo, dir-se-á — só que agora tudo decorre em condições mais dramáticas.

Há, portanto, uma ressalva a fazer nesta ideia aparentemente incontornável de “salvar a economia”. A “economia” que se diz ter de salvar, não é, em primeira mão, a economia que assegura a sobrevivência dos trabalhadores — é a que assegura a sobrevivência do sistema de exploração, de que eles recebem os subprodutos.

Talvez não seja inútil chamar a atenção para esta realidade, mesmo sendo ela tão óbvia. Por uma razão: nunca como em momentos destes se coloca de forma tão directa diante dos olhos a contradição entre os interesses económicos dominantes e os interesses imediatos das populações, particularmente trabalhadoras; a evidência de que uma dada economia (a do capital) não é a economia de que os trabalhadores e a massa da população precisam — e que poriam em prática se o poder de decidir lhes pertencesse.

Questões de vida ou de morte estão, literalmente, colocadas sobre a mesa — tanto por razões de saúde imediatas, como por razões de penúria e de condições de vida que serão fortemente agravadas diante da brutal quebra económica que se anuncia. No entanto, é este “o modelo de sociedade” pelo qual bravamente se batem as sumidades signatárias da tal carta que visava “libertar a economia”.

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(*) Desde o início da pandemia, de 15 em 15 dias, reuniam-se na sede do Infarmed governantes, responsáveis políticos e partidários e epidemiologistas com o fim de avaliar a situação sanitária e tomar medidas adequadas, com base em critérios científicos, naturalmente. Partiu do PSD (Rui Rio, secundado pela pitonisa Marques Mendes) a sugestão de acabar com as reuniões por “se terem tornado inúteis”, e logo o PR e o PM acolheram a “ideia” em mais uma demonstração de convergência política a três. Na verdade, uma convergência a quatro — considerando o sempre presente mundo dos negócios.


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