Balanço de uma festa espectacular e chauvinista

Manuel Vaz — 21 Julho 2009

fete-nacionale-johnny-sarko-bis-72dpi.jpg14 de Julho é o dia da festa nacional em França comemorativa da tomada da Bastilha, início do processo revolucionário que conduziria à queda da monarquia absoluta em 1789. Hoje, a burguesia rodeia o acontecimento de festejos espectaculares, demagógicos e chauvinistas com o intuito de seduzir as multidões.
Segundo os números da polícia, que neste caso pratica a inflação – e exactamente o contrário quando se trata de manifestações hostis ao governo – as multidões afluíram por toda a parte onde o Estado lhes proporcionou encontro.
  
Pão e circo

700 mil pessoas no Champs de Mars para aplaudir o cantor de Estado, Johnny Hallyday — rocker francês mais americano que os próprios americanos —  e abrir a boca de espanto perante o enorme fogo de artifício que inflamou a Torre Eiffel durante meia hora.

fete-nationale-1-72dpi.jpg210 mil para assistir à parada militar que, desde há uns anos a esta parte, inclui sempre uma atracção estrangeira. Esta nova tradição iniciou-se com as tropas alemãs convidadas por Mitterrand após a queda do muro de Berlim… Desta feita a multidão delirou com os rutilantes uniformes de parada do exército…indiano que desfilou na presença do seu primeiro-ministro, Manmohan Singh. Sem esquecer todavia os “heróis” nacionais personificados nos caçadores alpinos do 27.º BCA, récem-regressados da guerra do Afeganistão, e nos pára-quedistas do 8.° RPIMa que prestaram homenagem aos oito “caídos” do vale de Uzbin do ano passado, nessa mesma terra martirizada do Afeganistão, sob ocupação de exércitos estrangeiros desde há vários anos!
 
5 mil convidados nos vastos jardins do palácio presidencial dos Campos Elísios para a comezaina oferecida pelo presidente Sarkozy após a parada militar. Aqui, a vedeta era um certo Robert Thiel, “desempregado furioso” que veio a pé do seu longínquo burgo de Serreguemines (Lorraine) com um fato novo emprestado, para meter cunhas públicas junto dos ministros presentes no regabofe. “Quero um emprego estável e duradoiro”, exigia o bacoco à queima-roupa; “Isso não existe!”, respondia-lhe espantada a secretária de Estado encarregada da família. E o nosso “desempregado furioso” lá ia dizendo a uns e a outros: “O único em quem ainda acredito, é no nosso presidente”. Esta festarola, onde se come do bom e do melhor, atingia assim os píncaros da farsa, nesse estilo boçal, populista e demagógico tanto do agrado do actual líder supremo da burguesia francesa.
 
Estreito controlo policial
 
Tudo isto sob controlo de 40 mil polícias especialmente mobilizados para vigiarem os festejos no conjunto do território. Só em Paris eram 10 mil com a recomendação expressa de prenderem todos os potenciais suspeitos detectados na multidão. E foram 240 os presos, 50 mais que em 2008.
 
Apesar de tudo, Hortefeux, o ministro da polícia, era obrigado de constatar, na manhã do 14 de Julho, que a banlieue tinha queimado 500 automóveis (em 2008, foram “apenas” 297); que, em Montreuil tinha havido uma mini-revolta contra a polícia de choque que voltava a martirizar os jovens expulsos de um squat social antigo e bem inserido no bairro; que, aqui e acolá, em toda essa vasta zona da banlieue parisiense onde se trabalha e se alojam certa de 10 milhões de proletários, os confrontos com a polícia tinham sido notórios. Já agora não esqueçamos Nanterre, e essa tentativa inédita de ataque a uma patrulha motorizada da polícia: lançar-lhe um frigorífico do último andar do prédio…
 
fate-nacionale-new-fabris2-bis-72dpi.jpgA luta operária prossegue
 
A luta operária não ficou enterrada com os festejos do 14 de Julho. Nas empresas e na frente de luta contra os despedimentos – os “planos de reestruturação” patronais negociados com o governo continuam a bater recordes – a verdadeira fúria operária continua a manifestar-se sem desanimar. Agora, com ameaças de fazer explodir tudo nas empresas em luta!
 
Os 683 trabalhadores da Nortel Networks, instalada em Châteaufort (Yvelines), filial de um grupo canadiano especialista em equipamentos para a indústria de telecomunicações, encontram-se ameaçados de 480 despedimentos, no meio de burlas, promessas e ameaças. No próprio dia da festa nacional, os trabalhadores da Nortel ameaçaram fazer explodir as instalações com uma serie de botijas de gás se as suas reivindicações em matéria de indemnizações não fossem satisfeitas.
 
Nas vésperas do feriado nacional, os 366 trabalhadores já despedidos, em 16 de Junho, da New Fabris de Châtellerault, empresa especializada em equipamentos para a indústria automóvel, recorreram à mesma ameaça. A fábrica faliu depois de deixar de receber encomendas dos dois principais construtores automóvel (Renault e Peugeot). Depois de destruírem algum material, sem no entanto tocarem por agora nas máquinas ultramodernas da fábrica, os operários foram prevenindo que, se não lhes pagarem 30 mil euros de indemnização por cada despedimento, fazem explodir tudo com botijas de gás. “Não queremos morrer em silêncio”, preveniram, meio-irónicos, os interessados.
 
Nesta fase de luta, os trabalhadores, depois de uma resistência sindical clássica, têm acabado por aceitar os “planos de reestruturação” e, consequentemente, os despedimentos massivos, sendo no entanto intransigentes em matéria de indemnizações. Daí os sequestros e as ameaças de destruição, que têm feito recuar governo e patrões.
 
Por agora, os sequestros dos quadros das empresas têm sido temporários e pacíficos e as ameaças de fazer explodir as fábricas apenas simbólicas, dado que as botijas de gás não estão equipadas de detonadores; isto é, as explosões não vão mais além que a sua tradução gráfica nas bandeirolas: Boum!
 
Mas os oráculos da burguesia em matéria de emprego/desemprego vão dizendo: “E o pior está para vir, em Setembro é que as coisas vão ficar mesmo pretas”…
 
15 de Julho 2009


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