Mesmo assim, muito sereno é o povo

Manuel Raposo — 10 Outubro 2008

pobrezalisboa72dpi.jpgO directo sobre o assalto ao banco em Campolide, com esse tempero especial que foi ver-se a polícia a balear os dois assaltantes, foi uma espécie de motor de arranque para uma campanha sistemática de toda a comunicação social dirigida a dois alvos: exigir reforço dos poderes policiais e apontar o dedo aos imigrantes.
O ar de triunfo dos polícias e do ministro; os parabéns aos colegas da parte do general Loureiro dos Santos (esse fã do lançamento da guerra contra o Iraque); mais os ex-polícias, os psicólogos e os sociólogos a dar explicações – parecia uma orquestra que esperava o momento de entrar em palco.

Naturalmente, a comunicação social não inventa os assaltos e é evidente que a criminalidade deste tipo está a aumentar. Mas em vez de o facto ser motivo de uma investigação que desvende as origens do problema, excita-se a opinião pública com a catadupa de notícias sobre todo o tipo de desacatos (roubos ou simples rixas, tudo serve o mesmo objectivo) e canaliza-se o receio das pessoas para a aceitação de medidas excepcionais de repressão.

Para além deste direccionamento deliberado da campanha contra as liberdades (é disso que se trata), há uma evidente desproporção entre o que acontece e a publicidade que é dada aos factos. Seguramente, é muito maior o medo infundido nas pessoas pelo alarme criado, do que o risco real que cada um tem de ser assaltado. Também a impressão causada nas pessoas de que grandes montantes estão a ser roubados não corresponde à realidade. Por exemplo, nos seis primeiros meses deste ano houve cerca de 100 assaltos a bancos e foram roubados 440 mil euros; o que representará duas centenas de assaltantes a actuarem por ano e um ganho de 4.400 euros por assalto.

É inevitável, diante disto, trazer à baila os grandes roubos praticados com cobertura legal – comparação de que os detractores do pequeno assalto não gostam e acham sempre demagógico lembrar nestas alturas. Roubo por roubo – e apenas como exemplo – Jardim Gonçalves, num só golpe, deu 15 milhões de euros do BCP a um filho e outro tanto a um amigo. E o PSD, duma assentada, subtraiu uns 80 mil euros de fundos europeus para “formação”, que não se sabe onde foram parar, através duma respeitável fundação “Oliveira Martins”. Etc.

Depois, há outra realidade sistematicamente omitida na campanha em marcha: a relação entre o aumento do roubo e a degradação social. É impossível não ver relação entre o crescimento da criminalidade e da violência, e o descalabro das condições de vida da grande massa da população.
Não quer dizer que quem rouba o faça para comer. Mas é do senso comum que a degradação das condições de vida material sujeita as pessoas a degradação moral, marginaliza-as e empurra uma (em todo o caso, pequena) percentagem delas para o crime. E, assim sendo, é chocante e é instrutivo ver como nenhuma das medidas reclamadas pelos agitadores da campanha anti-crime e nenhuma das medidas preconizadas pelo governo apontam para a necessidade de melhorar as condições de vida das populações, reduzindo tudo a uma questão de polícia e aproveitando o ambiente de medo incutido na população para caucionar, tão só, mais medidas repressivas.


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