Arquivo de Março 2012

O significado de uma carga policial

A propósito da repressão do dia 22 em Lisboa

Manuel Raposo

Foi preciso que dois jornalistas apanhassem umas valentes bordoadas da polícia, no dia da greve geral, para que a comunicação social viesse clamar contra a brutalidade e o “excesso” das forças repressivas. Bem vindos, senhores jornalistas, ao clube dos que apanham da polícia – não por prazer de vos ver sovados, mas porque essa é uma das realidades do país, e que não é de agora. Nestas ocasiões, com efeito, é bom lembrar às memórias selectivas que várias outras cargas policiais fizeram vítimas entre manifestantes, sindicalistas e pacíficos cidadãos nos últimos tempos sem que nenhuma onda de indignação se levantasse na comunicação social empresarial e sem que se considerasse que as liberdades estavam a ser espezinhadas. Ler o resto do artigo »



António Borges, a face arrogante e cruel da burguesia

Pedro Goulart

Recentemente, o governo PSD/CDS encarregou António Borges de acompanhar o processo das privatizações e das Parcerias Público Privadas. E escusado será referir que Borges está ideologicamente sintonizado com Passos Coelho, Vítor Gaspar, Álvaro Santos Pereira…
Para avaliarmos bem as tarefas que esperam António Borges, assim como o carácter do homem responsável pela supervisão destes processos e os objectivos da classe que representa, é importante conhecer algumas passagens do discurso por ele proferidas, em meados de Março, no encerramento de uma conferência do INSEAD (Instituto Europeu de Administração de Negócios). Ler o resto do artigo »



Crise humanitária em Gaza

Um milhão e 700 mil pessoas sem água, nem electricidade, nem combustível

Ziad Medoukh / MV

Quando todas as atenções noticiosas se viram para os três judeus franceses mortos nos atentados de Toulouse (das restantes vítimas quase nem se fala), importa lembrar que a matança diária de palestinianos prossegue às mãos do Estado israelita, quer através de ataques militares, como nas últimas semanas, quer estrangulando a vida das populações árabes, especialmente em Gaza, por meio de um bloqueio criminoso. É para isso que nos alerta o artigo seguinte sobre os efeitos da falta de energia eléctrica na faixa de Gaza, vai para quase dois meses. Ler o resto do artigo »



Polícias, como do antigamente

Quem viu as imagens da polícia a bater no Chiado, em Lisboa, no dia 22, não pode ficar com grandes ilusões sobre a polícia de choque que os “democratas” no poder estão dispostos a usar na repressão sobre quem questione as suas medidas, ou até, sobre simples jornalistas, que divulguem a actuação selvagem destes “agentes da ordem”. Quem “levou” da polícia de choque antes do 25 de Abril de 1974, sabe bem do que se está a falar. Porque o assunto mereceu destaque internacional, o governo de Passos Coelho e as suas polícias vão fazer uns inquéritos, dos quais não sairá grande coisa. E ainda continua a haver, à esquerda, quem bata palmas a estes “filhos do povo”!



Greve geral / Manifestação

No dia da greve geral (este 22 de Março) a CGTP promove em Lisboa uma manifestação que se inicia às 14h00, entre o Rossio e S. Bento.
Mais tarde, às 16h00, a Plataforma 15 de Outubro convoca um desfile, também entre o Rossio e S. Bento, seguido de uma assembleia popular.



Editorial

Os mitos patronais e a crua realidade

Todo o apoio à greve geral

As confederações patronais parecem querer inaugurar um novo discurso: “Não falemos de crise, falemos do futuro”. Concordante, o ministro das Finanças procura animar a malta com prognósticos de recuperação económica para 2013.
Mas a realidade vai-se impondo: a Peugeot-Citroën de Mangualde encerrou um turno de laboração e mandou para a rua 350 trabalhadores de uma assentada; a Carris vai reduzir as carreiras e com isso despede 100 motoristas (além de aumentar os passes sociais); a construtora Soares da Costa foi autorizada pelo governo a despedir 940 trabalhadores (mesmo depois de ter ultrapassado o limite legal para o efeito); a privatização dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo põe em risco os seus 600 trabalhadores; no Arsenal do Alfeite, praticamente inactivo, teme-se igualmente pelos postos de trabalho; dezenas de milhares de empregados da indústria hoteleira e de operários da construção civil estão ameaçados de despedimento por falência das empresas.
Esta é a realidade que o discurso dos patrões e do governo não pode mudar, mas quer disfarçar. Ler o resto do artigo »



O silêncio vale ouro

Nogueira Leite falava, falava – foi para a CGD, calou. Catroga, gritava, gritava – veio a EDP, silenciou. Por favor, arranjem um tacho ao beato reaccionário, neoliberal, João César das Neves. Já não suporto a suas evangélicas súplicas! FB



Lugares guardados

Luís Amado, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do governo Sócrates e defensor do “choque neoliberal” já foi recompensado com a nomeação para chairman do Banif…
Pedro Passos Coelho confessa estar a aprender com a troika, tal como a troika está a aprender com ele. Se o seu governo cair pela destruição do país, já tem emprego garantido, ao contrário do exército de desempregados, pobres e indigentes que irá deixar como rasto. FB



Síria: um testemunho de Damasco

Bawsat / MV

A campanha dos EUA e da União Europeia contra a Síria está no auge. Cientes do que sucedeu no caso recente da Líbia com a aprovação de sanções pela ONU, a China e a Rússia decidiram desta vez não ir atrás de norte-americanos e europeus, impedindo assim uma intervenção militar com o aval das Nações Unidas. Mas as potências imperialistas não desistem e fazem tudo para impulsionar a acção armada contra o regime sírio, concretamente fornecendo material de guerra aos rebeldes. A par disso, levam a cabo a indispensável demonização do regime, tal como nos casos antecedentes do Iraque e da Líbia. O testemunho seguinte, uma carta enviada de Damasco e publicada no blogue Spectrum, lança alguma luz sobre o caso. Ler o resto do artigo »



Ironias da crise

Despolarização, fim do crescimento global, rebeliões periféricas, crise ideológica

Jorge Beinstein / MV (*)

Pegando em dois factos aparentemente sem relação – a revolta árabe de 2011 e o desastre nuclear de Fukushima no Japão – o economista Jorge Beinstein mostra que ambos decorrem da corrida desenfreada do capitalismo industrial às fontes de energia. Num caso, condenou o Japão a atapetar o seu território, de alto risco sísmico, com uma multidão de centrais nucleares sem controlo eficaz; noutro caso, converteu o mundo árabe numa área subdesenvolvida consagrada à extracção intensiva e ao transporte de petróleo.
“O mundo burguês anterior aos colapsos económicos de 2007-2008”, diz o autor, “encaminhava-se eufórico e triunfalista para um variado leque de crises (energéticas, financeiras, sociais, ambientais, políticas, etc.) cuja convergência dava sinal da proximidade de um ponto de inflexão decisivo, de passagem rápida para uma época turbulenta”. É desta mudança que Beinstein procura captar o sentido. Ler o resto do artigo »



Solidariedade com Falcão Machado

João Falcão Machado, membro da Plataforma 15 de Outubro e que informou o Governo Civil da realização de uma das duas manifestações ocorridas em 24 de Novembro último, foi constituído arguido pela PSP, por “crime” de desobediência civil. Isto, a pretexto de que tal manifestação contrariou a lei vigente, que, aos dias de semana, só permite manifestações a partir das 19 horas e esta se terá iniciado às 15. Com tais medidas, as forças repressivas pretendem intimidar os militantes, visando desmobilizar as lutas do movimento de massas contra as medidas de austeridade impostas pela troika e pelo governo do patronato. Não nos deixemos intimidar!



Nove anos depois da invasão

Os efeitos da guerra suja no Iraque

Cristina Meneses

Por ocasião do 9.º aniversário da invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA, o Tribunal-Iraque (Audiência Portuguesa) organiza, no próximo dia 17 de Março, uma sessão pública no Centro Arte e Recreio, em Guimarães – Capital Europeia da Cultura.
Dois resistentes iraquianos, Mundher Adhami e Haifa Zangana, apresentarão depoimentos sobre o assassinato de professores e cientistas iraquianos e sobre os efeitos do uso de armas proibidas pelos ocupantes. Eis alguns dados referentes aos crimes de guerra cometidos nos últimos nove anos que serão debatidos na sessão de Guimarães. Ler o resto do artigo »



O bispo manda-chuva

“Noutros tempos já se teriam levantado súplicas ao céu a implorar a graça da chuva”, mas “parece que os crentes não se fazem ouvir e a maioria da população não acredita na providência divina, mas somente na previdência de Bruxelas”, disse António Vitalino Dantas, bispo de Beja, a respeito da seca. O bispo refere ainda que “as recomendações de Jesus no evangelho e de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima, pedindo oração e sacrifícios pela conversão dos pecadores e pela paz no mundo, não encontram eco nos nossos ouvidos”. Razão têm “os crentes”: apesar da fezada de Assunção Cristas e dos lamentos de Vitalino Dantas, percebem que a providência divina pode menos que o anticiclone dos Açores.



Austeridade mata

Não foram apenas o frio e a gripe os responsáveis pelo elevado número de mortes em Fevereiro

Pedro Goulart

O aumento anormal da taxa de mortalidade em Fevereiro teve, certamente, outras razões para além da gripe e do intenso frio que se fez sentir neste mês. O Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge (INSA) salientou que em duas semanas (na terceira e quarta de Fevereiro) houve mais de 6000 mortos, número muito superior (mais 1000 óbitos) à média verificada nesta altura do ano. E a Associação de Médicos de Saúde Pública afirmou recear que a subida das taxas moderadoras, o aumento das despesas com medicamentos e o agravamento da situação económica das famílias pudessem igualmente ser responsáveis pelo excesso de mortalidade. Ler o resto do artigo »



Estado espanhol: milhão e meio nas ruas

Muitos milhares de trabalhadores (milhão e meio segundo os sindicatos) manifestaram-se dia 12 em dezenas de cidades do Estado espanhol, contra a brutal reforma das leis laborais que o patronato e o governo de Mariano Rajoy querem impor às classes trabalhadoras. As manifestações, convocadas pelas centrais sindicais Comisiones Obreras e UGT, foram fortemente participadas em Madrid, Barcelona, Valência, Bilbau, Sevilha e várias outras cidades. As mesmas centrais sindicais, que apelaram à mobilização dos trabalhadores para a greve geral marcada para o próximo dia 29, exigiram ainda que o governo se sente à mesa das negociações, condição sem a qual não se disporão desmarcar a projectada greve.



Protestos por toda a Espanha

Manuel Raposo

No último dia de Fevereiro, realizaram-se manifestações em mais de 20 cidades espanholas em apoio aos estudantes de Valência e em protesto pelos cortes nos orçamentos das escolas e universidades.
Cerca de uma semana antes, uma manifestação de estudantes em Valência foi brutalmente reprimida pela polícia. As imagens das cargas policiais e as declarações do chefe da polícia tratando os manifestantes como “inimigos” indignaram a população valenciana e de todo o país. Ler o resto do artigo »



Lutas de empresa: dois casos

Urbano de Campos

As grandes manifestações sindicais, a greve geral de Novembro passado e outras acções massivas de rua, como as dos jovens, expressam a indignação que vai nos trabalhadores e na população atingida pela austeridade. O mesmo se espera da greve geral marcada pela CGTP para 22 de Março. Mas a fraca e esporádica resistência que se pode observar nas empresas, ditada sobretudo pelo medo de represálias, cria um estado de divisão e de falta de confiança que debilita a resposta dos trabalhadores.
Este estado geral tem no entanto excepções que merecem ser divulgadas e evidenciadas. Dois casos de lutas recentes mostram que o caminho da resignação e da derrota não é obrigatório: a paralisação do pessoal da manutenção da TAP, em Lisboa; e a luta vitoriosa dos trabalhadores da Cerâmica Valadares, em Gaia. Ler o resto do artigo »



Prémio

Passou despercebida à maioria dos cidadãos a nomeação, em meados de Janeiro, de Franquelim Alves (militante do PSD, ex-administrador da SLN que controlava o BPN!) para presidente da comissão directiva da Compete, um programa dotado de 5500 milhões de euros para apoiar empresas. O governo salva o BPN com os milhões que tira aos salários dos trabalhadores e premeia a gestão danosa dos seus super-boys com lugares à mesa do orçamento. FB



Obrigado, Mr. Krugman

Pedro Goulart

Podem os trabalhadores portugueses ficar tranquilos. Para se tornarem competitivos, não terão de baixar os salários até ao nível dos chineses: basta que nos próximos cinco anos lhos reduzam apenas 20 a 30% em relação aos salários dos trabalhadores alemães. Para, assim, poderem competir a nível europeu. Não deve haver outra saída. Os custos de contexto, a organização da produção, os lucros dos capitalistas, parecem aqui coisa menor. Ideia agora reafirmada, pesarosamente, pelo economista Paul Krugman, que procura ser “visto como amigo dos trabalhadores”. Ler o resto do artigo »



Entendidos

Depois de umas pequenas escaramuças verbais acerca da política do governo, PS e PSD acertaram agulhas até no que respeita à linguagem. António José Seguro lançou a ideia brilhante de uma “austeridade inteligente” para, diz ele, evitar excessos a que o programa da troika não obriga; e o ministro das Finanças respondeu de imediato com a defesa de uma “austeridade controlada” para, argumenta, evitar uma austeridade descontrolada. O resultado da “inteligência” de Seguro e do “controlo” de Gaspar estão patentes nos últimos números divulgados sobre o desemprego em Janeiro – 14,8%, acima dos 14,6% de Dezembro – e nos valores da quebra económica, que se abeira dos 4% nas previsões para este ano.



Desemprego e autismo

António Louçã

Em poucas semanas, várias anedotas de humor negro sucederam-se em ritmo cadenciado, como se tivessem sido inventadas para nos lembrar o abismo que se cavou entre o modo de vida das classes possidentes e o de massas cada vez mais pauperizadas. Uma, foi a do tribunal brasileiro que condenou um sem-abrigo a uma pena de prisão domiciliária. Outra, foi a da secretária de Estado da Saúde francesa, Nora Berra, que aconselhou os grupos de risco, entre eles os sem-abrigo, a permanecerem em casa enquanto durasse a vaga de frio. Ler o resto do artigo »



Site do MV foi atacado

Durante mais de duas semanas, o site do Mudar de Vida esteve inacessível por força de um ataque que o utilizava como veículo para direccionar os leitores para outros sites, provavelmente para obter ganhos publicitários. Resolvida a questão, voltamos ao contacto com os leitores, agradecendo a todos aqueles que entretanto nos contactaram a perguntar o que se passava.