A pandemia como metáfora do capitalismo

António Louçã — 17 Julho 2020

“Depois de nós, o dilúvio”

Tal reagente químico, o novo coronavírus fez sobressair com particular nitidez algumas das características fundamentais do capitalismo. A ganância e a irresponsabilidade são duas delas. A ganância, já se sabe, é  velha como este modo de produção. A voracidade dos capitalistas vai por vezes ao ponto de fazê-los esquecerem a sua própria sobrevivência física.

Este era um traço de carácter bem retratado numa caricatura do New York Times, no tempo em que o NYT ainda publicava caricaturas e não tinha decidido proibí-las, em resposta à indignação farisaica com que o traço satírico do nosso António Antunes fustigou o sionismo.

Nesses tempos áureos do NYT, um outro cartunista inspirado retratara o interior de uma das Torres Gémeas, no fatídico 11 de setembro de 2001. Dentro, uma série de corretores bolsistas, de costas para a janela, permaneciam absortos nos seus computadores. Um só, de frente para a janela, podia ver o avião que avançava para a torre, já a poucos segundos do impacto. E só se lembrava de gritar, para os outros, felizes incautos: “Vendam! Vendam!”

Com a pandemia de covid-19, é exactamente isso que sucede. A obsessão dos empresários da hotelaria, da restauração, do transporte aéreo e de todos os ramos ligados ao turismo por não perder o verão de 2020 nada tem que ver com a preocupação respeitável pelos postos de trabalho — tantas vezes precários e miseravelmente pagos — existentes nesse sector. É, sim, a preocupação com os lucros chorudos que habitualmente lhes caem no regaço como fruta da estação.

E esta psicologia dos lucros expectantes, tão transparente nos queixumes dos empresários e no chapéu estendido com que agora se dirigem ao Estado, surge-nos também na farsa representada pelo primeiro-ministro e pelo presidente, quando festejaram a atribuição a Portugal da fase final da Liga dos Campeões, com o detalhe verdadeiramente obsceno de considerar essa decisão um prémio para os profissionais da Saúde (António Costa dixit).

Pouco importa que os estádios cheios (e no momento da palhaçada de Marcelo e Costa ainda não se sabia que a famosa fase final seria toda disputada em modo futebol-fantasma) tivessem sido comprovadamente o factor determinante para os surtos mortíferos que atingiram a Itália e a Espanha na primeira fase da pandemia. O que importa é que venham para Portugal muitos turistas de ocasião, bêbados que nem cachos, para deixarem dinheiro em todos os bares e restaurantes onde deixam também o vírus.

Esta atracção do abismo é a mesma que temos encontrado na forma como os capitalistas e os políticos ao seu serviço lidam com a crise do clima. “Depois de mim, o dilúvio”: a frase que Luís XV dizia ainda em sentido figurado, os empresários e políticos burgueses de hoje bem podem dizê-la em sentido literal, só com a correcção de que, pelo andar da carruagem, o dilúvio pode chegar mesmo em vida de muitos deles. É dos tais casos em que a obsessão pelo lucro imediato os faz desprezar a vida de todos e até a sua própria. O capitalismo suicidário, no seu melhor.

E isto leva-nos ao tema da irresponsabilidade. Um capitalista ganancioso pode, em teoria, abdicar de lucros que o obriguem a atirar-se de cabeça para o abismo e que o façam arrastar com ele a família, o país, a humanidade. Pode mesmo? O espectáculo que temos visto é o de um Trump a ameaçar com sanções federais os governadores estaduais que procurem mitigar o desconfinamento — e isto em plena explosão de novos casos e de óbitos diários nos EUA. Temos visto um Bolsonaro a fazer da sua própria infecção, ou pseudo-infecção, um pretexto para spots publicitários rascas a favor da hidroxicloroquina.

Temos visto um António Costa a advertir que a economia portuguesa não suportaria um segundo confinamento. E será que a pandemia sabe que não lhe perdoaríamos uma segunda vaga?

Numa palavra: a ganância cega e embrutece. O poder económico, com a sua lógica economicista, é de uma sofreguidão irresponsável. O poder político, serventuário dócil dos interesses capitalistas, é outra cáfila de irresponsáveis. A pirâmide de grandes, pequenos e médios chefes, na burocracia do Estado e na hierarquia das empresas, com raras e honrosas excepções, tem-se revelado uma resma de carreiristas ambiciosos, obcecados com a ideia de apresentarem serviço à custa de quem trabalha, para garantirem as suas promoçõezinhas futuras sacrificando tudo o que é carne para canhão.

É preciso substituir a classe dominante, que impõe com a força bruta o diktat dos lucros em qualquer emergência, por uma classe dirigente que só pode ser a grande maioria trabalhadora, porque é a maioria que sente na pele os efeitos deste fogo cruzado da pandemia e da recessão económica. Ninguém como a classe trabalhadora saberia decretar a requisição coerciva dos SAMS, encerrados quando mais falta fazem à sociedade, para os seus administradores, todos boys do PS, poderem pôr em prática um plano que reputavam lucrativo.

Ninguém como a classe trabalhadora sabe procurar o difícil ponto de equilíbrio entre as medidas de segurança sanitária e as medidas de preservação da actividade económica. Ninguém como ela sabe separar o trigo do joio e distinguir entre as operações essenciais da economia e aquelas que só estão a ser desconfinadas em nome de um ganancioso business as usual. Perante a emergência ou a calamidade sanitária, como lhe queiram chamar, a voz do bom senso é, necessariamente, revolucionária.


Comentários dos leitores

afonsomanuelgoncalvess 18/7/2020, 15:01

Sim a voz do bom senso é um precioso factor para fazer renascer um novo caminho à arbitrariedade mercantil que nos últimos anos assolou o país e o encaminhou inelutavelmente para o abismo. No entanto a História deste país não tem nem nunca teve essa tradição. Apesar de ter mais de mil anos de existência Portugal, praticamente, não conheceu a revolução industrial, e o seu destino a partir das aventuras nos mares ainda desconhecidos empurraram-no para a via mercantil, comércio de escravos, de matérias primas, comprar e vender, e viver desses rendimentos rentistas e parasitas como lhes chamou António Ségio. Saír deste macabro dilema nesta altura vai ser uma tarefa ciclópica que nenhum autor ou autores sociais estão à altura de resolver.


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