“O Irão que eu conheci”
Fernanda M. Pinto / Entrevista — 20 Março 2026

A maioria da população portuguesa e Ocidental ignora o que é a sociedade iraniana de hoje. A propaganda mais primária e mistificadora tem feito carreira nos meios de comunicação, criando na opinião pública uma visão inteiramente distorcida acerca da vida dos iranianos comuns, da sua relação com o poder, das suas ambições e da forma como encaram o futuro do país. Foi neste caldo que a agressão ao Irão foi cozinhada, como se pode avaliar pela conivência inicial de toda a UE e pela cumplicidade do governo português com os agressores.
Fernanda M. Pinto, antropóloga, também fotógrafa e artista gráfica, conhece o Irão. A sua última visita foi já durante a guerra em Gaza, mas antes do ataque militar do verão passado levado a cabo pelos EUA e Israel. Com a entrevista que nos concedeu pretendemos colher as suas impressões sobre o que viu e lançar um olhar sobre os acontecimentos que estão em curso.
MV: O Irão é grande. Conhece todo o país?
FMP: Todo, não. Posso dizer que conheço extensamente o território, vastíssimo e belíssimo, aliás. Além de Teerão, situada a norte, estive no Curdistão, perto da fronteira com o Iraque. Também em cidades do centro e sul como Yazd, Isfahan ou Xiraz. Xiraz fica perto das espectaculares ruínas de Persépolis, ou melhor Pars, com mais de 2.500 anos. Estive ainda na costa do Golfo Pérsico mais a sul, nomeadamente em Bandar Abbas, na margem norte do Estreito de Ormuz, de que agora tanto se fala, mesmo à vista da ilha de Ormuz, bem conhecida dos portugueses do século XVI. Ali perto fica Minab, onde os norte-americanos, como sabe, mataram mais de 160 crianças de escola com um míssil que o sr. Trump quis atribuir ao Irão.
MV: Do que viu, o que nos pode dizer?
FMP: O que mais me impressionou desde o primeiro momento foi o grau de desenvolvimento do país. Para quem saiba o que era a Pérsia do Xá Reza Pahlevi, da Soraya e da Farah Diba, muito promovidos nas revistas da gente fina da época, o contraste é gigantesco. Em menos de 50 anos, o Irão passou da Idade Média e da miséria mais abjecta para a condição de um país moderno. Há dias, ouvi um desses comentadorzecos a apoiar a agressão dos EUA dizendo que iria contribuir para criar um Irão moderno. Não sabe do que fala, é daquelas opiniões de mercenário da palavra que diz o que lhe pedem.
MV: Fale-nos então dessa modernidade.
FMP: Mede-se por vários indícios que estão à vista de qualquer viajante que tenha olhos de ver. As principais cidades são centros urbanos populosos, equipados com tudo o que se espera de uma cidade: transportes, serviços públicos, comércio de todo o tipo, hospitais, restaurantes, escolas de todos os graus e universidades, e por aí fora. Mesmo nas aldeias do Curdistão (região que me fez lembrar Trás-os-Montes ou a Beira Interior pela condição geográfica e pela interioridade) havia saneamento básico em todas as casas, mesmo modestas, estações de tratamento de esgotos e de água, as casas e as escolas estavam aquecidas com gás natural (as pessoas até esbanjavam aquecimento, de janelas abertas, de tão barato que era).
Mas há outros sinais. Todo o país está ligado por transportes aéreos e rodoviários eficazes. O comércio é frenético e bem abastecido. O uso de telemóveis e os pagamentos electrónicos estão generalizados desde a grande loja à padaria de bairro.
MV: Esse desenvolvimento de que fala é sobretudo de ordem material, digamos. Que efeitos sociais tem?
FMP: Dou-lhe indícios do que pude ver. Aos fins de semana os restaurantes populares enchiam-se de famílias que comiam abundantemente. Numa ocasião, tive um pequeno problema de saúde e fui atendida com a maior eficiência num centro de saúde – e não acho que fosse deferência por ser estrangeira.
Outro facto: as mulheres, contra o que aqui se sugere, estão presentes em todo o tipo de empregos, nomeadamente os de maior qualificação; só isto dá conta de uma sociedade que sofreu uma transformação de fundo. Há 50 anos, as mulheres estavam afastadas de qualquer função social que não fosse tratar dos filhos e da casa – tirando, claro a diminuta elite burguesa e palaciana que rodeava o regime e enchia páginas do Paris Match.
Quer alguns números? A taxa de alfabetização actual do Irão ronda os 90%, e entre os jovens até 24 anos é quase 100%. Isto está a anos luz do tempo do Xá. Toda a gente tem instrução, o que conta muito para a consciência política e social das pessoas, e para a vida colectiva.
MV: Mas há desigualdades, certo?
FMP: Sim, mas são de outra natureza e outra escala. Importa comparar o que é comparável. Há 50 anos, os contrastes de condições de vida entre as cidades e as zonas rurais eram colossais. Nos anos 1970, os pobres eram 40% da população e as disparidades de rendimento cresceram até à revolução de 1979. Hoje, o risco de pobreza desceu para cerca de 16% da população iraniana, que são mais de 90 milhões. Sabe qual é a população portuguesa em risco de pobreza? São quase 20% em meros 11 milhões de pessoas.
MV: Esse progresso seria possível sem a viragem de 1979?
FMP: De maneira nenhuma. O que dá conta de que houve no Irão uma verdadeira revolução social é o facto de, nos anos 70 do tempo do Xá, o boom petrolífero ter sido acompanhado de um aumento das desigualdades sociais. Foi essa a “modernização” que as companhias estrangeiras de exploração de petróleo proporcionaram ao Irão.
Em contraste, depois de 1979 todos os índices de melhoria de vida da população (não só aumento de rendimentos como redução das desigualdades) tiveram um incremento impressionante, mesmo nas condições dificílimas da guerra Irão-Iraque, instigada pelo Ocidente, que durou de 1980 a 1988.
Não quero massacrar com números, mas aqui vai mais um indicador importante. O coeficiente de Gini, que mede o grau de desigualdade de uma sociedade (0 é igualdade perfeita, 1 é a desigualdade total), era no Irão, em 2023, igual a 0,359, equivalente à média mundial – não muito diferente dos 0,337 de Portugal, no mesmo ano.
MV: Certo. Mas a repressão sobre as mulheres, em particular, mostra qualquer coisa de retrógrado.
FMP: Muito retrógrado, mesmo. Vejo as coisas assim: A revolução iraniana começou em final de 1977 e prolongou-se por 1978 como um levantamento popular contra a ditadura do Xá. A monarquia caiu em janeiro-fevereiro de 1979. Greves e manifestações gigantescas chegaram a juntar 9 milhões de pessoas em todo o país.
Um facto esquecido é que esse movimento teve uma participação decisiva da classe operária do petróleo, indústria que tinha tido grande incremento e se tornara central para o país. O sentido da revolução era laico e republicano. A entrada em cena dos líderes religiosos (Khomeini estava exilado em Paris) foi negociada por um general dos EUA, vice-comandante da NATO na altura. Foi a forma de impedir que a revolução popular e operária ganhasse a dianteira.
A radicalização do regime, a meu ver, foi resultado da pressão popular que continuou ao longo de 1979. O assalto à embaixada dos EUA em final de 1979 e o sequestro dos funcionários e agentes da CIA durante mais de um ano entalou o regime dos clérigos que sem isso estariam mais propensos a entendimentos com o Ocidente.
MV: Essa foi a fase agitada da viragem operada em 1978-79. E depois?
FMP: A onda popular radical amainou. O regime dos aiatolás assentou, em termos sociais, nas populações rurais mais atrasadas e atreitas à influência religiosa, em sectores das classes médias urbanas e na vasta classe pequeno burguesa do comércio. O peso desta última é ainda perfeitamente visível na sociedade iraniana de hoje. A classe operária foi submetida.
MV: Mas como é que liga isso à questão das mulheres de que falávamos?
FMP: Ia lá chegar. O regime implantado nestas condições foi, e permanece, anti-imperialista e nacionalista e é isso que, simultaneamente, suscita o ódio do Ocidente e lhe proporciona apoio popular interno. Mas, pela natureza de classe, pela ideologia religiosa, pela moralidade com que procura controlar os comportamentos sociais, choca com as aspirações das classes populares e das classes intermédias (genericamente falando, pequena e média burguesia) que, entretanto, cresceram e se diversificaram por força do próprio desenvolvimento e modernização da sociedade iraniana.
A pressão social sobre as mulheres é a parte mais visível desta contradição. O Irão de hoje é uma sociedade capitalista, e o capitalismo subsiste pela divisão social, de que a submissão das mulheres é um elemento. A luta contra o uso obrigatório do véu islâmico, de que o Ocidente fez bandeira, tem o seu significado, mas reduzir a isso a contestação ao regime é não entender a raiz do problema.
MV: Como vê o papel do Ocidente a esse respeito?
FMP: O Ocidente procura tirar partido da questão num sentido retrógrado, que é tentar derrubar um regime que o incomoda por ser nacionalista e anti-imperialista, por ter mão firme sobre recursos fundamentais como o petróleo, por promover um desenvolvimento moderno fora da esfera do Ocidente. Obviamente, se o Ocidente se preocupasse verdadeiramente com a liberdade das mulheres não promovia o fascismo machista como está a fazer dentro de portas – e fora de portas podia começar, por exemplo, pela Arábia Saudita.
A sociedade iraniana está carente de mudança. Não pelas razões que o Ocidente invoca, mas pelo próprio grau de desenvolvimento a que chegou por força da revolução de 1979. O colete do regime já não comporta as necessidades e as aspirações das massas populares. O salto tem de ser em frente – não para trás, como querem norte-americanos e europeus na ânsia de deitar mão aos recursos do Irão.
MV: Os protestos recentes de dezembro e janeiro são parte desse salto?
FMP: Sim e não. A coisa começou, como sabe, com manifestações contra a subida dos preços e a desvalorização da moeda, o rial. Foram os comerciantes de Teerão que as iniciaram. Até aqui, foram os conflitos da sociedade iraniana de que falei a manifestarem-se. Mas é bom lembrar que o Irão sofre, há décadas, sanções pesadíssimas da parte dos EUA e da Europa. É esse o quadro que rodeia a vida interna do país. Falar dos problemas económicos e sociais do Irão sem ter isto presente é mistificar as causas.
Aqueles primeiros protestos, pacíficos, pararam sem que tenha havido repressão assinalável. Foi depois que novas manifestações, desta vez violentas, tomaram as ruas. Os EUA e Israel não esconderam o seu papel nesta segunda onda, bem diferente da primeira. Aqui o salto já é para trás.
MV: Quer dizer que essa segunda vaga foi uma tentativa de “revolução colorida”, como o Ocidente tem feito noutros países?
FMP: Os factos são conhecidos, apesar de dissimulados. Gente comprada (é o termo adequado) pela CIA e pela Mossad assassinou manifestantes, genuinamente empenhados nos protestos, para culpar as forças policiais. Essa gente chegou a degolar e esquartejar polícias, incendiou lojas e edifícios públicos.
A técnica foi em parte copiada do golpe da Praça Maidan, em Kiev, em 2014: criar uma situação de caos que desautorizasse o governo e o fizesse cair. Mas o regime de Teerão de 2025 não é o de Kiev de 2014. Houve mão pesada sobre as manifestações, mas não foi apenas isso que as parou: foi o próprio recuo de muitos dos manifestantes que se aperceberam da provocação a que estavam a ser sujeitos.
MV: Acha plausíveis os números de mortos que são anunciados?
FMP: Não. A meu ver, os números que têm sido propalados pelos meios ocidentais são inventados para evidentes efeitos de propaganda. Cada um acrescenta os milhares ou as dezenas de milhares que entende. Não têm qualquer pudor. Até o treinador de futebol Sá Pinto (regressado do Irão), entrevistado por um canal de TV, com a ligeireza de quem não tem de prestar contas, achou que 25 mil era pouco e apontou “o dobro”. Provas, nenhumas.
Estas supostas dezenas de milhares não são inocentes ou aleatórias. Parece-me evidente que procuram aproximar o score imputado ao regime iraniano dos números (esses, sim, reais) do morticínio de Gaza para os fazer equivaler. Tenta-se anular a má nota que justamente recai sobre os assassinos israelitas. É uma forma de desviar o foco de Israel para o Irão.
MV: Mas sobre o massacre da escola de Minab nada dizem.
FMP: Exacto. E esse está mais que comprovado, até pelos meios do Pentágono, que foi obra dos EUA. Soube-se agora que a escola era dedicada a filhas de militares iranianos. Não é difícil admitir que os norte-americanos quiseram dar sinal daquilo ao que vinham logo a abrir as hostilidades. Repare que esse género de prepotências é bem definidor do carácter de quem as promove e do tipo genocidário das guerras que levam a cabo. Basta lembrar My Lai, no Vietname (1968), ou Wiriyamu, em Moçambique (1972). Muitas centenas de mortos civis em ambos os casos, sem outro propósito que não seja desmoralizar.
MV: Recorrendo de novo ao que viu, como acha que vão os iranianos reagir aos ataques de que estão a ser vítimas?
FMP: É inquestionável que os últimos 47 anos forjaram um país novo. Não creio que uma população instruída, mesmo a faixa mais jovem, despreze esse facto, que é bem patente. Como disse, os conflitos com o regime têm o sentido de uma população que quer ir mais longe, não recuar. Por isso, acho patético que se tivesse querido promover a figura de Pahlevi, que nunca viveu no Irão. O facto de Trump o ter posto de lado, como fez com Corina Machado na Venezuela, mostra que o homem era apenas uma figura de cartaz.
Não sei se reparou que as manifestações, promovidas no Ocidente por grupos da diáspora, em apoio a Pahlevi se evaporaram. Juntar o filho do Xá com bandeirinhas de Israel foi a prova acabada de que se pretendia um regresso ao passado mais tenebroso da história recente do Irão. Foi um tiro no pé.
Se em cima disto pusermos a evidência de que o ataque militar só pretende a destruição do país, percebe-se que o campo para estas manifestações se fechou.
Por outro lado, a estrutura de poder no Irão é sólida. Não apenas pelo aparato do Estado, mas também pela sociedade civil, ambos assentes, volto a insistir, num esforço de progresso que antes não existia – mesmo nas condições terrivelmente difíceis de sanções duríssimas com décadas de duração.
MV: Acha isso suficiente para resistir à destruição que Trump e Netanyahu prometem?
FMP: É o que vamos ver. Não tenho informações privilegiadas. Comparo as notícias vindas de todos os lados. As fontes iranianas falam com serenidade e confiança, como quem esperava e se preparou para um cenário destes.
EUA e Israel podem provocar tremendas destruições. Têm poder de fogo para isso. Mas o Irão tem argumentos fortes numa guerra prolongada, como já se está a ver. Todos os analistas sérios o reconhecem.
O colapso do poder iraniano, como norte-americanos e israelitas ansiavam, não se verificou. É natural que os conflitos com o regime – internos, portanto, pela sua natureza de classe – tenham passado a segundo plano diante de uma agressão de tal brutalidade.
As circunstâncias, estou em crer, levam a esmagadora maioria da população a ver a agressão não como uma “libertação” – como por cá, por todo o Ocidente na verdade, se quis fazer crer – mas como uma tentativa de esmagamento e de colonização. A coesão nacional reforçou-se, seguramente. Isso será fundamental para resistir. E o Irão, resistindo, acaba por vencer.
MV: Vamos ter um Irão resistente, mas enfraquecido?
FMP: Certamente resistente, possivelmente enfraquecido. Mas no tratar das feridas, quando as hostilidades cessarem, o Irão tem, a meu ver, uma importante vantagem moral e material: o apoio da China, da Rússia, dos BRICS, do Sul Global. Não creio que lhe vá faltar.
Quanto aos EUA e a Israel, palpita-me que vão sair queimados e isolados desta aventura. A decadência de ambos é irreversível, isso é que conta a prazo.
Consegue imaginar esta agressão vista pelos olhos dos povos do Sul Global? O julgamento que fazem é completamente diferente do que passa nas cabeças de norte-americanos ou europeus. É revoltante ver um país que se esforça por progredir e defender os seus direitos ser sujeito, por isso mesmo, a uma guerra de devastação levada a cabo (com gáudio e frases ignóbeis!) por verdadeiros terroristas.
Espero bem que os crimes dos EUA e Israel lhes sejam pesados. E o mesmo para os cúmplices que os amparam, como os dirigentes europeus, portugueses incluídos.