EUA contra a guerra. Um apelo aos soldados
Editor / John Catalinotto — 15 Março 2026

As declarações arrogantes dos dirigentes dos EUA e de Israel tentam esconder o que se torna evidente com o passar dos dias: o Irão resiste aos ataques terroristas de que está a ser vítima, a população iraniana mostra-se unida na defesa da sua soberania, os aliados dos EUA no Golfo Pérsico e na Europa pagam os custos dos favores que fazem ao imperialismo. Começa a ser convicção comum que, seja qual for o grau de destruição que causem, EUA e Israel vão sair desta guerra mais isolados que nunca.
Importante para o resultado da guerra é também o que se passa na frente interna. Activistas dos EUA manifestam-se pelo fim da agressão ao Irão e apelam directamente aos soldados para se recusarem a combater, à semelhança do que sucedeu em guerras anteriores.
O ATAQUE AO IRÃO PROVOCA DIVISÃO NAS FORÇAS ARMADAS DOS EUA . O QUE VIRÁ A SEGUIR?
John Catalinotto
A batalha que começou com o ataque não provocado da máquina de guerra EUA-Israel contra o Irão, em 28 de fevereiro, expandiu-se nos seus primeiros 11 dias para uma conflagração regional e está a avançar a uma velocidade sem controlo rumo a uma guerra mundial.
A organização Veteranos pela Paz oferece assistência a soldados dissidentes
Activistas pacifistas e anti-imperialistas nos Estados Unidos — nas entranhas do monstro — têm o dever especial de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para deter esta guerra. E há uma área em que eles estão na melhor posição para agir: entrar em contacto com membros das forças armadas norte-americanas.
O primeiro ponto a deixar claro ao planear essa luta é que a classe dominante super-rica dos Estados Unidos e os regimes reaccionários racistas que comandam os estados opressores, tanto os EUA como Israel, são os criminosos responsáveis pelas consequências terríveis da guerra. O movimento pacifista deve expor esses crimes e procurar desmantelar a máquina de guerra desses criminosos.
Apoio popular mínimo à guerra nos EUA
Comparada com as últimas seis longas guerras de agressão dos EUA – Coreia, Vietname, Iraque (1991), Jugoslávia, Afeganistão e Iraque (2003) – esta potencial “guerra sem fim” contra o Irão é a que enfrenta maior oposição interna. A guerra contra o Irão começou com bombas e foguetes americanos que mataram mais de 150 estudantes na cidade de Minab, e com o assassinato, por Israel, do líder político e religioso supremo do Irão, o aiatolá Ali Hosseini Khamenei, em 28 de fevereiro.
Antes de desencadear a conflagração, o regime MAGA não fez nenhum esforço para obter apoio para a agressão, nem entre o povo, nem no Congresso, nem buscando aliados internacionais além dos criminosos genocidas que administram o estado colonialista israelita. O regime contava com as grandes mentiras de décadas que demonizavam o Irão.
Desde o massacre inicial em Minab, que lembra o incêndio da aldeia de My Lai no Vietname em 1968, cada bajulador do governo MAGA e o impopular presidente dos EUA têm dado explicações contraditórias sobre como a guerra começou, quanto tempo durará, se haverá envio de tropas terrestres e qual o objectivo. As suas mentiras contraditórias só fizeram diminuir a sua credibilidade.
Mesmo antes de serem relatadas extensas baixas entre as tropas norte-americanas, mesmo antes de o custo militar diário de mil milhões de dólares desta “guerra de opção” EUA-Israel se tornar evidente (csis.org), mesmo antes de a guerra desencadear um desastre económico mundial, a maioria da população dos EUA opõe-se à “guerra sem fim” que o governo desencadeou.
Uma população que rejeita a guerra pode ser mobilizada para lutar contra ela, assim como o povo de Minneapolis rejeitou os maus-tratos brutais e os assassinatos de migrantes, e os aliados dos migrantes rejeitaram a presença dos agentes do ICE.
Se os civis se opõem à guerra, isso significa que as tropas podem recusar-se a obedecer a ordens ilegais. Reservistas e soldados no activo são trabalhadores fardados. Eles reflectem as atitudes dos seus pares civis – mas com as vidas e integridade física em risco.
Os soldados dos EUA oporão resistência à guerra?
Durante a invasão norte-americana do Vietname, a resistência das tropas em travar combate contribuiu para a decisão de 1969 de retirar gradualmente o contingente norte-americano do Vietname e de passar a depender de bombardeamentos. Também levou ao fim do recrutamento militar obrigatório no início de 1973 e à decisão do Pentágono de criar, nas décadas seguintes, um exército altamente tecnológico e sem recrutamento obrigatório.
Mesmo dentro dos militares não recrutados [voluntários], alguns recusaram-se a lutar no Iraque e no Afeganistão, embora em menor número do que no período do Vietname. Após muitos custos, mortes e destruição, as tropas norte-americanas foram forçadas a retirar-se das “guerras intermináveis”.
Um livro publicado em 2017 sobre a resistência dos soldados norte-americanos (Turn the Guns Around: Mutinies, Soldier Revolts and Revolutions) discute como os EUA não conseguem mobilizar um exército terrestre suficientemente grande para conquistar o Sul Global sem gerar oposição interna e resistência entre as tropas. O livro apresenta exemplos de guerras de agressão conduzidas pelos EUA que podem levar a uma rebelião de soldados. (…)
E esse é exactamente o cenário actual, de Teerão a Minneapolis.
Se o regime MAGA ordenar a entrada de tropas terrestres norte-americanas no Irão, não há dúvidas de que os 93 milhões de iranianos defenderão a sua civilização de 5.000 anos, uma resistência histórica que os governantes dos EUA subestimam. Na intervenção militar em cidades norte-americanas, os cidadãos de Los Angeles, Chicago, Minneapolis e outras cidades mostraram como a solidariedade da classe trabalhadora pode surpreender os senhores da guerra de Washington.
É difícil imaginar a fúria popular caso o regime MAGA tentasse reinstaurar o serviço militar obrigatório, o odiado recrutamento. Jovens na Alemanha estão actualmente a protestar contra planos semelhantes do imperialismo alemão.
Já existem indícios de que o Pentágono registrou baixas muito além dos sete soldados norte-americanos oficialmente reconhecidos como mortos em combate. O facto de o principal hospital militar dos EUA em Landstuhl, na Alemanha, já ter cancelado os serviços de assistência ao parto (Military Times, 5 de março) demonstra que o Pentágono prevê um número muito maior de baixas norte-americanas.
Organizações de veteranos pacifistas, como a Veteranos pela Paz e outras, entraram em contacto com militares no activo, oferecendo apoio a objectores de consciência. Um líder do Centro sobre Consciência e Guerra afirmou que os seus telefones não param de tocar desde o início da guerra EUA-Israel contra o Irão.
Um anúncio feito há alguns meses por seis congressistas democratas, afirmando que as tropas têm o dever de desobedecer a ordens ilegais, já se espalhou entre os soldados. Quaisquer que sejam os motivos desses representantes eleitos, todos veteranos das forças armadas ou da CIA, ninguém pode reverter essa situação.
Os belicistas do MAGA podem descobrir que a sua agressão contra o Irão apenas acelerou o declínio do imperialismo norte-americano.