Banditismo sem pudor! Notas a quente sobre o ataque ao Irão
Manuel Raposo — 4 Março 2026

Tirando os EUA e Israel, parece haver consenso sobre o facto de a agressão ao Irão constituir uma violação do direito internacional tal como está definido na Carta das Nações Unidas. Um acto ilegal, portanto. Bastaria isto para considerar a resposta do Irão como uma reacção de legítima defesa e, consequentemente, legal. Bastaria isto, igualmente, para identificar sem margem para dúvida o criminoso e a vítima; e para, sem reticências, o mundo dito civilizado acorrer em defesa da vítima e condenar o criminoso.
Mas eis que, numa completa inversão de valores, a legítima defesa do Irão passa a ser o alvo da condenação do Ocidente por inteiro. O crime é avaliado pelo critério do criminoso.
De novo, o embuste das ADM
Não existe qualquer dúvida, em qualquer espírito, de que o Irão não tem nem poderá ter nos tempos mais próximos uma bomba nuclear. Antes a tivesse, a exemplo da Coreia do Norte, e não seria atacado como está a ser. A conversa de Trump e de Netanyahu tem hoje o mesmo valor e desempenha a mesma função que as mentiras de Bush-filho usadas para atacar o Iraque em 2003. Desta vez, porém, nem se deram ao trabalho de procurar apoios, como Bush tentou junto da ONU, que rodeassem o crime de alguma ramagem de legalidade.
O banditismo despudorado é a diferença específica entre este imperialismo de hoje e o de há vinte anos.
Negociar é arriscado
Ficou claro que as negociações com o Irão foram, da parte dos EUA, mera cortina de fumo atrás da qual se preparava a agressão, como o acumular de meios bélicos denunciava. O mesmo sucedeu no verão passado antes da guerra dos 12 dias. E pode dizer-se outro tanto a respeito dos acordos de Minsk – desavergonhadamente reconhecidos pela França e pela Alemanha como meros expedientes para armar a Ucrânia contra a Rússia – ou a respeito das negociações com a Venezuela que precederam o rapto de Nicolás Maduro.
Há nisto um padrão: a diplomacia deixou de ser um modo de resolução de diferendos, apenas contando como expediente de curto prazo para ganhar tempo e fazer uso da força na melhor ocasião. O slogan “Paz através da força”, adoptado por norte-americanos e europeus, traduz uma realidade ao mesmo tempo dramática e inconfessada: “Como nos faltam meios de persuasão, esmaguemos os adversários e recalcitrantes com as armas de que ainda dispomos, as sanções e a força militar, antes que seja tarde”.
Este comportamento revela um fundo de fraqueza. Mas levanta a questão de saber, traçando um paralelo, até que ponto estão os EUA empenhados nas negociações de paz a respeito da Ucrânia. Neste caso, tem sido a Europa, capitaneada pelo trio Londres-Paris-Berlim, o beligerante mais determinado a prolongar a guerra indefinidamente, procurando ganhar tempo para se reforçar militarmente. Mas nada garante que a pandilha de Trump não mude de ideias se se convencer – levada por qualquer ilusão, ou empurrada por qualquer desespero – de que a força bruta lhe pode dar alguma vantagem, mesmo transitória. O risco de reacendimento do conflito na Ucrânia, por parte de uma renovada aliança centrada na NATO, não pode ser posto de parte.
Velhos cúmplices
Mantidas fora dos centros de decisão de Washington e Telavive, as principais potências europeias mostraram-se inicialmente incomodadas com o ataque ao Irão e anunciaram não participar nas operações militares. O Reino Unido, numa bravata, chegou mesmo a impedir os EUA de usar as suas bases militares. Podia parecer que se repetia, agora de forma alargada, a oposição à invasão do Iraque em 2003, então protagonizada pela França e pela Alemanha. Pura ilusão.
Durou dois dias a boa consciência dos países europeus. França, Reino Unido e Alemanha cedo largaram as vestes da decência – era tudo postiço. O pretexto para darem o dito por não dito foi a retaliação, inteiramente lógica e pré-anunciada, por parte do Irão, às bases militares norte-americanas situadas na região.
O argumento, absolutamente espúrio, destes cândidos europeus é o de que, assim, a guerra está a ser expandida para fora do território da vítima. Queriam que o Irão resistisse sem contra-atacar, suportando dentro de fronteiras toda a destruição causada pelos agressores. Uma simples olhada ao mapa da zona mostra como se distribuem essas bases num arco completo em torno da costa iraniana, do outro lado do Golfo Pérsico, a escassas dezenas de quilómetros.
Starmer, Macron e Merz, num prodígio retórico, anunciaram a sua entrada na guerra (com objectivos ditos “estritamente defensivos”!) contra o Irão, a vítima da agressão, ao lado dos EUA e Israel, os agressores. Raramente o cinismo, a inversão de valores e a cobardia subserviente tiveram expressão mais cristalina. É uma segunda versão do arrastamento da Europa para a guerra contra a Rússia no solo da Ucrânia, agora ao lado, não dos nazis do batalhão Azov, mas dos genocidas israelitas. Os bons democratas europeus escolheram uma vez mais a boa companhia.
Serviçais dos serviçais
Estes mesmos atributos degradantes tinham as autoridades portuguesas manifestado de forma pioneira. “Nada de anormal”, garantiu o presidente da República, quando confrontado com a intensificação do tráfego aéreo norte-americano na base das Lajes (tinha dito o mesmo em junho passado, antes do ataque dos EUA e de Israel ao Irão).
“Tudo dentro do previsto” no acordo das Lajes, “façam o que quiserem, não precisam sequer de avisar” repetiu o inqualificável ministro dos Negócios Estrangeiros em nome do Governo. Que o destino evidente dos aviões de abastecimento fosse este novo ataque ao Irão, de nada importou aos serviçais portugueses, que repetiram a cena de há 23 anos a respeito do Iraque.
Marcelo, Rangel, Montenegro são a expressão contemporânea da pusilanimidade serviçal, de espinha dobrada, da burguesia portuguesa.
A ordem dos factores
Não são as aflições internas da administração Trump – possível perda das eleições de novembro, revogação das tarifas aduaneiras pelo Supremo Tribunal, insucesso do prometido milagre económico, envolvimento no escândalo Epstein – que explicam esta ofensiva externa.
Muito para lá de tudo isso, os EUA, com Trump ou sem ele, têm de fazer face à concorrência. O Irão, tal como em grande medida a Venezuela e a Síria (ou como, noutros tempos, o Iraque ou a Líbia) são peças de um largo puzzle territorial em que o imperialismo tem perdido ascendente. O Irão faz parte de uma rede de ligações de ordem económica e política cruciais: Nova Rota da Seda, investimentos chineses, corredor marítimo-terrestre do Índico ao norte da Rússia, à Turquia e à Europa, BRICS, Organização de Cooperação de Xangai, parceria militar com a Rússia e a Chima. Por todas estas fortes razões, manietar ou destruir o Irão é tópico que está na agenda de qualquer administração norte-americana.
Por estes mesmos motivos, pensar que Netanyahu arrasta Trump para a guerra como cão por corda, como se tem ouvido, é inverter a ordem dos factores em jogo. Há uma hierarquia de propósitos, de poder e de mando que faz dos interesses vitais do imperialismo norte-americano a pedra de toque da sua política externa. As ambições próprias do sionismo estão forçosamente subordinadas a isso.
Não é porque o sionismo ambiciona um grande Israel que os EUA lhe fazem a vontade: é por ser do interesse dos EUA exercer domínio sobre todo o Médio Oriente que as ambições de Israel se lhes tornam úteis, na medida em que isso permite delegar funções num servidor fiel.
Também não é por Netanyahu condenar a teocracia dos Aiatolás (ele próprio é um líder da teocracia sionista) que o Irão está sob fogo dos EUA. O poderio crescente do Irão, como potência que cresceu desde 1979 fora da esfera imperialista, contribui para debilitar a hegemonia norte-americana na região e no mundo, e é por isso que o belicismo criminoso de Israel se torna uma arma indispensável da política norte-americana.
Entre norte-americanos e israelitas não há conflitos de interesses: há, sim, divisão de tarefas.
O trabalho sujo agora toca a todos
Nessa divisão de tarefas, como bem disse o chanceler Merz a propósito do morticínio em Gaza, tem cabido a Israel a tarefa suja que o Ocidente não tem querido fazer, mas que é de seu interesse. No último ano, porém, os EUA meteram mãos à obra directamente, na guerra de junho passado e na de agora contra o Irão.
Pelo mesmo caminho estão a ir as potências europeias que acabam de decidir entrar na guerra de esmagamento do Irão. “Temos de nos ver livres desse regime terrorista”, disse o sinistro Merz na Casa Branca, prestando louvores a Trump.
O morticínio deliberado de civis ensaiado em Gaza à luz do dia, o assassinato de dirigentes, de comandantes militares e de emissários-negociadores preparou a opinião pública para o mesmo tipo acções em territórios mais vastos, desde já no Irão, amanhã algures. Com uma novidade: serem levadas a cabo pelas próprias potências que alimentaram a barbárie sionista e se acobertaram, até agora, atrás dela.
O massacre de mais de 160 crianças numa escola do sul do Irão, arrasada à bomba no primeiro dia da ofensiva, é um exemplo de que a prática de terror genocida levada a cabo em Gaza está a ser transportada para o novo teatro de guerra.
Pelas leis da Física
Não será sem consequências que o Ocidente leva a cabo esta sua nova aventura de um banditismo sem máscara. É da Física, mas também da vida social, da política e de tudo o mais que qualquer acção gera uma reacção de sinal contrário. As reflexões possíveis a este respeito são várias.
Depois das repetidas provas de falsidade exibidas em sucessivas negociações e no rasgar de acordos, ninguém vai acreditar na boa-fé dos EUA e correr o risco de sentar-se à mesa, seja com Trump, seja com outro qualquer.
Os EUA continuam a apostar numa política de vistas curtas: ganhos tácticos, perdas estratégicas. É o que resta a uma potência em declínio, sem margem histórica de progressão. Pelo caminho espalham caos e barbárie. O resto do mundo não tem alternativa que não seja revoltar-se, unir-se e juntar meios para resistir.
No Paquistão, no Iraque e no Barém, manifestações populares maciças, reprimidas com mortes, atacaram representações diplomáticas dos EUA. Também a propósito de Gaza protestos gigantescos abalaram os países árabes e muçulmanos ao longo dos dois anos de morticínio. O fosso entre o Ocidente e o resto do mundo aprofunda-se.
Tal como no atoleiro ucraniano (guerra, desindustrialização, afundamento económico, carestia, empobrecimento, desmantelamento do Estado Social), a Europa ficará ainda mais desfalcada de recursos e avassalada pelos EUA. As populações europeias, particularmente os trabalhadores, terão de percorrer um caminho longo de resistência e de união. Esse exemplo começou a ser dado pela greve dos trabalhadores portuários da bacia do Mediterrâneo, a 6 de fevereiro, em protesto contra a guerra e em defesa das condições de vida.
O servilismo das autoridades portuguesas, colocando o país numa posição absolutamente degradante, exige uma resposta de completo repúdio – em primeiro lugar, quanto à cumplicidade com o crime agora cometido contra o Irão, mas também a respeito das amarras, com origens no salazarismo, que prendem o país à NATO e ao imperialismo norte-americano.
O chamado “Conselho da Paz”, constituído e presidido por Donald Trump com o autoproclamado propósito de manter a paz no mundo, acaba de iniciar funções desencadeando a sua primeira guerra. É para este propósito e outros semelhantes que nos vão ser extorquidos 5% do PIB para despesas militares.