O mundo liderado pelos EUA chegou ao fim
Editor / Larry Holmes — 14 Fevereiro 2026

O declínio dos EUA, hoje aceite como evidente, corre a par do crescimento de potências com capacidade para lhe disputar a hegemonia em todos os domínios: económico, militar, político, científico, tecnológico, cultural. Este facto inédito abre brechas no sistema mundial montado nos oitenta anos decorridos desde o final da segunda grande guerra. É uma época que finda. Criam-se assim condições materiais para uma recomposição dos equilíbrios mundiais em que a batalha pelo socialismo terá um papel decisivo a desempenhar.
Que tarefa cabe neste quadro às massas trabalhadoras, à luta de classes, aos comunistas revolucionários? E que tarefa cabe em particular à classe operária dos EUA, aquela que vive no ventre da besta? Que contribuição pode ela dar às transformações que, agora mesmo, ocorrem no mundo?
São estas as questões abordadas pelo artigo de Larry Holmes, que tem a vantagem de falar a partir do centro do imperialismo mundial, esse mesmo que se confronta com o seu próprio declínio.
A NOVA SITUAÇÃO MUNDIAL. O DECLÍNIO DO IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO E A CENTRALIDADE DA LUTA DE CLASSES
Ao avaliarmos a nova conjuntura mundial, devemos começar aqui pelos EUA. Neste momento, o epicentro da luta é Minneapolis. O que está a acontecer por lá levanta uma questão fundamental, pertinente para a conjuntura mundial em transformação, a luta de classes global e a luta pela revolução socialista mundial. As mesmas condições, a repressão e a resposta popular enfurecida estão a espalhar-se e continuarão a espalhar-se por todo o país
Entre as massas, fala-se hoje mais da necessidade de revolução do que em qualquer outro momento da história recente, e essa tendência só tende a crescer. Actualmente, há mais discussões e alguma organização em torno de convocações para uma greve geral e estratégias que envolvem a desestabilização do sistema e o empenhamento de uma parcela mais ampla da classe trabalhadora nessa forma de luta. As pessoas percebem que os grandes protestos têm a sua importância, mas não são suficientes. Este é mais um sinal incipiente de que a luta precisa de se direccionar para uma actuação de massas mais militante. É o início de um processo que inevitavelmente pavimentará o caminho para a revolução.
Se alguém sugerisse que estamos num período revolucionário ou pré-revolucionário, poderíamos argumentar que tal sugestão seria prematura. Os capitalistas já não conseguem reverter sua decadência e precisam de recorrer à repressão para manter o seu domínio. Contudo, a classe trabalhadora ainda não está pronta para relegar os bilionários e o seu sistema para a história. Ainda assim, as correntes subterrâneas da revolução estão vivas e pulsantes. Para além de Minneapolis, as massas levantam-se para se defenderem de um estado policial fascista. Essa defesa está em processo de evolução para uma ofensiva em massa contra todo o sistema, um sistema que torna a vida insuportável.
Principais características da nova situação mundial
O maior desenvolvimento histórico é o declínio do imperialismo norte-americano, que foi e continua a ser, tanto o centro do imperialismo mundial, quanto o centro do sistema capitalista mundial. Juntamente com isso, há o fim da ordem mundial dos últimos 80 anos liderada pelo imperialismo norte-americano, o que significa a fragmentação da aliança, liderada pelos EUA, com as outras grandes potências imperialistas, principalmente as da Europa. A ameaça de anexação da Gronelândia e a renovada guerra económica de Trump contra a Europa para alcançar esse objectivo são exemplos da divisão inter-imperialista. O período de um mundo unipolar, liderado pelo imperialismo dos EUA, que foi declarado após o colapso da União Soviética, chegou ao fim.
Surge, portanto, uma nova etapa na longa história do capitalismo. O termo “capitalismo em fase final” está sujeito a diferentes interpretações e não prevê a expectativa de vida do capitalismo. A expressão distingue a realidade actual por comparação com períodos anteriores. A magnitude da presente crise capitalista é tal que a classe dominante já não pode esconder que os seus dias de glória acabaram e jamais retornarão.
Uma crise financeira muito maior do que a de 2008, que levou ao colapso do mercado financeiro mundial, é como uma nuvem gigantesca pairando sobre nós, pronta para desencadear uma tempestade a qualquer momento. Tudo o que o capitalismo consegue fazer é causar estragos na sociedade e no mundo, enquanto se agarra desesperadamente à sobrevivência. É precisamente esse desespero que está a impulsionar tudo na direcção de uma guerra mundial inimaginável de proporções gigantescas.
Quem pode deter a ameaça do fascismo?
Existem muitas definições de fascismo. A nossa definição baseia-se na teoria marxista revolucionária acerca das crises capitalistas, da luta de classes e da experiência histórica. Quer se descreva a natureza do perigo como fascismo, ditadura autoritária ou estado policial, este perigo não se resume a um presidente racista, sedento de poder, instável e errático. O perigo emana do desespero de uma ampla parcela da classe capitalista bilionária dos EUA em salvar o império através de uma expansão imperialista descarada, ameaças, intimidação e guerra.
Esmagar a resistência da classe trabalhadora, aqui, também é uma parte crucial do plano. Por causa da incapacidade de organizar multidões fascistas armadas, o ICE [serviço de imigração e controlo de fronteiras dos EUA] foi transformado numa turba fascista extrajudicial, armada, com poderes concedidos e paga pelo Governo. A questão é: quem pode deter essa ameaça? É possível que a escalada das crises políticas e económicas provoque uma deserção tão grande nas fileiras de apoio a Trump na classe dominante que o seu poder seja corroído. Mesmo assim, confiar no Partido Democrata e na oposição burguesa para deter Trump é um erro.
O perigo do fascismo não vem de Trump; é produto da crise do imperialismo norte-americano e do sistema capitalista. O Partido Democrata não pode e não vai impedir isso. Não só a longo prazo, mas agora, apenas a organização e a mobilização da classe trabalhadora podem deter o fascismo.
Declínio do imperialismo
Em comparação, há trinta e cinco anos, o imperialismo dos EUA era muito mais forte economicamente e capaz de dominar o mundo por meio de coerção, guerra económica, golpes de estado, ameaças e intervenções militares. Essa capacidade foi um factor determinante no colapso da União Soviética. Hoje, a China, com todas as suas contradições, não apenas conseguiu bloquear o objectivo do imperialismo norte-americano e mundial de fomentar a contra-revolução e tornar a China subserviente à ordem imperialista liderada pelos EUA, como também desenvolveu as suas forças produtivas a tal ponto que rivaliza, e até mesmo supera, a força económica dos EUA. Juntamente com essa conquista espantosa, a força da China e os seus programas económicos ao redor do mundo têm limitado cada vez mais a ambição do imperialismo norte-americano de manter a sua hegemonia.
Isso fortaleceu o Sul Global e privou o imperialismo norte-americano da sua antiga capacidade (assim como a de outras grandes potências imperialistas) de fazer vergar e destruir países para atender aos seus interesses. É claro que a Venezuela serve como um lembrete de que o imperialismo norte-americano ainda é movido pela ideia de fazer isso mesmo.
A Rússia desempenhou um papel importante nas mudanças globais. Embora seja uma potência capitalista regional, devido à sua força militar e à sua determinação em não se deixar subjugar pelo domínio imperialista dos EUA e da Europa, ocupa uma posição única e de destaque no novo cenário mundial. Para se proteger do isolamento, a Rússia forjou uma aliança com a China e o Sul Global.
A aliança que está no centro do que frequentemente se denomina o novo “mundo multipolar” não é ideológica. Essa aliança de países não se baseia na luta de classes ou numa comum dedicação ao socialismo. Há nela países capitalistas que se posicionam tanto no campo anti-imperialista como no campo pró-imperialista. Os alicerces da aliança são a força da China e o desejo do Sul Global de se libertar da tirania do imperialismo norte-americano.
Na vanguarda militante dessa aliança estão os movimentos de libertação do povo palestino e os movimentos de libertação em todo o Sul Global, incluindo África, Ásia, América Latina e Caraíbas. Hoje, esses movimentos de libertação são vistos de forma mais consciente não como exteriores aos EUA, mas como estando dentro do país, como parte da luta da classe trabalhadora interna. Mais claramente, o carácter da luta contra a hegemonia imperialista dos EUA é o de uma rebelião mundial para esmagar o colonialismo e o neocolonialismo de uma vez por todas.
Estas profundas transformações deram origem a um mundo completamente diferente. Um mundo que, de forma contraditória e desigual, está muito mais próximo do caminho para a revolução socialista do que em qualquer outro momento da história. É importante considerar essa nova conjuntura mundial como o pano de fundo para analisar todos os demais acontecimentos.
O imperialismo catalisa a luta revolucionária e, ao mesmo tempo, o imperialismo, particularmente o imperialismo norte-americano, torna-se uma barreira às aspirações dos povos do mundo que lutam pela libertação. Enfraquecer ou remover essa barreira desencadeia novas conquistas e desenvolvimentos revolucionários.
Os acontecimentos mundiais estão a criar precisamente essas condições para a libertação. Esse é o potencial da nova situação mundial em curso. A nossa tarefa é determinar como podemos contribuir para esse processo a partir da nossa posição na luta de classes mundial, aqui, no ventre da besta.
Forjar o internacionalismo da classe trabalhadora. A necessidade de uma frente unida
A conjuntura mundial exige que as forças revolucionárias assumam, como sua principal tarefa, a abertura de uma luta renovada e determinada dentro dos EUA para derrotar o imperialismo, em conjunto com outras forças ao redor do mundo. Isso exigirá uma nova frente unida, imersa na luta de classes. De preferência, a visão dessa frente unida não se limitará à luta interna, mas abrangerá a interconexão da luta de classes em todos os lugares.
Além disso, uma frente unida deve compreender que derrotar o imperialismo dos EUA é um pré-requisito para o sucesso da próxima fase da revolução mundial. A estratégia de uma nova frente unida deve ser guiada pela necessidade de alcançar sectores mais amplos da classe trabalhadora com a mensagem de que derrotar o imperialismo é do seu interesse, quer de longo prazo, quer de curto prazo.
Forjar uma frente unida como essa não é apenas uma questão de ampla autodefesa de classe; é a única maneira de cumprir a tarefa que a história impôs à classe trabalhadora neste momento sem precedentes. Essa tarefa é a derrota do imperialismo, o fim do capitalismo e o esforço para sermos uma força decisiva na criação das condições para a revolução socialista. É claro que devem existir diferentes formas de unidade, incluindo a unidade com o propósito de alcançar um dado objectivo ou um conjunto de objectivos. Mas não há substituto para a unidade essencial em torno dos objectivos revolucionários mais avançados. A unidade mais ampla é essencial para a nossa tarefa.
Os problemas do movimento operário podem ser superados?
Não há que evitar as perguntas: como pode a actual conjuntura mundial favorecer uma ruptura com o imperialismo e o capitalismo e criar aberturas para o socialismo quando a classe trabalhadora e as forças revolucionárias, especialmente no centro do imperialismo mundial, estão tão fragilizadas? Quando estará a disposição da classe trabalhadora à altura da magnitude das condições objectivas criadas por um sistema em declínio?
Não vivemos em negação. Somos optimistas revolucionários que compreendem que nenhuma situação é estática. A classe trabalhadora e as forças avançadas necessárias para apontar orientação superarão todos os obstáculos e estarão à altura do desafio.
Seria necessário passar em revista, sobre um longo período de tempo, tanto a teoria revolucionária como os acontecimentos para compreender as razões que impediram a classe trabalhadora de desenvolver o seu potencial revolucionário. Os grandes líderes revolucionários da classe trabalhadora e dos movimentos de libertação do passado já não estão entre nós para nos ajudar a responder a essas questões. Contudo, eles legaram-nos um tesouro de teoria revolucionária e científica para nos guiar.
Os revolucionários, tanto dentro das fileiras da nossa organização, como nas de outras organizações e movimentos em todas as partes do mundo, devem e podem realizar este trabalho teórico — não à parte da luta viva, mas nela integrados. Acreditamos e reafirmamos a centralidade da classe trabalhadora, da análise de classe e da luta de classes para o projecto revolucionário. Acreditamos que, especialmente agora, se a centralidade da classe não guiar a nossa actuação — ou não for priorizada na formulação de estratégias, reivindicações e rumos — todos os nossos esforços estarão em decisiva desvantagem.
Precisamos de mais discussão sobre os caminhos que levaram a classe trabalhadora, em praticamente todos os aspectos, a ser vastamente diferente hoje do que era há uma geração. Compreender isso é fundamental para entendermos como organizar nossa classe.
A luta para acabar com o capitalismo tornar-se-á uma luta de massas
A luta para acabar com o capitalismo deve deixar de ser secundária e passar a ser prioridade. Isso de forma alguma compete com as lutas imediatas ou as diminui; pelo contrário, enriquece-as e fortalece-as, sejam elas locais, nacionais ou internacionais.
As pessoas precisam de comer, ter casa, receber cuidados de saúde e tudo o mais na luta pela sobrevivência, incluindo desfrutar de liberdade face à repressão e à opressão, e essa realidade moldará as lutas de hoje. Mas, mais do que nunca, as pessoas percebem que não há futuro sob o capitalismo.
Os revolucionários experientes sabem que não podem ser eficazes se estiverem muito à frente da classe trabalhadora. Mas também existe a possibilidade de ficarem muito atrás do povo. A nossa tarefa é estar cientes dessa contradição e agir em conformidade.
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Larry Holmes é Primeiro Secretário do Workers World Party (EUA)
A greve dos trabalhadores do sector automóvel dos EUA, a que a foto faz referência, visou pela primeira vez os Três Grandes em simultâneo (General Motors, Ford e Stellantis). Durou seis semanas de setembro a outubro de 2023. Conseguiu vencer, obtendo mais de 25% de aumentos salariais e outros benefícios para mais de 50 mil trabalhadores. As perdas dos fabricantes, fornecedores e comerciantes cifraram-se em milhares de milhões de dólares.