Uma greve operária reivindicativa, política e internacional
Editor / The Cradle — 11 Fevereiro 2026

Enquanto a Europa oficial se debate entre a obediência às imposições vindas do outro lado do Atlântico, as tentativas frustres de “autonomia estratégica” e as dissidências nacionalistas (algumas de extrema-direita) por parte dos poderes instalados, uma inesperada greve operária dos portuários do Mediterrâneo veio refrescar o ambiente político.
Em mais de vinte portos das duas margens deste mar que – pelo prisma de quem trabalha – une o sul da Europa ao norte de África, a greve congregou num mesmo acto a solidariedade prática com a Palestina, as reivindicações próprias das classes trabalhadoras, a condenação das políticas de direita e um internacionalismo que parecia morto.
Prometeram os grevistas que esta mobilização é apenas o começo: “Hoje são os portos, amanhã será todo o sector logístico”. Veremos se o gesto é efémero ou se vai ter novos capítulos. Seja como for, o sinal fica dado.
ESTIVADORES DO MEDITERRÂNEO BLOQUEIAM MAIS DE 20 PORTOS EM SOLIDARIEDADE COM A PALESTINA
Estivadores em todo o Mediterrâneo realizaram uma greve massiva e coordenada a 6 de fevereiro, paralisando a actividade de mais de 20 portos para protestar contra o genocídio dos palestinianos em Gaza às mãos de Israel e contra a privatização e militarização das infraestruturas portuárias.
Os sindicatos organizadores descreveram a acção como consequência da solidariedade de longa data dos estivadores com a Palestina, mas também da sua própria luta por condições de trabalho dignas nos seus países.
Antes da greve, navios que transportavam regularmente carga militar para Israel mudaram as suas rotas.
Os protestos começaram nos portos da Grécia, Turquia e País Basco. O sindicato Liman-İş [sindicato turco do sector portuário e marítimo] reuniu centenas dos seus membros para transmitir uma mensagem “contra o genocídio e em solidariedade com a Palestina”.
Na Grécia, os estivadores têm apontado a contradição entre investimentos europeus substanciais em rearmamento e as medidas de austeridade que prejudicam as suas condições de segurança ao afectar os serviços públicos.
“Não aceitaremos trabalhar com desrespeito pelos nossos direitos”, disse Damianos Voudagoris, do sindicato grego ENEDEP. “A noção de progresso deve significar voltar para casa vivo. Os portos são locais de trabalho, não locais de guerra. Lugares de trabalho, não de derramamento de sangue.”
A Itália assistiu a algumas das maiores mobilizações do dia, com greves coordenadas em mais de uma dúzia de portos, envolvendo estivadores, agentes portuários, estudantes e outros manifestantes.
A Unione Sindacale di Base (USB) fez o ponto da situação em todos os portos em greve, onde os manifestantes agitavam bandeiras palestinianas e cubanas.
Os representantes da USB afirmaram que o movimento sindical europeu deveria adotar uma postura internacionalista para se opor ao programa da União Europeia e dos governos de direita, nomeadamente o da primeira-ministra Giorgia Meloni.
Em Trieste, os estivadores alertaram contra a privatização, enquanto em Bari e Ravena manifestantes disseram que a infraestrutura portuária está a ser utilizada, “por vezes de forma indireta”, para transportar equipamento militar e de dupla utilização para Israel.
Em Génova, membros do coletivo CALP [Collettivo Autonomo Lavoratori Portuali] realizaram uma das maiores acções da jornada de luta, declarando:
“Prometemos bloquear tudo, e bloqueámos tudo. Prometemos uma greve geral e fizemos greve. Anunciámos uma greve internacional, e cá estamos.”
Os grevistas asseguraram que esta mobilização está apenas no seu início:
“Hoje são os portos, amanhã será todo o sector logístico, depois todos os sectores de actividade.”
A Federação Mundial dos Sindicatos (WFTU) aprovou esta mobilização emitindo uma declaração de solidariedade e fazendo sua a consigna “Os estivadores não trabalham para a guerra”. (*)
Esta greve massiva surge um dia depois de a Flotilha Global Sumud ter anunciado uma nova missão de ajuda humanitária para Gaza, que está prevista partir a 29 de março. Os organizadores revelaram um novo périplo marítimo que começará em Barcelona e passará por vários portos do Mediterrâneo, paralelamente a comboios terrestres até ao posto de controlo de Rafah.
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(*) Mensagem de solidariedade da Federação Mundial dos Sindicatos com o Dia Internacional de Acção dos Portos
30 Jan 2026
A Federação Mundial dos Sindicatos, a voz militante de mais de 105 milhões de trabalhadores que vivem, trabalham e lutam em 134 países em 5 continentes, estende a sua solidariedade aos sindicatos dos estivadores que estão a organizar um Dia Internacional de Acção dos Portos a 6 de fevereiro de 2026, sob o lema “Os estivadores não trabalham para a guerra”.
A economia de guerra e as intervenções militares devastam países e os seus povos, colocando a paz global em risco enquanto corroem salários, direitos e protecções de saúde e segurança, e agravam as condições de trabalho. Por isso, o Dia Internacional de Acção opõe-se a qualquer cumplicidade dos trabalhadores portuários no transporte de armas e materiais de guerra, e expressa forte oposição às consequências da economia de guerra.
A FMS apoia a justa luta dos sindicatos dos estivadores para:
- Um fim imediato do genocídio do povo palestiniano por Israel, com o apoio aberto dos aliados de Israel, os EUA, a NATO e a UE.
- Bloquear todos os envios de armas dos seus portos para o genocídio na Palestina, bem como para quaisquer outras zonas de guerra, e exigindo um embargo comercial a Israel por parte dos governos locais e instituições.
- O estabelecimento de um corredor estável de ajuda humanitária.
- A rejeição da iniciativa de Rearmamento da UE e o fim imediato dos planos da UE e dos governos europeus para militarizar portos e infraestruturas estratégicas.
- Garantir que os portos europeus e mediterrânicos permaneçam locais de paz, livres de qualquer envolvimento em guerra.