Fórum de Davos, um espelho da crise do imperialismo

Manuel Raposo — 24 Janeiro 2026

A força para uma mudança global está noutro lado: nos países que compõem a periferia e a semiperiferia do capitalismo mundial

A intervenção do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi o acontecimento mais marcante do fórum de Davos deste ano. Embora atirado para plano secundário, como seria de esperar, pelo teatro montado por Donald Trump – que a imprensa e os comentadores seguem como galinhas hipnotizadas por um círculo de giz – o discurso de Carney traçou um retrato cru da realidade internacional de hoje. Não estamos em transição para nada de novo, disse ele, estamos a assistir a “uma ruptura” daquilo que foi chamado até agora a “ordem mundial baseada em regras”. Por outras palavras, a ordem imposta pelo poder dos EUA.

Por vezes, há declarações, vindas de gente insuspeita, que permitem tirar o véu de sobre acontecimentos que tardam em ser compreendidos ou aceites pela generalidade das pessoas comuns. Ou que permitem confirmar o que outros diziam sem sucesso.

Por exemplo, as afirmações de Angela Merkel, ex-chanceler alemã, e de François Hollande, ex-presidente francês, confessando que os acordos de Minsk foram, da parte dos europeus, um mero expediente para ganhar tempo de forma a armar a Ucrânia para a guerra contra a Rússia – revelam toda a premeditação do Ocidente no desencadear do conflito. O mesmo com as declarações de Trump sobre o interesse primordial dos EUA no petróleo venezuelano – desmentindo os argumentos acerca dos cartéis de droga que serviram de cortina de fumo para atacar a Venezuela e raptar Nicolás Maduro. O mesmo ainda com as afirmações repugnantes dos dirigentes israelitas sobre os palestinos e árabes – mostrando a natureza colonialista e genocidária do estado de Israel e a baixeza da sua camarilha dirigente.

As palavras de Mark Carney têm virtudes semelhantes, mas com um alcance maior: dão como findo (e perverso) o poder hegemónico dos EUA e sugerem um novo arranjo nos equilíbrios mundiais.

O fim da “ordem”

A chamada “ordem mundial baseada em regras”, que Carney considera terminada, sempre foi, na verdade, uma expressão vazia de conteúdo que cobria o arbítrio dos EUA e lhes permitia agir como quisessem, contra quem quisessem – ora invocando razões “humanitárias”, ora brandindo a gesta “anti-terrorista”, ora argumentando com a defesa da sua “segurança nacional”. Etc. Nunca essas “regras” foram objecto de qualquer definição positiva. Mais, com tal bandeira, os EUA acharam-se sempre na posição incólume de violar as regras do direito internacional – essas, sim, inscritas na Carta das Nações Unidas – logo que os seus interesses de potência assim o exigiam. Foi a força e não qualquer direito ou regra que sempre moveu o imperialismo norte-americano.

Ora, e este é o ponto, os EUA puderam e podem proceder assim, impunemente, durante décadas, porque dispuseram e dispõem de uma corte de cúmplices que viveram e vivem à sua sombra protectora. A UE e os restantes amigos europeus, o Japão, os parceiros da NATO, os membros do G7, as alianças diversas de toda a natureza forjadas pelo mundo, as organizações mundiais como o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, foram e são instrumentos do seu domínio e albergue dos seus apaniguados. Por isso, a voz agora desencantada de um país-cúmplice dá mais valor às palavras vindas da boca do seu primeiro-ministro.

Quando as regras já não protegem

Confessa Carney que “Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob o que chamávamos uma ordem internacional baseada em regras… beneficiámos da sua previsibilidade… levávamos a cabo políticas externas sob sua protecção”. Embora, acrescenta ele, soubéssemos “que a história dessa ordem era parcialmente falsa”, porque os mais fortes prevaleciam sobre os mais fracos, ainda assim “participámos nos rituais e evitámos denunciar as diferenças entre a retórica e a realidade”. A hegemonia americana “era útil”.

Adianta Carney que “Este pacto já não funciona… estamos no curso de uma ruptura, não de uma transição”. Em consequência, Carney sente-se agora impelido a denunciar a integração económica globalista, as tarifas, o poderio financeiro, as cadeias de abastecimento como armas de coerção sobre os países mais fracos – referências que assentam como uma luva na política dos EUA. Conclusão: “Quando as regras já não nos protegem, temos de nos proteger a nós próprios”.

A obediência já não compensa

Não é difícil ver nas palavras do primeiro-ministro canadiano o choque de quem desperta de um sonho bom para uma realidade terrível. As ameaças do actual governo norte-americano contra o Canadá, querendo-o como o 51.º estado da União, as ambições sobre a Gronelândia com desprezo dos aliados europeus (prenunciando outras possíveis conquistas), o terrorismo de grande potência usado contra a Venezuela, o empenho em fazer de todo o continente americano uma colónia – tudo isto junto traça um retrato completo do que é uma potência acossada pela sua própria decadência, deitando mão ao recurso mais seguro de que dispõe: a força bruta, dispensando os trejeitos da diplomacia.

O Canadá, como muitos outros parceiros dos EUA, percebe que é “a própria arquitectura das instituições internacionais que está sob ameaça”, porque elas já não servem os interesses dos EUA, tornando-se um colete de forças. Como muitos outros, o Canadá também julgou durante muito tempo que “a geografia e as alianças davam automaticamente prosperidade e segurança”, mas, agora, “isso já não é válido”. Já não há lugar para “a esperança de que a obediência traz segurança”.

Impõe-se por isso, disse o Canadá em Davos, “uma mudança fundamental de postura estratégica” num mundo marcado pela rivalidade das grandes potências. É um alerta para o facto de o “aliado” de ontem, os EUA, já não esconder o propósito de rebaixar os subordinados à condição de vassalos.

Bom diagnóstico. E a terapia?

É aqui que bate o ponto. As propostas de Mark Carney – aliás de forma explícita e franca – trazem a marca de uma potência de segunda linha que, ciente das suas capacidades limitadas num mar agitado pelos grandes, procura alinhar políticas com outras potências de segunda linha – mas não com os verdadeiros deserdados da terra.

Carney deu exemplo da mudança que o seu governo opera rumando recentemente à China e ao Catar onde concluiu “parcerias estratégicas”. Procura o mesmo com a Índia, a ASEAN e o Mercosul buscando sem dúvida contrabalançar a dependência face aos EUA. Num claro apelo a que os europeus ensaiem também uma mudança de “postura estratégica”, oferece-se como medianeiro entre a Parceria Trans-Pacífico e a UE.

Para exemplificar como as potências intermédias têm as suas capacidades e as devem incrementar, Carney apresenta os créditos do Canadá: as reservas de energia e de minerais críticos do país, a sua massa cinzenta, a sua capacidade financeira e de investimento. E define os campos da política internacional em que, conjuntamente, devem empenhar-se: reforço do G7, segurança no Ártico, compromisso com a NATO e o seu artigo 5.º, investimento em mais capacidades militares próprias (incluindo botas no terreno), apoio à Ucrânia para prolongar a guerra no âmbito da “Coligação de Vontades”.

O sonho renovado dos não-alinhados

O Canadá sugere com isto uma espécie de terceira via que tente responder ao esmagamento das potências capitalistas secundárias provocado pelo afrontamento entre os dois ou três grandes do mundo de hoje: o imperialismo em queda dos EUA, de um lado, e o bloco China-Rússia, seguido pelos BRICS e o chamado Sul Global, do outro lado.

A dúvida que se coloca é se tal manobra poderá mesmo ter sucesso, uma vez que implicaria, para ser consequente, um caminho próprio das potências de segunda linha face à via seguida pelos EUA. Na verdade, as economias do Ocidente capitalista são estreitamente interdependentes, fruto do facto de terem sido estruturadas desde há oitenta anos como economias complementares do imperialismo contemporâneo, subordinadas ao imperialismo-mãe dos EUA. Dito isto para a economia, diz-se também para os laços políticos, culturais, militares, etc. que as ligam.

A força maior da mudança global que hoje é possível encarar está noutro lado: está nos países que compõem a periferia e a semiperiferia do capitalismo mundial – o chamado terceiro mundo, ou Sul Global. São esses que têm tudo a ganhar e nada a perder com o afundamento, não apenas dos EUA, mas de toda a tríade imperialista, que corre os seus termos.

De qualquer modo, a desassombrada realidade que Mark Carney trouxe ao fórum, por excelência, do capitalismo imperialista mundial, tem o condão de revelar mais um rasgão na teia tecida pelos EUA, no centro da qual se senta hoje Donald Trump.


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