Venezuela: afinal, o que inquieta a Europa?

Manuel Raposo — 7 Janeiro 2026

Milhares de manifestantes em Caracas pela libertação de Nicolás Maduro e Cilia Flores. 6 de janeiro

Nas declarações feitas logo após o ataque militar a Caracas e o rapto do presidente Nicolás Maduro (que o eufemismo servil de jornalistas, políticos e comentadores designavam por “extração”), Donald Trump definiu perfeitamente o que faz correr os EUA.  Disse ele que finalmente “o nosso” petróleo estava à disposição das empresas norte-americanas, lançando ao lixo, de uma assentada, as acusações de narcotráfico e terrorismo que serviram de cortina para o assalto, e que, nas semanas antecedentes, justificaram o assassinato a frio de mais de cem pessoas no mar das Caraíbas.

Disse ele na mesma tirada que Corina Machado – laureada com o Nobel da Paz e dada como a cabeça de uma mudança de regime por um batalhão de idiotas úteis – não faria parte de nenhum novo regime pela razão simples de que não tem apoio popular nem competência para governar o país. Desfez-se assim, em segundos, a elaboração de meses e meses assente na ideia de que a oposição venezuelana teria ganho por margem esmagadora (alguns entusiastas falavam em 90%-10%!) as últimas eleições presidenciais, em julho de 2024, que Maduro reivindicou para si.

“Democratização”, só mais tarde…

Espantoso! Se, de facto, a vitória nas eleições tivesse sido tão esmagadora como andaram, e ainda andam, mecanicamente a dizer os apaniguados de Washington, e se o divórcio entre o regime e o povo fosse assim tão clamoroso, não deveria haver dúvidas sobre a capacidade da oposição governar o país com largo apoio popular.

Para completar este original processo de “democratização” da Venezuela, Trump vincou que não vai promover nenhumas eleições proximamente porque, antes disso, o país precisa de “lei e ordem” – que, na linguagem de um gangster ou de um pistoleiro, significa tentar liquidar as milícias populares, as organizações de base e as instituições do regime, e partir as forças armadas chavistas. Só então, estariam criadas as condições para a vitória eleitoral de uma oposição “à maneira”.

O que aponta mais uma vez para a ideia de que a viciação das anteriores eleições não será coisa fácil de comprovar, a não ser pela voz dos tais idiotas úteis. É de crer, pois, que, apesar das evidentes fraquezas do regime e do próprio Maduro, consideráveis sectores populares vejam a situação existente, ainda assim, como um mal menor diante das figuras de oposição que lhes são apresentadas, clara e abertamente ligadas aos interesses colonizadores dos EUA, de tão evidentes e explícitos que são.

Aliados descartáveis

Tal como Juan Guaidó foi usado e descartado, tal como o desgraçado Edmundo González foi completamente ignorado nesta tramoia (apesar de ter sido ele o candidato tido por vencedor!), também Corina Machado foi posta de lado com toda a frieza. Corina, que apelou ao assalto por todos os meios e o aplaudiu entusiasticamente, julgando que assim obtinha as boas graças dos seus patronos de Washington e Miami, foi tratada pela quadrilha de Trump como os traidores lusitanos que (conta a lenda) assassinaram Viriato por incitação de Roma. Quando reclamaram a sua paga, foram esquartejados em praça pública porque “Roma não paga a traidores”.

O mesmo destino (metaforicamente, claro) se desenha para os fiéis que por esta Europa fora ainda bajulam “a América” – desde as sumidades que falam a partir de Bruxelas, de Paris ou de Berlim, até ao mais pusilânime ministro de Negócios Estrangeiros à beira-mar plantado. Mostram-se incomodados com a violação do direito internacional, mas vão dizendo que sempre há um ditador a menos. Assusta-os a falta de limites que a trupe de Washington exibe, mas baixam a voz para não atrair sobre si as fúrias do demónio. Apontam a grosseria de Trump, mas acham que certos fins justificam aos meios (sic).

Fazem por esquecer que o direito internacional (seja lá isso o que for num mundo movido pela força, pelo roubo e pelo lucro) foi espezinhado no Iraque, na Jugoslávia, no Afeganistão, no Panamá, em Granada, na Líbia, no Irão e em centenas de golpes praticados pelo imperialismo norte-americano. Em todos estes casos, tudo esteve bem para os dirigentes europeus porque se achavam do lado certo e o seu contributo era apreciado do outro lado do Atlântico.

Desculparam até o acto terrorista do amigo Biden contra o Nordsteam, que os privou de gás barato e os afundou numa crise económica sem fim, por acharem o preço, mesmo assim, em conta.

O que inquieta os dirigentes europeus

O que agora os assusta é o facto de serem também eles os alvos de um imperialismo de ambições desbragadas e declaradamente ofensivas – desesperado, de tão decadente que se sente.

Talvez comecem a assombrar-se, por enquanto só em sonhos, com o destino de Saddam Hussein, de Muammar Gaddafi, do general Suleimani ou de Milosevic. Talvez comecem a pensar que o muro entre “o jardim” e “a selva”, que o senhor Josep Borrell achava intransponível, esteja afinal em vias de ruína.

Porque não tem a Europa, pergunta-se por vezes, um assomo de coragem e de rebeldia contra os ditames norte-americanos? Porque não pode. Porque está na sua natureza de potência subalterna permanecer na dependência da potência-mãe. Soltar-se seria perder-se como potência. A Europa tem vindo a ser avassalada, em grande parte, por vontade própria, na medida em que os laços históricos, económicos, políticos que ligam o capital europeu ao capital norte-americano fazem dela uma peça inseparável do imperialismo actual, forjado em oitenta anos de hegemonia norte-americana.

A Gronelândia vai constituir mais um teste da determinação da Europa e da UE. Uma aposta: por mais tom indignado que ponham na voz, por mais que invoquem direitos internacionais, por mais alertas que lancem sobre riscos de divisão na NATO – nem a Dinamarca, nem a UE, nem o resto da Europa vão queimar os dedos numa querela séria com Washington. Veremos.

Um alerta para a esquerda

Os propósitos e os métodos imperialistas dos EUA não são novos nem desconhecidos. São apenas, a partir de agora, abertamente brutais e avessos a compromissos. A via da barbárie, não sendo inédita, ganha contornos mais violentos e indisfarçáveis.

Isto constitui também um sinal de alerta para a esquerda, europeia e mundial. E um apelo à clarificação política.

A UE só merece ser tratada como uma organização do capital imperialista, contrária em absoluto aos interesses dos povos e das classes trabalhadoras – e, por isso, insusceptível de qualquer reforma ou democratização.

O bloco imperialista liderado pelos EUA – de que a UE é uma peça – revela-se, de modo cada vez mais evidente, como o principal obstáculo à independência e à liberdade dos povos e à emancipação das classes trabalhadoras de todo o mundo, e como tal deve ser combatido.

As fantasias sobre o perigo russo ou chinês (que, entre nós, por exemplo, o BE e o Livre gostam de cultivar, dando ar de sensatos) desembocam inevitavelmente numa política cúmplice – digamos, cúmplice de segunda linha – para com as agressões do imperialismo, na forma de um equilibrismo salomónico (“por um lado assim, por outro lado assado”) que coloca a esquerda entre duas cadeiras e a impede de levar a cabo uma política independente, de unidade anti-imperialista.

A tarefa que hoje se coloca à esquerda é contribuir para abater este imperialismo realmente existente: o que, nos últimos oitenta anos, ganhou corpo no capitalismo monopolista dos EUA e aliados. As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, o genocídio na Palestina, as novas ameaças ao Irão ou o ataque à Venezuela – acções todas elas preparadas, municiadas ou executadas pelos EUA, com conivências diversas desses aliados – são provas gritantes de que o banditismo imperialista não tem barreiras morais, legais, institucionais ou humanitárias. Apenas a consciência e a força dos trabalhadores e dos povos o pode deter, apesar do desgaste e da desvalorização que a frase tem sofrido.


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