A Base das Lajes deve deixar de ser plataforma militar dos EUA

Pedro Goulart - Quarta-feira, 27 Fevereiro, 2008

lajescimeira.jpgNos últimos anos o nome da base açoriana das Lajes correu mundo, não por boas razões. As notícias circularam fundamentalmente por causa das actividades criminosas aí desenvolvidas pelos EUA. O encontro, em 2003, de Bush, Blair e Aznar (com Durão Barroso como anfitrião), que levou ao desencadeamento da guerra de agressão imperialista no Iraque; e a passagem de aviões da CIA transportando ilegalmente centenas de presos para Guantânamo, vindos da tortura e a caminho da tortura.

Mesmo diante dos dados recentemente acrescentados pela organização não governamental britânica Reprieve, o governo – apoiado no seu próprio partido, no PSD e no CDS – recusou qualquer investigação sobre os voos da CIA em território português. Desprezando o caso, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Santos Silva, permitiu-se mesmo, com cinismo, considerar as propostas de inquérito, apoiadas pelo PCP, BE e Verdes, como “inoportunas e inúteis”.

Esta disposição concertada dos partidos do capital em abafarem o assunto confirma a subserviência das classes dominantes portuguesas diante da política dos EUA e a decorrente cumplicidade com os crimes praticados pelo imperialismo norte-americano. Na verdade, apesar de se saber que os EUA querem as bases obviamente para fins agressivos, nunca os governos de Lisboa, nestes como noutros casos, puseram em causa a presença e a actividade da potência imperialista nos Açores.

Com todo este historial de facilidades, não admira que os EUA tenham proposto recentemente alargar o território da base das Lajes, pretendendo uma área suplementar de quase 300 km2, a fim de aí instalar um campo de treino para caças F22 e F35 e para um sistema de mísseis. O embaixador dos EUA, em entrevista ao Expresso, propôs que os governos português e norte-americano “trabalhassem em conjunto relativamente a novos programas para a Base das Lajes”, acrescentando que daí “podem resultar benefícios mútuos”. Acena, em linguagem de negreiro, com mais uns dólares de renda para comprar o acordo das autoridades regionais e nacionais e calar a boca à população.

É claro que neste assunto não estão em causa os dólares, mas o princípio de não prestar qualquer tipo de apoio a políticas criminosas. Alheio ao facto, porém, o ex-líder Mota Amaral, ao interpelar o governo sobre a proposta norte-americana, não se mostrou particularmente preocupado com as actividades criminosas dos EUA, mas sim interessado na possibilidade de explorar o tema partidariamente, na luta local do PSD contra o PS, se as contrapartidas não forem suficientemente significativas.

O governo confirmou e negou ao mesmo tempo as negociações com os EUA, numa já habitual táctica de ambiguidade de José Sócrates destinada a colocar os portugueses perante factos consumados. Contra os acordos que certamente decorrem nos bastidores, é mais do que tempo de dizermos que não consentimos que em Portugal, e em nosso nome, continuem a ser prestados serviços cúmplices à política guerreira norte-americana – e que portanto a base das Lajes deve deixar de ser plataforma militar dos EUA.






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