Juntas médicas e classes sociais

M. Gouveia - Domingo, 27 Janeiro, 2008

teixeirapinto_72dpi.jpgAna Maria Brandão, funcionária da Junta de Freguesia de Vitorino de Piães, em Ponte de Lima, portadora de cervicalgia e lombalgia degenerativas e após três anos de baixa, foi obrigada, pela Caixa Geral de Aposentações (CGA), a regressar ao trabalho em Novembro de 2007. Cumpriu o horário laboral sentada numa cadeira, encostada a uma parede e ajudada pelo pai. Quando as televisões falaram do assunto, o ministro das Finanças anunciou que ela iria entrar novamente de baixa médica até que a CGA fizesse a reapreciação do caso. Reavaliada por nova Junta Médica, a CGA indeferiu o seu pedido de reforma antecipada porque não se encontrava “absoluta e permanentemente incapaz” para o trabalho.

Em Dezembro, a Junta de Freguesia deixou de lhe pagar o vencimento mensal de 400 euros, alegadamente por “indicação oral” da ADSE. “Andamos, há mais de três anos, a pagar o vencimento à funcionária e as despesas com deslocações aos médicos sem beneficiar dos seus serviços. Perante as mudanças na lei, não sabemos o que havemos de fazer e, pelo sim pelo não, decidimos suspender o pagamento. Esperamos que a ADSE nos diga, por escrito, se estamos a actuar dentro da legalidade ou não”.

Paulo Teixeira Pinto, ex-administrador do BCP, 46 anos, passou à reforma com 35.000 euros mensais (vezes 14 meses por ano), em função de relatório de junta médica que o considerou inapto para o trabalho. Pela rescisão do contrato recebeu a remuneração total referente ao exercício de 2007: 9,732 milhões de euros em “compensações” e “remunerações variáveis”. E já arranjou um cargo numa consultora financeira.

Dentro dos democráticos princípios que o governo preconiza para “uma sociedade moderna e competitiva, em que tem de existir solidariedade entre o sector público e o privado” e estando a ajudar o BCP a pôr a casa em ordem, parece-me que:

Devia aconselhar a nova administração do BCP a contratar as mesmas Juntas Médicas que avaliam os funcionários públicos porque – dando sinais de serem muito mais rigorosas que a Junta Médica contratada pelo BCP – defenderiam muito melhor os seus interesses.

O Presidente da Junta de Freguesia devia aconselhar a nova administração do BCP a “perante as mudanças, pelo sim pelo não, decidir suspender os pagamentos a Paulo Teixeira Pinto, esperando que o Banco de Portugal diga, por escrito, se estão a actuar dentro da legalidade ou não”.

E, já agora, seria conveniente avisar a consultora financeira que contratou Paulo Teixeira Pinto de que se está a arriscar a “andar, mais de três anos, a pagar o vencimento e as despesas com deslocações aos médicos sem beneficiar dos seus serviços”.

E as Ana Marias deviam aconselhar-se com os Paulos Teixeiras Pintos.

Ou nada disto faz sentido – e, então, com tantas juntas, será já tempo de nos juntarmos para dar volta a isto.






3 Comentários a “Juntas médicas e classes sociais”

  1. Rui Martins disse:

    Eu já dei a volta, imigrei. Aconselho a todos os portugueses a fazerem o mesmo. É triste, mas é assim a vida em Portugal. A proposito, eu imigrei para a Holanda onde a minha mulher devido a um acidente de trabalho recebe 25€ diários de baixa e a minha irmã em Portugal que infelizmente está no desemprego, recebe 10€ de subsidio diários. De realçar que a minha esposa teve o dito acidente ao fim de 2 semanas de trabalho e a minha irmã ficou desempregado ao fim de um ano.

  2. Laura B. Martins disse:

    Não sei qual o motivo de tanta admiração!
    Eu já não me admiro com coisa alguma que venha deste governo e ainda sou uma criança de 64 anos, ora!
    Caros senhores, devemos é repassar tudo que nos chega às mãos porque a pouca vergonha já ultrapassou todos os limites, neste país!
    Os tremendos caras de pau que dizem que nos governam… governam-se muito bem!?!?!?
    Vamos tratar da política porque senão a política tratará de nós.

  3. dorinda Pereira disse:

    É de facto é uma vergonha que quem trabalhe honestamente não tenha regalias nenhumas e quem é vigarista neste país tenha direito a tudo. Eu estou de baixa há 6 meses à espera de uma operação à coluna. Quase não ando, fui para o médico particular fiz exames caríssimos à minha conta, pensando que não tinha nada de grave. Qual não é o meu espanto que me dizem que tenho que ser operada e levar uma prótese numa vértebra e ser operada. Como não tenho seguro de saúde, estou à espera no serviço público onde me dizem que estou numa lista de espera de 9 meses. E ainda por cima fui à segurança social do Barreiro pedir ajuda para os exames onde me disseram que, se estivesse a receber o rendimento mínimo, tinha alguns direitos, mas como estou de baixa e o meu marido recebe de ordenado 800 euros, faltando ainda os descontes, não tenho direito a nada. Estou a receber uma baixa de 470 euros, tenho 43 anos e quero trabalhar, não consigo.Mas o nosso governo diz que está tudo bem com a saúde e que não há listas de espera, mas se eu fosse uma vigarista qualquer, se calhar já estava com o assunto resolvido. Por isso, meus amigos, vos digo: PORTUGAL é dos vigaristas e não nosso, pessoas de bem estamos na república das bananas.

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