EDITORIAL

A tentação ditatorial

Quinta-feira, 10 Janeiro, 2008

A decisão, congeminada por PS e PSD, de eliminar os pequenos partidos é mais um corte nos direitos democráticos estabelecidos há 33 anos. Tanto basta para qualquer força de esquerda se lhe opor. Mas, para além disso, importa ver como a medida evidencia o esvaziamento da democracia representativa.

Provou-se, bem cedo, que o voto apenas confere ao povo – reduzido à condição periódica de eleitor – a capacidade de escolher os representantes das classes dominantes que hão-de espezinhar os direitos da maioria. A distância entre as promessas eleitorais e as políticas praticadas nestas três décadas aí está para o demonstrar.

Ao mesmo tempo, cá e lá fora, o poder pertence a um bloco cada vez mais limitado de forças políticas, a ponto de se considerar como exemplos de “estabilidade democrática” os regimes assentes em dois partidos, essencialmente iguais, que se sucedem. Percebe-se porquê: se o poder económico é detido por um número pequeno de forças capitalistas, o poder político é, também ele, sujeito a uma concentração equivalente. Adeus “pluralismo”, portanto.

Tudo isto é sinal do esgotamento do sistema político-social. A tentação ditatorial do regime ganha peso pela própria dinâmica do capital.

A alternativa não está, evidentemente, num fascismo renovado. Mas também não está na ilusão de um “aprofundamento” da democracia burguesa, tornado utópico pela evolução do mundo capitalista. Os apelos a uma maior participação nas instituições do regime nem invertem a decadência da democracia nem fazem nascer uma política que expresse os interesses das classes trabalhadoras. A falência da democracia capitalista aponta a necessidade de um passo em frente, na direcção de um poder realmente exercido pela maioria. Aí sim, teremos democracia.






Um Comentário a “A tentação ditatorial”

  1. Francisco d'Oliveira Raposo disse:

    Creio que é, exactamente, em torno do “passo em frente” que é necessária clarificação, balizagem, definição nem que seja grosseira do que é necessário. Caso contrário a tese do “aprofundamento” é tão válida como esta.
    E nesse espírito proponho como alternativa ao sistema o Socialismo.
    Para os menos atentos – ou os atentos de mais – poderá soar a “escândalo”, a “arcaísmo”, a falta de “reflexão”…
    Mas partindo do simples, creio que rebentar a fechadura da gaveta do Socialismo, a ideia radical da expropriação colectiva dos principais meios de produção, com o controlo dos produtores, é essencial para rasgar novamente os caminho para Mudar de Vida, acabando com um Mundo que cada vez mais é coutada predatória de uns quantos milionários, e dando passos para a satisfação plena das necessidades de milhões.
    Contrapor a cada medida e proposta capitalista, uma proposta socialista irá criar, no plano das ideias, uma base para uma resistência mais firme e eficaz à destruição social, cultural, política e ambiental que o capitalismo e o imperialismo nos impõem.

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