As sanções matam. O crime compensa

Urbano de Campos - Sexta-feira, 27 Março, 2020

Um representante do governo dos EUA, Brian Hook, afirmou em 20 de Março passado que a política norte-americana de “pressão máxima” sobre o Irão “é para continuar”. Rejeitava assim apelos que têm sido dirigidos aos EUA (pela China, pela Rússia e mesmo pelo Reino Unido) no sentido de levantar ou aliviar as sanções aplicadas ao Irão, em face especialmente da pandemia do covid-19. Em vez disso, uma nova carga de sanções foi anunciada na semana passada pelo governo de Trump.

Cinicamente, os governantes norte-americanos afirmam que as sanções não afectam a importação de bens humanitários e médicos, mas a realidade é precisamente o oposto. Dado que as sanções atingem as transacções financeiras internacionais e as remessas de produtos, qualquer troca comercial torna-se quase impossível, incluindo medicamentos e equipamento médico. Empresas fornecedoras de equipamento para combate ao coronavírus deixaram de fazer envios para o Irão porque os bancos recusam apoiar as transacções.

Em 17 de Março, a televisão estatal iraniana divulgou um estudo da Universidade de Tecnologia de Sharif em que, perante o pior cenário (os meios médicos não serem suficientes), se admite que o país possa atingir 4 milhões de infectados e 3,5 milhões de mortos.

A Human Rights Watch alertou, já no ano passado (antes, pois, do surto epidémico), para o facto de as sanções impostas por Trump “ameaçarem o direito à saúde do cidadão comum iraniano”. Nada disto, porém, demove os dirigentes norte-americanos que, pelo contrário, vêem na situação de presente calamidade sanitária uma ajuda à sua pressão para estrangular o Irão na mira de derrubar o regime, nem que seja à custa de uns milhões de mortos.

Nisto, Trump tem bons antecessores. Recorde-se: Em 1995, um relatório preliminar da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) estimava que tinham morrido 567 mil crianças iraquianas com menos de cinco anos em resultado das sanções aplicadas ao Iraque desde 1990. Numa entrevista dada em Dezembro de 1996 à CBS News, Madeleine Allbright, então embaixadora dos EUA na ONU (mais tarde secretária de Estado de Bill Clinton), confrontada com o facto, não teve rebuço em afirmar que os objectivos da política dos EUA valiam a imposição desse sacrifício aos iraquianos: era um “preço que valia a pena” [“we think the price is worth it”].

Eis, na íntegra, a pergunta da jornalista e a resposta. Lesley Stahl: “Ouvimos dizer que morreu meio milhão de crianças. São mais crianças do que os mortos de Hiroxima. Este preço vale a pena?”. Madeleine Allbright: “Acho que é uma escolha muito difícil, mas o preço — achamos que o preço vale a pena”.

Por outras palavras, o crime compensa. É nesta linha que se coloca Donald Trump e a sua administração. É igualmente nesta linha que se colocam os governos que, como o português, seguem a reboque da guerra económica conduzida pelos EUA (*). São cúmplices dos crimes.

E é ainda nesta linha que se coloca a maioria dos meios de informação. Rádios, televisões e jornais, que se divertem a chalacear com as parvoíces e os dislates de Trump, fariam muito melhor serviço se denunciassem a política genocida dos EUA contra todos os povos e países que não servem os seus interesses de domínio. Se tivesse essa coragem, a comunicação social cuidaria, em primeiro lugar, de medir os efeitos destruidores das sanções norte-americanas, e só depois disso teria autoridade moral para apontar o dedo a governos como o do Irão ou o da Venezuela pelos males dos seus povos.

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(*) Mais de 30 países estão sujeitos a sanções impostas pelos EUA. Entre eles, Cuba, Nicarágua, Venezuela, Zimbábue, Líbia, Mali, Síria, Iémen, Irão, China, Birmânia, Coreia do Norte, Bielorrússia e Rússia. Trata-se de uma guerra de agressão na forma de garrote económico, exclusivamente ditada pelos interesses imperialistas norte-americanos.






4 Comentários a “As sanções matam. O crime compensa”

  1. leonel clérigo disse:

    UM VELHO PROBLEMA A AGUARDAR SOLUÇÃO?

    “P’ra mentira ser segura
    e atingir profundidade,
    tem que trazer à mistura
    qualquer coisa de verdade.”

    António Aleixo
    poeta popular algarvio

    O nosso Primeiro Ministro António Costa ficou recente e francamente agastado com as “bocas” do Ministro holandês das Finanças ao pedir à Comissão Europeia para “investigar países como Espanha e Itália, por não terem uma almofada financeira que lhes permita enfrentar a crise provocada pelo Covid-19”.

    Se tentássemos “descascar” este incidente até ao “tutano”, julgo que iríamos encontrar muita coisa curiosa tal como a “solidariedade” ficcionada que é suposta haver no capitalista “mundo dos negócios” da União Europeia. E não é por acaso que a situação criada pelo Covid-19 – um pequenino “bicharoco” que nem o vemos à vista desarmada – nos está a dar “grandes lições” sobre a nossa vida e as nossas “escolhas sociais” e “económicas”.
    Mas há aqui um ponto – temos que o admitir – onde o Ministro Holandês não está completamente desafeiçoado ou, se preferirmos, e como disse o poeta Aleixo, tem “qualquer coisa de verdade”, apesar de alguma dose de cinismo que o acompanha: porque é que os “pobrezinhos” da Europa (do Sul) “não têm almofada financeira” e os “ricos” têm-na? Ou melhor: porque é que uns “europeus” são “ricos “e outros “pobres”? E mais: porque esta situação – que não é de hoje nem de ontem – nunca é colocada de frente nos “discursos” ao país ou nas páginas dos “jornais” pelos comentadores encartados? E ainda há mais: porque o país no seu todo não se interessa pela questão – pelo nosso DESENVOLVIMENTO – mais parecendo gostar de ser “maltrapilho” disfarçado?
    MISTÉÉÉÉRIO…

  2. Emília Montemor disse:

    No comentário acima há uma questão que tem a sua razão de ser: andamos felizes e contentes há décadas (tal pacóvios) por pertencermos social e economicamente à Desenvolvida Europa apesar de, geograficamente, ser inevitável essa nossa pertença a não ser que se cumpra a “profecia” de José Saramago da “jangada de pedra”.
    Mas se carregarmos o sobrolho e pusermos um certo “frio” no olhar, essa “felicidade” é de facto “fictícia” e baseia-se em pressupostos mais ou menos duvidosos. E foi preciso um Coronavirus qualquer nos vir “visitar” para a “realidade” nos entrar pela porta dentro. Na Europa (rica do Norte), já se disse – e com alguma dose de verdade – que há um conjunto de Países que são “peso morto”, que “não fazem pela vida”, só dão “despesa” e, custe-nos o que nos custar, somos tidos como uma espécie de “chulos”, “pedinchões” de “esmolas” e “auxílios” e, como dizia o impagável Dijsselbloem, especialistas em “investir” o “dinheiro europeu” em “copos e mulheres” em vez de desenvolvermos o País. Convenhamos: a nossa “realidade” e a nossa “história” recente e passada, dão bons argumentos para tal julgamento.

    Talvez não fosse grande disparate aproveitarmos os ensinamentos que nos está a trazer o Coronavirus para olharmos com redobrada atenção para nossa “casa” e sobretudo para a nossa enferrujada “Produção” feita de “empresas” de “vão de escada” que não dão nem para “mandar cantar um cego”, como agora se vê. Talvez o Capitalismo não esteja na nossa “vocação lusa” e, nesse sentido, há que começar a pensar em “mudar a agulha” aos carris…

  3. leonel clérigo disse:

    A Emília Montemor refere, no final do seu comentário, “mudar a agulha aos carris”. Se entendi bem o que quis dizer, acredito ser isso – mais cedo ou tarde – coisa inevitável. A actual DIT (Divisão Internacional do Trabalho) serve apenas para perpetuar o “estado de coisas” em que vivemos e onde “meia-dúzia” de países “DESENVOLVIDOS” – com suas classes poderosas – continuam a beneficiar dos “negócios” com o resto do mundo SUBDESENVOLVIMENTO: quando se vive “especializado” em produzir “mandioca” e se insiste em fazer a “troca vantajosa” por um “Tesla”, o menos que se pode dizer é que é “parvo” e está “lixado”.
    Suponho que ninguém nega que a “condição” dos países do Sul da Europa é bem diferente dos “industrializados” do Norte. Só resta saber é porque passam os anos e esta situação não se altera. Pelo contrário e, relativamente, aprofunda-se. Mas todo o mundo faz “orelhas moucas” face à questão. A nossa Assembleia da República foge a isso como “cão por vinha vindimada”: o seu “grande interesse” centra-se nas “mixuruquices” do “espírito do tempo”. Como sair disto? Eis a questão…

    Nesta altura, a dramática “questão italiana” – e não só – que estamos presenciando, fez-me recordar um curioso episódio que teve lugar logo no começo da História de Roma: a chamada SECESSÃO da PLEBE. No fundo, tratou-se de uma espécie de “greve geral” levada a consequências quase extremas.
    A Sociedade da velha Roma estava dividida entre PATRÍCIOS e PLEBEUS. Os primeiros detinham o poder e “dirigiam” os segundos que, como já era hábito na altura, “buliam” no duro e sem “direitos”.
    Os plebeus acabaram por se “pôr à tabela” e reivindicaram poderem dispor de “tribunos” – tribunos do povo – que os defendessem a quando das decisões que interessavam a vida de todos em Roma. Naturalmente que a classe dominante dos Patrícios não os atendeu. E que magicaram os Plebeus?
    Decidiram sair em massa da cidade de Roma e instalarem-se no Monte Sagrado, abandonando os Patrícios à sua sorte. Mostraram, deste modo, qual era afinal a decisiva importância dos Plebeus para a existência da cidade de Roma.
    O resultado desta “forma” de luta não deixa de ser curioso: como os Plebeus eram decisivos na PRODUÇÃO e no EXÉRCITO, os Patrícios “recuaram em força” e “cederam” nas “reivindicações” dos Plebeus que passaram a ver instituídos, na “organização de Roma”, o lugar dos “TRIBUNOS da Plebe”.
    No rescaldo da coisa, podemos hoje dizer que a imaginação deve ter em conta o “tempo que passa”…

  4. afonsomanuelgoncalves disse:

    Parece-me interessante a leitura do último parágrafo do texto para podermos com facilidade tirar conclusões. Não sei quem é o seu autor, mas a conversa é elucidativa no apelo à comunicaçáo social para ser verdadeira, e isenta presumo eu. Julga o autor que a comunicaçâo social pode ser neutra e depois fazer valer uma crítica justa, isto é, os EUA e a dita imprensa teriam autoridade moral para atacar o Irâo e a Venezuela, pelo mal dos seus povos, BONITO…

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